Caminho




Você se superou dessa vez Marcos. Você conseguiu se colocar em uma situação totalmente irreversível em que você triunfará como herói. Mas a troco de que? Eu pensei, enquanto me levantava das pedras cobertas de musgo. Tudo aqui era tão macabro, tão frio e tão abandonado como templos de deuses antigos, as pedras pretas e azuis eram ao mesmo tempo futuristas e antigas, algo que parecia comum de alguma forma, como uma palavra na ponta da língua, lutando para ser lembrada, um barco à deriva em um mar de massa cinzenta, fazendo a travessia entre as sinapses como se fossem ilhas, mas nunca chegando a nenhum porto. Da mesma forma, a arquitetura era ao mesmo tempo familiar e estranha.

O lugar que eu estava começou a parecer cada vez mais com um templo, eu havia caído no meio de uma pilha de pedras, paredes se estendiam em volta de mim com padrões estranhos e eu me senti completamente suscetível, como uma ferida exposta. Não me ajudava que a queda havia me enchido de cortes, as pedras pontudas haviam rasgado as minhas roupas e perfurado minha pele. Mas eu era incapaz de sentir dor, não quando a lua estava tão bonita no céu, seu brilho vermelho não me parecia mais tão terrível, e sim, agradável, como se me dizendo que eu havia chegado em casa e podia descansar. Me levantei um pouco dolorido tentando encontrar a saída daquele lugar, apenas para perceber que as paredes se dividiam em corredores indo para direções diferentes. Era um labirinto e eu estava no meio.

Isso complicava bastante meus planos. Eu estava esperando um teste de força ou intelecto, mas um labirinto era quase completamente decidido por sorte, os caminhos e as decisões poderiam ser tomados de infinitas formas e eu poderia ficar aqui dentro por cinco minutos ou séculos. Esse certamente seria um destino horrível para qualquer outra pessoa, mas de certa forma parecia interessante, que tipo de conhecimento eu conseguiria divagando tanto tempo dentro de mim mesmo? Talvez não tenha nada de tão interessante dentro de mim, e mesmo que eu escave durante quantidades absurdas de tempo, encontre apenas a mim mesmo, olhando de volta. É estranho, nós sempre acreditamos em eus superiores, como se uma versão perfeita de nós estivesse adormecida na nossa mente pronta para escapar quando necessário. Mas dentro de você só tem você mesmo, e tudo que você pensa e faz é somente sua culpa. Provavelmente a lição mais dura que já aprendi.

Coloquei as mãos nas paredes, elas eram frias e espelhadas, sua superfície inteira era marcada por runas em uma língua que eu não era capaz de entender, e quando eu chegava perto, elas se acendiam com uma luz azulada como se um espesso cristal líquido estivesse passando por entre as letras e as iluminando. Parte desse icor molhou a ponta dos meus dedos, e de alguma forma, seja por inércia ou impulsividade, eu fechei os olhos e o espalhei por sobre minhas pálpebras fechadas. Senti um leve frio, e quando abri meus olhos, cada uma daquelas runas parecia se mover, criando palavras e frases que resgatavam imagens dentro da minha mente, e eu percebi, como que uma de vez, tudo que estava escrito nessas paredes.

Eram coisas que eu havia dito, que eu havia pensado ou que eu havia feito. O labirinto não era apenas sobre sorte, era sobre seguir os meus próprios caminhos, e reviver de forma profana tudo que eu havia feito de errado nessa vida. Que piada terrível. Eu era alguém tão insignificante, tão pequeno e que havia feito tão pouco. Que tamanho esse lugar poderia ter? Andei até o centro para tentar escolher um caminho, as pedras ainda tinham pedaços de minhas roupas e um pouco de sangue, e descobri que embaixo das pedras, havia algo que deveria ter sido uma pequena fonte. Será que esse povo tinha alguma obsessão com água? O pouco de água que ainda restava refletia perfeitamente a lua cheia, como se tivesse sido feita exatamente com esse propósito. O reflexo era lindo, como um quadro redondo feito para guardar a lua em um prato prateado, e de alguma forma, eu me sentia seguro olhando para ele, como se alguém estivesse me observando de volta. Me aproximei ainda mais da água e vi meu rosto na frente da lua, meus olhos e a pele em volta deles haviam adquirido um intenso brilho azul.

A írises azuladas eram o que eu precisava para enxergar as letras desse mundo estranho, e me garantiam uma resistência ainda maior para o escuro. Virei para a direita e comecei a andar, conforme tocava nas runas, elas se iluminavam marcando meu caminho, e cada uma das palavras parecia passar diretamente para a minha cabeça em forma de sussurro. Dentro de pouco tempo eu ouvi milhares de repetições das mesmas frases que continuavam tocando de forma cíclica dentro da minha mente, e elas martelavam um processo de auto crítica e humilhação dentro de mim. Dentro de pouco tempo eu não sabia mais o que era a voz da minha mente e o que eram sussurros, as vozes começaram a se separar e tomar forma, as pessoas que as falavam eram sombras azuis que me seguiam de forma ameaçadora como fantasmas por entre os corredores.

— Saia daqui. — Uma sombra disse.

— Você não vai reagir? — Uma sombra maior respondeu.

— Deixe ele em paz. — Uma terceira sombra apareceu.

— O que ele vai fazer? — A sombra riu.

— Você é fraco. — Outra sombra continuou.

— Vocês não tem motivos para implicar com ele dessa forma. — A sombra defendeu.

— Ele não vai se defender. — A sombra gritou.

— Mas é óbvio que não. — As sombras continuaram.

— Eu sou fraco. — A sombra se afundou.

As sombras se revezaram em volta de mim, a menor de todas ia a frente e eu me arrastei atrás de seu brilho pálido, acreditando que em algum lugar, encontraria uma saída desse labirinto.

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