Amor de Verão

Enquanto eu escrever

Capa feita pela Queen_Voraz .Obrigada, a sério!

música: It was always you- maroon 5

Nota: Qualquer palavra estrangeira estará em espanhol, com a respectiva tradução.

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Vamos todos os anos passar férias à mesma praia, desde que os meus pais descobriram os encantos da Nazaré. É uma praia enorme e magnifica, que eu passei a adorar também, desde muito cedo.

Só aqui é que os meus dias de Verão adquirem uma rotina muito própria. Entro e saio de casa quando quero, vou onde me apetece e estou com quem quiser, desde que esteja em casa às refeições ou para dormir, a não ser que avise que não vou. São esses os raros momentos que estou com os meus pais, uma vez que aproveito bem a liberdade do verão. Passo a maior parte do dia com os meus amigos que fui fazendo por aqui, ao longo dos anos em que aluguei esta casinha. Uns são de cá, outros só cá estão nas férias, como eu.

Cheguei anteontem. O primeiro dia foi para arrumar coisas e descansar da longa viagem. No segundo, fui procurar os amigos que não tinha maneira de contactar. Encontrei a maioria. E hoje, estou à espera que a Natália e os outros passem pela minha porta para irmos para a praia.

Ouço movimento na rua e vou à janela do piso térreo. Desiludo-me ao ver que não eram os meus amigos, mas logo me alegro. Afinal, ele tinha vindo este ano também. O barulho era o meu vizinho Santiago - que eu tantas vezes ouvira chamar o seu nome na casa da frente -que entrava agora na casa da avó. A cusquice das vizinhas da rua tinha-me valido a maioria das informações que tinha sobre o nazareno que sempre captara a minha atenção e o meu interesse. Foi através das suas conversas que descobri que ele vive na zona mais moderna e afastada da praia, aqui na Nazaré, mas que todos os anos desce até esta rua, a cerca de 300 metros da praia, para casa da sua avó, afim passar mais tempo com ela e ficar mais perto da areia e da água do mar.

Desde o primeiro ano que aluguei esta casa que o vejo. A princípio sentia curiosidade. Depois de o estudar, passei a admirá-lo. Cheguei mesmo a uma amizade imaginária, uma vez que nunca trocámos uma única palavra. Nem sei se ele alguma vez chegou a reparar em mim. Nunca tive coragem de me aproximar dele e tentar travar uma amizade. Mas também nunca achei necessário. Tinha amigos aqui e todos os anos faço amizades novas. No entanto, agora tenho idade suficiente para dizer que me apaixonei, depois daqueles anos todos. Isto porque uma rapariga que ainda não era mulher e ainda não tinha vivido nada, não tinha maturidade para chegar a esta conclusão. Mas a cada ano que passa, tenho a certeza de que me apaixono mais.

Subo ao primeiro piso depois de ele entrar na casa da frente. Vou ao meu quarto e abro a janela da minúscula varanda, onde ponho uma cadeira para apanhar sol. Ligo o telemóvel à aparelhagem relativamente moderna e coloco música. Vou buscar o meu caderno e o meu estojo e sento-me na cadeira, com os pés sobre as grades da varanda.

Estava a desenhar ao som da música quando ouço alguém a bater à porta e a gritar-me. Levanto-me e inclino-me na varanda. Era a Natália. Guardo o caderno e o estojo em cima de um móvel do quarto e vou abrir-lhe a porta.

- Então?

- Houve um pequeno problema- ela tira os chinelos antes de entrar e deixa-os do lado de fora.

-E os outros? - fecho a porta.

- Devem ter ido à praia - ela encolhe os ombros, indiferente - Estou cheia de fome! Tens comida para mim?

- Serve-te.

Ela vai em direção ao frigorífico.

- Estavas a desenhar?

-Sim - respondo das escadas.

Subo ao andar de cima e desligo a música que ainda estava ligada. Pelo volume, devia estar a dar música à rua toda. Quando volto para baixo, ela queixa-se de não haver queijo, o que era estranho porque eu tinha quase a certeza de que o tínhamos trazido.

- Come uma sandes de outra coisa - sugeri.

- Sabes que eu só gosto de queijo.

- E que tal cereais, ou só pão?

Ela torce o nariz.

- Só pão não é sandes. E comi cereais ao pequeno almoço.

Ela fez uma birra tão grande com o queijo, que me obrigou a ir pedir aos vizinhos, porque os meus pais estavam na praia e não me apetecia sair só para lhe comprar o queijo.

