Merda! Invoquei mesmo um demônio?


Eu não entendia ainda como não conseguia gritar, afinal, o susto tinha sido tão grande que eu podia sentir o meio do peito doendo. Mas, por que eu ainda estava parada olhando com a boca aberta, para aquilo que com toda certeza era uma sombra negra no canto da parede? Por que aquela coisa não nos matou ainda? Ou me matou? Ou possuiu? Sei lá...

Conforme minha mente trabalhava em todos esses porquês, eu podia sentir o pânico crescer dentro de mim. O que quer que aquilo fosse, estava bastante claro que pretendia brincar comigo, antes de fazer qualquer coisa.

— Rose, tudo bem? — meu corpo pulou automaticamente quando a voz de Rebecca ecoou. Eu estava tão assustada, que não tinha percebido que seus roncos suaves tinham parado e pior ainda, agora o tronco dela se erguia da cama, juntamente com a sua mão elevada para ascender a luz. Quis gritar para que ela não o fizesse, porém minha voz ainda não saia e eu ainda tinha o olhar fixo na sombra, que não parecia querer se mover tão cedo. Por um momento, me perguntei se a sua aparência em um ambiente totalmente claro, seria capaz de me causar um ataque do coração. — Rose? — a voz de Rebecca ecoou novamente e eu escutei o som do interruptor de luz, antes mesmo da claridade da lâmpada machucar meus olhos. O grito ficou estrangulado em minha garganta e de meus lábios entreabertos saiu somente um miado baixo e rouco. — Por Deus! Você está engasgando?! — a voz de Rebecca subiu algumas oitavas e no momento seguinte tudo que pude sentir era ela esmurrando minhas costas.

Queria pedir para que ela parasse, pois estava começando a doer, mas a minha voz ainda não saia. Tudo que eu podia fazer, era vasculhar cada canto daquele quarto em busca de um rosto horrendo para minha sombra perturbadora. Não era isso que todos falavam? Que demônios, fantasmas, ou o que quer que tenha vindo nos – me – perturbar, vinha em sua pior forma?

— Rose? Rebecca, o que está acontecendo aí? — Brenda ainda estava com a voz sonolenta, quando nos indagou. Quase que eu não a escutava, devido aos murros que eu tomava nas costas. Acho que seria melhor que eu tossisse, para que assim, Rebecca parasse de tentar colocar meus pulmões para fora pela minha boca. Mas, eu conseguiria tossir, ou se quer fazer alguma coisa? Pois estava claro para mim que eu ainda estava em completo pânico.

— Estou bem... — consegui murmurar baixinho e ensaiar uma tossida tosca, depois de varrer o quarto com o olhar angustiado umas duas vezes. Quando não vi absolutamente nada, meu coração foi capaz de voltar ao normal. Ou quase...

— Eu vou buscar um pouco de água para ela. — Rebecca falou baixinho e sua mão, que antes socava minhas costas, agora se movia pela mesma para cima e para baixo em um carinho, quase como um pedido de desculpas silencioso pela tentativa de me matar aos murros. Olhei para ela alarmada, querendo pedir para que ela não fosse, pois eu tinha medo de que aquilo que antes me observava estivesse lá fora esperando somente por uma oportunidade de nos pegar sozinha. Mas já era tarde. Rebecca deveria estar realmente preocupada comigo, porque praticamente correu do quarto.

— Rose, aconteceu alguma coisa? Você está bem? — o rosto de Brenda apareceu em meu campo de visão e eu pude perceber em seus olhos ansiosos que ela estava se perguntando se isso tudo tinha haver com o acontecido no porão. — Você teve um pesadelo? — a pergunta foi sussurrada para mim, pois já conseguíamos escutar o barulho dos corpos se mexendo na cama, o que indicava que algumas meninas tinham acordado e estavam de olho na gente.

