05 Numa rua colorida, sem nem perceber, houve um eclipse solar

Era a rua mais colorida que Paloma já havia vista em toda a sua vida. As casas pelas quais passava eram pintadas de cores tão diversas que a davam a impressão de nunca se repetir uma cor sequer. O céu estava aberto e tão azul que parecia ter sido pintado como uma daquelas casas. O chão era todo de paralelepípedo, o que fazia as bicicletas que passavam tremerem de um lado para o outro. Aquela rua era cheia de pequenos arbustos de um verde muito vibrante que continham florzinham de cores tão diversas quanto as casas.

— Nós fizemos bem saindo mais cedo que o combinado. — Disse Ulisses. A mão dele estava na testa, protegendo os seus olhos do sol escaldante. — Esta cidade tem pouca iluminação. Se tivéssemos saído um pouco mais tarde, com todo aquele engarrafamento que pegamos, teríamos chegado já escurecendo. — Ele olhou para ela e franziu a testa.

— O que foi? — Perguntou Paloma, pendendo a cabeça para o lado.

— Por que não está usando os seus óculos escuros?

— Ah, eu não quero. É tudo tão colorido, eles só me atrapalhariam de aproveitar o passeio e ver as cores. — Ela pegou nos dois braços dele e trocou de lugar. — Fora que você estava na direção do sol, não eu.

— Mas agora o sol vai bater em você.

— Não mesmo. Você é mais alto e me faz sombra. — Ela piscou para ele.

Ulisses sorriu de orelha a orelha um sorriso caloroso e convidativo, de quem está prestes a dar um abraço ou chegar mais perto. Entretanto, ele não o fez.

— Ah! — Ele pegou na mão dela e a puxou, andando determinadamente para algum lugar que Paloma já estava curiosa para saber qual era. — Eu já ia me esquecendo! Tem um lugar que eu preciso te mostrar. Você pode se esquecer de tudo o que aconteceu aqui, mas duvido se esquecer desse lugar.

— Humm, que suspense! O que será? — Ela sorria abobalhada.

— Você vai ver, não tem como eu esconder. — Conforme ele foi chegando perto e diminuindo o passo, soltou a mão que apenas segurava levemente a de Paloma e entrelaçou seus dedos nos dela.

Quando Ulisses a chamou para visitar essa cidade que ficava ainda mais para o interior que o sítio de sua avó, Paloma não sabia se dona Virgínia deixaria. Principalmente porque na maioria das vezes Letícia ia com eles também. Desta vez em específico, seriam apenas os dois. Assim que sua avó disse sim, ela se encheu de alegria. Contudo, no dia do passeio acordou pela madrugada e não conseguia dormir. Não sentia mais aquela vontade de ir. Parecia que o ânimo lhe faltava. Todavia, Ulisses ligou antes que ela pudesse desmarcar e, só de ouvir a voz dele, as dúvidas sumiram. Assim que chegou na cidade, se deslumbrara tanto que, se ainda estava com algum receio, havia mandado tudo embora.

— Então, o que achou?

O que estava perante Paloma era uma linda fonte que claramente tinha muitos anos que estava ali, e isso a dava um charme muito maior. Ela ficou sem palavras assim que a viu. Não porque era larga, nem porque era alta. Havia um capricho muito característico na forma como fora esculpida que poderia fazer o mais ignorante dos homens parar para apreciar. Cada lugar que seu olho batia a deixava cada vez mais emocionada e sem palavras. Sentiu uma felicidade muito grande por ver que um monumento como este, ainda que desgastado, era preservado num lugar como aquele, assim como todo o verde que vira ali e pelo caminho. Desejou naquele momento que toda cidade tivesse um quê de interior. "Talvez isso deixaria o Brasil mais bonito", pensou. "Talvez isso deixaria o Brasil mais Brasil."

— É linda! — Estava tão perdida em seus devaneios que não percebia o quanto estava apertando a mão de Ulisses, apesar de isso não fazer diferença, pois ele não ligava que o apertasse a mão se ainda a estivesse segurando.

