Alan e Wade
Conto escrito para a segunda fase da Copa dos Contos 2019 B, colocado aqui porque a antologia original foi apagada por causa de espaço no perfil. Faziam também parte de antologia o microconto O futuro imperador e o conto original de Rastos de Sangue, que me deu o 3º lugar nessa Copa e que agora está transformado num livro próprio no meu perfil.
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Wade olhava pela janela do quarto do hospital quando uns nós dos dedos bateram na porta. O moreno olhou para o visitante e, por momentos, pensou estar a ver uma assombração.
— Não pensei que realmente viesses.
— Nem eu — disse Alan, aproximando-se.
— Foi o meu pai que te contou?
— O teu pai falou com a minha mãe no outro dia e ela depois contou-me.
Alan encostou-se à parede esbranquiçada de braços cruzados.
— Conversas de janela? — perguntou o moreno com um pequeno sorriso.
— Não, encontraram-se na rua. — O ruivo riu, soltando ar pelo nariz. — Eles já se deixaram disso há alguns anos. Se estivesses lá, sabias.
Wade voltou a olhar a janela e o silêncio instalou-se enquanto ambos relembravam os dias em que apanhavam os pais sentados na janela do corredor do primeiro andar a conversar de uma casa para a outra.
— Alan, eu...
— Somos compatíveis — cortou o ruivo.
Wade olhou para o outro, espantado. Ele demorou uns segundos para compreender todo o significado daquelas palavras.
— Não estou à espera de nada, Alan. Muito menos da tua parte... Não depois de tudo.
O ruivo desencostou-se da parede e andou até à beira da janela, encostando-se no caixilho.
— Nem sei para que é que fiz os exames. — Ele deixou de olhar pela janela e virou-se para o rapaz hospitalizado. — A minha mãe está preocupada contigo, mas o Jake não gosta muito da ideia. Acha que é um desperdício.
— O Jake?
— É o meu padrasto. A minha mãe voltou a casar há três anos. — Ele encolheu os ombros. — É um tipo porreiro.
Wade tentou decifrar os pensamentos de Alan apenas pelo olhar, mas falhou miseravelmente.
— E o que é que tu pensas?
Ele suspirou antes de responder:
— Eu penso que tu és um idiota e que avisos foi coisa que não te faltou. Eu penso que isto é o teu karma, e que te devia deixar a arcar com as consequências das tuas ações. — Alan esfregou os olhos. — Mas também penso que o teu pai está destroçado, não só por estar a perder contra o cancro, como por não conseguir dar um rim ao imbecil do seu filho quando ele mais precisa. Também penso que crescemos juntos e que éramos praticamente irmãos — ele fechou os olhos e encostou a testa ao vidro da janela — Raios, eu não sei o que pensar!
Wade puxou os joelhos para o peito e sentou-se na cama, encolhido.
— Não precisas de decidir nada — disse ao fim de um minuto — E mesmo que queiras decidir, não precisa de ser já.
Alan rodou a cabeça, ainda com a testa colada ao vidro frio e com os olhos fechados.
— Quanto tempo?
Wade abraçou os joelhos.
— A política do hospital diz seis meses. Ainda nem passou um mês desde a última vez que consumi. — Ele voltou a cara para o ruivo. — Se queres que te diga, acho que não vou ser capaz de aguentar.
Um enfermeiro bateu à porta e entrou, empurrando uma cadeira de rodas.
— Está na hora da diálise — disse o moreno ao passar para a cadeira de rodas com a ajuda do enfermeiro — Podes ficar aqui se quiseres, mas vai demorar.
Antes de sair do quarto, Wade mandou parar a cadeira.
— Alan! — O ruivo retirou a testa da janela e olhou-o. — Decidas o que decidires... eu não te culpo.
Ele tentou sorrir antes de ser empurrado para longe, mas Alan viu que era um sorriso vazio.
Quando se viu sozinho, o ruivo sentou-se na cadeira do canto da divisão.
Ele e Wade tinham nascido no mesmo dia, no mesmo hospital — ele a tempo e horas, o moreno com um mês de antecedência. As suas mães tinham até estado nas macas ao lado uma da outra, criando uma amizade por simpatia.
As suas famílias moravam em bairros diferentes da mesma zona. Mantiveram algum contacto depois do nascimento, mas nada mais sério que telefonemas em aniversários e no Natal e conversas mais demoradas no parque ou no centro comercial. No entanto, dois meses antes de ambos fazerem quatro anos, passaram a viver debaixo do mesmo teto.
O pai de Alan estava em casa quando uns romenos do outro lado da cidade decidiram assaltá-la. A coisa deu para o torto e o seu sangue passou a manchar a mobília destruída.