— Eu... Eu acho que sim. — sussurrei tão baixo que me perguntei se ela tinha escutado. Seus lábios se comprimiram em uma linha reta e seu olhar preocupado se tornou carregado de culpa. Eu sabia que ela estava se culpando pelo que tinha acontecido lá embaixo. — Bren, está tudo bem. — forcei minha voz a sair o mais tranquila possível. Não era justo que ela se culpasse ou que eu a deixasse ficar preocupada comigo. Pelo que eu bem sabia, eu poderia muito bem ter imaginado coisas. Não iria revelar meus medos e deixar todas essas meninas assustadas. — Foi só um pesadelo. — murmurei, ainda com a voz baixa, pois queria que somente ela me escutasse.

— Aqui a água. — eu nem tinha percebido que Rebecca estava de volta, até ela aparecer na minha frente e estender um copo cheio de água em minha direção. — Bebe devagar. — ordenou, ainda olhando para mim com seus olhos castanhos repletos de preocupação. Eu gostava de Rebecca. Ela era uma garota legal, se mantinha sempre na dela e se ela conseguiu ir e voltar da cozinha intacta, pode ser que eu tenha realmente imaginado coisas.

— Obrigada, Becca. — a chamei pelo apelido que raramente usava. Não éramos tão chegadas assim para viver grudadas como eu vivia com Brenda, mas éramos próximas o suficiente para que eu a chamasse carinhosamente. E ela nunca se importou com o apelido. — Estou bem. É sério, foi só um pesadelo. — torci para que minha voz soasse convincente ao ponto de até eu mesma acreditar.

Depois de umas olhadelas significante de Brenda e do resto das meninas que participaram do fiasco da sessão Ouija, Rebecca se deu por vencida e concordou que todas podíamos voltar a dormir em paz. Conforme ela caminhava até sua cama, e consequentemente até o interruptor de luz, me peguei sentindo vontade de pedir para que mantivéssemos tudo aceso. Mas o olhar curioso de Linda me fez travar em cima da cama. Eu ainda não estava cem por cento certa de que aquilo não tinha sido uma armação dela e eu não queria lhe dar o gostinho de me ver amedrontada igual uma criança com medo do escuro. Mesmo que no fundo eu estivesse realmente com medo. Tentei novamente me convencer de que aquilo era somente coisa da minha imaginação fértil.

O som do interruptor ecoou e o quarto caiu no mais profundo breu e não deu para não ficar arrepiada. O primeiro arrepio tomou meu corpo inteiro, desde o dedo do pé, até o ultimo fio de cabelo. O segundo, fez meu corpo estremecer em cima da cama e meus braços formigarem. Eu podia sentir meu coração bater descontrolado à medida que minha respiração se tornava cada vez mais rápida. E eu quis fechar meus olhos, mas não consegui e sem que eu permitisse, minha cabeça se virou diretamente para o canto em que eu tinha visto ele.

E lá estava. Aquilo definitivamente era uma sombra e era enorme.

Fiquei tremendo no lugar, congelada demais para fazer qualquer coisa que não fosse esperar pela minha morte, ou por qualquer movimento de sua parte, que certamente me causaria um ataque do coração. Mas nada aconteceu. Ele só ficou parado lá no canto, esperando pelo o que eu não sei. Ele nem se mexia e se eu realmente fosse esperta, iria aceitar que aquilo tudo não passava de fruto da minha imaginação. Pois, embora eu tivesse passado praticamente minha vida toda em um convento, ainda não era daquelas que acreditavam em céu, inferno e consequentemente em demônios.

— Eu não tenho medo de você. — em um ímpeto de coragem me peguei sussurrando aquilo, logo depois de perceber que eu era a única acordada naquele momento. Meu coração já não estava tão acelerado assim e forcei meu corpo a se acalmar na marra, embora os malditos arrepios continuassem a me tomar de tempos em tempos.

Para meu completo horror vi um sorriso branco se destacar na sombra e cobri meu corpo dos pés à cabeça com o grosso cobertor. A coragem tinha ido embora tão rápido quanto apareceu e agora eu tremia escondida dentro das cobertas. Aquilo era ridículo, mas eu não podia fazer nada. Se aquela coisa quisesse me fazer mal, um cobertor não iria me proteger. Mas pelo menos, eu não seria capaz de vê-lo. Se fosse mesmo real, não tinha escapatória e se não fosse real, eu não gritaria como uma garotinha assustada.

