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CHARLOTTE
14:45.
O alarme do meu celular toca alto e aperto meu lábio inferior entre meus dentes com mais força.
Termino a última passagem do livro com pressa, repetindo a última frase duas vezes antes de erguer os olhos e encontrar minha irmã mais velha. Amber está parada na porta do meu quarto com um olhar de desaprovação, e embora eu já esteja acostumada com seus olhares intimidadores, ela perdeu o direito de me criticar quando completei dezoito anos e me tornei uma adulta. Pelo menos, foi o que nossa mãe declarou a meia-noite daquele dia. Dois anos atrás. Sem falar que Amber nunca me entendeu, ela nunca conseguirá, considerando que nunca teve de lidar com as piadas e olhares das outras crianças por suas "dificuldades sociais".
Bufo.
Eu tive.
—Você tem que sair dessa neurose de casar, Charlotte.— ela comenta, desviando o olhar do título do livro que acabei de finalizar para o meu rosto.
—Eu já tenho vinte anos! —Exclamei, erguendo-me do chão e virando para o lado oposto do dela.
— Charlotte.
Finjo mexer na prateleira de livros quando ela cruza a distância entre nós e senta na cama.
Buscando fugir da sua conversa repetitiva e espinhenta, pego o caminho da porta e ignoro seu apelo por um diálogo "adulto".
Menos de cinco segundos.
Fui eu, dessa vez.
Nós nunca teremos um bom relacionamento.
—Isso mesmo, vinte anos e ainda nada de faculdade. —Ela mantém o cenho franzido quando viro para encará-la, a mão esquerda apoiada na enorme barriga de sete meses sob o vestido floral que dei no seu aniversário, um mês atrás, desenhado e confeccionado por mim.
Eu bufo.
Ela é a merda de um clichê ambulante.
A filha perfeita.
—Faculdade não me interessa, não vai fazer diferença alguma na minha vida. Eu apoio e incentivo qualquer um que tenha esse sonho de se formar, mas eu não tenho, Amber. Nossos pais são ricos. —respondo com a mão já posta sobre a maçaneta da porta, pronta pra girá-la e fugir da conversa repetitiva e sem lógica. Ela nunca entenderia meu ponto de vista, somos o completo oposto uma da outra hoje em dia. Ela está convencida de que sou mimada e sem perspectivas, eu acho que ela parece muito mais com uma avó do que irmã.
Enquanto Amber é uma promissora advogada no escritório do nosso pai, eu passo meus dias no shopping ou ajudando Aphril na confecção de figurinos, geralmente são seus figurinos ou dos seus colegas de teatro. Na verdade, eu meio que faço essa parte e ela repassa os textos uma e outra vez, mas eu não me importo.
Minha irmã segura meus ombros e me força a encará-la, deixando-nos uma de frente pra outra, ela me olha com preocupação e lembro das palavras do médico sobre seu estado atual de saúde, então decido não rebater suas palavras e desencadear uma discussão.
—Casei aos vinte e quatro anos e foi porque Bruce estava ansioso demais, tínhamos tudo ao nosso favor. — Amber fala, olhando-me como se estivesse tentando encontrar o caminho para os meus pensamentos.
Impossível.
Eu finjo prestar atenção no que ela diz, mas não estou.
Bruce, meu cunhado e o marido dela foi também seu terceiro namorado. Antes disso ele namorava com uma de suas amigas do colegial e, segundo minha irmã, ambos mantinham uma relação de amizade naquela época e ela não tinha interesse nele. Quando ele terminou com Cibele, confessou seus sentimentos por Amber e foi embora para Nova York no dia seguinte. Minha irmã não me contou os detalhes daquela noite, mas disse que nunca namoraria o ex de uma amiga, quando ele voltou dois anos depois e pediu uma chance, ela não considerou a amizade com Cibele algo tão importante.
Para mim, ela grita hipocrisia.
—Casamento não é tudo. Você não deveria se preocupar tanto com isso. —Ela mira a porta atrás de mim enquanto pronuncia cada palavra e me pergunto se ela realmente está falando comigo ou sozinha.
É um conselho engraçado, vindo de alguém casada e supostamente feliz, pelo menos é isso que eles transmitem quando estão juntos, felicidade. Talvez eu esteja errada e aquele casamento não esteja indo tão bem.
Faço uma nota mental para checar sobre isso com mamãe depois.
