30 dias antes - Investigação
Quantas vezes na vida nos apaixonamos?
Já vi pesquisas afirmarem que a paixão nos envolve apenas duas vezes, outras discordam e dizem que são três vezes. Sinceramente? Eu me apaixonei, no mínimo, dez vezes e olha, não estou falando de uma mera atração, estou falando de suspirar e se arrepiar apenas com a presença de alguém importante.
Lembro do Jean, do jardim de infância, o Lucas, vizinho da minha tia, o Bruno, do acampamento de verão, o Gabriel e o Eric, do ensino fundamental e claro, do Philip do High School, mas nem um deles me fez sentir tanta adrenalina como Caleb no sábado em que nos beijamos e naquela quinta-feira de setembro.
Ok, não era Cal que provocava o aumento daquele hormônio e sim o fato dele está me arrastando entre os corredores do hospital para entrarmos em uma sala proibida. Veja bem, eu já tinha feito muitas coisa inapropriadas quando adolescente e até traído meu namorado dias atrás, mas dessa vez, o que eu ia fazer era crime.
No sábado, antes de nos beijarmos e eu passar a noite acordada me sentindo culpada, Caleb tinha descoberto que morfina havia sido teoricamente usada em enfermos que não precisavam, como alguns pacientes com viroses e falta de ar. Logo, a fonte do Sr. Johnson estava certa quanto ao desvio desse fármaco, mas ainda não me saia da cabeça a falsa acusação para com Gregory.
Quando era mais nova, Gregory, que usava um nome falso, fazia parte constante da minha vida e quando ele foi preso acusado de comandar o tráfico de drogas na cidade, todos nos assustamos. Não fiquei tão surpresa em ele ser o suspeito número 1 do meu chefe no caso do desvio de morfina, mas quando fui visitá-lo — não que ele tenha me visto, é claro — em um asilo, vi o quão debilitado Greg estava.
Não fazia sentido a fonte do meu chefe afirmar que Gregory Thomas Campbell comandasse esse tráfico que eu investigava.
— Venha. — Cal interrompeu meus pensamentos e me puxou pela mão de forma apressada.
Ele estava lindo em seu jaleco.
Em uma rápida conversa antes que eu saísse do carro, no dia em que nos beijamos, decidimos ignorar o ocorrido, ou melhor, eu decidi e Caleb concordou em continuar me ajudando, demonstrando ser mil vezes mais maduro do que achava.
— É o seguinte, agora você vai realmente entrar em área proibida. — ele se virou no meio do corredor branco para me encarar — O segredo é você parecer que entra aqui todos os dias normalmente. Ok? O lugar que queremos chegar fica no fim do corredor, é a última porta à esquerda.
Assenti e ele soltou minha mão deixando o mundo mais frio, pelo menos foi como me senti. Caleb atravessou uma porta branca automática e o segui tentando não demonstrar medo para as outras pessoas. Dois enfermeiros passaram por mim e me observaram curiosos, mas não falaram nada, talvez graças a roupa branca que comprei exclusivamente para me infiltrar.
O corredor era longo e levava a diversas salas, não de pacientes, mas de materiais hospitalares, EPIs (Equipamento de Proteção Individual) e uma copa para os funcionários do hospital fazerem suas refeições. Foi quando estávamos passando por essa última sala que uma mulher extremamente bonita de cabelos ruivos e boca artificial saiu e ronronou numa voz fina:
— Ai Caleb, que bom que apareceu. Acredita que eu quase desmaiei? Estou me sentindo tão fraca. Você pode me examinar? Eu juro que não vai demorar.
Cal teve que parar e quando passei na frente dele vi seus olhos arregalados.
— Eu... Eu... — tentou formular, mas eu assenti como se dissesse "tudo bem, eu consigo me virar".
Na verdade, aquela mulher era uma "vaca", para não dizer outra coisa, que dava em cima de todos os médicos e enfermeiros do Hospital Point City com a mesma desculpa de estar passando mal, como Ethan sabiamente me falou no dia seguinte a esse.
Ainda podia ouvir Caleb tentando se livrar da mulher quando abri com a mão trêmula a porta branca do cômodo que ele tinha indicado. O cheiro de pó invadiu minhas narinas, mas não me deixei abater e tratei de ligar a luz. A sala era pequena e possuía estantes cheia de arquivos por toda a extensão da parede de tal forma que eu não sei dizer qual era a cor do lugar.
Tratei de começar o trabalho verificando uma pasta com um "Janeiro 2017" escrito bem grande na capa. Como havia desconfiado, ali tinha a relação de todos os produtos que foram comprados no início desse ano. Pulei todos os outros produtos, fui para a letra M, me assustei com o número alto de morfina, e tratei de comparar com a pasta de fevereiro, mas ambas indicavam quase a mesma quantidade.
Quando peguei a pasta de março estranhei, pois o número do hormônio pedido tinha sido quintuplicado. Nos outros meses foram comprados um número realmente grande, mas no terceiro mês de 2017 a quantidade de morfina era absurda. Para comprovar verifiquei as quatros últimas pastas de 2016 e todas não possuíam a mesma exorbitância do que as de março desse ano em diante.
— Seja lá quem está fazendo isso, não tem muito tempo, apenas seis meses de experiência. — falei para mim mesma.
Estava de costas quando a porta se abriu.
Por cerca de cinco segundos me imaginei sendo presa pelo meu próprio pai e passando o resto da vida na cadeia. Eu estava exagerando, é claro, mas recordo de ter pensado que assim não haveria casamento e o alívio que senti foi extremamente medonho.