Sem que ela percebesse, ele se aproximava gradativamente. Ele tirou os óculos escuros. O sol batia no rosto de ambos. Ela se deu conta e olhou para ele. O sol ainda estava lá, como que uma barreira de luz que os separava. Ele chegou o rosto mais perto. Ela não hesitou, também se aproximou. Olhavam nos olhos um do outro como se não existisse mais nada ali além daquelas íris. Chegaram tão perto e tão devagar que despertaram alguns olhares que observavam para ver se algo aconteceria. Num determinado momento, porém, quem os observava não saberia dizer se encostaram seus lábios um no outro ou não. Apenas viam que suas cabeças se moveram como que um eclipse solar, dissipando a barreira de luz que os separava.

Enquanto olhava nos olhos de Ulisses, Paloma não pensava em nada. Era o momento que ela estava vivendo que preenchia todos os seus pensamentos. O olhar que pairava sobre o dela, a pele dele brilhando sob o sol, a mão esquerda dele na sua e a direita que acariciava seu rosto com carinho. Estava tudo tão bonito que ela sentia que merecia viver isso.

Há quem diga que fora o sol que, sumindo quando chegaram bem perto, a desligara de seu transe. Já outros dizem que, ao passar uma bicicleta, a despertara com seu barulho no paralelepípedo. Ou que fora seus dedos, que relaxaram tanto que a fizera sair de si e olhar para sua atitude de fora, como quem observa alguém. Qualquer que tenha sido o motivo, de fato houve um estalo em Paloma. Natan, de um súbito, como se estivesse ali presente, apareceu na mente dela.

Não podia mais negar o que estava acontecendo. Ela queria viver isso, esse romance aventuresco, mas também queria voltar como se nada tivesse acontecido. Afinal, os dois moram longe e não iriam se conhecer. Ela merecia viver uma paixão de férias, não? Estava se enganando e sabia disso. Para obter seus caprichos, ela estava envolvendo um grande número de pessoas que não tinham nada a ver com isso. Não sabe-se dizer se o que Paloma sentiu naquele momento foi culpa ou remorso; por amor a Natan ou por medo de ela mesma ser pega. Qualquer que fosse a motivação de seu coração, de uma coisa tinha certeza.

Natan não merecia isso.

Ela se afastou e saiu andando para longe de Ulisses. Não queria correr para não chamar muita atenção, então apenas andou a passos rápidos.

Se lembrou dos 'eu te amo's, das brincadeiras e piadas, de como ele era carinhoso, da risada dele que era muito gostosa de ouvir, do pijama de porquinho, dos elogios quando ela menos esperava, das surpresas, dos abraços apertados, de como ele a conquistou e de tudo o que eles tinham passado, todos os términos que haviam enfrentado para chegar naqueles dois anos de relacionamento.

Lembrou-se também de como sentia saudades de Natan desde que ele fora embora de sua casa na manhã da viagem.

Olhou para seu pulso. Ali ainda estava ela, a pulseirinha que ainda que tirasse de seu pulso para dormir, recolocava pela manhã. Sentiu um certo alívio quando a viu, como se o fato de ela ainda estar inteira significasse que não havia quebrado seu relacionamento. Como se ela tivesse conseguido ir até o limite sem que isso configurasse para eles um coração partido.

Ulisses a pegou pelo mão, confuso.

— Espera, o que aconteceu? — Indagou, perdido.

— Eu quero ir para casa, me leva de volta para a minha avó. — O tom suplicante de Paloma fez com que ele não perguntasse o porquê, então apenas fez o que ela havia pedido.

Música do capítulo:
I Have Made Mistakes - The Oh Hellos

🧡

Olá pessoas!!
E ? O que acharam da atitude da Paloma?
O que fariam no lugar dela?
Deixem seus comentários e estrelinhas.
Beijos!!🥰😘

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