Me peguei murmurando baixinho todas as orações que eu tinha aprendido nesses sete anos de convento e ouvi um riso baixinho e assustador, o que me fez quase vomitar de tanto medo. Meu corpo paralisou sofrendo o espasmo mais violento que já senti em toda minha vida, pois, de fato, parecia que eu quase convulsionava tamanho era o medo que eu sentia ao perceber que o riso estava dentro dos lençóis comigo.

— Por favor... — solucei, pedindo pelo o que eu não sei. Que ele fosse rápido? Que me deixasse em paz? Que poupasse pelo menos as outras cinco idiotas que não tiveram culpa por eu tê-lo irritado? Automaticamente me lembrei da última regra do jogo. "Nunca saia do jogo sem dizer Adeus". E me peguei murmurando sem parar a palavra "Adeus", torcendo para que de algum jeito aquilo me deixasse em paz. Talvez, tenha dado certo. Talvez, ele só tenha se cansado. Ou talvez, minha mente insana tenha me dado uma pequena trégua. Afinal, em dado momento, adormeci pelo cansaço com a sombra do seu riso ecoando em meus ouvidos.

...

Na manhã seguinte, mais do mesmo. Eu não conseguia vê-lo conforme ia fazendo as minhas tarefas do dia, mas eu podia sentir sua presença perto de mim. E parecia que eu era a única a sofrer desse mal, pois esperei que alguma das meninas deixassem escapar algo sobre estarem vendo alguma coisa ou sendo atormentadas, mas nada aconteceu a elas.

Fiquei apreensiva o dia todo, esperando que a nossa escapulida ao porão tivesse sido descoberta, mas aparentemente, por mais ensurdecedor que tenha sido o barulho que fizemos, absolutamente ninguém tinha acordado. Era estranho, mas nenhuma de nós tocou no assunto novamente e eu andava inquieta pelos cantos, tentando captar qualquer indicio de que alguma das garotas estivessem vendo algo. Estava tudo normal com elas.

À noite, assim que as luzes se apagaram, voltei meu olhar ansioso para o canto do quarto e lá estava sua sombra. Meu coração deu o costumeiro salto e acelerou, mas eu me mantive em silencio e o encarei esperando, esperando... Porém, ele não se mexia e só ficava me olhando. Fui vencida pelo sono, enquanto observava a minha sombra e esperava que ela fizesse o mínimo movimento. A curiosidade estava vencendo o medo e isso era um perigo.

...

Andei cautelosamente ao lado de Brenda, enquanto íamos tomar o café da manhã e depois teríamos que ajudar a limpar o refeitório. Quatro dias tinham se passado desde o dia em que fomos no porão. Quatro dias em que eu tinha um visitante silencioso em meu quarto. Quatro terríveis dias em que eu tentava inutilmente me forçar a acreditar ser coisa da minha cabeça. Afinal, ele não tinha feito nada com nenhuma de nós. E o fato de somente eu conseguir vê-lo, me fazia insistir nessa ideia que, de alguma forma, eu tinha o inventado.

— Você está muito estranha! Por que exatamente está seguindo Linda e Laura? — a pergunta de Brenda me pegou de surpresa e eu a olhei com a sobrancelha franzida.

— O que? Eu não...

— Rose, você ficou se esgueirando perto delas quase a manha toda! Sempre uns passos atrás, sempre de olho... — eu sequer tinha percebido que estava fazendo isso. — Está querendo se vingar? Por que se for isso, eu topo! — àquela altura do campeonato, Brenda já estava completamente convencida de que tinham sido Linda e Laura que armaram aquilo para cima da gente. Eu escutei calada, enquanto ela confidenciava suas conclusões para Agatha e Alicia.

Aparentemente o medo já estava completamente esquecido e agora tudo que ela pensava era em se vingar.

