002

CHARLOTTE

 O meu dia não tinha começado nada bem, para início de tudo, o despertador estava aparentemente quebrado. Por conta disso, perdi a hora e cheguei atrasada no orfanato. Tive que encarar o mau-humor de Elijah e seu discurso sobre compromisso em silêncio, ainda por cima, perdi boa parte da noite e não dormi bem. Tive que dedicar um terço da madrugada procurando inspirações para o figurino da nova peça de Aphril. Dessa vez, vou fazer a de todo o elenco e já estou me perguntando onde me meti.

—Nós somos bons juntos. —Elijah fala, me tirando dos meus pensamentos, enquanto arruma as cadeiras, empilhando-as uma a uma.

Somos bons juntos?! 

O que diabos isso significa? Quis perguntar, no entanto, ele pareceu notar meu espanto e completou logo em seguida.

— Somos bons trabalhando juntos. — emendou, parecendo genuinamente feliz, mas eu estava perplexa demais para concordar.

— É por sua causa, as crianças estavam todas me olhando com desconfiança até você aparecer. Elas gostam de você. — ele me olhou como se não acreditasse no que acabei de dizer. Dei de ombros.

— É a verdade, Elijah.

— Não tire seu mérito com tanta facilidade, foi você quem conseguiu cativá-las. Você sempre consegue cativar. — disse voltando a atenção para as cadeiras.

Encarei suas costas por mais de um minuto, refletindo sobre o que acabara de escutar do homem. No passado quem sabe, fui esse tipo de garota, mas atualmente não. Não consegui evitar quando o sorriso brotou em meus lábios, ocasionado pelas lembranças antigas que suas palavras trouxeram. Momentos de nós dois juntos, conversando e compartilhando sonhos.

Contamos a história de Ester para as crianças e pude ver os olhinhos de cada um deles brilharem quando falamos do Rei Assuero e da Rainha Ester, uma menina que foi obediente e corajosa pra salvar seu povo. Ponto pra mulheres eu falei arrancando palmas e sorrisos das meninas e caras feias dos garotinhos, acabei explicando que aquilo não era uma competição e que todos deveriam se orgulhar da bravura de Ester. Talvez seja o meu lado romântico falando, mas imagine casar com um Rei dentre tantas outras concorrentes.

Acho que li um livro parecido um dia desses.

O Rei não era nenhum "cara exemplar" e aquela época não era favorável para as mulheres, não gosto de imaginar que uma mulher precisou ser descartada para outra reinar também.

—E-Ei... terra chamando. —Elijah balança a mão na altura dos meus olhos, batendo na lateral da minha cabeça quando pisco e encaro seu rosto sem óculos.

— O quê?— questionei, fugindo dos seus olhos. Eles eram perigosos quando não tinham a camada de vidro protegendo-os. Tão zuis e intensos quanto o mar revolto em dia de tempestade.

—No que estava pensando?—Ele mantinha o semblante curioso, o olhar me seguindo a cada passo que eu dava para longe dele.

— Nada.

—Aposto que era uma das suas fantasias entediantes e mirabolantes que insiste em ler.

— Idiota. —Empurrei seu ombro para afastá-lo, mas minha mão roçou na sua e minha pulseira prendeu no relógio dele. Parecendo entender que estávamos muito próximos, ele se adiantou e conseguiu nos liberar, perdendo um botão no trajeto.

— Charlotte.

Eu parei meus movimentos, segurando a cadeira no ar.

—Não me chame assim.

Ele franziu a testa.

— É o seu nome.

—Sim, mas você não costuma usá-lo com frequência quando estamos sozinhos, então eu sei onde isso vai parar. —falei, começando a formar minha própria pilha de cadeiras.

—Vejamos, você não gosta quando te chamo de princesinha e não gosta quando te chamo pelo nome? — pensei sobre isso por um segundo, disposta a oferecer uma resposta inteligente, porque eu sabia, eu simplesmente sabia que essa conversa era só mais um dos seus joguinhos mentais.

— Que tal esquecer da minha existência!? —Aquilo soou como uma pergunta, apesar de que a real intenção era afirmar o meu desejo de ser chamada exclusivamente pelo meu nome, mas ele sempre fazia piada com ele e eu não queria ouvi-lo me chamar por Charlotte como se fôssemos amigos ou algo do tipo.

— Improvável, princesa.

Ele encaixou a última cadeira na enorme pilha, colocou o óculos de volta no rosto, apanhou sua mochila do chão e acabou com o espaço entre nós.

