35 dias antes - Sentimentos
Eu sempre me considerei uma garota muito inquieta e um tanto intensa em relação aos meus sentimentos, entretanto, de uns anos para cá, especificamente a partir do mês em que mamãe morreu, esse meu lado se foi com ela.
O que estava me assustando enquanto comia um pedaço de pizza na casa da Skye era que aquele meu lado eufórico e vivo parecia querer voltar e tomar conta de cada parte do meu corpo e o único responsável era Caleb Fletcher, o que me deixou dividida entre: matá-lo, por ter reacendido essa chama e agradece-lo, porque me sentir viva novamente era algo fantástico.
— Parece que alguém está pensativa hoje... — Skye, como sempre, foi a primeira a notar algo diferente.
— E deve ser algo muito bom, olha o sorriso que ela está dando. — Theo completou.
Eu poderia alegar que pensava na visita que fiz a Gregory em um asilo público e descoberto que ele estava tão débil que não tinha nada a ver com o desvio de morfina e o melhor, nunca mais nos incomodaria, mas obviamente não poderia contar porque colocaria em risco minha matéria e assustaria Skye, que ainda não notou estar grávida.
— Vocês são muito chatos, sabia?— revirei os olhos, enquanto provava mais um pedaço da pizza — Não posso mais nem pensar em como o...
Parei de falar imediatamente, a única pessoa que sabia sobre as coisas estranhas que eu sentia por Caleb era eu mesma. Não que eu não confiasse nos meus melhores amigos, longe disso, mas sabia que eles me fariam desistir do casamento se percebessem que eu tinha dúvidas em relação aos meus sentimentos pelo Stanley.
Além disso, achava que o que nutria por Caleb era apenas gratidão por ele começar a me ajudar com a matéria para o jornal. Sem contar que eu sentia a necessidade de constituir uma família e tentar ser feliz, não tendo espaço para ser uma louca irresponsável que joga toda essa chance de casar pelo ar.
— O que ia dizer? — Theo empurrou os óculos de grau, que dificilmente usava, ainda para mais perto de seus olhos.
— Nada demais, só mais um daqueles pensamentos desconexos que tenho. — balancei a cabeça, como se aquilo fosse me fazer pensar em outra coisa.
Um silêncio se instalou na ampla sala.
— Quando nos tornamos isso? — soltei o que estava entalado a muito tempo.
Era sábado a noite, nós três estávamos jogados no sofá da casa de Skye encarando uma caixa de pizza quase vazia, fingindo sermos os mesmos.
— Quando chegamos à fase adulta. — Skye respondeu me assustando, achei que eles não fossem entender a que eu me referia.
— Às vezes eu fico pensando em como nós éramos felizes e não sabíamos, quero dizer, não que eu não goste da família que eu tenho ou que não seja grato pelas coisas que conquistei, mas admito que tudo parecia mais fácil e mágico quando éramos um trio de adolescentes, cuja maior preocupação era conseguir matar algumas aulas sem sermos pegos ou tirar notas boas nas provas da Sra. Woody.— meu melhor amigo suspirou, e eu percebi que ele estava desabando como há anos não fazia.
Na verdade, o incentivo para essa "reunião como antigamente" veio de Nicolle. Ela queria que descobríssemos o que estava havendo com Theo e naquele momento comecei a entendê-lo.
— Foi uma ótima fase mesmo, mas eu não posso dizer que não sou feliz agora. – Skye deu um sorrisinho.
— É claro, você é casada com um homem que te ama incondicionalmente. — resmunguei.
Ela pode até ter algum problemas de vez em quando, mas sempre resolve. É como se Skye fosse a protagonista de um filme, onde no fim, tudo dá certo e Theo e eu somos apenas os dois amigos coadjuvantes que só ficam felizes quando estão em cena com a personagem principal.
— E trabalha no que ama. — nosso amigo suspirou se esticando no móvel —Não é como eu, que trabalho para sustentar uma família que arranjei cedo demais, e não tive nem tempo para correr atrás do que gostava.
Aquilo só confirmou a frustração que ele, assim como eu, sente com a sua vida.
Nós dois encaramos Skye e ela apenas deu de ombros como se não soubesse o que dizer.
— O que está acontecendo, Theo?— lancei a pergunta.
— São tantas coisas indo mal, que eu nem sei por onde começar, mas eu diria que a pior delas é o meu casamento. Minhas brigas com a Nicolle têm ficado mais frequentes, tanto que até mesmo a Sarah já percebeu que tem algo errado. Na última discussão nós falamos em divorcio. E por mais que eu a ame, não posso ficar preso em algo assim.— Theo repuxava a camisa cinza que usava, um claro sinal de que ele estava angustiado.
— É só uma fase. Isso vai passar, confia em mim.— Skye estendeu a mão para o amigo, que prontamente a segurou.
— Mas eu duvido que você tenha passado por essa fase com o Ethan.— ele arqueou as sobrancelhas.