— Eu não estou seguindo ninguém, Bren. Mas vou pensar na ideia de uma vingança. — esperava que aquilo fosse o suficiente para que ela esquecesse dessa história e quando terminamos o café e consequentemente a limpeza, observei a cabeça loira de Linda virar à esquerda no corredor que dava para a biblioteca e fui automaticamente para o lado contrário, indo para a pequena igreja que tínhamos dentro do convento.

Passei o resto daquela manhã adiantando as orações diárias. Tanto que quando terminei, era quase hora do almoço. Não esperei por Brenda, queria ficar o máximo de tempo sozinha, então me levantei e caminhei a passos rápidos pelos corredores, até chegar ao banheiro.

O banheiro era coletivo, embora graças aos céus, os boxes fossem individuais. Eu odiava tomar banho com aquele monte de garotas. Suspirei agradecida quando vi que estava sozinha no local. As pequenas cabines azuis estavam fracamente iluminadas pela luz solar, que adentrava pelo vidro das quatro janelas no alto da parede. A água demorou a esquentar, tanto que quando finalmente atingiu a temperatura morna o meu corpo já estava totalmente arrepiado. Tomei cuidado para não molhar os cabelos e fechei os olhos ao sentir a água cair no meu rosto.

— Quem está aí? — a cortina balançava e eu sabia que aquilo só podia acontecer se alguém passasse a mão nela, movimentando-a. — Quem está aí? Não vou perguntar novamente e eu juro por... — me calei ao sentir a cortina se movimentar como se um vento forte tivesse passado por ela. Mas aquilo era impossível, pois as janelas eram fechadas e não entrava vento no ambiente. Naquele ponto, a água do chuveiro já caia extremamente fria, mas não era a água fria que me fazia tremer. Era a presença dele. De algum jeito eu, ou o meu corpo, estava consciente da proximidade dele, mesmo sem conseguir vê-lo. Eu podia senti-lo... — Deus do céu... — choraminguei baixo, implorando... Sequer lembrando do fato de que o que quer que aquilo fosse, não iria gostar de ouvir qualquer menção a Deus.

— Shh... — foi a primeira vez que ouvi algo vindo dele. Não era exatamente o som de sua voz, parecia mais como um sopro de mormaço, diretamente em meu ouvido. E era quente... Quente como o inferno deveria ser. Estremeci ao pensar nisso.

E acabou tão rapidamente como começou. Notei vozes se aproximando e consegui soltar a respiração que nem tinha percebido estar segurando. Meu coração começou a bombar dolorosamente dentro do peito, na certa tentando compensar as batidas que tinha perdido ao sentir aquele sopro quente. Procurei respirar algumas vezes, enquanto fechava o registro do chuveiro e pensava que o que quer que aquilo fosse, queria perturbar somente a mim, pois assim que as outras garotas apareceram, ele foi embora. Procurei me acalmar, tendo em mente que se aquela presença quisesse me machucar, já teria feito com ou sem testemunhas.

Isso era uma boa notícia, não era?

Me troquei o mais rápido que pude, sem dar atenção as garotas que conversavam tranquilamente entre si ao se preparar para tomar banho. Fui em direção a lavanderia e depois diretamente para o refeitório. Tínhamos horário para tudo e com as refeições não seria diferente. Caso alguma de nós se atrasasse ou não comparecesse, teria que aguardar até a próxima refeição ou ficar com fome. Logicamente, tinha a irmã Izobel, que era praticamente uma santa e nunca nos deixava com fome ou nos castigava como a irmã Maria.

— Está tudo bem? — Brenda me olhou assim que me sentei. Seus olhos azuis me encaravam preocupados.

— Sim, por que? — olhei brevemente para ela e depois voltei minha atenção para meu prato de comida. Eu não queria que ela visse a apreensão em meus olhos ao esperar por sua resposta. No fundo, eu ainda temia que ela fosse começar a dizer que também estava vendo coisas.

— Olha, vou ser o mais clara possível. Não fica irritada e nem faz besteira, só toma cuidado, porque L1 e L2 estão tentando armar alguma para cima de você. — ela falou tão rápido que demorei um tempo para processar que ela estava me alertando sobre Linda e Laura.

