45 dias antes - Sonho adolescente
— Eu não acredito que estou mesmo fazendo isso. — sussurrei na tentativa que as palavras surtissem algum efeito e eu desistisse daquele jantar.
Para sair de casa precisei ignorar o interrogatório da minha madrasta e até me senti mal porque a cada dia que passava eu ficava cada vez mais grossa com ela, mas não tinha outra opção, pelo menos achava que não.
Quando Caleb Fletcher pediu um encontro de amigos, em troca de seu silêncio, não hesitei em aceitar. Qual é? Eu não estava em condições de negar nada, só não imaginei que ele se atrasaria.
Quando estava a ponto de desistir e ir embora do Seith Restaurant, Caleb entrou olhando para todos os lados, mas sem deixar de exibir seu típico sorriso moleque, e logo me encontrando em uma mesa encostada no janelão de vidro.
— Desculpa a demora, até pensei que você já tinha ido embora. — ele tratou de explicar, sentando à mesa — Houve um imprevisto no hospital.
— Não é como se eu quisesse estar aqui. — dei de ombros.
— Uou. Alguém está ácida hoje. — alargou ainda mais aquele sorriso idiotamente bonito — Mas você não foi embora, então queria sim está aqui.
Cruzei os braços por cima da minha blusa preta alternando o olhar dele para o restaurante rústico e elegante enquanto ele escrevia algo em um guardanapo que tinha pegado no centro da mesa
— Pronto. — Caleb me estendeu um papel, enquanto guardava uma caneta no bolso de sua camisa cinza — Pegue.
— O que é isso? — perguntei analisando os números que preenchiam aquele guardanapo de papel.
— Meu número de telefone. — piscou — Assim quando nós formos sair, se eu me atrasar você pode ligar e evito de te deixar brava.
— O que te faz achar que eu sairei novamente com você, Caleb?
Terminei de falar e pude sentir o perfume amadeirado e extremamente atraente dele.
— Você está guardando o papel na sua bolsa. — apontou com o queixo para a minha bolsa de couro — E me chame de Cal, Valentina.
Naquele momento senti todo o sangue ir parar nas minhas bochechas.
— Eu sou uma pessoa educada, só por isso estou guardando. — beberiquei um copo de água para disfarçar.
Caleb não falou nada, sequer sei se ele ouviu o que disse naquele dia, pois ao invés de olhar para mim, Cal analisava cada detalhe do restaurante.
— Quando o Luke sugeriu, eu achei que seria um local mais divertido e não com essa seriedade toda. — pareceu pensar alto.
— O quê?
— Aqui nós parecemos dois adultos sem graça presos em uma vida monótona. — Cal explicou — Veja as pessoas ao redor.
Fiz o que ele pediu. Alguns casais jantavam em completo silêncio, já em outra mesa maior uma família jantava e todos os quatros mexiam no celular, até o menino de aparentemente seis anos. O único barulho que ouvíamos era o do som dos talheres batendo em alguns pratos e a movimentação dos garçons no meio do salão.
Sem risada. Sem conversa.
— Venha, Valentina. — Caleb se levantou e estendeu a mão para mim — Hoje nós voltaremos a ser adolescentes.
— O quê? Está louco? Você acabou de chegar! Se sairmos todos ficarão olhando.
— Ah, Val, você não me parece ser o tipo de pessoa que se importa com o que os outros pensam... — ele estendeu a mão ainda mais — Venha, se permita, ao menos por hoje.
Suspirei e mesmo sabendo que ele estava errado, apertei sua mão e saímos dali.
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— Pare. Eu vou morrer de tanto rir. — pedi, tentando retomar o fôlego após uma piada que Caleb havia feito.
Não sei se por causa da companhia, ou era o efeito do Casarão do Terror, uma espécie de montanha russa mal assombrada, mas eu estava me divertindo como há muito tempo não fazia. Tinha até esquecido de como era boa a sensação de rir até o pulmão implorar por ar.
