003


CHARLOTTE

 Amber revira os olhos pela terceira ou quarta vez, em menos de trinta segundos. Minha irmã fala para o marido parar de rotular o filho e eu estou arrependida de ter optado voltar com eles, ao invés, de continuar no coquetel com meus pais.

Será que ainda dá tempo de voltar atrás?

— Talvez ele queira ser cantor, pintor, dançarino ou sei lá o quê, Bruce! Pensou nessas possibilidades? — meu cunhado contém um largo sorriso, o do tipo que grita " GAROTO DE OURO" no rosto e para de andar.

—Eu não ligo, linda, mas algo me diz que ele será um artilheiro e ninguém tira isso da minha cabeça.— Bruce acaricia a barriga da minha irmã e sorrir feito bobo. Amber apenas encerra o assunto e se queixa de dores nas costas.

—Também olha o tamanho dessa barriga, ficaria surpresa se você não estivesse sentindo dores. — Apontei para sua barriga e ela apenas deu de ombros como se concordasse comigo.

—Faltam apenas dois meses— ela disse confiante.

Fiz careta.

Pensando que eu não aguentaria esperar tanto.

—Isso se ele não resolver chegar antes. — comentei e, de repente, o clima mudou.

Amber me olhou com expressão irritada e Bruce a encara assustado.

Opss.

Mordo minha língua como se isso pudesse trazer as palavras de volta e sussurro um sinto muito para ela.

—Ela também acha que pode acontecer. Não posso te deixar sozinha, vou pedir minhas férias! –Bruce tinha os olhos esbugalhados e mantinha a expressão de assustado no rosto quando dei um passo para longe deles, da forma mais discreta possível. Eu não tinha a intenção de desencadear outra discussão entre o casal perfeito, mas sabia que sobraria pra mim se não saísse daqui logo.

—Calma, amor. Minha gravidez está sendo monitorada por bons médicos e tudo ocorrerá no tempo certo. — Amber tenta tranquilizar o marido e apresso meus passos, sentindo seu olhar ácido queimando minhas costas.

—Não sei, não. Você anda sentindo tantas dores e seus pés estão inchados.

—Eu estou bem, querido. Está vendo o que você fez, Charlotte! —Minha irmã grita e eu paro, oferecendo um sorriso para o sr e sra. Jonson. Um casal de idosos que eu amo conversar.

—Relaxa homem, minha irmã e meu sobrinho estão bem. Esse garotão só chega daqui a dois meses, então fique calmo. Sem histeria ou neurose, obrigada.

Vou até Bruce e dou dois tapinhas em seu ombro, correndo para longe assim que eles voltam a falar um com o outro.

— Você está realmente bem, amor?—Na verdade não, estou com uma vontade enorme de comer o hambúrguer da Donna.

Enquanto meu cunhado e irmã discutem sobre comida, meus olhos são atraídos para o casal do outro lado da rua, a garota me parecendo familiar apesar da pouca iluminação. Ela é bonita mesmo de perfil, com longos cachos pretos até o meio da cintura, o oposto do meu castanho que só contém pequenas ondas nas pontas. Asheley. O homem que conversa com ela, tocando-a no ombro em um gesto de consolo é Elijah. Eu não o vejo desde o fim de semana, quando tivemos que trabalhar juntos no orfanato.

Ele nunca apareceu para o jantar naquela noite, quando sondei com mamãe ela disse que ele havia cancelado porque precisava ficar até tarde no hospital. Vai entender.

—Charlotte?

—Charlotte? —alguém chama.

—O que houve?

— Você está bem, cunhadinha? Te chamei duas vezes. — obrigo meus olhos abandonar a cena e focar em Bruce.

— Claro! O que foi?

—Você acha que mamãe tem kiwi em casa?

—Acho que vi alguns ontem a tarde, Amber.

—Ótimo, conseguimos os morangos. —Bruce falou entusiasmado e eu forcei um sorriso.

