26. Velhos Amigos!

Oii leitores, sejam bem-vindos a mais um capítulo. Espero que gostem! 😉
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ANTES

•°• Gustavo •°•

Desço as escadas e vou direto para a cozinha pegar um copo de água, mas leva um susto ao ver minha irmã debruçada no balcão devorando pedaço de torta que minha mãe preparou para a festa.

-- E isso é hora para criança ainda estar acordada? -- pergunto com sarcasmo.

Hannah me mostra o dedo do meio e revira os olhos.

-- Eu não consigo dormir, tive um sonho com o Fábio, ou foi um pesadelo. Não entendi nada.

-- Eu também sempre tenho pesadelos com ele. -- admiti colocando água no copo.

-- É estranho. Sabe sermos apenas eu e você. Somente nós dois para o resto da vida. -- ela coloca um pedaço da torta na boca -- Nós não vamos conhecer os filhos que ele teria e nem ele vai poder nos ver envelhecer. É como se tivesse um buraco na nossa vida, como se estivesse faltando um personagem importante na nossa história. -- ela suspira -- O nosso irmão não está mais aqui. Ele nunca mais vai estar, a não ser nas nossas memórias e nas fotos espalhadas por toda essa casa. -- a voz dela começa a falhar -- Eu só me sinto triste por não ter passado tanto tempo com ele. -- lágrimas escorrem por suas bochechas e sinto uma fisgada no peito -- Eu só não quero ficar sozinha. Tenho medo de acabar perdendo você também.

Hannah pós as mãos sobre o rosto ao apoiar os braços na bancada e eu larguei o copo de água sem nem ainda tomá-lo, me aproximei dela a envolvendo em um abraço.

Sem querer acabei lembrando da conversa que tive com a Maya há algumas horas atrás, e também logo percebi que lágrimas escorriam no meu rosto, carregadas de mágoas e culpa.

Fico ao lado de Hannah até que ela se acalmar-se e quando me dou conta ela tinha pegado no sono. Com cautela a peguei no meu colo e a levei até seu quarto, onde a deitei na cama e lhe cobri com o edredom.

Observando os portas retratos que estavam nas prateleiras próximas ao computador peguei um onde na foto eu estava com os meus irmãos. Éramos ainda crianças e me lembro quando aquela fotografia foi tirada, era um Natal em que passamos na casa dos meus avós. Fábio estava com Hannah em suas costas enquanto eu tentava entregar um algodão doce para ela, por instante pude sentir a saudade que Hannah se referia ao me lembrar dos bons momentos.

Embora Fábio e eu sempre brigarmos por algo e sermos tão diferentes na aparência e personalidade, nós tínhamos momentos de paz e entendimento entre irmãos. Mas... Quando lembro das besteiras que ele diziam e fazia, sinto que talvez a sua partida tenha sido um livramento, mas ao mesmo tempo sinto raiva por pensar assim.

Ponho o porta retrato no lugar que estava e saio do quarto da minha irmã.

Penso em ir para o meu quarto e voltar a dormir, mas os pensamentos que parecem gritar dentro da minha cabeça não permitem. Me sento no sofá encostado minhas costas nas almofadas e olha para o teto na intenção de aquilo me fizesse pegar no sono, mas nada adianta.

Estando sem um pingo de motivação para dormir, decido fazer o que eu não faço há muito tempo. Pego meu celular na mesinha de centro e disco os números.

-- Alô. Você estava dormindo?

-- Ah... Não. -- a voz responde embriagada de sono.

-- Tá a fim de dá uma volta?

-- Tá. Eu chego aí em uns 15 minutos.

Desligo o celular e subo rapidamente para trocar de roupa. Assim que escuto a buzina do carro saio cuidadosamente de casa.

-- Que milagre foi esse, cara? Você me ligar em plena 02:45 da manhã para ir dar uma volta, é sério isso?

Abro a porta e entro no veículo.

-- Foi mal. Eu não estava conseguindo dormir e a Hannah me falou umas coisas sobre o Fábio que deixaram um pouco culpado.

Rubén gargalha e sinto vontade de socá-lo por estar rindo dos meus problemas.

-- Você sendo você. Que novidade, Gustavo.

Ele começa a dirigir.

-- Tá. De quem é esse carro?

-- Do Martin. Como ele ainda não foi buscá-lo para levar pra casa nova, eu e o Juan estamos tomando conta.

-- Meu Deus, o Martin perdeu o juízo se acha que você é muito responsável.

-- Cala a boca, eu sou um bom motorista.

Ele dobra na esquina da marginal ao passar por um semáforo.

-- Sim você é, só que nos seus sonhos. -- debocho -- Se duvidar até a minha irmã dirigi melhor.