— O que? — eu ainda estava com a boca cheia de comida quando perguntei estupidamente. Ouvi minha amiga respirar em alivio e logo depois fazer uma careta.

— Eu as ouvi cochichando com Agatha e Alicia, sobre alguma coisa entrando em você... — minha testa estava franzida ao escutar aquilo e eu estava prestes a perguntar do que ela estava falando, quando a mesma levantou a mão me silenciando. — É sobre o porão, Rose! Elas estão insinuando que alguma coisa... Que alguma coisa te possuiu, sabe? — ela bufou ao final e eu percebi que ela não conseguia acreditar naquilo tanto quanto eu. — Confesso que fiquei com medo nos primeiros dias e fiquei preocupada com você. Mas isso não existe! Acredito que se realmente algo estivesse conosco, não nos deixaria em paz. — desviei o olhar do seu ao ouvir aquilo. Pois, tinha algo que não me deixava em paz desde aquele dia do porão. — Aquilo que aconteceu no porão foram aquelas mocreias e agora estão tentando fazer a cabeça de Alicia e Agatha. E além do mais... — olhei-a no momento em que ela voltava sua atenção para seu prato de comida, o canto dos lábios se levantavam em um sorrisinho. — Nenhum demônio que se preste iria possuir uma pessoa e deixar ela falar com a boca cheia de comida. Mania feia! — brincou rindo e eu rolei os olhos. Brenda sempre odiou que eu falasse com a boca cheia e não iria deixar o momento passar sem me dar uma alfinetada.

— Ridícula! — fiz questão de enfiar o máximo de comida na boca e mastigar fazendo um extremo barulho. Brenda fez uma careta para mim, mas depois sorriu.

— Só tome cuidado com essas vacas, okay? Se precisar de ajuda, grita e eu vou atrás dela com a minha faquinha de serra. — ela levantou a mão que segurava a faca de cortar carnes, somente para enfatizar o que tinha acabado de dizer. Eu ri baixo, sendo acompanhada por ela, mas no fundo estava com o coração apertado, pois Linda e Laura não estavam completamente erradas. Eu podia não estar possuída, mas alguma coisa parecia estar atrás de mim. Não podia ser somente coisa da minha imaginação, aquelas sensações eram vividas demais.

Passamos o resto daquela tarde entre a sala de leitura e as obrigações estudantis. Estudávamos religião com as freiras formadas, mas também estudávamos outras matérias com professores que vinham somente para nos derem aulas básicas.

No final das aulas eu estava com a cabeça tão cheia, que quando deu o horário de jantar preferi me manter na biblioteca para terminar a enxurrada de coisas que irmã Maria tinha nos passado. Eu não queria correr o risco de acabar ajoelhada no milho por não ter entregado a maldita lição. E eu não era a única a ficar na biblioteca. Duas garotas estavam cochichando entre si, sem nenhum livro aberto entre elas e me perguntei se eu estava atrapalhando algum tipo de pegação, pois isso era muito comum aqui. A maioria de nós não escolheu seguir pelo caminho da religião, aquilo nos foi imposto e muitas se relacionavam como um ato de se rebelar.

Procurei ignorar as duas e voltei a atenção para o meu caderno e o grosso livro que eu tinha ao meu lado. De qualquer forma, ali não era lugar de namorar. Esperei que elas se tocassem que eu não sairia e saíssem elas mesmo, mas aparentemente, elas estavam me ignorando também e não pareciam incomodadas com a minha presença. Segui com a minha atividade, até que notei a luz do candelabro no fundo da biblioteca piscar e se apagar. Olhei para lá curiosamente, sentindo o costumeiro arrepio pelo corpo e encarei nervosamente as garotas risonhas. Seus olhos estavam divertidos ao cruzarem com os meus. Me perguntei se elas continuariam a achar divertido se soubessem o que estava por trás disso.