—Agora só falta o sushi. — Amber falou, acabando com a felicidade do pobre homem. Ele diminui o sorriso e percebo minha irmã mordendo o lábio inferior para abafar a risada.

— Não fala em sushi, docinho, meu estômago embrulha só de ouvir a palavra.

— Vocês dois são estranhos. — falei fazendo careta.

—Estou com água na boca só de imaginar. Vamos logo pra casa, pedirei pra mamãe fazer aquela torta de morango que só ela sabe fazer.

Bruce abre a porta do carro enquanto eu aproveito para mirar mais uma vez o lugar onde Elijah e a garota conversavam, mas eles haviam sumido.

—Oh, será que mamãe tem mel? Ficaria ótimo com abóbora cozida. — volto minha atenção para ela e estreito meus olhos.

—Vamos logo, Charlotte. Quer que seu sobrinho nasça com cara de abóbora?

Revirei os olhos para minha irmã e entrei no carro.

—Pensando melhor, nada me faria mais satisfeita do que kiwi com sal. —Amber resmungou lambendo os lábios.

 Afundei ainda mais no assento, batendo a porta e puxando meu fone de ouvido da bolsa e os colocando antes que Bruce iniciasse sua playlist sem graça. Ele deu partida no carro logo em seguida, balançando a cabeça em negativa assim que minha irmã começou a reclamar do cinto pressionando contra sua barriga redonda. Meu dedo deslizou pelo botão que controla o volume no celular e coloquei na altura máxima, abafando as vozes de Bruce e Amber enquanto tentava me perder na melodia e não pensar no paradeiro de Elijah Vaugh.

Estávamos apenas dez minutos no carro, mas ainda foi uma tortura. Cada música que meu dedo clicava parecia servir de trilha sonora para os olhos azuis de Elijah e a garota misteriosa, então eu desisti e resolvi puxar assunto com minha irmã, porém ela estava de péssimo humor e acabamos brigando. Nenhuma novidade.

— Apenas esqueça. — resmunguei quando ela tocou no assunto faculdade novamente, agradecendo mentalmente por Bruce pegar um atalho na última curva.— Eu apenas quero o melhor para você, Lotte.

Lotte.

Urgh.

— Certo. — murmurei de volta.  

 O silêncio se instaurou e de longe podia avistar minha casa.

— Elijah perguntou por você. —Bruce disse do nada, batendo os dedos contra o volante e me olhando pelo espelho retrovisor. Meu corpo ficou tenso por cinco segundos antes que eu pudesse balançar os ombros e mudar minha expressão.

Seja menos óbvia, garota.

Minha irmã se virou para ele e depois para mim, a sobrancelha esquerda erguida em busca de respostas. Não aqui, querida.

 Dei de ombros, mesmo com a língua coçando para perguntar sobre o quê exatamente ele perguntou.

— Elijah Vaugh? Nosso vizinho? — Amber perguntou e eu quase revirei os olhos.

— Meu vizinho, você não mora mais aqui. — disse, dando mais lenha para a fogueira sem perceber.

Um sorriso surgiu nos lábios dela. 

Droga!

— Vocês estão juntos? — ela perguntou ao mesmo tempo que Bruce estacionou. Olhei para o portão, contando meus passos até ele e calculando se fugir da pergunta dela era uma boa ideia.

— Não.

— Ele é bonito. — ela respondeu e Bruce rosnou irritado.

— Ei!

— Oh, querido, você é muito mais. — Amber se curvou para beijar a bochecha do marido e aproveitei para sair do carro.

Meu erro.

Do outro lado da rua, com as costas apoiadas no próprio carro, Elijah acena para mim.

— Oh. — Amber diz de dentro do carro, mas eu não me viro para olhar para ela, focada no homem que parecia um anjo caído mostrando os dentes em um sorriso psicótico.

— Boa noite. — falo para minha irmã e cunhado sem realmente me virar para uma despedida, abrindo o portão e batendo com força.

Quem era aquela mulher com ele e por que estou tão obcecada com ela?

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