Rubén me olhou de soslaio e seus ombros ficaram tensos.

-- Falou o cara que no primeiro dia que ganhou um carro novo arranhou a lataria em um hidratante.

Franzi o cenho.

-- Como você ficou sabendo disso?

-- A sua irmã me contou no acampamento. E você não tem noção do quanto eu ri. -- ele buzina para um carro -- Depois eu é que sou um péssimo motorista.

-- Espera aí, por que você tava com a minha irmã?

-- É, eu tava tomando um ar e ela apareceu porque não tava conseguindo dormir -- ele segura o freio de mão ao se aproximar da praia .

-- Olha se você tiver feito algo com a minha irmã, eu vou...

Rubén deu um pulo para trás.

-- Tá doido, é? Eu posso até ser um irresponsável, mas eu jamais faria algo com a Hannah. É a Hannah, cara! Ela é como uma irmã pra mim. E além do mais nós apenas conversamos.

Assenti.

Nós saímos do veículo e nos sentamos no capô.

Rubén me ofereceu um cigarro, mas eu recusei. Detesto esse tipo de hábito.
Abri uma latinha de cerveja que ele trouxe do apartamento dos meninos e a bebi tentando relaxar um pouco. Eu sou o sujo falando do mal lavado, que raiva!

Observei calado as ondas do mar se chocarem nas pedras da costa.

-- Então, o que realmente deu em você? -- Rubén pergunta liberando a fumaça no ar.

-- Eu contei tudo para ela. -- admiti sem desviar o meu olhar, mas pude perceber que Rubén ficou impressionado.

-- Tudo, tudo?! É sério mesmo?

-- Sim. Nós estávamos no jantar e a Daphne tocou no assunto de forma indireta, mas foi o suficiente pra atiçar a curiosidade da Maya. -- digo tomando mais alguns goles da bebida -- Eu até pensei em mentir, mas me sentia tão sufocado que preferi despejar tudo de uma vez. É, se fosse para assustá-la seria naquele momento.

-- Caralho. E como ela reagiu?

-- Bem, no início ela ficou um pouco chocada e tensa, mas depois perdoou os meus erros quando percebeu que eu me redimi.

-- Meu Deus -- ele dá uma risada abafada -- Se ela ficou chocada com isso, imagina quando ela descobrir para onde nós vamos em Dezembro.

Coloquei a lata no capô do carro e abracei minhas pernas ao ergue-las até meu peito.

-- Isso não, Rubén. Ela não pode saber que eu não consegui fazer meu pai mudar de ideia e que nós vamos embora. Eu não posso deixá-la aqui após tanto tempo tentando reencontrá-la. -- olho para ele -- Não seria justo com nenhum de nós.

-- Isso é verdade. -- ele fumou mais um pouco e se deitou no capô -- Mas nós estamos em Junho, e temos exatamente sete meses para você contar para May e para nós conseguirmos reverter essa situação. -- ele suspira -- Sabe, eu não quero passar os meus próximos 4 anos de vida na Espanha só porque o seu pai acha que um bando de adolescentes que são obrigados a irem para aquela empresa, são o melhor futuro que aquele lugar poderia ter. Nós nem somos tão responsáveis assim.

-- Você tem razão. -- bebi o restante da cerveja -- Sabe, quando nós éramos crianças eu tinha inveja de você. -- revelei.

Rubén me encarou completamente surpresa ao ponto de deixar o seu cigarro cair no chão.

-- Como é? Acho que não escutei direito.

-- Eu sentia inveja porque você tinha coragem de lutar por aquilo que queria, enquanto eu não conseguia nem a menos enfrentar o meu próprio pai.

-- Tá reclamando de quê? Pelo menos você tem uma mãe, que se foda todo o resto!

-- Isso virou uma competição? Pelo menos você não teria que ficar na sombra de ninguém ou ser apenas uma marionete nas mãos dos outros.

-- Mas mesmo assim você tem uma mãe, e não tem a menor ideia do que é crescer sem uma.

De repente o clima ficou um pouco tenso, mas ele começou a rir quebrando o gelo, eu não consegui resistir e acabei rindo junto com ele e por um instante parecia que o tempo não tinha passado e que nós ainda éramos aqueles velhos amigos.

-- Eu preciso te pedir uma coisa. -- digo ao recuperar no fôlego.

-- Se for para que eu me afaste da Maya, a resposta é não. Eu gosto da companhia dela e não é porque vocês são namorados que eu vou me afastar. -- ele diz se levantando.

-- Não é isso. Até porque se eu pedisse algo do tipo para cada amigo que a minha namorada fizesse seria uma relação muito tóxica para ambos. -- me levanto -- Eu só quero te pedir desculpas, sabe por tudo que eu te fiz passar. Você não teve a menor culpa em nada, eu que fui imaturo demais. Então, será que você conseguiria me perdoar?