A casa mais próxima era a da avó do Santiago, literalmente a 7 passos de distância. Meu Deus! Nuca me tinha apercebido do quão estreita era esta rua até a Natália quase me enfiar na janela aberta da casa da frente ao me dar um empurrão de incentivo.

Toquei à campainha, insegura. Era a primeira vez que o fazia. Voltei-me para trás, mas a Natália tinha desaparecido.

- Sim?

Foi ele que abriu a porta. Corei só de olhar para ele, com os calções de banho e uma camisola de alças que realçava o seu bronze.

- Olá. Eu...

Não cheguei a acabar a frase, porque a Natália gritou-me da minha casa através da janela e da porta aberta.

- Esquece, Érica! Encontrei o queijo!

A minha vontade, neste momento, era matá-la. Virei-me de novo para ele.

- Desculpa. Vinha aqui pedir-te um pouco de queijo, mas a minha amiga já o encontrou.

- Porque não o convidas para lanchar? - a rapariga de cabelo pintado apareceu à porta com o seu sorriso travesso.

Olhei-o. Ele sorriu-me e encostou a porta que ainda segurava com a mão, fechando-a na minha cara. Eu só queria encontrar um buraco onde me pudesse esconder. Isto tinha sido horrível.

Antes de chegar a casa com a intenção de afogar a nazarena com o sumo de laranja que ela tinha acabado de fazer, a porta abriu-se outra vez. O Santiago saiu, com a chave de casa ao pescoço. A Natália sorriu-me, triunfante, enquanto eu o deixava entrar em minha casa, atónita. Não acreditava que isto estava a acontecer.

A Natália acabou de preparar o lanche, enquanto nós nos sentávamos no sofá.

-Tu deves ser o Santiago, certo? - ela traz-nos as nossas sandes e volta atrás para ir buscar os sumos - Eu sou a Natália, e essa é a Érica - acrescenta da cozinha, que era separada da sala apenas por um balcão.

Ela dá-nos os nossos sumos e senta-se de pernas cruzadas no tapete para lanchar.

- Sou sim - ele sorri e olha para mim - A dona Alzira aluga-vos a casa todos os anos, não é?

Acho que fiz um daqueles sorrisos parvos, ao perceber que ele afinal reparava minimamente em mim.

-Sim. A dona Alzira é muito simpática.

- Ela nunca põe a casa para alugar no verão, porque já sabe que vocês vêm.

Fiquei sem resposta, mas a rapariga com o cabelo loiro pintado salvou-me. Começou a fazer-lhe perguntas e a partir daí a conversa fluiu naturalmente. Fomo-nos conhecendo um pouco. Depois do lanche, decidimos ir aproveitar o sol. O Santiago foi a casa da avó buscar uma toalha, e eu emprestei uma das minhas à Natália.

Chegámos à praia e estendemos a toalha perto de uns amigos. Fizemos as apresentações necessárias e juntámo-nos ao grupo que jogava com uma bola de vólei, fazendo passes num circulo. Fiquei com calor e decidi ir à água. Umas amigas minhas também vinham, mas a Natália puxou-as quando o Santiago me seguiu. Demos um mergulho e voltámos para a toalha, onde ficámos a conversar e a jogar às cartas com os outros até se fazer tarde.

Já no passeio à beira da praia, antes de nos despedirmos todos uns dos outros e voltarmos para casa, alguém me perguntou sobre o meu aniversário, dali a quatro semanas. Respondi que depois os avisava, e voltei para casa com o Santiago. Pelo caminho, lembrei-me de o convidar. Não tinha a certeza do que ia fazer, mas achei uma boa ideia. Ele aceitou e deu-me o seu número de telemóvel, para depois lhe mandar os detalhes da festa, quando me decidisse.

Ele deixou-me à porta de casa e continuou a andar, porque ia jantar a casa dos pais. Eu entrei em casa com o mais tolo dos sorrisos, sentindo-me nas nuvens. Num só dia tinha falado com ele, tinha passado o dia na sua companhia e tinha conseguido o seu número de telemóvel. Este verão prometia.

***

Quatro semanas depois era o meu 17º aniversário. Eram oito da noite e tinha acabado de chegar a casa depois de passar o dia com os meus pais e de jantar com eles num restaurante. Estava a acabar de me vestir, quando o meu pai abriu a porta a alguém. Com um grito, disse-me que era o Santiago.

- Ele pode subir!

Estava a tirar as sandálias do armário quando ele entrou.

- Estás linda.

Sorri-lhe e admirei-o. Ele trazia umas calças brancas e uma camisa escura.

- Também não estás nada mal - gargalhei, sentando-me na cama para me calçar.

- Parabéns - ele estendeu-me um pequeno embrulho.

- Obrigada.