—Você sabe que sonho com isso desde os treze anos, então não tente despejar suas frustrações em cima de mim, Amber.— Falei enfatizando o número treze, pois tudo começou naquela época e ninguém poderá me fazer mudar de ideia.
Amber retirou as mãos dos meus ombros, inspirou fundo e voltou a me fitar. O seu olhar carregava o peso dos anos entre nós duas, sendo apenas sete anos mais velha, ela ainda conseguia impor a imagem de alguém infinitamente mais sábia e segura de suas palavras. Então, esperei pacientemente o que ela ainda tinha pra falar.
—Minha doce irmã, o tempo passa e você precisa amadurecer e entender que nossas escolhas podem ter consequências irreparáveis. –A última palavra foi dita com mais precisão, quase como uma confissão.
—O que quer dizer?—Perguntei, mesmo já imaginado todas as possíveis respostas.
—Você sabe quantos erros cometi na adolescência e como sofri com eles. Quando olho pra você e te vejo inebriada de pensamentos românticos, tenho medo.
Medo.
Essa era a palavra-chave pra explicar quase tudo na minha vida.
Medo.
Medo.
Medo.
Diminuí o espaço que havia entre nós e estendi meus braços ao redor de seu tronco. Suas palavras bateram em cheio, fazendo um frio se implantar em meu estômago e lágrimas suspenderem em meus olhos.
—Eu não sou você. —Falei quase em um sussurro, mas pelo fato de nossa aproximação, ela ouviu.
—Espero que não. —Ela pronunciou com a voz embargada, enquanto acariciava minhas costas e falava coisas inaudíveis.
Depois de quase um minuto, Amber finalmente me soltou e apontou para os papéis espalhados na minha cama, pegando e estudando meu último desenho com as sobrancelhas unidas. Eu suspirei e corri, recolhendo as folhas e enfiando-as de volta na pasta.
— Mamãe já viu? — apertei meus lábios, puxando o desenho da sua mão e guardando junto da pasta na última gaveta da cômoda.
— O que você acha? — cruzei os braços. Eu já estava ficando de mau-humor.
Amber assobiou.
Porque claro que ela sabe assobiar.
— Acho que ela adoraria ter uma filha para falar de arte.
Eu bufo.
Nossa mãe é uma artista plástica renomada e tem obras espalhas pelo mundo todo, tendo um olhar clínico e extremamente crítico, já descobriu muitos outros artistas e montou sua própria galeria, mas a ideia dela julgando meus desenhos faz meu peito apertar.
— Não, obrigada.
— Por quê? Você tem talento e ela amaria te exibir. — não posso deixar de perceber que ela diz a última parte com certo pesar, quase como se dizer as palavras em voz alta a machucasse de alguma forma.
— Você está realmente falando de Florence Montgomery? A mesma mulher que desistiu de me amamentar porquê isso atrapalharia seu tempo de esculpir?
Amber suspira, dando-me um olhar de "sinto muito" antes de tentar uma aproximação.
Eu balanço a cabeça em negação.
Nós duas sabemos que nunca fui a favorita da nossa mãe, mas dispenso piedade, porque eu definitivamente superei Florence anos atrás.
— Apenas esqueça o que viu aqui e nunca diga nada sobre isso para ela.— falo.
Florence e eu partilhamos o amor pelo belo, nós duas apreciamos uma boa peça de teatro e livro, mas é só isso. Ela expressa sua opinião por meio de cada criação, e eu desenho vestidos.
Ela nunca aceitaria nada além de incrível, e já ficou claro o quão fútil ela me considera.
— Tudo bem, eu prometo. Você vem para o jantar? Papai quer fazer um comunicado.
— Sim.
— Charlotte?— ela chama após um longo silêncio e a encaro sob o ombro.
Arqueio a sobrancelha impaciente quando ela permanece em silêncio.
— O quê?
— Eu estive pensando e acho que está na hora de falarmos para o nosso pai o que aconteceu.
Meus músculos tensionam.
— Não!— praticamente rosno em resposta, incapaz de controlar minha raiva.
— Mas talvez você precise de ajuda.— argumenta e empurro a picada incômoda no estômago.
— Você prometeu, Amber.
Ela suspira, então encara os pés no lugar dos meus olhos.
— Eu sei.—murmura, mas algo no seu tom não me parece convincente.
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