Rubén me encarou e balançou sua cabeça em negação, mas logo um sorriso brotou em seu rosto e ele deu um tapa nas minhas costas.

-- Tá tudo bem cara, eu já te perdoei há muito tempo. Sabe você é o irmão que eu nunca tive.

-- E você é o irmão que eu tive, só que em uma versão melhorada.

Nós rimos de novo. Rubén e eu começamos a jogar pedrinhas no mar.

-- Sabe, agora já que estamos nesse clima de reconciliação... Será que eu posso ter o meu melhor amigo de volta? -- ele estende a mão direita para mim.

Sem hesitar eu a peguei.

-- Só se você me deixar ganhar no próximo jogo.

-- Nem pensar.

Nos abraçamos dando tapinhas nas costas um do outro.

-- Eu senti a sua falta, cara.

-- Eu também senti a sua. Agora vamos parar com esse papo que ele tá ficando esquisito.

Entramos novamente no carro e durante todo o trajeto da minha casa ficamos jogando conversa fora sobre tudo que aconteceu desde que paramos falar. Era um pouco estranho retornar um relacionamento tão antigo, mas ao mesmo tempo era a libertador ter o meu amigo de volta.

Entro com cuidado em casa para que ninguém pudesse desconfiar que estou voltando as quatro horas da manhã, mas tudo que é fácil de se conseguir nem sempre termina bem.

-- Onde você estava? -- meu pai pergunta aparecendo no topo da escada que eu estava prestes a subir -- Não me escutou, Gustavo? Para onde você foi uma hora dessas da madrugada?

Cruzo os meus braços ao encará-lo e ele faz o mesmo gesto.

-- Já sou maior de idade, esqueceu? Eu não lhe devo explicações sobre os meus atos.

Meu pai começou a descer lentamente cada degrau.

-- Você pode até ser maior de idade, mas ainda é um irresponsável que usufrui do meu dinheiro e que mora na minha casa, então sim. Você me deve explicações sobre os seus atos, Gustavo!

-- É claro, até porque você nunca sabe fazer uma abordagem tranquila, né? Sempre tem que agir como se estivesse no controle de tudo.

-- Gustavo, eu apenas te fiz uma pergunta e quero que me responda. -- ele ergue as mãos -- Onde você estava e com quem? Você está cheirando a bebida barata.

-- Eu estava com o Rubén, nós fomos beber um pouco. Satisfeito?

Ele deu uma risada irônica que me causava calafrios.

-- Não acredito que você já voltou a andar com aquele inconsequente. -- ele parou no degrau que estava na minha frente -- Mas ainda bem que foi com ele, eu pensei que estivesse fazendo isso com a Maya, e sinceramente eu teria que mudar minha visão sobre ela.

-- Como se eu precisasse da sua aprovação para ficar com a minha namorada.

-- Bem, se ela não fosse de uma família de berço provavelmente você iria precisar sim.

-- O que o senhor está querendo dizer?

-- Eu não vou repetir, Gustavo. Você entendeu, mas agradeça pela sorte que você teve de se apaixonar pela garota certa. -- ele sorrir -- Eu gosto dela, a determinação que ela tem para conseguir o que quer é algo impressionante. Ela sabe manipular as suas vontades, mas embora eu a adore e admire todas as qualidades que ela tem, os meus planos para o seu futuro não podem ser adiados por causa de uma garota bonita a quem você caiu nos encantos.

Engoli em seco ao me lembrar da conversa que nós tivemos mais cedo na festa. A viagem para Espanha parecia ser a missão da vida dele, mas o problema não era somente a minha indiferença por não querer ir, mas sim a falta de vontade de todos os envolvidos nessa história.

-- Agora vá tomar um banho e tirar esse cheiro. Se você quer ser um homem sério, então primeiro precisa agir como tal. -- passo por ele ao subir no outro degrau -- Se você quiser mesmo está no centro de tudo assim como eu, precisa me escutar.

Me virei baixando os meus olhos para o All Star nos meus pés.

-- Eu nunca vou querer ser igual a você! -- digo lhe dando as costas e voltando a subir o mais rápido que consigo.

-- Cresça Gustavo, apenas cresça. Um dia você ainda vai me agradecer.

Essa droga de frase de novo...

Entrei no meu quarto e me jogo na cama torcendo para que aquele pesadelo tivesse finalmente um fim no dia seguinte.

(2.297 palavras)
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Qualquer comentário é válido pessoal, seja ele bom ou não! 😉

Tchau e até o próximo capítulo! 👋🏻💕

Ass: May ✨🌸

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