Temporada 1 - Capítulo 10| "Quem é você?"

A chuva começou a cobrir aos poucos as grandes vidraças da casa. Indo contra à vontade exagerada que a mulher tinha de se proteger com trancas a todo custo, uma casa repleta de vidro não era lá algo tão seguro assim. Mas Belmont alegava que ainda se sentia bem em assistir o pôr do sol. Na sala, ela já havia lhes servido uma xícara de chá doce enquanto esperava que algum deles finalmente explicasse o motivo da visita inesperada.

— Então... — a mulher tentou destruir o silêncio que havia se formado há mais de cinco minutos. — pra que exatamente precisam da minha ajuda?

— Riley, eu sinto muito por ter que tocar neste assunto. Já deve fazer muito tempo, e... — Josh se explicava.

— Sim, faz. Se completaram dezessete anos há alguns meses. — Riley cruzou os braços depois de interromper o menino sem aviso prévio.

— Então você se lembra. — exclamou Jesse.

— E como poderia esquecer? Depois de Jacob Woods, eu parei de ter contato com quase todos os meus amigos. E passei o resto da minha vida trancada nesta casa, esperando por algo. — Riley encarava o chão amadeirado.

— Esperando que ele volte? — sugeriu Claire.

— Não! — Riley respondeu, de imediato. — Jacob Woods está morto. É algo com que não preciso mais me preocupar.

— Conhecemos a história. Você atirou na cabeça dele, e depois o corpo nunca mais foi visto. — Seth falou, ao entrar na conversa.

— O corpo nunca mais foi visto porque a polícia local é totalmente incompetente. Jacob Woods morreu, e eu vi com os meus próprios olhos. — Riley largou a xícara na mesa.

— Bem... — Millye começou a falar, após beber mais um gole do chá. — de qualquer forma, está acontecendo de novo, Riley. Uma garota foi morta há menos de uma semana. Logo depois, o xerife foi assassinado. Suzen McLane foi a terceira.

— Ainda não entendi em que parte eu entro. Há um novo assassino na cidade? Certo. Sinto muito por isso, espero que a polícia possa ajudá-los. Meus minutos de fama acabaram assim que entrei na faculdade. — Riley rebateu.

— Riley, nós achamos que quem está fazendo isso pode estar ligado ao massacre de Jacob Woods. — Seth tentou explicar.

— EU JÁ DISSE QUE JACOB ESTÁ MORTO! — a mulher se levantou, enfurecida.

— Então como explica isso? — Jesse a encarou quando fez o mesmo movimento, largando o anuário aberto em cima da mesa de centro.

— Que... — seu rosto se tornou pasmo ao perceber a sua foto circulada. — que droga é essa? — ela voltou a olhar para os adolescentes. — Isso é algum tipo de brincadeira? — cruzou os braços.

— Não estamos brincando, Riley. Pelo amor de Deus! — Millye se levantou. — Você precisa prestar atenção. Nossos amigos estão morrendo, e se não conseguirmos parar esse maníaco logo, podemos ser os próximos! Você é a nossa única chance.

— Eu já disse que sinto muito por isso, mas não posso fazer nada. Meus amigos também foram assassinados dezessete anos atrás e ninguém me ofereceu ajuda. — Riley deu um passo à frente.

— Você não pode estar falando sério. — Claire respirou fundo, deixando a xícara de chá ao lado da poltrona. A garota retirou sua boina de cor preta e seus olhos de repente haviam se tornado dois círculos cálidos que fitavam a mais velha. — A MINHA MELHOR AMIGA ESTÁ MORTA! O corpo dela ainda deve estar apodrecendo em alguma sala vazia porque eu duvido que os policiais já tenham avisado a família! — Claire cerrou os punhos. — Minha outra amiga está no hospital neste momento, e se ninguém fizer nada, eu tenho certeza que ela não vai sair de lá. Então eu preciso que você olhe nos meus olhos, Riley — a garota aproximou seu rosto do da mulher. — e diga. DIGA! DIGA QUE NÃO VAI NOS AJUDAR!

Por um instante, o silêncio pairou sobre a sala de estar. Seth, Jesse e Millye estavam quietos enquanto esperavam que Riley respondesse a menina. Então Josh, dando dois passos até perto de Claire, colocou sua mão direita sobre o ombro dela e usou a esquerda para juntar sua boina no sofá.

