Ondas
"This is for the ones who stand
For the ones who try again
For the ones who need a hand
For the ones that think they can
It comes in waves..."
— Comes and goes, Greg Laswell
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Estou na linha da costa, não totalmente em terra, não completamente no mar. Quero avançar, alcançar o horizonte e o sol que se derrete na linha que separa o céu da terra, mas os pés estão imóveis, presos nos grãos de areia que um dia foram enormes massas de rocha e que hoje nada mais são do que pó.
As ondas avançam sobre mim, através de mim, indiferentes à minha presença, como se eu fosse invisível, uma partícula sem importância. A ondulação, inicialmente pequena, que quase nem consegue chegar à minha cintura, fica cada vez maior. E eu continuo no mesmo sítio, como testemunha distante, incapaz de sentir na pele os acontecimentos que se desenrolam diante dos seus olhos.
A água reúne-se, assoma-se à minha frente, numa altura que ultrapassa a minha em largas unidades de medida. O pânico invade-me ao absorver a imagem da massa de água escura que se levanta para me fazer frente. A pulsação acelera, a respiração fica entrecortada. Quero gritar por ajuda, mas não há ninguém por perto para me estender a mão e a minha garganta fecha-se sobre si própria, estrangulando o som da minha voz com um nó invisível. Todas as fibras do meu ser me instigam a fugir. Mas não posso. Não consigo. As circunstâncias obrigam-me a ficar e a enfrentar o perigo cada vez mais próximo.
A onda aproxima-se, maior, mais rápida, até que a água fria e salgada choca com o meu corpo. A sensação é semelhante à de colidir com uma parede de tijolo, com força suficiente para soltar os meus pés da sua prisão e me arrastar para longe. Mas sustenho a respiração e fecho os olhos, fazendo os possíveis e impossíveis para deixar a água passar por mim sem me demover.
O tormento parece não ter fim e a luz parece estar fora do alcance dos meus olhos. Mas, lentamente, a onda perde força, com a maioria do seu corpo a desfazer-se na praia para a qual voltei as costas há tanto tempo atrás. A água contorna o meu corpo, a minha cabeça volta a ficar à tona e tanto a claridade do dia como o ar puro com cheiro a maresia me enchem de alívio.
A seu tempo, acalmo a respiração e sinto o meu peito mais leve. O meu coração está livre do terror que o apertava. A minha mente está limpa e funcional de novo. O meu corpo já não treme.
Olho em volta, para baixo. A areia sob os meus pés está sulcada com os centímetros que recuei. Mas venci esta vaga que o oceano me atirou. E agora que a próxima se acerca, semelhante o suficiente à anterior, mas mesmo assim diferente, sei que sou capaz de resistir outra vez. Porque as ondas desta costa já não me são desconhecidas. Porque as sensações são sempre as mesmas e o meu objetivo é claro e imutável.
As ondas e vagas sucedem-se, em tamanhos e velocidades que variam em combinações aleatórias. Mas eu respiro fundo. Clareio a mente. Acalmo-me. Porque sei que, mesmo no meio do pânico, sou mais forte do que penso e que os obstáculos que se intrometem entre mim e o horizonte são apenas isso: obstáculos que eu tenho a certeza que conseguirei ultrapassar.
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Olá, caros caçadores! Este conto foi diferente daqueles que costumo escrever, não é?
Ontem era um dia de descanso, sem palavras, papel ou teclado, mas a praia e o documentário sobre a carreira política de Joe Biden que vi antes do almoço inspiraram-me.
Alguém quer partilhar que ideias é que este texto lhe passou? Que mensagem retirou daqui ou o que é que as minhas palavras levaram a imaginar?
Vemo-nos por aí,
llamswritter
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