07 Nunca se esqueça, nossa história foi bonita
No dia seguinte, bem cedo antes mesmo de amanhecer, o pai de Paloma estacionava no sítio de dona Virgínia. Ele duvidava de que a filha estivesse acordada, mas ela havia insistido tanto ao telefone que ele se convenceu de que precisava ir buscá-la. Além disso, a voz dela e o seu choro demonstravam tanto desespero que ele temia sobre o que poderia ter acontecido. Paloma não revelou em momento algum, mas a esposa dele estava tão preocupada com a volta repentina da filha que acabou por contagiar também o homem. Então, apesar de trabalhar naquele dia, prometeu que iria passar antes de ir para a empresa e deixá-la em casa. Ficaria muito cansado, mas sentia que era necessário, pois se tratava de uma emergência.
Apesar de todos estarem curiosos em casa, ela não contou a ninguém o que a motivou a voltar mais cedo. Apenas alegou estar triste e com saudades de casa. A maneira como chegou, com semblante caído e indo direto para o seu quarto guardar suas coisas, fez todos estranharem. Não era possível que não havia acontecido nada, essa menina nunca foi de desfazer as malas imediatamente, muito menos de separar as roupas sujas e dobrar e guardar as limpas. Algo estava errado, mas ninguém se atrevia a perguntar do que se tratava.
Paloma ligou para Natan assim que terminou as coisas no seu quarto. Ele estava claramente confuso. Sabia que ela não estava mais o atendendo, havia sumido e agora estava de volta antes do previsto. Sentia-se receoso mas concordou em conversar.
Assim que o viu, Paloma correu para abraçá-lo. Com o rosto enterrado no pescoço dele, ela chorou tudo aquilo que já queria ter chorado. Ele começou a ficar preocupado de que algo como uma tragédia pudesse ter acontecido durante aquela viagem, principalmente com a dona Virgínia. Repetia para ela que estava tudo bem, enquanto ela ainda chorava, e acariciava seu cabelo, tentando a acalmar. Ela, por sua vez, aproveitava o máximo de tempo que poderia junto a ele antes que contasse a verdade e ele fosse para longe dela. Se pudesse, permaneceria assim e nunca revelaria nada, mas não podia mais fugir das consequências do que acontecera no sítio.
— Está mais calma agora? — Perguntou Natan, quando ela se afastou e enxugou suas lágrimas restantes com a parte de trás de suas mãos.
— Lá no sítio... — Ela segurou as mãos dele.
— Sim?
— Eu conheci alguém e... — Ele imediatamente retirou suas mãos das dela e levou-as à boca. — Me desculpa, eu... eu não queria. Eu estava me sentindo tão sozinha e você não estava lá.
— Ah, então quer dizer que por eu não ter ido com você isso justifica seja lá o que você fez com seja lá quem? Você é muito cínica, Paloma. — Ele balançava a cabeça em negação repetidamente e ria em descrença.
— Não diz isso, por favor. — O tom de súplica na voz dela a tornava um tanto quanto patética. — Eu só tô tentando ser sincera e te contar a verdade, te explicar os meu motivos...
— E você acha que existe algum motivo plausível pra isso? Você acha mesmo que eu quero ouvir a sua explicação? — Ele chegou bem perto dela e Paloma temia pelo que ele estava prestes a dizer. — Eu quero ficar sozinho.
— Não, a gente nem conversou direito. Deixa eu te contar melhor o que aconteceu e você vai entender que eu...
— Paloma, eu sei que aparentemente você não consegue ficar sozinha mas eu preciso DA DROGA DE UM TEMPO SOZINHO!
Com os olhos arregalados por nunca ter visto seu namorado tão alterado, ela entregou a pulseira que estava em seu pulso. Foi para sua casa e fez como ele a pediu. O choro não era suficiente para expressar o quanto ela se sentia triste e sozinha. Parecia que aquele grito de Natan havia arrancado fora seu coração e, no lugar, sobrara apenas um buraco negro. A última coisa que queria na vida era ser uma pessoa amarga, mas sentia naquele momento, a amargura como que tomar um gosto ruim na sua boca.