— Essas lâmpadas velhas... — uma delas murmurou e a outra somente deu de ombros, como quem diz "deixa para lá". Mas eu sabia... Eu sentia que não era só isso.

Juntando todo o resquício de coragem e bom senso que existia em meu corpo, me levantei arrastando a cadeira em um barulho absurdamente alto e fui em direção aos fundos da biblioteca. Eu queria que alguém estivesse prestando atenção em mim, pois na minha mente louca, aquilo não me faria mal se tivesse plateia. Loucura? Talvez! Mas continuei seguindo mesmo assim.

Conforme eu me aproximava, fui sentindo sua presença arrepiar meu corpo. Mas, mais do que isso, eu podia ver uma sombra perfeita de um corpo alto.

— Quem é você? O que você quer? — perguntei corajosamente e esperei por uma resposta que não veio. Olhei ansiosamente para trás e peguei as duas garotas me encarando curiosas. Xinguei-me mentalmente por não ter falado mais baixo, quando um punhado de livros, de repente, caiu da estante me fazendo dar um pulo assustado. As cadeiras foram arrastadas as minhas costas e as meninas agora estavam em pé. — Desculpe, derrubei sem querer. — me forcei a sorrir, mesmo que nervosamente. Elas ainda me encaravam, mas agora estavam entre o medo e a confusão.

— O que estão fazendo? Já para a cama! O jantar acabou a quinze minutos! — Izobel de repente apareceu na porta, nos dando um tremendo susto. Peguei os livros do chão apressadamente e os enfiei em seus respectivos lugares, prendendo a respiração ao perceber um par de olhos vermelhos me observando sob a escuridão entre os livros. Enfiei o último livro de qualquer jeito e sai correndo dali o quanto antes.

— Por Deus, Rose! Onde estava?! A irmã Maria vai chegar a qualquer momento. — Brenda foi jogando minha camisola em minha direção, enquanto eu me apressava em retirar a roupa que éramos obrigadas a usar aqui no convento. A peça obrigatória era um vestido cinza, com cumprimento de um palmo abaixo dos joelhos e uma blusa de mangas compridas, na cor branca e com botões. Usávamos a blusa por baixo do vestido. Esse era o nosso uniforme e como ainda não éramos formadas, não usávamos a bata própria para freiras.

— Perdi a hora estudando na biblioteca. — murmurei passando a camisola pela minha cabeça e alisando-a para retirar qualquer amassado. Chutei as roupas que estava usando antes para debaixo da cama assim que vi a maçaneta da porta virar.

— Estão prontas? — a voz da irmã Maria era autoritária ao fazer a pergunta e todas nós respondemos um sonoro "sim" e nos ajoelhamos. Assim que meus joelhos tocaram o chão, me perguntei o que meu visitante iria achar ao nos ouvir rezando. — Então vamos! Pai Nosso que estais no céu... — a voz dela ecoou por todo o quarto, rouca e forte, repetindo a oração cinco vezes, para logo depois começar a fazer sua oração de praxe, enquanto seguíamos murmurando nossa própria prece baixinho até que ela terminasse a sua. Eu me mantive calada, incapaz de fazer qualquer coisa, pois podia sentir aquela mesma quentura que eu tinha sentido ao tomar banho, mas dessa vez estava em meus joelhos, embaixo da cama. Meus olhos estavam arregalados em horror. — Amém. — irmã Maria encerrou o ciclo de orações e fui obrigada a forçar meu corpo a se levantar. Apoiei minhas mãos na cama, pois não confiava totalmente em minhas próprias pernas.

Irmã Maria e irmã Izobel, ainda ficaram ali até que todas nós estivéssemos deitadas e quando nos cobrimos, irmã Maria apagou a luz e se retirou do quarto.