O parque que ele me levou era simples, apenas os brinquedos mais básicos, carrinhos de comida espalhados e claro uma bilheteria cheia de gente, mas ainda assim parecia mais estupendo que o normal. Já tinha levado Sarah no mesmo lugar e tinha sido irritantemente chato, porém, tudo parecia mais colorido no dia que fui com Cal e temi que o motivo fosse ele, fosse o Caleb.
— Opa. Qualquer coisa eu te salvo, sou médico, esqueceu? — ele bateu levemente nos meus ombros, enquanto desviávamos de algumas pessoas eufóricas que iam em direção a roda gigante.
A noite estava sendo agradável demais para terminar ali no estacionamento do parque e pela primeira vez me vi contente por meu velho classic cinza ter quebrado no início do ano me fazendo ter que andar de táxi o tempo todo, ou no caso, precisa pegar uma carona com Cal.
— Se essa for a morte, eu não quero ser salva! — bati de volta em seu ombro.
— Não sei se rio porque faz sentido ou fico medo desse mistério sobre você — ele rebateu.
— Mistério? — parei de andar e fiquei de frente para ele.
— Quando vejo seus olhos, consigo enxergar uma menina presa... — sua mão fez menção de tocar no meu rosto, contudo, Caleb não o fez — E ela quer gritar. O mistério para mim é o motivo de tudo isso, porque eu tenho quase certeza que não envolve apenas um casamento.
Suspirei, desviei o olhar e virei de costas começando a andar.
— Desculpe, Val. — ele segurou meu ombro antes que eu me afastasse muito e sorri ao ouvir o apelido — Não era hora de falar isso.
— Está tudo bem. — sussurrei apenas para deixar tudo mais dramático — No fim, você tem razão.
Caleb torna a me acompanhar e seu braço se encosta levemente no meu.
Não nos afastamos.
— Quem sabe um dia eu te conte tudo... — resolvi deixar no ar, porque se tem uma coisa que aprendi com a minha mãe, foi a deixar um homem intrigado.
— Ei? Que tal irmos na roda gigante? — ele sugeriu sem me olhar, como se tivesse se abalado tanto quanto eu depois do que falou.
— Ah, poupe-me, Caleb Fletcher. — dei uma gargalhada um tanto forçada para quebrar aquele clima estranho — Sem clichês no primeiro encontro.
— Não estrague tudo, Valentina. — fingiu brigar — Sabe quantas comédias românticas eu assisti para hoje?
Meu coração acelerou diante da possibilidade dele ter ficado ansioso para hoje a ponto de fazer algo do tipo, mas quando ele me abraçou de lado e sussurrou "Não estou brincando, Val", meu corpo entrou em uma combustão nunca sentida antes.
Fomos na roda gigante, comemos algumas besteiras do próprio parque e o levei na Sandy's Soverteria para que ele provasse o melhor milkshake do mundo. Quando Cal concordou comigo e disse que desse jeito eu o convenceria a morar em Point City, apenas sorri envergonhada e ele colocou mechas rebeldes do meu cabelo atrás da orelha alegando que tinha lido algo como "homens transmitem respeito para uma mulher dessa forma".
Caleb me levou até a porta de casa e apesar da estranha sensação em meu peito não fiz outra coisa além de beijar seu rosto lentamente e entrar frustrada em meu lar. Encontrei Will na cozinha comendo um sanduíche de presunto e segundo ele, meu pai e Mary já estavam dormindo. Meu irmão não perguntou porque cheguei 23h, o que para mim é incomum, e eu agradeci mentalmente por isso.
Tomei um banho, troquei a blusa preta e a calça jeans por um pijama confortável, mas Cal Fletcher não saiu da minha mente em momento algum. Verifiquei meu celular e haviam algumas mensagens do grupo da família, outra do Theo e três do grupo do Jornal que trabalho, mas ignorei todas e salvei o número escrito em uma letra forte no guardanapo que Caleb me entregou.
Só não esperava que ele desprezasse minha última mensagem.
Apesar de tudo, isso não foi nada se comparado com os verdadeiros problemas que estavam por vim e posso afirmar veementemente que aquela foi uma das minhas últimas noites preocupada apenas com um casamento ridículo e um cara relativamente esquisito que entrou na minha vida. Faltava pouco para eu passar a correr diversos riscos, até o de vida.
[...]
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