— Não vai adiantar, Claire. Ela não pode fazer nada por nenhum de nós. — Josh encarou o rosto da mulher à frente deles, que ainda se mantinha sem nenhuma reação. — Nós viemos até aqui porque algo nos fez pensar que poderia oferecer ajuda. Mas pelo visto, é melhor continuar sozinha nessa casa mesmo, Riley, esperando que a morte bata à porta.

— Vem, Jesse. Vamos embora. — Seth levantou, caminhando até a porta enquanto a garota e os outros três o seguiram.

— Mais alguma coisa? — Riley questionou, ao abrir a porta enquanto esperava que eles passassem por ela.

— Eu te desejo boa sorte. De verdade. — Josh sorriu fraco, depois que seus amigos já haviam saído.

— Como assim? Eu não preciso de sorte. — Riley franziu o cenho.

— Bem, não estou tentando jogar uma praga, mas... — ele respirou fundo antes de terminar e se juntar aos outros quatro do lado de fora. — aquela foto diz que você ainda está no jogo. E creio que seja só questão de tempo até que receba outra visita. Mas dessa vez, não serão cinco adolescentes pedindo ajuda. Passar bem, Riley.

Hospital Geral de Rainwood, 20:06 da noite.

— Como você está? — Jesse se sentou ao lado de Claire, entregando um copo de café para ela.

— Obrigada. — a menina sorriu brevemente, segurando o recipiente de plástico. — Tentando não surtar, eu acho. Não sei o que vou fazer se Jenny acabar... acabar... — o mar de lágrimas que a garota segurava em si ameaçou se transformar em uma cachoeira.

— Fica calma. Ela não vai morrer. — Jesse colocou sua mão sobre a de Claire. — Olha, eu... eu sei que eu sou a novata aqui, e que você provavelmente não confia em mim tanto assim. Mas eu quero que saiba que você pode...

— Eu confio. Confio em você, Jesse. — Claire arquitetou um sorriso cansado, deixando que seus olhos se transformassem em duas bolsas d'água. — Espero que quando isso acabar possa me convidar para uma de suas entrevistas.

— Bem, considerando a situação, eu acho que ter o meu emprego de volta se tornou um dos meus menores problemas. — Jesse sorriu, suspirando logo depois. — A propósito, não devo voltar para Gravewood tão cedo. Mas quem sabe, em um futuro próximo, eu tenha a sorte de entrevistar você. A garota da boina. — Jesse cutucou o chapéu de formato arredondado que Claire utilizava.

Perto delas, Seth e Josh tentavam se manter em silêncio enquanto pensavam em alguma solução improvável.

— Parecem tensos. Algum motivo em específico? — Millye quebrou o silêncio, rapidamente voltando a observar suas próprias anotações em uma pequena caderneta.

— Nada muito grave. E você? — Josh riu, usando seus punhos para apoiar as bochechas.

— Eu só... estou começando a ligar os pontos. Se o assassino nos conhece tão bem, provavelmente ele seja um de nós. — Millye ajeitou seus óculos.

— Foi a primeira coisa que pensei. Mas não podemos acusar as pessoas assim, Millye. — Josh respondeu.

— Eu não disse que iria acusar alguém. Mas isso — ela virou a folha para os dois, revelando uma lista de nomes que aparentemente seriam possíveis suspeitos. — é só por precaução.

— Espera. Zoe e Jaremy? Como tem tanta certeza assim? — Seth perguntou, ao observá-los no topo da lista.

— Não tenho certeza, Seth. Mas os fatos estão aí. Zoe não deu as caras desde o funeral de Maryan, pelo o que Josh me disse. E da última vez que eu a vi ela não parecia acreditar muito nisso tudo. — Millye explicou.

— Certo. Zoe é uma suspeita com toda certeza. Mas e quanto ao Jaremy? — questionou o rapaz. — Millye, você mesma disse ter visto ele sendo esfaqueado.

— É verdade, mas é o único momento em que ele prova não ser o assassino. Jaremy não deu sinal desde que saímos daquela fábrica. E se estiver trabalhando ao lado de outra pessoa? — disse Millye.

— Bingo! — Josh se intrometeu novamente. — É clássico nos filmes. Alguém precisa ser o bode espiatório.

— Então talvez Zoe e Jaremy estejam juntos nisso. — a menina deu sequência.

— Espera. Se Jaremy estava comigo na noite em que a minha irmã morreu, então foi Zoe quem a matou. — Seth encarou o chão esbranquiçado. — Na verdade, essa coisa toda está me deixando com ânsia de vômito. Precisamos saber se Zoe tem algo a ver com isso, e vamos descobrir amanhã, na escola. — o rapaz se levantou, caminhando na direção do corredor que levaria ao banheiro.