Minha melhor amiga mordeu os lábios e negou com a cabeça enquanto sentíamos uma tensão esquisita se instalar no local.
— Ainda, né? — enfatizei — Nenhum relacionamento é um filme romântico onde os casais são perfeitos e felizes para sempre.
Skye estendeu o braço e bateu na mesinha de madeira, que ficava no centro da sala, como se isso fosse afastar o que eu tinha falado.
— Que horror, Val. Você nem casou e já tá com todo esse pessimismo? — ela parecia surpresa — Achei que de todos nós, você era a que mais acreditava no amor. Ainda bem que o Ethan está de plantão e não precisou ouvir isso.
— Eu só estou falando a verdade, além do mais, vocês sabem que eu me acho a exceção para o amor — dei de ombros.
O resto da noite não foi diferente. A tal tensão continuou ali, assim como as lembranças de um tempo que não voltará.
Quando Theo me deu uma carona até em casa, tudo o que eu esperava era subir as escadas e dormir, mas assim que coloquei a chave na porta uma voz masculina me assustou e por pouco não gritei.
— Uou. Calma. — Caleb levantou as mãos e apontou para um carro azul do outro lado da rua — Sou eu, estava te esperando chegar. Tenho informações para você.
Ainda de olhos arregalados e coração acelerado, verifiquei as horas no meu celular e sabia que não seria legal convidá-lo para entrar já que minha madrasta o interrogaria de todas as formas constrangedoras possíveis. Por causa disso, fomos parar na Trilha da Felicidade, um dos pontos turísticos de Point City e um lugar que ironicamente não traz de nenhuma maneira a felicidade para mim.
O caminho até lá foi silencioso e assim que chegamos, Cal desceu do carro e passou alguns segundos apreciando a vista iluminada da cidade apoiado na ponte. É, para qualquer um aquela visão era perfeita, mas para mim só trazia tristeza. Não tinha o direito de pedir para ir a outro local, então apenas cruzei os braços e o vi se virar sentando no parapeito da ponte.
— Você não vai se suicidar. Não é? — apontei para atrás dele onde uma queda terrivelmente longa que levava a várias pedras pontiagudas parecia o aguardar.
Caleb lançou um olhar irresistivelmente perigoso e para meu assombro inclinou o tronco para trás, falando:
— Adeus, Val!
O medo me congelou, minha respiração parou por alguns segundos e tudo o que consegui fazer foi esticar os braços para tentar segurá-lo. Percebendo meu pânico, Cal voltou ao normal e disse:
— Relaxa, eu fazia isso o tempo todo com meus colegas da escola em uma escadaria que tinha por lá.
Mas isso não resolveu, apenas foi como "a cereja no bolo", o detalhe que faltava para começar a chorar compulsivamente.
— Eu... Meu Deus! Você está chorando? — ele perguntou e apenas abaixei a cabeça colocando a mão na boca — Oh, Valentina... Eu... Me desculpa.
Seus braços me envolveram e eu deixei que todas as lágrimas saíssem para levantar meu rosto.
— Você me ama tanto assim? — Caleb brincou passando os dedos em minhas bochechas.
— O acidente que matou minha mãe foi bem ali. — apontei para o final da ponte — Meus pais foram desviar de uma menina que atravessava e foram parar na outra mão, onde um caminhão de carga estava. Ela não conseguiu escapar da morte.
— Oh céus! — ele voltou a me apertar e acariciou meus cabelos soltos — Eu não devia ter feito essa brincadeira estúpida de fingir me jogar. Por que não me falou quando sugeri que viéssemos pra cá?
Apenas neguei com a cabeça porque nem eu mesma sabia o motivo, ou melhor, sabia mas preferia ignorar a verdade.
— Está tudo bem agora. — com relutância me afastei dele — Me diga logo qual informação tem pra mim.
Eu poderia ter até pedido para ele dizer na frente da minha casa mesmo, mas no fundo, tudo o que eu queria era ter outro encontro com Caleb Fletcher.
— De jeito nenhum. — negou pegando a chave do carro azul em seu bolso — Não vou continuar nesse lugar estúpido. Na verdade, nunca mais volto aqui.
— O quê? — solucei ainda por causa do choro — Não precisa, Caleb. Esse é um lugar muito bonito, você pode até trazer sua namorada aqui.
Cal arqueou a sobrancelha, riu e foi até o carro.
— Eu não tenho namorada, boneca. — falou abrindo a porta do veículo — A não ser que queira ser a minha.
O vi entrar no carro na maior naturalidade e não sei porquê, mas um sorriso animado apareceu no meu rosto instantaneamente.
Depois de dirigir por 15 minutos, ouvindo minhas orientações, fomos parar na Main Square, a maior praça da cidade e mesmo com o barulho do Festival de Dança, que acontecia no meio da praça, Cal revelou:
— Observei o laudo de alguns paciente e eles receberam morfina sem realmente precisarem. Teve uma criança gripada, que segundo o sistema, recebeu a droga, assim como uma senhora com falta de ar.