Enquanto eu o abria, ainda a meio do processo de me calçar, os seus olhos vaguearam pelo quarto. Eram duas pulseiras de tiras de couro entrançadas com argolas douradas -uma castanha e outra laranja. Coloquei-as no braço, uma vez que combinavam bem com o meu vestido laranja, que eu comprara de presente para mim própria à uns dias.

-Obrigada. São lindas.

- Este desenho é teu? - ele apontou para uma moldura nova, que não estava lá o ano passado.

- É - fiquei espantada. Era um dos meus muitos rabiscos a carvão- Devo tê-lo perdido aqui da última vez e a dona Alzira emoldurou-o.

- Isso significa que o quadro de guaches que está na sala também é teu?- ele encarou-me.

-Sim. Esse ofereci à dona Alzira à cinco ou seis anos. Não achei que tivesse ficado grande coisa, mas ela gostou tanto dele que lho dei de bom grado - fiz uma pausa ao reviver essas memórias - Como é que sabias que eram meus?

Ele pareceu ficar um pouco atrapalhado.

- É que já te vejo sentada na varanda a rabiscar à alguns anos e... calculei que desenhasses...

Nesse momento, o meu portátil começou a dar sinal de que estava a receber uma chamada por skype. Corri para atender, uma vez que já esperava esta chamada à algumas horas. O Santiago saiu do quarto para me dar alguma privacidade para a atender. Era o meu irmão mais velho, Miguel, que depois de se formar em Marketing e publicidade decidiu voltar para o país de origem da nossa família, o Chile. Ele tinha lá ido para fazer voluntariado e acabou por ficar, sendo agora dono de um projeto humanitário.

Eu tinha imensas saudades, mas já me tinha decidido a ir trabalhar com ele depois de me formar em Design, se ele ainda lá estivesse quando eu saísse da universidade. Por enquanto, falava com ele por skype e aproveitava o tempo com ele quando vinha passar uns dias a Portugal.

Depois da longa conversa acabar, desliguei o computador e a banda larga móvel. Peguei na minha mala e corri lá para baixo. Antes de sair de casa com o Santiago, que tinha ficado sozinho com os meus pais, a minha mãe chamou-me.

- Cariño, comportate y no hagas tonterías! (Querida, porta-te bem e não faças disparates).

- Sim, mãe.

- Diverte-te - disse-me ela, dando me um beijo.

Despedimo-nos dos meus pais e saímos. Tinha decidido fazer a minha festa num bar de praia, com música ao vivo. Quando lá chegámos, já estava praticamente toda a gente.

A música estava alta e havia gente a dançar por todos os lados e a desfrutar. Larguei a minha mala ao pé das das minhas amigas e juntei-me a elas, que dançavam alegres. Dançámos até nos doerem os pés e a banda que tocava fazer um intervalo. Sentámo-nos de volta na mesa, onde estavam alguns rapazes. A Matilde, a única maior de idade, levantou-se e regressou com bebidas. Como era o meu aniversário, provei a minha primeira mimosa. Era boa, mas não bebi mais que alguns golos. A Soraia, a rapariga com quem partilhava a bebida, bebeu quase tudo de uma vez, não sobrando muito para mim. Mas eu não me importei.

A banda voltou ao palco, e nós à pista. Avistei o Santiago e fui dançar para mais perto dele. Dançávamos um com o outro quando nos puxaram lá para fora. A Natália tinha arranjado um bolo, e cantaram-me os parabéns quando se encontravam todos ali. Apaguei as velas e dividiu-se o bolo. Antes de eu ter tempo de o provar, o Santiago arrastou-me para a areia, numa zona mais calma do bar. Olhei-o quando finalmente parámos. Estávamos bastante próximos e foi sem dificuldade alguma que ele se inclinou para mim e me beijou.

Fui apanhada de surpresa, mas retribui. A excitação e o desejo percorriam-me a pele enquanto trocávamos um beijo apaixonado. Os seus braços envolveram-me a cintura e as minhas mãos subiram para o seu pescoço, sendo que uma delas se enterrou no seu cabelo castanho escuro com madeixas loiras. O meu coração batia a mil enquanto eu me deixava levar pelo momento e pelo instinto. Não conseguia pensar em nada. Só conseguia sentir os seus beijos cheios de paixão adolescente e as suas mãos que desenhavam as minhas costas por cima do vestido.

Acho que vieram saber de nós, mas desistiram quando nos encontraram. Separámo-nos completamente sem folgo, a tremer do misto de emoções.

- Queres ir comer um gelado? - perguntou-me, com a sua testa colada na minha já suada depois de uma noite de dança.