Fiquei ali deitada na cama, naquele quarto escuro, escutando cada uma das meninas caírem no sono. Primeiro, os cochichos foram silenciando-se aos poucos. Depois, o som dos corpos se remexendo inquietos foram se acabando. E por fim, o quarto caiu no mais profundo silencio, enquanto o leve ronco de Rebecca era a única coisa que se podia escutar. Eu ainda estava congelada em cima da cama, com medo até de me mexer e ver ele sair debaixo da minha cama. Por mais que estivesse acostumada a ver a sombra no canto do meu quarto, eu não saberia dizer qual seria minha reação ao ver uma sombra sair debaixo da minha cama. E parecia que ele pensava o mesmo, pois só precisou de um segundo de distração da minha parte, para que eu percebesse que ele já tinha saído e voltado ao seu local habitual.

Olhei atentamente para onde seria seu rosto, esperando ver as orbes vermelhas, mas não tinha nada ali. Somente escuridão. Uma sombra negra, que poderia facilmente ser considerada coisa da minha cabeça. Mas não era! Prova disso foi eu ver a sombra se mexer pela primeira vez e coçar o nariz. Sim, coçar o nariz! Aquilo era ridículo!

— Oh, por favor! — rosnei extremamente baixo, o que era um espanto para mim e num ímpeto de fúria joguei os lençóis para o lado. Eu não sabia o que pretendia fazer, mas eu iria fazer algo.

Eu não pensei no que estava prestes a fazer e isso não foi inconscientemente. Eu sabia que se deixasse meu lado racional tomar conta, eu nunca teria coragem o suficiente para tentar algo. Deixei que aquele impulso corajoso me comandasse por completo e não deixei espaço para arrependimentos, quando me vi parada em frente ao porão.

O costumeiro arrepio percorreu meu corpo e dessa vez eu não soube distinguir se era a presença dele ou se era porque no fundo eu sabia que aquilo poderia ser uma péssima ideia. Antes que eu me acovardasse abri a porta, tomando o devido cuidado de fecha-la novamente atras de mim. Encarei a completa escuridão daquele porão e fechei os dedos no corrimão, para só então, começar a descer as escadas.

Estendi a mão livre à frente do meu corpo, tateando em busca de algo para me segurar conforme eu ia descendo. Sozinha, naquele porão escuro, eu podia facilmente pensar em mil motivos que justificassem como aquela deia era ruim. Me assustei quando trombei em algo e o barulho ensurdecedor ecoou naquele cômodo, reverberando em minha mente e fazendo meu coração saltar dentro do peito.

— Por que não para de tentar andar por aí as cegas? Não quer acordar todo mundo, quer? — eu não estava pronta para escuta-lo. E mais ainda, eu não esperava que sua voz fosse tão suave.

Eu não sabia nem o que eu iria falar ou fazer para tentar fazê-lo falar alguma coisa. Mas ali estávamos. Sozinhos, no mais completo escuro, enquanto eu tremia e tentava a todo custo acha-lo naquele breu. Era impossível.

— Onde você está? — forcei minha voz a sair, tentando ao máximo não deixar que ele percebesse que eu estava com medo. Eu queria aquilo, não era? Eu queria vê-lo e acabar com aquele mistério, pois uma coisa era certa, invocamos algo com aquele jogo estupido e parecia que a coisa tinha aparecido somente para mim. Ofeguei quando seu olhar avermelhado se destacou na escuridão. — Quem é você? — sussurrei encarando onde ele estava.

Eu estava começando a ficar apavorada e aquele cenário não era dos melhores. Esperava, no fundo do meu coração, que ele se revelasse ser algum espirito brincalhão ou qualquer outra coisa do tipo, ao invés de algo mau. Eu precisava crer nisso, ou então tinha me posto em uma baita enrascada. Mas o fato dele se manter na sombra, me fazia acreditar que se ele quisesse me matar ou fazer qualquer outra coisa ruim comigo, já teria feito.

— Você não sabe? — sua voz estava baixa, um murmúrio rouco em um tom de falsa surpresa. — Foram vocês mesmo que me chamaram! Meu nome é Nathaniel. Ou devo me apresentar para você como Sr. Demônio?

Puta Merda!

...

N/A: Saudades do nosso demoin? Pois eu estava com muuuuuitas!

Passando para dizer que em breve o livro dois começara a ser atualizado no telegram!

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