Capítulo I
Encosto-me no sofá buscando uma posição confortável no sofá da sala. Algo inútil, já que não importa quantas posições eu tente, minhas costas sempre latejam. Recompensas por estudar sem ao menos uma pausa na mesinha desconfortável do meu quarto.
Um murmúrio cansado sai de meus lábios. Mudo outra vez de canal tentando encontrar algo que me distraia, fico alguns minutos na mesma busca até que paro em um canal aleatório de desenhos animados.
Apesar dos meus olhos estarem fixos na grande tela, minha mente vagueia dentre meus pensamentos sem um rumo específico. Faço uma careta ao me lembrar da semana de provas que terei daqui a alguns dias. Isso é realmente torturante.
Fecho os olhos e me deito no sofá. Preciso descansar. O barulho dos personagens infantis parece longe agora, como se eu estivesse me desligando da realidade a minha volta. Tudo se torna escuro.
Então como se ele estivesse esperando apenas por esse momento, ele volta. Lembranças invadem com brutalidade o meu pensamento, e como sempre, faz com que todas as minhas tentativas para esquecê-lo sejam inúteis.
Já faz meses que ele se foi. Faz meses que ele me deixou e permitiu com que todos os nossos sonhos e expectativas juntos ecoassem no eco vazio das minhas memórias.
Sinto meu coração se apertar novamente com a falta dele.
— Já está na hora de seguir em frente, Clare. — Murmuro baixo para mim mesma tentando me acostumar com a dor da partida.
[...]
Abro meus olhos aos poucos enquanto tento me familiarizar com o sol da tarde que reflete em todo cômodo. Faço uma careta de desgosto e passo a mão sobre o meu rosto tentando tirar cada resquício de sono que ainda há no meu corpo. Continuo na mesma posição de antes, mas agora encaro o teto tentando encontrar alguma disposição para me levantar.
— Vamos Clare... Levante! — Digo tentando buscar forças. — Você precisar terminar de revisar o relatório semanal.
Estico meu braço e pego o controle da televisão para que eu possa desliga-la. Segundos depois o pequeno apartamento se encontra em um profundo silêncio. Sento-me no sofá e respiro profundamente, hora de voltar a fazer alguma coisa.
Ding Dong.
Quase pulo de susto ao ouvir a campainha quebrar todo o silêncio do local. Confusão surge em meu olhar. Quem pode ser? Eu não estou esperando ninguém. Procuro minhas pantufas com o olhar e as calço. Não demora muito para que eu caminhe em direção a porta.
— Pois não? — Falo assim que abro a porta. Porém, para a minha surpresa não há absolutamente ninguém no pequeno corredor. Olho para ambos os lados confusa. — Olá? — Chamo para me certificar que realmente não tem ninguém.
Reviro os olhos e me afasto da porta para fecha-la. Detesto esse tipo de trote. Mas antes que feche, algo me chama a atenção. Em frente a entrada do apartamento, sobre o tapete da entrada há um envelope com uma tulipa da cor azul ao lado. Franzo minha testa.
Agacho-me e os pego sem entender. Fecho a porta e volto para o sofá enquanto encaro o envelope pardo em minha mão. A única coisa escrita no mesmo é o número um em algoritmo romano.
Abro a carta sem conseguir conter a curiosidade, não faço ideia de quem mandou já que não possui identificação. Dou ombros e a abro para que eu consiga ler.
"Querida Clare,
Sei que deve ser muito estranho receber uma carta minha depois de tudo o que aconteceu. Mas eu precisava fazer isso, por você.
Acho que eu devia isso a você, mesmo depois dos nossos caminhos terem se separado. Apesar das distâncias gigantescas entre mim e você, ainda penso em seus lindos olhos azuis, se eles ainda possuem aquele mesmo brilho daquele dia em que fomos no parque de diversões, e depois ficamos horas e horas no jardim atrás da sua casa, enquanto você segurava o Ben no seu colo. Ainda não entendo o porque de você ter dado esse nome para aquele urso que eu ganhei em uma daquelas barracas, mas acho que naquele dia a sua felicidade era tudo o que eu poderia me importar. O resto não me interessava.
Nunca pensei que eu encontraria alguém que me entendesse tanto como você me entendia. Eu podia sentir que algo nos conectava enquanto olhava nos seus olhos, e o que eu mais queria naquele dia Clare, era ter a certeza que você sentia o mesmo que eu sentia. Porque eu com certeza estava caindo cada vez mais no abismo que era você. Nunca pensei que um parque de diversões poderia se tornar algo tão mágico, e que apenas uma conversa casual poderia fazer alguém ficar totalmente nas nuvens. E você me mostrou que era possível.
Aquelas horas em que ficamos naqueles balanços, na verdade pareceram segundos, e eu faria de tudo hoje para tê-los outra vez. Porque foi nesse dia Clare, que eu tive a mais bela certeza de todas:
Eu estava completamente apaixonado por você.
Sempre seu,
Ethan."
Lágrimas e mais lágrimas caem. Seguro o papel pardo em minha mão com força, como se ele pudesse escapar a qualquer instante. Soluços escapam de meus lábios.
Isso só pode ser uma espécie de brincadeira de mal gosto.
Toda a dor que tento afastar volta com força. A dor da saudade.
Leio seu nome outra vez e me desespero.
Pego a tulipa que está ao meu lado e a observo, isso só poderia ser algo vindo dele. Mas como? Isso é impossível.
— Não pode ser você, Ethan. — Falo ao sentir mais lágrimas em minha bochecha.
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