65 dias antes - Um Desconhecido e Um Milkshake
Impaciente, cruzei os braços esperando o rapaz a minha frente ser atendido. Assim que ele foi para o outro lado de uma das maiores franquias de fast food dos Estados Unidos, encarei a funcionária de vermelho e um tanto desesperada pedi:
— Quero o maior milkshake que tiver, de chocolate.
A moça, um pouco mais jovem que eu, mordeu os lábios e falou como se tivesse gravado a frase:
— Sinto muito, nós já desligamos a máquina de sorvete, mas se houver outra coisa que eu possa fazer por você, estou a disposição.
Senti um soluço escapar da minha garganta.
— Eu vim ao shopping só para isso. — expressei meu pensamento.
Só podia ser brincadeira. Tudo o que uma mulher de vinte e seis anos precisa, depois de um noivado ridículo, é um milkshake!
— Sinto muito. — repetiu a funcionária.
Notei o rapaz que tinha pedido na minha frente nos observando com a mesma coisa que eu queria na mão.
— Mas olhe para ele... — apontei um tanto chateada — Ele acabou de pedir um milkshake!
— Desculpe. — a mulher pediu — Se quiser, podemos lhe dá alguns cupons da nossa promoção.
Frustrada, levantei os braços e saí dali sem olhar para trás.
Eu nunca gostei muito de comprar minha sobremesa favorita em outro lugar que não fosse a Sandy's Soverteria, mas como eu precisava urgente de um milkshake abri uma exceção e vim até o shopping.
Parecia que a vida realmente estava contra mim em vários aspectos.
A praça de alimentação do shopping sempre foi enorme, com vários tipos de lanchonetes, restaurantes e sorveterias, mas recentemente tinha passado por um reforma e as mesas se encontravam posicionadas de frente a um pequeno palco onde cantores e bandas locais se apresentavam aos finais de semana.
Sentei na mesa de mármore negro mais próxima e suspirei tentando conter as lágrimas.
— O que faz uma jovem tão bonita como você, querer tomar um milkshake tão desesperadamente em plena quinta-feira? — uma voz grossa surgiu.
Observei o mesmo homem que estava a minha frente na fila do fast food, se sentar e me encarar.
— O que faz um cara como você comprar o último milkshake? — retruquei um tanto chateada.
Não estava com paciência para aguentar um infeliz me cantando.
O desconhecido abriu um sorriso estranho e ficou me encarando por mais de três minutos, de forma que precisei puxar a saia do meu vestido preto para me distrair e assim evitar corar por algo tão insignificante.
— Não é grande como você pediu, mas acho que vai servir — ele afastou sua sobremesa para mim.
— O quê? — o fitei confusa.
O rapaz parecia ter a minha idade, tinha cabelos castanhos que precisavam de um corte urgente, olhos verdes brincalhões e pele bronzeada.
— Pode ficar com o milkshake. — insistiu.
Encarei o canudo e imaginei Ethan Hale, marido da minha melhor amiga e médico nas horas vagas, dizendo "Valentina, você não tem ideia do número de germes e bactérias que tem na boca dele e elas estão agora mesmo nesse canudinho!".
— Dane-se. — pensei alto e vi o rapaz arregalar os olhos — Não, desculpe, pensei alto, não era com você.
Ele abriu um sorriso que estranhamente me deixou um pouco melhor.
— Você ainda não respondeu minha pergunta. — disse enquanto eu pegava o milkshake e aproximava dos meus lábios — A propósito, eu nem tive a chance de provar, a sobremesa é toda sua.
Envergonhada ri e quase acreditei que ele tinha lido meus pensamentos. Poderia até ter devolvido o copo para ele, mas eu realmente precisava daquilo para me sentir melhor.
Vi um grupo de adolescentes gargalhando enquanto seguiam para uma pizzaria e não pude deixar de sorrir lembrando quando éramos apenas Skye, Theo e eu.
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Suguei um pouco daquela pequena parte do céu e resolvi responder o desconhecido.
— Eu sinto falta de quando éramos apenas três.
Apesar de confuso, o homem me incentivou pelo olhar para que eu continuasse.
— Antes éramos meus melhores amigos e eu... Depois apareceu o Ethan, a Nicolle. — tomei novamente parte do milkshake e por um segundo senti que tinha voltado ao ensino médio — Nunca mais foi a mesma coisa!
Quando éramos crianças Theo, Skye e eu fazíamos tudo juntos, mas durante a adolescência meus amigos se apaixonaram por Nicolle e Ethan e aí tudo mudou.
— Como assim?
— Ah... É que todos eles, a Skye e o Theodore, encontraram o amor. — coloquei finalmente para fora — Até meu pai reencontrou depois que a mamãe morreu!
— E você não? Vejo que está noiva... — ele apontou para o maldito anel que havia acabado de ganhar em meu dedo.
Ri seca e tomei mais um pouco do milkshake.
— Você não o ama, então? — questionou curioso demais.
As vezes é mais fácil desabafar com um desconhecido do que com qualquer outra pessoa, por isso não perguntei porque ele parecia tão interessado em mim.
— Eu não sei dizer... Gosto do Stanley, mas... — resolvi continuar.
A risada do rapaz a minha frente me interrompeu e tudo o que fiz foi terminar o que restava do milkshake no copo até ele parar de gargalhar.
— Desculpe... Mas você não tem cara de alguém que casaria com um Stanley. — disse — Com todo respeito aos Stanleys por aí, mas que nome ridículo, hein.
Mordi os lábios para não falar que concordava com ele.
— A questão é que antes eu sonhava com aquele amor espetacular. Sabe? E quando começou a acontecer com a Skye e com o Ethan do jeito mais clichê possível, fiquei ansiosa esperando a minha vez. Então, a Nicolle apareceu grávida do Theo, algo inimaginável, e eles casaram com dezessete anos! — gesticulei com as mãos sem nem ter ideia se o rapaz conseguia me entender.
— Mas para você o amor nunca chegou. — completou o homem.
— Foi. — suspirei — Não esse tipo de amor.
— E você quer desistir de procurar?
— Não é isso, apenas cheguei a conclusão de que existem exceções, e eu sou uma delas.
— O Stanley também é uma exceção? — perguntou.
Ponderei.
— Bom, acho que sim. Se bem que a sua irmã mais nova comentou uma vez algo sobre um ex-amor dele.
— Não existe ex-amor.
— Eu não sei. — decidi por fim — A única certeza que eu tenho é que daqui a sessenta e cinco dias estarei casada com um cara legal e serei feliz.
— Tem certeza?
— Que serei feliz? — um certo temor se instalou em meu peito.
— Não... Tem certeza que estará casada?
Desorientada fitei sua camisa verde musgo que destacavam os poucos músculos definidos que ele parecia ter.
— Ahn... Acho que tenho.
— Muita coisa acontece em sessenta e cinco dias, jovem bonita.
Apenas sorri, o vi olhar o relógio escuro em seu pulso e se levantar para ir embora.
— Ei... — o chamei enquanto ele afastava a cadeira — Qual o seu nome?
Um sorriso de canto apareceu em seu rosto quando ele respondeu:
— Caleb. Caleb Fletcher.
Caleb piscou e se afastou virando para acenar antes de finalmente sumir da minha vista ao dobrar em direção ao cinema.
Naquele momento, olhando o copo descartável vazio a minha frente, pedi à Deus que realmente algo mudasse em sessenta e cinco dias, como por exemplo, eu me apaixonar por meu noivo.
Porque era tudo o que eu queria: amar Stanley Olsen.
[...]
***
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