Liberdade
— Mycah! Vem cá, rapaz!
O capataz, Little Ed, gritou para o prado depois de um assobio. E Mycah apareceu em menos de nada, como um cão obediente.
Com um olhar atento, o homem de bigode e chapéu de cowboy percebeu que Mycah não estava apresentável. Já na soleira da porta principal da mansão, ele chamou a governanta para o lavar e esfregar.
— Não queremos que o vejam neste estado — cuspiu com falsa amabilidade antes de sair.
As escovas doíam na pele, mas o cheiro a lavado era um bálsamo suficientemente poderoso para tirar o odor a suor, a terra e a ranço. Tão depressa quanto foi possível, o mordomo da mansão conduziu um Mycah perfumado até à porta do salão.
— Ah, Mycah! Entra, rapaz — disse o Patrão, sem se levantar da cadeira onde estava sentado — Veja só este exemplar. É único, único! — gabava o homem para o seu convidado — Não é uma maravilha? Mycah, dá lá uma voltinha para o Sr. Howard te ver melhor.
Ele assim fez, sem entender a situação.
— Aqui o Sr. Howard pagou uma fortuna por ti — disse o homem entre golfadas no charuto — Agora sê um bom menino e espera lá fora ao pé da carroça enquanto acabamos de tratar de negócios.
Mycah saiu como lhe mandaram, ainda um pouco perdido. Quando o estrangeiro janota saiu da sua antiga casa e o mandou subir para a parte de trás da carroça, ele nem hesitou — estava demasiado bem treinado.
Mal saíram da propriedade administrada por Little Ed, o Sr. Howard virou-se para trás.
— Mycah? — o par de olhos pardacentos do atrelado viraram-se na sua direção, respondendo ao chamamento. O homem ficou satisfeito — Ainda bem que não fui enganado. Tens alguém muito ansioso para te ver.
Mycah continuou sem perceber a situação pelo resto da viagem.
Poucas horas depois, a carroça parou no exterior de uma estalagem de uma cidade pequena demais para aparecer em qualquer mapa. Com uma ordem do estrangeiro vestido com requinte, Mycah levantou-se do local onde estava encolhido e seguiu-o até ao andar de cima do edifício.
Depois de um par de portas, Sr. Howard bateu na número 5 e abriu-a.
— Entra — comandou o homem.
Mycah entrou e a porta fechou-se atrás dele em silêncio.
— Mycah?
Os seus olhos percorreram a divisão obscura. Era um quarto rudimentar e mal limpo, com uma enorme cama a ocupar a maioria do espaço. Com alguma dificuldade, Mycah distinguiu os contornos de uma jovem de vestido, em pé ao lado de uma secretária.
Os seus olhos arregalaram-se de espanto e a sua visão ficou turva pelas lágrimas.
— Lalea?
Correram para os braços um do outro e perderam-se num enlace apertado, que tentava compensar pelos anos perdidos. O jovem não pode deixar de reparar na qualidade do tecido que as suas mão percorriam e no cheiro a flores que o cabelo lavado da jovem nos seus braços emanava.
Afastaram-se sem vontade.
— Eu ... — Mycah tinha dificuldade em encontrar as palavras — Eu não percebo...
— Senta-te, por favor — pediu ela com um sorriso de dentes lavados, apontando para a cama.
Ele assim fez. Ela puxou a cadeira da secretária para os pés da cama para poder ficar de frente para o amigo e sentou-se como uma dama, como lhe tinham ensinado.
— Sr. Howard comprou-te a meu pedido, Mycah. Mas não te preocupes; mal cheguemos a casa, ele trata dos teus papéis.
O jovem continuava confuso.
— Ele vai dar-te a tua liberdade, Mycah. Como me deu a mim — as mãos dele taparam a boca para abafar qualquer som que pudesse escapar involuntariamente — Eu teria ido comprar a tua liberdade em pessoa mas... não tenho a cor certa — acrescentou com uma risada amarga.
— Liberdade?
Lalea apanhou as mãos dele nas suas.
— Sim, Mycah. Tal como sempre sonhámos.
Os segundos seguintes foram pesados. Parecia tudo saído de um sonho. O jovem negro tinha medo de acordar de repente e se encontrar de novo a dormir até tarde no casebre, atrasado para o trabalho e à beira de ser espancado.