— Ele me pareceu meio... decidido. — falou Josh.

— Com licença. São os amigos de Jennifer Hopps? A família dela esteve aqui à tarde, então acho que devem saber também. — a médica sorriu, folheando sua prancheta. — Sua amiga será liberada amanhã. Estamos concluindo os últimos exames para ter certeza de que os ferimentos não prejudicaram nada de forma grave, e assim que Jennifer estiver apta, será liberada.

A mulher se distanciou de Millye e Josh após dar a notícia. Os dois sorriram, enquanto o garoto balançou a cabeça em sinal de confirmação. Era como uma montanha-russa, ao mesmo tempo que as coisas pareciam melhorar levemente, algo muito pior poderia estar prestes a acontecer.

Casa de Riley Belmont, 21:27 da noite.

A mulher desceu as escadas e caminhou em passos curtos até a cozinha. Se preparava para dormir, mas antes precisava comer algo. Riley abriu a porta da geladeira, podendo enxergar um pedaço pouco envelhecido de pizza.

— Ei, bichano! — sorriu ao ver seu gato de estimação entre suas pernas. — Você precisa sair um pouco? A janela da sala está aberta. — o gato pareceu concordar depois de esfregar seu corpo nela, e então saiu marchando até a sala.

— Vejamos o que temos aqui. O que vai acompanhar você? — Riley voltou a olhar para a geladeira. Procurava qualquer condimento que pudesse jogar por cima daquele pedaço de pizza quase endurecida.

De repente, ouviu o telefone da cozinha tocar. Seu corpo todo parecia ter se desmanchado em um arrepio de medo e nervosismo. Ela caminhou até o balcão e agarrou o aparelho em sua mão.

— Alô? — perguntou, com uma frequência cardíaca exageradamente estagnada.

— Que tal sangue? — uma gargalhada seguiu aquela voz rouca.

— O... o quê? — Riley estranhou, apertando com mais força o telefone entre seus dedos.

— Sangue, Riley. MUITO SANGUE! — o barulho que indicava o fim da ligação tomou conta da linha após aquele grito invasivo.

Antes que Riley virasse seu corpo por completo, ouviu um barulho medonho vindo da sala. E então, no instante seguinte, a mulher pôde enxergar um sujeito parado no meio da sala, com suas vestes negras e uma faca na mão.

— Não, não, não! Não pode ser. Que merda! — Riley correu até o outro lado da bancada, pegando uma das lâminas do faqueiro e apontando para ele. — QUEM DIABOS É VOCÊ?

— Quem pensou que fosse? Você duvidou do seu maior pesadelo, Riley. Então eu vim por conta própria. — aquela voz modificada não permitia que a mulher identificasse quem estava por baixo da máscara. — VOCÊ VAI CAIR, RILEY! VAI CAIR ESTA NOITE! — ele se aproximou dela de forma rápida, quase acertando uma facada em seu pescoço, se a mulher não tivesse desviado antes.

— SE EU CAIR, VOCÊ CAI TAMBÉM! — Riley jogou seu corpo contra a parede, escapando das garras do assassino.

Em seguida, ela voltou a caminhar na direção dele, tentando golpeá-lo com a faca, mas era impossível. O mascarado se movia como uma sombra naquele cômodo escuro. Mais uma vez ele tornou a atacá-la com o objeto, porém agora havia conseguido atingir o braço da mulher.

— VAI SE FERRAR! — Riley gritou, perdendo o equilíbrio e acabando por cair no chão.

Antes que ele à atacasse novamente, a mulher se esgueirou até a bancada, desviando seu corpo do dele. Riley apoiou-se na borda da estrutura e alcançou uma das panelas que estavam na superfície. O mascarado agarrou o pescoço da Belmont, tentando a todo custo levá-la com ele.

— ME DEIXA EM PAZ! — a mulher gritou, em uma tentativa falha de escapar.

Foi quando, depois de muito esforço, conseguiu se soltar daqueles braços e golpeá-lo mais uma vez com a panela que tinha em mãos. Ele foi atingido na cabeça, e assim que Riley largou o objeto, se distanciou. Aproveitando que o assassino permanecia vulnerável, a mulher atacou-o com a faca mais uma vez, fazendo um corte considerável em seu braço. Mas assim que executou o golpe, ela perdeu as forças por completo, deixando que seu corpo desabasse. Enquanto estava fraca, Riley pôde enxergar aquela sombra se esgueirando pela janela da sala.