Era como se a tristeza estivesse pulsando por cada parte do seu corpo, fazendo-a chorar por cada poro de sua pele. O pior é que ele estava certo. Parte de seu desespero se dava porque não conseguia mais se imaginar sozinha. Estava acostumada a nada abalar sua zona de conforto, mas agora sentia simplesmente que haviam tirado-lhe o chão de sob seus pés.
De volta à varanda de sua casa, onde Natan havia se despedido dela e dado de presente a pulserinha antes de tudo ir por água abaixo, Paloma deitou no chão. Ficou olhando para o seu pulso e pensando em como havia sido infantil e desonesta com ambos os rapazes. As lágrimas corriam e chegavam ao chão passando pelas suas orelhas. Vez ou outra, um dos irmãos mais novos vinham, olhavam de longe e saíam. Nem mesmo eles se atreviam a tirá-la de seu momento e isso a espantava. Se nem os seus irmãos intrometidos estavam mexendo com ela e sendo inconvenientes, então devia estar mesmo muito mal.
Ainda estava de olhos fechados quando sentiu uma sombra pairar sobre ela. Pensando se tratar de Pedro ou Pierre, ela já foi mandando que a deixassem em paz. Não se sentia nem um pouco no clima para brincadeiras.
— Paloma.
Ela estremeceu de susto quando reconheceu aquela voz.
— Natan? — Ela foi se levantando. — O que foi? Quer os seus presentes de volta? — A mágoa que sentia parecia-lhe passar pelas suas cordas vocais junto com o som de sua voz. Perceber isso a fez estremecer novamente, mas desta vez por dentro.
— Não. — Ouvir que na voz dele também havia mágoa a devastou, mas não estava em posição de dizer nada que o reconfortasse. — Se eu te fizer uma pergunta, você promete ser honesta comigo não importa qual for a resposta?
— Sim.
— Esse 'sim' foi sincero? — Ele levantou uma das sobrancelhas.
— O que eu preciso fazer pra você confiar em mim de...
— Sim ou não? — Interrompeu ele.
— Sim, foi sincero. Pode me perguntar o que quiser e eu prometo ser sincera não importa a resposta. — Ela não suportava mais aquilo, sabia que ele iria terminar oficialmente com ela. Então, para quê tudo isso? Para tripudiar? Ser cruel nunca fora do feitio dele, mas aparentemente você só conhece as pessoas quando as consegue irritar.
— Você gosta dele?
Paloma respirou bem fundo e ficou um tempo em silêncio antes de finalmente responder.
— Tudo o que gostei dele foi o que me lembrava você. Acho que... — ela olhou para o chão — eu gostei da atenção que ele me deu. Essa é a verdade. E... — ela chegou bem perto — eu entendo que você esteja com raiva de mim. Só quero que saiba que eu amo você. — Paloma segurou a mão dele. — Não quero que você se esqueça de como nossa história foi bonita durante esses dois anos só porque eu estraguei tudo agora. Espero que fique com as memórias boas, pois é o que eu vou ficar.
Paloma olhou mais uma vez nos olhos de Natan, como uma despedida, e foi embora dali, largando a mão dele.
— Sabe, a nossa história ainda pode ser bonita.
Ela olhou para trás e Natan segurava a pulseirinha na mão esquerda.
— Posso? - perguntou ele.
Ela não sabia se sorria ou permanecia boquiaberta.
Natan pôs de volta a pulseirinha no pulso dela, fez carinho com o polegar e beijou-lhe a mão. Ela arregalou os olhos e deu pulinhos de empolgação que o fizeram rir.
— Eu te amo, te perdoo e ainda quero tentar. O que você me diz? Sim ou não?
Ela o abraçou e puxou-o para um beijo. Atrás da porta de vidro estavam Pedro e Pierre, assistindo tudo, enquanto faziam cara de nojo.
Música do capítulo:
Deciphering Me - Brooke Fraser
🧡
Olá pessoas!!
Chegamos ao fim de mais uma história, o que vocês acharam?
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Mais uma coisa! O Projeto Capítulo Todo Dia em Junho continua.
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Beijos, até a próxima!! 🥰😘
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