- Claro.

Acabámos a noite de mãos dadas, a comer um gelado da melhor gelataria de toda a Nazaré.

***

Nunca antes me pareceu que o Verão passasse tão rápido. Passei todos os meus dias na praia com os amigos e o meu novo namorado, ou então em festas ou passeios. Foi um verão cheio de atividades diferentes: muita energia, muito sol, água, amor, alegria e amizades. Todos os minutos me pareceram poucos, e todos os momentos fugazes. Mas posso garantir com toda a certeza que foi o melhor verão de sempre, e que não desperdicei um único segundo. Mas tudo o que é bom acaba depressa, e o mesmo se passa com a estação mais quente do ano.

Certo dia, voltava eu do mercado com o peixe para o jantar, quando encontrei a minha mãe à janela e o Santiago na rua, com um ar taciturno*. Aproximei-me deles e beijei-o.

- O que é que se passa?- perguntei.

- Nada - a minha mãe sorriu, apesar de não ter cara de quem tinha vontade de o fazer - Estava a convidar o Santiago e a família para jantarem.

- Que bom!

Entrei em casa, pousei o peixe na cozinha e saí de novo para a rua, pois tinha combinado ir com o Santiago ao Sitio e à praia do Norte.* Voltaríamos a casa apenas algumas horas antes do jantar.

Nessa noite, apesar de comermos todos numa mesa pequena, não faltaram sorrisos e alegria. Já desde o início do verão que os nossos pais sabiam que namorávamos, e aprovavam completamente. Os Taveira gostavam de mim, e os meus pais gostavam do Santiago, pelo que não havia razões nenhumas para as nossas famílias não se darem bem.

Nessa noite adormeci feliz a olhar as estrelas pela janela fechada da varanda, com vontade de prolongar o verão por muito tempo.

***

Os meus pais quiseram adiantar a nossa partida da Nazaré por alguma razão misteriosa. Ainda faltavam quase três semanas para o primeiro dia de aulas, mas nós já tínhamos tudo arrumado para voltar a casa.

Saí cedo de casa, logo pela manhã, mas em vez de ir à praia, como era habitual, fui despedir-me dos meus amigos. Disse-lhes a todos adeus com alguma tristeza, mas sempre com a promessa de que voltaria no ano seguinte, como fazia sempre. Era isso que tornava a nossa despedida melhor.

- Até para o ano, paleca* - disse a Natália com a sua pronuncia, abraçando-me com força.

- Sabes que já não sou paleca - separamo-nos com um sorriso na cara - Até ao próximo verão, Natália.

E afastei-me, acenando à Natália e à mãe dela que estava ao seu lado, ambas sentadas atrás de uma banca com peixe a secar ao sol. Não me faltava despedir de mais ninguém. Voltei para casa logo depois de me despedir da Natália porque os meus pais ainda queriam almoçar antes de iniciarmos a longa viagem.

A refeição foi simples: uns bifes de frango com umas batas fritas de um pacote que já tinha sido aberto. Comemos depressa, e começámos a carregar as coisas para o carro depois de limpamos a casa. Os meus pais estavam a carregar as últimas malas, quando o Santiago apareceu, vindo da casa dos pais, onde tinha passado a noite. Ele trocou com eles um sorriso triste, antes de eu correr ao andar de cima. Quando voltei, tinha duas folhas nas mãos.

- Este é o da tua avó - entreguei-lhe um dos desenhos. A avó dele tinha-me pedido que lhe fizesse um desenho para ela pôr em casa, tal como a dona Alzira tinha. Eu tinha aceite de boa vontade o pedido da mulher que gostava tanto de me ver com o seu neto, e que inclusive me começava a considerar como sendo da família.

- Obrigado. Ela vai adorar.

- E este... é para ti. Uma prenda de aniversário adiantada - entreguei-lhe o meu outro desenho a carvão. Eu e ele tínhamos a mesma idade, com apenas quase quatro meses de diferença. Como não poderia estar com ele no seu aniversário, estava a dar-lho agora.

Ele ficou a olhar o desenho durante alguns segundos, quase um minuto inteiro. Depois voltou a olhar para mim. E, de repente, deixou os meus desenhos cair no chão e abraçou-me com força, beijando-me em seguida. Parecia que ele tinha medo que eu desaparecesse. Parecia que o espaço entre os nossos corpos colados era imenso, e que a nossa proximidade não era suficiente. Parecia que ele precisava de transmitir toda a sua paixão através daquele único beijo, cuja duração de vários segundos nos pareceu ínfima. O seu beijo, mais do que nunca, transmitia desejo, paixão e urgência. Parecia que o mundo estava prestes a acabar, e que estes eram os nosso últimos momentos de vida.