— O que está fazendo? — questionei quando ele deslizou o dedo indicador pela minha bochecha e afastou uma mecha de cabelo para trás da minha orelha.

—Você está zombando da minha cara?— perguntei.

Ele negou com a cabeça.

Eu engoli a saliva na minha boca com dificuldade.

— Não. — falou, ainda tocando meu rosto. A sensação dos seus dedos contra minha pele era suave, quase imperceptível, mas ainda queimava.

— Eu não quero que você me toque. — confessei.

—Você realmente me odeia? — por um segundo, lembrei de quando o conheci e pensei que ele fosse um príncipe, eu fiquei tão empolgada que o segui o dia todo, mas então... ele me empurrou contra a parede e gritou para que eu parasse de segui-lo. Não, eu não o odiava tanto assim.

Porém, ele não precisava saber, então apenas dei de ombros e indiquei a porta da sala com a cabeça.

— Preciso ir. — falei.

— Charlotte. — chamou quando dei um passo, segurando meu braço e deixando nossos rostos próximos. A pele do meu pescoço esquentou, o aroma que vinha dele era familiar, uma fragrância que lembrava o meu doce favorito. Torta de limão.

Precisei de meio segundo depois dessa constatação para perceber que precisava variar meu cardápio. A mão dele escorregou até o meu cabelo e um dos seus dedos enrolou uma mecha.

—Você quer que eu pare, Lotte?— ele brincou com meu nome, deslizando a abreviação pela língua como um doce suculento, sem piscar, e eu não sabia se ele estava falando das piadas, do toque ou outra coisa. Limpei a garganta, coloquei um novo espaço entre nós, sorri e fiquei com a primeira opção. — Porque eu não sei se  conseguiria.

Meu corpo se contorceu ao seu toque.

O fato dele me chamar pelo meu apelido de infância nos tornava íntimos e por alguma razão distorcida, gostei disso. Muito mais do que deveria.

— Apenas pare. — consegui sussurrar.

— Tem certeza?

Bati na sua mão e recuperei meu espaço pessoal.

— Você está estranho hoje.

Ele sorriu sem mostrar os dentes, parecendo sem jeito e murmurou uma sequência de palavras desconexas.

—Faça como quiser, eu já estou indo. — ele disse, voltando a sua postura de indiferente e estoico.

Não podia dizer que eu preferia que ele continuasse com os apelidinhos e bom humor por causa do meu orgulho.

— O quê? Você não pode ir e me deixar aqui!

Elijah arqueou uma sobrancelha, desceu o olhar pelo meu corpo e parou nos meus pés, corta isso, ele encarou meus saltos de quinze centímetros e sorriu como só um psicopata faz.

—Até mais tarde, princesa. —ele falou, piscando. Coloquei as duas mãos na cintura e imitei o olhar da minha mãe.

— O que quer dizer com mais tarde? — pressionei as sobrancelhas juntas, buscando respostas em sua expressão estoica, mas tudo que consegui foi um sorriso arrogante.

— Sua mãe me convidou para o jantar.

— Por quê?

Seu rosto endureceu e quase posso jurar que algo como decepção brilhou nos seus olhos.

— É apenas um jantar, Charlotte. Relaxa.

Apertei meus lábios, porque tudo em mim gritava que não era só um jantar.

— Tanto faz. Você vai me ajudar? Ele estudou a pequena sala com uma expressão séria, mas eu deveria saber que olhos de cachorrinho não funcionam com ele.

— Não.— Você não pode me deixar aqui! Elijah! Volta aqui.

— Lave o banheiro também, as garotas já tem muito nas costas dela e você pode fazer isso como uma boa garota, não pode?

— Vá para o inferno!

— Oh, não, princesa. Eu sei o caminho do paraíso. — seu tom soou sugestivo, mas ignorei isso também.

— Eu nunca limpei banheiro, Elijah. —confessei. Ele parou por um segundo, metade do corpo fora da sala e esperança me encheu.

— Aprenda.

Apertei os olhos e arremessei a primeira coisa que encontrei. Minha bolsa.

— Idiota!

— Te vejo no jantar, princesa.

Ele gritou do corredor, provavelmente sorrindo. Eu o odeio tanto. Por que diabos mamãe convidou ele para jantar novamente?

Afastei meus pensamentos disso e encarei o esfregão com balde que duas freias trouxeram para limpar a sala e esqueceram, então olhei na direção do banheiro e fiz uma careta.

Não pode ser tão difícil.

De qualquer forma, isso vai ter volta.

Ele que se prepare para esse jantar.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top