E novamente o mascarado havia saído ileso. Mas pelo menos dessa vez, Riley acreditaria que não estava de fato a salvo, fosse aquele homem alguém ligado a Jacob Woods ou não. Para a sorte dela, não foi mais uma das vítimas daquele maníaco naquela noite. Naquela noite.

Rainwood High, 22:35 da noite.

A srta. Meyers havia encerrado a correção de provas da semana. Mesmo que fosse domingo, a professora precisara concluir os trabalhos pendentes, o que fez com que ela acabasse sendo a última na escola àquela hora.

Com a chave da porta dos fundos em mãos, Meyers caminhava lentamente sobre os azulejos do corredor. A cada dois segundos, lembrava-se de checar se não havia mais alguém atrás dela, afinal, a cidade estava sendo palco dos mais tenebrosos acontecimentos nos últimos dias e os avisos eram frequentes. Era incrível como a notícia se espalhava rápido por aquela escola mesmo aos domingos, pois a maioria dos alunos, e também professores, já sabiam da morte de Suzen McLane naquela tarde.

Caminhando mais um pouco, a professora ouviu um barulho estranho vindo de trás. Não era nada. Meyers continuou seguindo. Mais à frente, ouviu novamente o mesmo barulho. E pela segunda vez não havia ninguém lá. Era coisa da cabeça dela, acreditou. Afinal, a mente lhe prega peças frequentemente.

— Idiotas. — Meyers murmurou. — Deveriam investir nos seguranças em uma noite como essa. E se um dos professores fosse... — Meyers falava para si mesma, quando decidiu se virar mais uma vez ao ouvir o barulho.

Como seria bom se fosse apenas paranóia da mulher, pela terceira vez. Infelizmente, desta vez não era. Antes de se assustar com o que viu, Meyers tentou dizer algo, uma frase que muito provavelmente seria concluída com a palavra "atacado". E sim, um dos professores da Rainwood High realmente seria atacado pelo maníaco da cidade naquela noite.

Quando se virou por completo, pôde enxergar a própria imagem do diabo se concretizar à sua frente. Lá estava ele, mais uma vez coberto por um capuz e uma máscara de cor negra. Mas agora, diferente das outras vezes, o maníaco carregava um machado em mãos, como se aquele fosse um evento especial. Antes que a srta. Meyers pudesse gritar por ajuda ele a atingiu no centro do abdômen, fazendo com que a mulher fosse literalmente jogada para trás. Meyers caiu no chão. E percebendo que sua barriga havia sido aberta quase que por inteiro, a senhora começou a se arrastar para trás, na intenção de chegar à porta de saída enquanto ainda podia.

— NÃO! N... NÃO! POR FAVOR! — era uma mistura de euforia, medo e esperança que invadia o corpo da professora naquele momento.

Ainda com os olhos arregalados, Meyers pôde observar o mascarado se aproximando de seu corpo. E justo no momento em que tentou se virar para alcançar a fechadura, sentiu seus pés sendo agarrados. Ele começara a puxar o corpo da professora para trás, impedindo que ela conseguisse escapar.

— ME DEIXE IR! ME DEIXE IR! — Meyers ainda gritava, implorando por mais uma chance.

Mas aquele jogo não era justo, e seja lá quem estivesse por baixo daquela máscara, não estava ali para ajudar. Ele finalmente acabou com o sofrimento da professora, encerrando seus gritos de dor. Cravou o machado em sua cabeça dessa vez, fazendo Meyers perder o movimento do braço que há pouco havia levantado. Agora, ao redor dela, uma pequena poça de sangue se formava. E era exatamente isso que ele queria.

O mascarado virou a mulher novamente, deixando-a de barriga para cima enquanto observava o buraco no centro de seu corpo. Com as próprias mãos, ele expandiu mais ainda o ferimento, começando a rasgar a sua pele lentamente. Meyers já não sentiria mais nada depois disso, mas ele queria deixar um rastro e mostrar que passou por ali. Então por fim ele segurou seus pés e iniciou uma caminhada pelo corredor, fazendo com que todo o líquido contido naquele corpo se espalhasse, formando uma grossa e viscosa linha sangrenta pelo chão da escola.

Parecida com esta linha avermelhada, uma outra linha de assassinatos percorria Rainwood de um canto ao outro naquele momento. E ao amanhecer, todos os alunos saberiam que a contagem de corpos havia de fato aumentado durante a noite. A srta. Meyers fora mais uma de suas vítimas, mas aquele jogo doentio não estava nem perto de chegar ao fim. Agora eram quatro corpos em vez de três.

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