Só nos separámos quando os meus pais me chamaram depois de entregarem as chaves da casa à dona Alzira, dizendo que estava na hora de partirmos.

- Promete-me que não te vais esquecer de mim - pediu-me, com os olhos avelã fitos nos meus.

- Prometo - sorri-lhe, memorizando as suas feições.

- Vou ter tantas saudades tuas - ele volta a abraçar-me.

- Eu também vou - sussurrei-lhe ao ouvido - Promete-me também que não te vais esquecer de mim durante o tempo que estivermos afastados, e que tão cedo não me vais trocar por outra qualquer.

- Nunca - disse-me quando nos separámos.

Ele levou-me ao carro e beijou-me antes de eu me sentar no banco de trás.

- Boa sorte com a tua história da rapariga relâmpago. Espero que ela tenha um final feliz - o Santiago queria ser jornalista e tinha por mania escrever pequenas histórias, assim como eu tinha por mania desenhar. Ele contara-me isto à pouco tempo e confessou-me também que a história da rapariga relâmpago seria o seu novo projeto de um livro, muito maior que todos os outros.

- Obrigado. Eu também espero, mas ainda é cedo para dizer.

Entreolhámo-nos.

- Até ao próximo verão. Guarda no teu coração um lugar para mim, até eu voltar - ele fechou-me a porta devagar, sem me responder.

O meu pai arrancou, e eu fiquei a ver o Santiago parado no passeio, imóvel e com uma lágrima solitária a escorrer pela bochecha, a afastar-se cada vez mais. Ele tinha sido a pessoa de quem mais me custara despedir.

O meu pai pediu-me um pouco da minha atenção e contou-me o motivo da nossa partida antecipada enquanto conduzia, com uma cara muito séria. Foi com choque que ouvi a notícia. Nem à dez dias atrás, houve um enorme sismo no Chile. Os meus pais tentaram contactar a nossa familia que lá vivia, inclusive o meu irmão, mas só tinham conseguido falar com o Miguel durante poucos minutos. Não tínhamos notícias nenhumas de ninguém; não sabíamos se estavam vivos ou mortos. A situação era tão má, que íamos partir de imediato para o Chile sem data prevista de regresso, para saber o que aconteceu e procurarmos a nossa familia. Só tínhamos de ir buscar o Sandro, o irmão do meio, para apanharmos o voo no dia seguinte.

A única razão para não nos termos vindo embora mais cedo, era o meu namoro com o Santiago. Os meus pais viam-me feliz e não queriam acabar com a minha felicidade. Mas não havia outra maneira de fazer as coisas.

Ao ouvir isto, fez-se luz na minha cabeça. Com esta nova informação, o ar do Santiago naquele dia em que o apanhei a falar com a minha mãe e as suas ações na nossa despedida faziam todo o sentido. Ele já sabia disto, muito antes de mim.

Olhei para trás por instinto, mas só era possível ver a Nazaré a afastar-se cada vez mais. Deitei-me e encolhi-me no banco de trás e chorei em silêncio, agarrada às pulseiras de couro e argolas douradas. A única razão por não ter chorado em frente ao Santiago era por pensar que o voltaria a ver no ano seguinte. Agora percebia que isso era provável de não acontecer.

Eu jamais o iria esquecer. Ele sempre me foi especial, mesmo quando ainda não falava com ele. Tentei ter namorados, em várias fases da minha vida, mas nunca consegui ter uma relação mais séria com ninguém. Eu não o queria admitir, mas lá no fundo eu sabia a razão. O amor que eu comecei a sentir pelo Santiago não me deixava espaço para amar mais ninguém. Eu sempre o amei, e iria amá-lo para sempre, quer o voltasse a ver ou não.

Ele foi o meu primeiro amor, o primeiro rapaz a conquistar o seu lugar no meu coração, o meu primeiro namorado e a minha primeira paixão de verão. Era impossível para mim esquecê-lo. Até porque as primeiras grandes paixões nunca se esquecem.  Só esperava que ele não se esquecesse de mim também.

Nunca antes na vida me senti tão mal por não ter dito uma última vez aquilo que eu sentia. Por não ter dito "Eu amo-te".

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* paleca - Termo da Nazaré usado para designar os estrangeiros, os que não são da terra.

*taciturno --> sombrio, pensativo e silencioso.

*Sitio e praia do Norte --> Dois locais famosos na região da Nazaré.

(+/- 3764 palavras)

Conto vencedor do 2º lugar do desafio 2 do perfil Enquanto Eu Escrever

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