06 Convenientemente escondida debaixo do tapete

A viagem de volta tinha um clima estranho. Paloma sentia uma profunda vontade de chorar, mas não queria fazer isso ali, o que só aumentou o nó em sua garganta. Parecia que havia engolido uma bola de futebol. Ulisses, por sua vez, não sabia se estava magoado ou se estava preocupado. Ele simplesmente não sabia o que pensar, então apenas focou a sua atenção ao volante e se concentrou em chegar o mais rápido possível no sítio de dona Virgínia.

Os momentos de engarrafamento não ajudaram em nada. O silêncio pairava pesado no ar como se estivessem indo para um velório e não voltando de um lugar tão lindo. Os olhares, se limitavam à frente e ao lado oposto em que cada um estava. A tensão causava dor nos músculos, mas Paloma e Ulisses não se mexiam em seus assentos. Era como se houvesse um jogo invisível entre eles de estátua, ninguém estava permitido a fazer movimentos bruscos.

Já na casa de sua avó, foi direto para o seu quarto e fechou a porta. Fechou os seus olhos. Precisava ficar só. Atrás de si, podia ouvir uma cantoria muito agradável de um passarinho, então foi para a janela. Ficou ali observando a natureza ser ela mesma. O vento balançava as árvores, o bem-te-vi cantava num galho e Carmem ciscava não muito longe dali.

Depois de colocar seus pensamentos em ordem, Paloma percebeu que na verdade estava se sentindo sozinha ali sem Natan. Ainda que falasse com todo mundo e fosse muito extrovertida, sentia falta do carinho especial de seu namorado e gostava da atenção que Ulisses a dava, pois a lembrava dele. Estava confusa porque queria um Natan versão sítio. Não estava acostumada a ser o centro das atenções estando sozinha. Além de isso não ser justo com Natan que estava sendo apunhalado pelas costas, também não era com Ulisses, já que nem um momento sequer mencionou que tinha namorado. Pelo contrário, deixou o garoto flertar com ela e algumas vezes também flertou de volta.

Estava se sentindo uma pessoa horrivel, mas já sabia o que tinha que fazer. Se levantou e foi à casa de Ulisses. Precisava contar a verdade.

Enquanto guiava a bicicleta pela estrada não asfaltada, ouvia o mesmo som que faziam as bicicletas ao passarem pelo paralelepípedo da cidade que visitara na manhã daquele dia. Sorriu ironicamente ao pensar que a lembrança de um momento tão bom a faria se sentir tão mal.

Ao chegar, Letícia a avisou que Ulisses estava no quarto. Paloma bateu, pediu licença e entrou, fechando a porta atrás de si. Não queria que ouvissem sua confissão, estava muito envergonhada. Antes que perdesse a coragem, contou toda a verdade para ele.

É claro que ela não esperava que ele reagisse bem, mas não esperava ser enxotada da casa dele daquela forma. Quando saiu, percebeu que Letícia ouvira tudo, já que seu semblante estava muito pior que o de Ulisses. Enquanto o dele exalava raiva, o dela exalava decepção. Não queria piorar as coisas, então saiu antes que os pais dele também soubessem e com isso tivesse que responder mais perguntas. Sabia que eles se sentiriam traídos, pois não escondiam a força que davam para que o filho deles namorasse ela. Paloma sabia e eles viam isso. Não havia margem alguma para que ela se fingisse de sonsa.

Ainda assim, ela saiu daquela casa com a cara mais lavada do mundo, como se tudo estivesse normal e ela tivesse apenas omitido uma pequena parte de sua vida. Talvez ao verem este seu semblante pela última vez, os pais dele não ficassem tão ressentidos com ela e a mágoa fosse menor. Aparentemente, ela ainda estava se enganando quanto às coisas.

Já do lado de fora, olhou para trás e avistou Ulisses na janela. Ela esperava que ele desviasse o olhar dele ao encontrar o dela, todavia ele não se mexeu. Continuava ali, como se quisesse ter certeza de que ela iria embora, ou talvez ele quisesse entender que fora mesmo aquela garota que havia acabado de falar com ele.

Uma parte já havia feito, faltava a mais difícil, ser honesta com o seu namorado. Contudo, de volta ao seu quarto, Paloma pensava consigo mesma se não havia agido de forma errada. Afinal, se os dois se sentiam atraídos um pelo outro, que mal faria darem ouvidos à essa paixão? Será que não estava sendo muito radical? Talvez. Mas, com este tipo de coisa, se você não for assim, pode acabar se vendo submerso num mar de subjetividade onde você é puxado para o mais profundo da relatividade de se utilizar de seus sentimentos para justificar seus erros. O ser humano de fato é um animal, mas a nossa diferença não deveria ser justamente a racionalidade? Onde está ela quando queremos que o prazer fale mais alto? Convenientemente escondida debaixo do tapete, é claro!

Música do capítulo:
The truth is a cave - The Oh Hellos

🧡

Olá pessoas!!
Passando pra lembrar vocês de deixarem uma estrelinha aqui em baixo e muitos comentários.
Beijos e até o próximo capítulo, que será o último.🥰😘

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