— Ei, me livrei daquela mulher. — Caleb apareceu rindo e fechando a porta atrás de si — Você já viu a diferença enorme entre a compra de morfina?
— Sim. — proferi voltando a encarar a pasta em meus braços — Só tem um problema, não posso levar esses documentos e usá-los como prova.
— Eu pensei nisso também, mas tive uma ideia. — ele se aproximou do meu corpo e notei que comparada a ele posso ser considerada baixinha com os meus 1,73 de altura.
— Foco, Val! — sussurrei espantando aqueles pensamentos indevidos e colocando o arquivo no lugar.
— Desculpe. O que disse? — ele questionou tocando meu ombro.
— Nada. — disse me esquivando de qualquer contato com ele — Qual sua ideia?
Ele foi em direção as pastas mais antigas.
— Falei com o Ethan antes de ontem e ele prometeu que deixaria embaixo do arquivo de 2003 uma lista com os dez primeiros e os dez últimos pacientes que aparentemente receberam morfina sem precisar.
Engoli em seco quando ele levantou uma pasta e pegou um papel dobrado. Quase perguntei o motivo de Ethan simplesmente não me entregar o papel, mas lembrei que se pegassem ele com aquela lista sigilosa seria arriscado para sua carreira, assim como se alguém pegar Caleb me ajudando.
— Agora eu vou poder ir atrás desses pacientes e entrevistá-los. — segui sua linha de raciocínio — Assim eles vão poder falar se receberam ou não morfina.
— E quando você soltar a matéria, terá essa prova e a explicação dos pacientes se contradizendo. — falou estendendo o papel.
Dei alguns passos a frente e indaguei:
— Mas e se quiserem saber como eu consegui o nome dos pacientes?
— Bom, você pode dizer que recebeu anonimamente. — abriu um sorriso que inusitadamente aqueceu meu corpo — Ninguém poderá afirmar que entrou aqui, e se acontecer, não tem como provar, as câmeras do hospital não estão prestando mais e o governo ainda não mandou dinheiro para consertar.
— Como jornalista tenho algumas vantagens. — murmurei mais para mim do que para ele.
Então, a porta se abriu e dessa vez obviamente não era Caleb.
Surpreendentemente, Cal puxou meu corpo contra o dele, fazendo que minhas mãos - até a que segurava o papel - parassem atrás dele e nossas pernas se encostassem de forma perigosa enquanto sua boca roçava o meu pescoço descoberto graças ao rabo-de-cavalo que tinha feito mais cedo.
Meu coração estava acelerado e temi não ter a ver com a pessoa que tinha entrado no depósito de arquivos e sim com aquela proximidade calorosa, mas, parecendo não ser suficiente, Caleb pousou seus braços longos na lateral do meu corpo apertando suas mãos ao redor das minhas coxas.
— Caleb! — uma voz masculina expressou assombro — De todas as pessoas do mundo, nunca imaginei que logo você usaria essa sala para fins inadequados.
O rosto de Cal saiu de perto do meu pescoço e não me atrevi a dá uma palavra.
— Sai daqui, Luke. — seu tom soou divertido — Já te livrei de muitas...
Ele, ainda apertando minha perna, não terminou a frase.
— Não liga não, moça. — o tal Luke falou comigo — O Caleb é doido.
Apenas mordi o lábio completamente constrangida e enterrei o rosto no jaleco do Cal.
— Ownt. Ela é tímida. — o homem continuou.
— Merda, Luke. — enunciou chateado — SAIA DAQUI!
— Ok, ok... Deixa só eu pegar esse arquivo que o Dr. Gonzales pediu. — explicou — Ah, tchau Caleb, tchau boneca, divirtam-se, mas não muito, outra pessoa pode entrar aqui a qualquer momento.
Ouvi a porta se fechar, mas não me afastei, assim como Caleb. Suas mãos saíram da minha coxa e pararam na minha cintura, onde ele as uniu e me abraçou.
— Calma. Ele é um amigo. — sua boca estava próxima ao meu ouvido — Não precisa se preocupar.
— Eu poderia ter te colocado em problemas, Cal. — retruquei lembrando a sensação da sua boca contra a minha.
Ele separou levemente nossos rostos e pareceu querer falar algo, mas apenas cochichou alguma coisa inaudível e se distanciou completamente indo para o lado.
— Ahn... Vamos. — sua voz falhou — Eu te levo até a porta.
Estiquei meu braço para tocar no seu ombro e ele pulou para trás como se aquilo o queimasse.
— Eu só... Só... Obrigada, Caleb Fletcher.
Ele olhou para mim e sorriu como se ouvir seu nome pela minha voz fosse algo muito bom.
— De nada, Valentina Javaddy.
— Shall I stay would it be a sin (Eu deveria ficar? Seria um pecado?) If I can't help falling in love with you (Se eu não deixar, de me apaixonar por você) — cantarolei quando ele foi em direção a porta.
— Ahn? — Caleb virou em um misto de surpresa e confusão no rosto.
Sorri de lado sabendo o quão irônica essa música era diante do nosso encontro e do beijo.
— Eu ouvi Wicked Game. — me referi a letra que ele me mandara por mensagem depois do nosso primeiro encontro — Mas definitivamente a minha favorita do Chris Isaak é Can't Help Falling In Love.
Cal olhou para mim e com um sorriso diferente de todos que eu já tinha visto nele e falou em tom de confidência:
— For I can't help falling in love with you (Pois eu não posso deixar de me apaixonar por você).
Em seguida saímos dali, um e o outro entretidos nos próprios pensamentos e sentimentos.
[...]
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