Estávamos sentados a uma distância tranquila da pista de madeira enfeitada por alguns piscas-piscas, onde alguns casais, jovens e velhos, dançavam, mas ainda assim, isso não impediu uma idosa de aparecer bem na hora que eu faria uma pergunta para Caleb.
— Venham dançar, meus queridos. — ela disse surgindo do nada — Venham.
Eu realmente tinha assuntos mais importantes para resolver, como entrar em detalhes sobre o desvio de morfina, mas meu coração não deixou e pelo visto, nem o do Cal. No fim, tudo o que queríamos era ficar juntos naquela noite e tudo não passava de uma desculpa para isso.
E nossa, como nós dançamos... Mas nada se comparou quando começou a tocar Mirror, do Justin Timberlake.
https://youtu.be/uuZE_IRwLNI
Eu estava dançando com um garoto de dez anos quando Caleb me puxou de maneira desajustada que logo se sintonizou e passamos a completar os passos um do outro, apesar de vez ou outra pisarmos nos nossos próprios pés. Quando Cal me abraçou para dançarmos lentamente, prestei atenção na letra e aquele nervosismo, típico de quanto chegava perto dele, aumentou.
— Cause with your hand in my hand (Porque com a sua mão na minha mão) — Caleb sussurrou unindo nossas mãos — And a pocket full of soul (E um bolso cheio de alma). I can tell you there's no place we couldn't go (Eu posso dizer, não há lugar aonde não podemos ir) — apertei meus dedos contra os seus — Just put your hand on the glass (Apenas coloque sua mão no vidro).
I'll be tryin' to pull you through (Eu estarei aqui tentando puxar você).
Antes que ele finalizasse aquele pedaço da música, me afastei só um pouco e juntos cantarolamos:
— You just gotta be strong (Você só tem que ser forte).
Eu fechei meus olhos e o senti se aproximando, eu estava quase entregue a ele, mas o rosto de Stanley me veio a mente. Antes do homem a minha frente colar nossos lábios, o empurrei com força fazendo ele bater em outro casal, balancei a cabeça não acreditando no que ia fazer e saí andando para longe dali.
— VALENTINA! — Caleb chamou vindo atrás de mim.
Olhei para trás e o vi se esquivar das pessoas, mas não parei, pelo menos não até ele me alcançar graças as suas longas pernas.
— VAL! — ele segurou meu ombro e me virou de frente para ele.
— O quê? — minha respiração descompensou, não só por causa da corrida, mas por culpa da nossa proximidade perigosa.
Ao contrário do que pensei, Cal não me beijou, apenas me levou para mais longe do Festival de Dança. Quando paramos perto do seu carro, estacionado na parte leste da praça, me encostei em uma árvore, suspirei e de olhos fechados reuni coragem para questionar:
— O que você quer, Caleb Fletcher?
E sem aviso algum ele me respondeu, da maneira que meu cérebro não queria, mas que meu coração ansiava. Só ali, Caleb teve coragem para unir nossos lábios e dessa vez sem qualquer tipo de resistência coloquei meus braços ao redor do seu pescoço enquanto ele apertava minha cintura aprofundando nosso beijo numa intensidade que me fazia sentir cada parte do corpo queimar e aspirar por mais.
— Ah, droga. — foi a primeira coisa que falei quando nos afastamos ofegantes.
— O quê? Vai dizer que não gostou? — Cal brincou selando nossos lábios rapidamente.
O empurrei pela segunda vez.
— Que merda eu estou fazendo? Não mereço o Stanley! — coloquei a mão em meus lábios formigando — Ele está viajando a trabalho e eu aqui beijando você.
— É isso mesmo! — Caleb passou as mãos no próprio cabelo — Você não merece ele! Não vê?
O meu coração estava tão acelerado que eu não conseguia pensar direito, então precisei que ele explicasse o que queria dizer.
— Você não sente isso, Valentina Javaddy? — ele apoiou um de seus braços na árvore e com o outro apontou dele para mim.
— Não. — neguei numa voz trêmula — Nem sei porquê beijei você. Eu mal te conheço e amo o Stanley!
— Val, você pode até tentar me enganar, mas não faça isso consigo mesma. — seus olhos pareciam implorar — Se não gostar de mim, eu entendo. Agora dizer que ama aquele cara com nome idiota, é outra coisa, bem mais grave.
— Eu vou casar com o Stanley. — falei convicta.
— Quanto esforço você está fazendo para acreditar nessa mentira?— sua mão tocou meu rosto mais uma vez — Pense, Valentina. Não acabe com sua vida.
Ele estava certo, meu cérebro só queria acreditar nesse amor, mas infelizmente aquele beijo e a carona que Caleb me deu até em casa não foram o suficiente para me fazer desistir. Ainda estava disposta a prosseguir em tentar amar Stanley Olsen.
[...]
***
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Obrigada por está nos acompanhando. Não esqueça de deixar seu voto e comentário para sabermos o que está achando do livro e com quem você acha que a Val vai ficar.
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