Cicatriz

Para a minha estrela. Espero não te desiludir

Eu tenho uma cicatriz no peito. 

De tão discreta, ninguém a vê, nem mesmo com as lentes mais grossas ou a ampliação mais potente. Nem mesmo eu a vejo.

Mas só porque ninguém a vê, não quer dizer que ela não está lá.

Ela é delgada como um corte de papel, irregular como a tentativa instável de uma linha reta, mas com raízes tão profundas que ultrapassam a minha carne e se fixam na essência do meu ser. Na maior parte do tempo está dormente, como um urso que hiberna à espera da primavera ou o caracol que suspende a sua vida no verão. Contudo, vez ou outra supera a sua latência, dilacerando-me, fazendo de mim cacos do que fui. Os meus olhos ardem, saturados de lágrimas que, amontoadas, anseiam a sua liberdade. A garganta fecha-se, arranhada por palavras não ditas e gritos consumidos. A surpresa faz de mim refém, arrastando-me para o estranho embaraço, banhado a confusão, com a percepção de que a cicatriz ainda está viva e que exerce poder sobre mim em pulsos esparsos, mas poderosos.

Eu sinto-a, mesmo quando gostaria de não sentir. Porque ela é a prova do que me roubaram.

De um futuro agora impossível, recheado de inimagináveis "e se..." que nada mais fazem que mexer com o meu psicológico, fazendo-me sentir frágil e incompleta. Prova das memórias que cada vez mais se escurecem e esbatem, desorganizadas como pedaços cortados de fotografias caídos no chão depois de atirados descuidadamente ao ar, negando-te a merecida eternidade. Prova de um vazio na minha alma estilhaçada, colada com outras alegrias da vida apenas para não se tornar pó. Prova de uma saudade silenciosa, que se acumula e adensa, vazando quando as poucas recordações ganham corpo, espontaneamente ou à sugestão de outrem, ou mesmo quando a data permite o alinhamento correto dos astros.

É possível sentir falta de algo que nunca se chegou a ter? É possível ansiar por voltar a um tempo do qual não temos memória? Porque é assim que eu me sinto.

Viajaste por esse globo fora porque tinhas de o fazer, afogando-me no teu amor quando me tinhas nos teus braços. Pertencias ao mundo, muito para lá do meu. E ainda que só quisesses voltar a casa, num dia como qualquer outro, saíste para nunca mais voltar. Para trás ficaram as histórias de outros, as fotografias escondidas, os objetos agora órfãos e as palavras em cartas e emails esquecidos. Para trás ficaram aqueles que te enterraram no coração e aqueles que, como eu, se sentem menos afortunados por não terem com que te enterrar.

Pergunto-me se te sentias só na multidão, quando longe dos teus. Pergunto-me se hesitaste em escrever-me, guardando para ti rascunhos que achaste indignos e que o tempo tratou de apagar. Pergunto-me o que te passou pela cabeça de todas as tuas últimas vezes. Pergunto-me se, no fim, te arrependeste de algo. Se pensaste em mim. Em nós.

Somos apenas instantes e esta ferida, por muito invisível que seja, relembra-me disso todos os dias. Não há tempo que a apague ou remedie. Ela faz tanto parte de mim como tu fizeste em tempos.

Por ela, vivo em fúria. Vivo em tristeza. Vivo com um vazio. Vivo com uma amálgama indefinida de sentimentos espalhados por todo o corpo, denunciados pelo formigueiro sob a pele. Vivo de lágrimas que não caíram na altura certa, arrastando o sofrimento que advém de lutar para as reter em público, especialmente quando instigadas pela preocupação e caridade alheia.

Eu tenho uma cicatriz no peito. 

E acho que nunca irá sarar.

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