O Futuro
Ela nos deixou um mistério terrível, Cere bufou, isso era tão a cara dela. Era óbvio que ela jamais sairia deste mundo sem nos deixar algo, ela sempre teve um amor muito grande pelo futuro. Eu me lembro de sentar com ela e ouvir suas histórias, ela sonhava tanto sobre como seriam nossas vidas. Eu consigo ver claramente que mulher incrível você vai se tornar, e o mundo que te espera é um mundo tão melhor que o nosso. Você terá todas as oportunidades de ser o que você quiser, e eu sei que você vai ser forte o suficiente para enfrentar qualquer coisa. E agora suas palavras parecem uma profecia para eu assumir seu lugar. E tinha que ser eu, porque minha tia tinha morrido e ela só tinha a mim para assumir seu lugar. Calto não suportava nossa tia, e eu entendo o porquê.
Ela era mais velha do que eu e se lembrava melhor da nossa mãe, e obviamente quando ela morreu, Calto ficou inconsolável. Nossa tia sempre esteve lá para cuidar de nós, e nosso pai sempre amou ela profundamente. Eles não eram irmãos de verdade, apenas amigos inseparáveis, e ela sempre acreditou que nossa tia tivesse sido responsável por algo. Ela detestava esse lugar e o que ele representava. Talvez esse tenha sido um dos motivos do porque nos tornamos distantes. Eu e ela éramos tão diferentes, Calto tinha os olhos verdes de nosso pai e também sua confiança, mas depois que decidiu se tornar médica, era como se algo tivesse sugado sua luz.
Eu apertei o caderno nas minhas mãos com força, que destinos terríveis nos esperavam, mas o pior de todos era ficar sozinha com essa ideias, esses pensamentos. Minha mente ia de um lado para o outro nunca se decidindo em um rumo. Ela disse que qualquer rumo que eu seguir seria o certo, mas o que isso significa agora que eu não sei o que fazer? Ela poderia apenas tirar uma carta do seu baralho e resolver qualquer impasse. Eu olhei para frente e percebi que um copo de vidro em cima da mesa parecia estar perto demais da borda. Talvez minha irmã se irritasse, ela odeia esse lugar, e quando ela fica muito irritada ela gesticula e grita, em um momento de raiva ela poderia sair desse lugar pisando forte e bater a porta com força. Mas do lado da porta tem uma estante de livros com uma perna mais curta e a força da batida certamente iria desestabilizar a sua harmonia e um único livro cairia em cima da mesa, exatamente em cima de uma colher de prata, que poderia voar em direção ao copo, que cairia no chão e se quebraria em centenas de cacos.
- Você leu tudo? - Calto falou preocupada. - É um futuro ruim?
- É um futuro péssimo. - Eu respondi. - Mas eu não posso te contar.
- Como assim você não pode me contar? - Seu cabelo saía de seu coque como fiapos de palha. - Nossa tia fez questão de colocar apenas o seu nome no testamento e agora ela quer me deixar de fora do futuro?
- Vai ser pior se você souber. - Eu me levantei. - Mas eu preciso que você me ajude, isso é muito importante!
- Eu não vou te ajudar, e nem ajudar a sua tia. - Ela cuspiu as palavras. - Sabe o que é importante? O que eu faço é importante! Eu salvo vidas enquanto vocês duas acham que ficar sentadas brincando com o futuro vai servir para alguma coisa. Seria melhor se você nunca tivesse nascido.
Eu olhei para minha irmã e vi seu rosto se contorcer de dor enquanto ela revisava todos os acontecimentos que nos trouxeram até esse momento. Nossa mãe morreu no meu parto e eu sei que ela sempre me culpou por nosso pai ter voltado do hospital com uma criança ao invés de sua mãe. Seus olhos verdes me encaravam com raiva, a mesma raiva que ela me encarava nesse dia, um desejo incontrolável de mudar o passado, de me apagar da existência e trazer de volta alguém melhor do que eu. Enquanto observava as linhas de sua pele se esticarem e tremerem, percebi que havia algo estranho nela. No canto de sua boca, eu poderia jurar que tinha visto algo que parecia sangue, saindo de dentro de sua pele como suor. Logo em seguida ela saiu irritada e bateu a porta com força, e eu pude ouvir o barulho de vidro quebrando.
Minha tia havia morrido. E no lugar de ter sua presença na minha vida, eu tinha recebido um caderno repleto de previsões, marcando um terrível futuro. Mas essa não era toda a verdade. Minha tia também tinha me contado muito sobre o passado e eu senti uma ponta de esperança, porque o destino não está escrito em cartas, mas sim ligado como um pedaço de linha no destino dos humanos. E a minha linha tinha se tornado clara. Era como seguir um fio de nylon em direção a um peixe, a linha dura cortando os meus dedos enquanto o peixe se debatia debilmente no chão. Eu sabia que o destino dele não era bom, mas ainda assim eu o puxava cada vez mais para perto, porque eu sabia que entre as suas escamas brilhantes eu iria encontrar segredos sobre mim mesma.
Era incrível e assustador pensar que nesse momento eu estava no centro de tudo, no meio do furacão que derrubou tantas pessoas, tirou tantas vidas. Era como estar lendo um livro de terror que você sabe o final, você corre por entre as páginas como se estivesse correndo de algo real. Mas saber o final não ajuda muito, e minha tia sabia disso. Saber o futuro muitas vezes é um obstáculo para ser contornado, e nesse momento na minha cabeça eu me contorcia com todas as coisas que poderiam acontecer, a trilha do meu pensamento passava por inúmeros momentos do meu passado e eu parecia estar eternamente enxergando aquele copo cair enquanto os cacos se despedaçavam.
Mas eu precisava ser forte por ela, pela minha irmã, por todos. Minha tia morreu, mas ela me deixou algo dela para trás, e principalmente ela me deixou a oportunidade de me provar digna de todos os momentos que vivi até agora. A minha única tristeza era que o meu futuro era o mais tedioso possível. Para fazer o que minha tia pedia de mim, eu ficaria completamente parada atrás dessas portas de vidro, porque pela primeira vez eu não teria que ir de encontro ao meu destino, ele iria entrar por essa porta.
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