— Como...? Porquê...?
— Lembras-te do Patrão me vender, há uns anos? Fui parar a um sítio onde me consideraram clara o suficiente para trabalhar dentro de casa, nas limpezas. Ele não te deve ter dito, mas o Sr. Howard é uma espécie de... caçador de recompensas — Mycah franziu o cenho — Ele procura por homens, mulheres ou crianças livres que, por causa da sua cor de pele, foram arrancados das suas vidas e feitos escravos. Ele apareceu lá poucos anos depois de eu chegar, para levar um rapaz de 10 anos que tinha sido capturado e vendido por esclavagistas falidos, afim de o devolver à família. Acontece que eu cuidava do rapaz. Ele gostava muito de mim e implorou para que o Sr. Howard nos levasse aos dois. Ele pagou para me tirar de lá e ambos devolvemos o rapaz à família — ela suspirou— Tenho trabalhado desde então para o Sr. Howard, como uma mulher livre, para pagar o que lhe devo pela minha liberdade. Teria implorado para te ir buscar mais cedo, mas tinha de saldar a minha dívida e cobrir parte da tua antes de isso poder acontecer.
Ela afastou a cadeira e ajoelhou-se aos pés de Mycah.
— Desculpa-me por não te ter ido buscar mais cedo.
Ele ajoelhou-se ao lado dela e segurou-lhe o rosto nas mãos, relembrando as noites em que confortara com um abraço aquele corpo esguio e os dias em que a luz do sol realçara naqueles olhos de carvão a réstia de um sonho de uma vida diferente, que esmorecia com o tempo.
— Continuo sem perceber porque é que arriscaste a tua vida e a tua liberdade por mim.
— Não sejas tonto — ela retirou as mãos dele e sorriu de forma singela — Sabes muito bem porquê. Tu brincavas comigo quando não podíamos nem falar. Tu nunca contaste a ninguém que me tinhas apanhado a experimentar às escondidas um dos vestidos brancos de ir à igreja da menina Mary. Tu trocavas os nossos cestos de algodão sempre que eu não tinha apanhado o suficiente para atingir as cotas e por isso levas na pele as marcas de chicote que deviam ser minhas — os olhos dela marejaram — Eu devo-te tudo o que tenho e tudo o que sou, Mycah. Por ti, eu voltaria sempre.
O jovem puxou-a para um novo abraço e, pelo que pareceu uma eternidade, não a largou.
Lalea e Mycah tinham crescido juntos na mesma plantação de algodão, escravos de um mesmo homem. As suas memórias mais antigas eram dos dias a brincar dentro do casebre onde a maioria dos escravos vivia, quando ainda eram demasiado novos para trabalhar. Pode dizer-se que a sua amizade nasceu aí.
Eram como irmãos e a sua separação foi das coisas mais duras que tiveram de suportar. Lalea nunca tinha esquecido o rapaz que lhe dava todos os dias novas forças para continuar a viver — porque tinham sido inúmeras as ocasiões em que ela tinha cogitado o suicídio — e que a protegia, independentemente das consequências. E Mycah, apesar de se ter proibido de pensar nela durante os anos em que estiveram separados, para evitar sofrer, no seu íntimo, também nunca a esqueceu.
Duas semanas depois, Mycah era um homem livre. Aprendeu com o Sr. Howard a ler e a escrever — porque nunca o tinham educado — e arranjou um trabalho na sociedade americana como joalheiro. Grande parte dos seus lucros eram para pagar a dívida que tinha para com o bondoso homem branco, já que proibiu Lalea de pagar ao homem pela sua libertação.
Quando o canadiano morreu, já depois da abolição da escravatura nos Estados Unidos da América, a família de Mycah e a família de Lea — que tinham e que mantiveram ao longo das gerações posteriores uma amizade tão forte e incondicional como aquela que os unia — foram as únicas a estar presentes no seu funeral. Todos, excepto as crianças, sabiam o que aquele homem tinha feito pelos dois.
E jamais se esqueceriam, enquanto a sua pele mantivesse um belo tom achocolatado e por ela fossem definidos aos olhos da sociedade.
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