Gato
Pense. Pense no que ele faria no seu lugar. Certamente ele iria reprovar meus métodos. Humanos são tão persistentes, ele diria, você precisa contabilizar os imprevistos, se preparar para tudo e nunca ser pego. Mas eu fui pego e comprometi todos os planos, todos eles sem exceção, que foram orquestrados e cuidadosamente mantidos por tempos inefáveis. Antes da minha existência começar, centenas dos meus já haviam se preparado para esse momento, nenhum deles falhando como eu falhei. Que sentimento terrível, estar parado em uma cama coberto de fios enquanto minhas entranhas tentavam se grudar e eram rudimentarmente costuradas como um pedaço de carne pronto para o forno. Era barbárico e vulgar que eu estava vulnerável e perseguido, a presa ao invés do caçador, uma das piores inversões de fortuna que poderia ter acontecido.
O grande problema era o tempo. Essa roda, essa terrível roda da fortuna, girando e se esticando, transformando aquilo que é sólido em plano e achatando a existência humana. O tempo é a divindade deles, e qualquer coisa que altera em um fio de cabelo esse Deus redondo é suficiente para trazer caos e destruição em seu caminho. O acidente de carro foi um dos maiores erros de minha carreira, e enquanto estava embutido nesse corpo, a mágoa era forte demais para ignorar. A mente humana potencializa os sentimentos de uma forma doentia, repetindo os erros em um ciclo sem fim, como se os pensamentos fossem escritos no ar com uma tinta dura e logo pesassem nos bolsos como pedras amarradas em um corpo que afunda no mar.
Duas vezes o acidente aconteceu no tempo, dois carros, dois impactos. Mas esse invólucro não aguentou o impacto e repetiu o acidente no tempo, duas malditas vezes os carros se desgovernaram, um me atingindo em cheio enquanto o outro, ao me ver estendido na rua, acertou o poste mais próximo e explodiu em chamas. Provavelmente eles estariam até agora *sentados na delegacia tentando entender o que fez com que dois carros batessem no mesmo lugar, eventualmente desistindo e refazendo o asfalto em um ato teatral de dar uma justificativa para a população preocupada. Dentro de duas semanas tudo estaria esquecido. Mas ele me viu, me percebeu, e uma pequena dobra na trama do tempo se tornou um rasgo que precisa ser remendado que nem minha pele flácida.
Fechei os olhos quando a médica novamente retornava, seus cabelos agora soltos e sua expressão pior do que antes. Eu conseguia sentir sua alteração, sua respiração nervosa e seus olhos tremendo em busca de respostas. Como ela era pequena, dedicando sua vida a resolver os outros para tentar lidar com a sujeira que crescia dentro dela a cada dia. Calto, você é tão diferente de seu pai que eu arriscaria dizer que vocês não são parentes, mas seria um baque e tanto ouvir isso não é mesmo? Seus olhos se fecharam por um momento e logo ela estava adormecida na cadeira, sua postura firme não se desmanchava nem mesmo em seus sonhos, e apenas de imaginar os problemas e incertezas de algo tão pequeno eu me senti na vontade de rir. Não, isso não iria funcionar. Esse corpo estava alterando demais a minha consciência, algo precisava ser feito.
Me levantei e senti tudo dentro de mim se revirar e estalar em protesto, máquinas apitando ao sentir a falta das minhas veias enquanto gotas de sangue pingavam no chão. A roda da fortuna girava mais uma vez, derrubando e levantando todos em seu caminho como uma loteria infernal, e nesse momento eu tinha sido derrubado. Ele me avisou que estar nesse mundo é viver sobre suas regras, mas nunca ele mencionou que as regras seriam tão cruéis e injustas. Minha carne implorava por uma pequena vitória para lavar meus ossos como um bálsamo. O que move as pessoas afinal? Seu combustível? Sua comida? A promessa de conforto? A motivação primordial que é tão fortemente manifestada em humanos, seu brilho que queima nos confins da sua alma e escapa pela pele, transbordando por seus olhos abertos. Isso era algo inalcançável, impossível de ser recriado, e meus nervos sabiam disso, todo o meu corpo sabia.
Como resolver esse problema, eu pensei, o que ele faria? Eu conseguia ouvir passos do lado de fora e sabia que em breve seria pego. Me arrastei até a janela e abri ela com o que restou da minha força, o vento entrou com força como se um lacre tivesse sido aberto, o mundo natural invadindo o ambiente estéril e controlado do quarto. Pular daqui de cima iria acabar com todas as minhas forças, mas eu não tinha escolha, eu precisava fugir. Minha única opção era me esconder até que as coisas se acalmassem sozinhas. As carnes amarradas pareciam a ponto de se soltar quando eu pulei da janela.
O sol refletia nos vidros espelhados de tal forma que as pessoas embaixo não conseguiriam notar uma pequena pessoa caindo lentamente pelo céu, suas roupas de hospital sendo trocadas no meio do ar por um elegante terno até que ele pousou no chão e andou pelo canto do prédio como se sempre estivesse ali. Tudo estava indo conforme os planos e dentro de pouco tempo a diferença na narrativa seria imperceptível. Passei por meio dos médicos e seguranças até o estacionamento e me escondi por entre os cantos escuros do subsolo. Agora, tudo que me faltava, era uma ideia genial, um surto capaz de resolver todos os meus problemas.
Enquanto tentava encontrar minha solução por entre os carros parados e canos, avistei algo se mexendo nas sombras. Me aproximei enquanto ouvia um barulho agudo me guiando até o meu destino, um enorme carro prateado. Dentro do carro o barulho continuou, pedindo e implorando por ajuda de alguém de fora, mas o estacionamento estava totalmente vazio. Me ajoelhei no chão e avistei o que procurava, no espaço entre o pneu, um pequeno gato preto ficou preso ao tentar se esquentar. Usei minhas mãos instáveis para tirar seu pequeno corpo e quando solto, ele se esfregou pelas minhas pernas em agradecimento. Era perfeito, de alguma forma, mas ainda assim, óbvio demais. Um gato preto seria notado imediatamente, mas talvez algo mais amigável resolvesse meu problema. O pequeno gato preto correu em direção a entrada do estacionamento onde certamente seria encontrado e adotado por alguém de coração mole, mas eu tive uma ideia melhor. Tirei minhas roupas e as escondi o melhor que pude, quando corri para fora e me distanciei do hospital, eu tinha assumido a forma mais inofensiva possível, um pequeno gato amarelo com uma coleira vermelha, olhos verdes brilhando no sol.
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