Num dia de chuva
Escrita do conto motivada pela leitura da webtoon Hana ni Koe
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Os céus abriram as comportas de manhã e desde então que chovia lá fora. A água caia agora com menos intensidade do que há umas horas e, por isso, era possível ouvir palmas e pisadas de quando em quando.
Arrastei-me até ao monte de almofadas junto da janela e espreitei lá para baixo, para o pátio do prédio, desconfiado sobre a origem do som.
Era ele. De novo.
Sentei-me confortavelmente, apoiando o queixo na mão e o cotovelo no parapeito da janela, apreciando o espetáculo enquanto bebericava o meu chá quente.
Não sabia muito sobre ele. Sabia que era alto e que usava o cabelo escuro tão curto que quase nem existia. Os seus olhos pareciam azuis, mas se fossem cinzentos ou verdes não me espantaria, dado que nunca o vi de perto. A sua pele queimada parecia areia do deserto sob a luz do sol e seda delicada sob o toque pálido do luar. O seu corpo tinha proporções perfeitas e ele parecia gostar de dançar no meio da rua em noites escuras e dias chuvosos.
Não havia música a tocar lá fora, mas também nunca houve. Os seus movimentos eram sempre feitos ao som da natureza e do cosmos, naquele silêncio que transcende os ouvidos dos comuns mortais e que apenas alguns poucos eleitos conseguem ouvir.
O seu corpo elegante, simultaneamente delicado e forte, girava sem direção, livre. As mãos e os braços esboçavam coisas invisíveis no ar, afastando-se e retornando ao corpo, num ritmo irregular, mas harmonioso.
De repente houve um salto e uma palma, seguidos de um salpicar da água abaixo dos seus pés descalços. A camisola fina e as calças de pano compridas que trazia no corpo estavam encharcadas, definindo as suas formas e realçando a beleza que o tornava único.
Eu podia não perceber que história os seus movimentos contavam, mas entendia a gravidade que eles deveriam passar. Sentia a fragilidade daquela atmosfera distante tão intimamente como se estivesse à distância de um braço, mesmo diante dos meus olhos. Os seus movimentos rápidos geravam descargas de emoção e adrenalina, ditando o novo tempo que o meu coração deveria seguir e trazendo a urgência de o seguir atentamente com os olhos. Uma vez que me tivesse cativo da sua dança, ele alterava ritmo, fazendo movimentos lentos que traziam um arrepio e uma sensação mista de angústia e prazer, como se um amante nos sussurrasse ao ouvido promessas de doces carícias e juras de amor.
A água continuava a cair sobre a sua pele enquanto se mexia para cima e para baixo no pátio, fazendo-o reluzir mais que diamantes ou estrelas numa noite no deserto. A chuva, que certamente demoveria outros, parecia alimentar a sua vontade de se expressar e complementar a sua dança na perfeição. Homem e água pareciam uma parte de um todo, como se as gotas que os seus gestos bruscos sacudiam para longe fossem uma parte de si próprio, que ele cedia de livre vontade.
Nunca me consegui mexer assim, nem nunca o conseguirei. Contudo, vê-lo a balançar como folhas acariciadas pela brisa de verão, com movimentos tão belos e espontâneos, acendia em mim uma vontade de fazer o mesmo. De sair do meu casulo, de me juntar a ele no meio da rua e de extravasar para o mundo as minhas emoções. De soltar as minhas frustrações ao vento e de deixar que os outros me lessem como um livro aberto.
Seria isto inveja?
À distância a que estávamos, eu mal lhe via a cara. Contudo, sabia que ele tinha os olhos fechados e que a sua visão estava voltada para um mundo que eu não conseguia alcançar. Sabia que apesar de todas as fibras do seu ser estarem a ser levadas ao limite e da sua concentração estar tão focada em si próprio que o mundo exterior para ele não existia, ele estava em paz. A sua expressão serena, visível apenas quando ele dançava voltado para a minha janela, denunciava uma calma felicidade. Dançar dava-lhe prazer e, se olhasse para ele com atenção suficiente, conseguia sentir na pele aquele calor que ele parecia levar no peito.
Ele saltava e rodava, batia as palmas e varria a água com os pés. Os braços eram atirados para trás e as suas costas arqueavam antes dele se dobrar sobre si próprio.
Não sei quando começou este meu fascínio. Se me perguntassem, diria que tinha nascido comigo e que estivera dormente até os meus olhos pousarem sobre a sua figura pela primeira vez. Desde o primeiro momento que a aura ao seu redor me atraía e sugava, quer ele estive, ou não, a dançar. Havia uma força que me compelia a registar todos os seus gestos e movimentos e gravá-los a fogo na minha mente. Era uma necessidade pulsante, quase viva, que nunca estava completamente satisfeita.
Os seus passos leves ficaram cada vez mais lentos. Um dos seus pés assentou firmemente no chão, enquanto o outro acariciou o espelho de água sobre as pedras do pátio com as pontas dos dedos, desenhando figuras por onde passava. O seu braços caíram lentamente e a sua cabeça inclinou-se para trás, recebendo a água da chuva como se fosse uma bênção divina. E, por fim, o seu corpo imobilizou-se completamente.
O bailarino permaneceu congelado na mesma posição por longos segundos, concentrado em recuperar o seu fôlego e a disfrutar das sensações que o inundavam. Assim como eu. A sua performance poderia já ter acabado, mas eu não me atrevia a desviar o olhar por um só segundo. Se o perdesse de vista, o feitiço acabava, e tudo aquilo que vi e experienciei não passaria de uma memória que desvaneceria com o tempo.
Lentamente, com uma preguiça felina, ele mexeu o corpo até se endireitar. Como não tinha pertences que recolher, começou a andar em direção à arcada do prédio mais próxima, como se de repente se tivesse lembrado que talvez não fosse a melhor das ideias ficar tanto tempo à chuva, descalço, quente e suado. Porém, antes de chegar ao abrigo na outra ponta do minúsculo pátio, ele parou. Estivera de costas para mim aquele tempo todo mas, naquele instante, ele voltou-se na direção da minha janela. Talvez tivesse finalmente sentido o peso do meu olhar.
Os seus olhos claros subiram a parede exterior do meu lado do prédio até pararem em mim. Se estivéssemos mais próximos, sei o que ele veria nas minhas íris escuras naquele momento. Ele veria todo o meu fascínio, toda a minha maravilha, toda a minha adoração... e todo o meu desejo de partilhar mais do que uma simples e inocente troca de olhares.
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