A mãe de Wade soube o que aconteceu e ofereceu o quarto das visitas da sua vivenda para o Alan e a mãe, Dorothy, viverem por uns tempos. Ela aceitou. A pouca família que tinha não dava ponto sem nó e ela não queria ir viver para uma casa onde eles não fossem bem-vindos.
Uma semana depois de estarem instalados na nova casa temporária, a mãe de Wade desapareceu. Segundo Marcus, o seu marido, ela tinha depressão pós-parto que não parecia melhorar com o tempo, por muito que ele tentasse ajudá-la ou se esforçasse para aliviar o seu fardo. A teoria, de certa forma confirmada duas semanas depois quando o corpo dela foi encontrado no rio de uma cidade vizinha, era de que ela não tinha sido capaz de aguentar por mais tempo a sua doença.
Dorothy limpou a sua antiga casa e colocou-a à venda depois do caso ser dado como encerrado, dias após o julgamento dos romenos. Ela não seria capaz de voltar para a casa onde o seu marido foi assassinado na sua ausência e precisava de dinheiro para comprar uma nova — ou pelo menos para arrendar uma. No entanto, o facto de ser quase impossível vender uma casa marcada por um homicídio, aliado ao facto da mulher de Marcus ter fugido da sua família, acabando por tirar a sua própria vida, fez com que ela vivesse por uns anos na casa onde era convidada.
Apesar de se terem encontrado algumas vezes no parque infantil da zona antes do ocorrido, Alan e Wade só criaram uma amizade quando passaram a partilhar uma casa e, mais tarde, um quarto. Enquanto os seus pais aprenderam a viver em conjunto como amigos (e nada mais), os rapazes cresceram juntos e tornaram-se inseparáveis, considerando-se "irmãos de mães diferentes".
Eles estavam no último ano do Ensino Básico quando Dorothy conseguiu vender a antiga casa. A quantia que ganhou, a somar ao dinheiro que angariou ao longo de uma vida de trabalho, ajudou-a a comprar a casa ao lado daquela onde o seu filho cresceu. As conversas de janela começaram praticamente na mesma altura em que os problemas entre Alan e Wade apareceram.
O ruivo nunca chegou a saber porquê, já que Wade o afastou de todas as maneiras possíveis. Fosse o que fosse, era mau o suficiente para o moreno começar a beber de forma descontrolada. Aos 21 anos, Alan estava a iniciar uma carreira bem sucedida, enquanto Wade se convertia, oficialmente, num alcoólico.
Alan tentou ajudá-lo, mas Wade isolou-se ao ponto de desaparecer por dias a fio, mal retornando a casa. Quando o fazia, não falava com ninguém e tratava o pai abaixo de cão, para grande desgosto do mesmo.
Todos confirmaram a suspeita de toxicodependência quando Wade deu entrada nas urgências. Não tinha conseguido arranjar dinheiro para comprar a droga do costume, tendo ficado pela versão nova no mercado, manufacturada numa cave duvidosa e vendida ao preço da uva mijona pela falta de qualidade e facilidade de produção.
Marcus ainda se pergunta todos os dias onde é que errou na educação do seu filho para ele acabar no outro lado da cidade a comprar e consumir as substâncias duvidosas que o levaram a entrar em falência renal.
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— Não pensei que te fosse encontrar aqui quando voltasse.
Alan abriu os olhos e esfregou-os para afastar o sono.
— Nem eu — respondeu ao levantar da cadeira onde tinha adormecido.
Lá fora estava escuro. Um olhar para o relógio disse-lhe que a noite ia alta.
— Eu dou-te o meu rim.
Wade foi apanhado desprevenido outra vez.
— Alan, se é porque te sentes obrigado ou culpado...
— Não é — cortou — Tu é que te tens de sentir culpado.
O moreno baixou a cabeça. Alan relembrou momentos da sua infância em que o amigo tinha um olhar tão abatido quanto aquele.
— E estou...
Wade estava a ser genuíno. E Alan reconheceu-o.
— "Não se vira as costas à família, mesmo quando ela o faz". — O ruivo citou Vin Disel ao estender o braço. — Irmãos?
Wade sorriu.
— Irmãos.
— Só tenho uma condição — disse o ruivo — Chega de mentiras. Vais me contar como é que tudo isto começou, e o porquê. E, mais importante, vais fazer o Jake engolir as próprias palavras quando disse que não valias a pena o esforço.
Wade concordou. Ele não tinha a certeza de conseguir cumprir a promessa mas pelo o seu quase irmão, ele estava disposto a tentar.
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