02 Cigarro na Varanda
Da janela do carro Paloma podia ver a paisagem mudando conforme se aproximava do sítio de sua avó. Já estava há duas horas sentada e não sabia mais em que posição poderia ficar para se sentir confortável. Quando desistiu, apenas encostou sua cabeça na janela e ficou olhando a vista se transformar. Apesar de já ter batido sua testa no vidro algumas vezes, estava com preguiça de chegar mais para o lado e desgrudar dali.
— Onde nós estamos? — Perguntou, com os olhos colados no asfalto, que estava começando a ficar cheio de terra.
— Chegando. — Respondeu o pai, com cansaço na voz.
— O senhor disse isso da última vez que eu perguntei. — Apesar de estar um tanto indignada, havia apenas tédio no tom dela.
— Isso é porque você faz a mesma pergunta a cada cinco minutos.
Eles passaram por um buraco e o tranco fez Paloma bater a cabeça no vidro mais uma vez. Ela respirou fundo.
— Tá bem, vou deixar você em paz. — Disse, finalmente retirando sua cabeça do vidro e repousando no banco do carro.
Paloma e seu pai tinham muitas semelhanças em suas personalidades. Uma delas era o fato de ficarem muito mal-humorados quando estavam cansados. Não faziam questão alguma de esconder a vontade que sentiam de deitar numa cama e dormir sem horário para acordar. Quando haviam apenas os dois cansados num ambiente, a interação entre eles acabava ficando mais tediosa que entre dois zumbis.
— Não, pode falar. É bom porque assim eu não durmo. — Ele esfregou olhos.
— Ah... ok. — Ela falou entre bocejos.
E assim foi a conversa até que eles chegassem no seu destino. Passaram pelas paisagens cobertas de mato e sem uma mísera casa por muitos quilômetros. Chegaram à floresta que era a coisa mais marcante para Paloma em todas as viagens, pelo contraste que carregava. De dia era linda e parecisa encantada, de noite era tenebrosa e parecia assombrada. Depois da floresta, passou pelos bairros que possuíam pequenas casas que pareciam ter sido feitas para uma boneca. Até que finalmente entraram numa estrada não asfaltada. Apesar de sempre amar aquela estrada, poi significava que a casa de sua avó estava perto, naquele dia a detestou, pois teve que descer do carro para ajudar seu pai a empurrar devido à chuva.
Ela sempre associava a casa de sua avó com uma sensação úmida, já que além dos rios e cachoeiras, já tomou muitos banhos de chuva enquanto estava lá. Amava a liberdade que a senhora a oferecia, aquele ambiente era com certeza onde ela podia se soltar. As lembranças de suas melhores brincadeiras na infância ela devia a esse sítio. Só de ver o enorme pé de jaca de longe já se sentia revigorada e o cansaço era engavetado para outro momento.
Apesar de sempre ter tido a oportunidade de apreciar sua chegada em silêncio, neste dia estava tocando alto, numa barraca perto do portão de entrada, um sertanejo universitário. Contudo, ela não ligou, pois a letra era engraçada. Talvez o efeito do sítio de melhorar o humor dela estivesse no seu ápice total. Avistou, de dentro do carro, sua avó chegando no portão com Carmem do lado, a galinha que sempre a acompanhava. Ficou feliz em ver que sua avó havia desistido da ideia de assá-la no forno.
Os braços da senhora estavam abertos para receber a neta querida.
— Vovó! — Ela correu para envolvê-la e nesse momento sentiu o baque de ter ficado tanto tempo com as pernas na mesma posição.
— Paloma! Como você está uma moça crescida! — Disse, a abraçando.
Carmem estava inquieta e cacarejava sem parar. Paloma havia se esquecido do quão ciumenta era essa galinha.
— Carmem, pare de graça! Se não te assei até hoje é por causa dela! — A senhora batia sua toalhinha na tentativa de espantar a galinha, que saiu cacarejando baixo, como quem resmunga.
Seguindo Carmem com os olhos, Paloma não deixou de reparar na movimentação que havia na varanda.
— Tem gente aí? — Ela apertou os olhos.
— Sim, os irmãos da igreja estão fazendo um culto no lar aqui em casa. Vamos, a gente tinha acabado de começar.
— Mãe, eu tenho que voltar pra casa. - disse o pai, chegando mais perto.
— E eu tenho que guardar minhas coisas, vó.
— Ninguém vai pra lugar nenhum guardar nada. Eu vou abrir o portão, você — apontou para o pai — põe o carro aqui dentro e você — apontou para Paloma — vai guardar suas coisas quando a gente terminar lá. — Comunicou, com o queixo para o alto e postura ereta.
Paloma e seu pai se perguntavam naquele momento se aquilo era uma senhora ou um general. Responderam à dúvida não questionando e obedecendo o que quer que aquela figura fosse.
As escadas da varanda de sua avó rangiam com tanta força quanto o coração de Paloma rangia de vergonha. Suas mãos estavam na frente de seu corpo e olhava para o chão ou para os lados. Na verdade, evitava ao máximo qualquer tipo de contato visual com as pessoas que a esperavam para dar continuidade ao culto.
Ela sempre tinha que aprender a se readaptar quando ia para a casa de sua avó, pois os cultos levavam um ritmo diferente com o qual estava acostumada.
Durante o culto, seu pai saiu para acender um cigarro e fumar na varanda. Quase não pôde segurar o riso quando viu sua avó indo atrás dele e dando um tapa em sua mão, fazendo com que o cigarro caísse no chão, para depois pisar nele, apagando-o. Não sabia o que sua avó estava falando, mas via seu dedo apontado bem dentro da cara de seu pai. Queria ser uma mosquinha para espiar aquela cena.
Infelizmente, mais uma vez houve o apelo e seu pai estava indiferente. Na verdade, dessa vez ele até dormia, o que a fez sentir uma pitada de vergonha. A coitada só estava torcendo para ele não roncar ou babar, pois aí seria demais.
Nunca entendeu porque seu pai não se convertia. Sua mãe ainda compreendia, já que viera de uma família nada religiosa, mas seu pai não. Ele havia sido criado no evangelho e isso a fazia pensar na oportunidade que ele estava jogando fora de se envolver mais nas coisas de Deus e crescer mais espiritualmente. Com ela as coisas eram tão mais difíceis, já que ia e levava seus irmãos mais novos. Ela se sentia sozinha. Toda vez que seu pai se justificava, ela pensava a mesma coisa: parecia que ele ainda estava falando da igreja da vovó. Esteve em uma e desistiu tão fácil. Talvez ele não conhecesse outras vertentes com as quais se encaixasse melhor, talvez ele desistiu e não viu como as coisas mudaram, ou talvez ele não via o privilégio que teve por ter conhecido a Cristo desde o seu nascimento e não dava valor a isso. Até que poderia ser a última alternativa, pensava. Algumas pessoas são assim mesmo. Vá saber!
Música do capítulo:
Beautiful Messes - Hillary Scott & The Scott Family
🧡
Olá pessoas!
O que acharam da avó de Paloma? E da galinha Carmem?
Não se esqueçam de deixar uma estrelinha e comentar bastante.
Salvem, também, na biblioteca de vocês pra chegar notificações toda vez que eu postar capítulo novo.
Beijos!!🥰😘
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