Isso realmente não foi uma boa ideia.

— Vamos, Rose! Você pode ir embora a qualquer momento... Não quer que seus últimos dias nesse lugarzinho de merda, seja fazendo coisas divertidas? — olhei para a menina de olhos azuis, que estava na minha frente e rolei os olhos.

Brenda era uma menina de dezesseis anos, tinha um rosto meio infantil e os olhos arregalados de excitação, enquanto sorria de lado e apertava minha mão, dando leves puxadas para irmos em direção a porta.

— Brenda... — olhei ansiosa para a porta fechada e depois para as quinze camas no quarto. Seis camas estavam desocupadas, quatro de suas respectivas donas se encontravam no porão nesse exato momento, e tinha nós duas, discutindo aos sussurros a minha ida para participar dessa estupidez.

Não que eu estivesse com medo... Okay, talvez, só talvez, eu estivesse um pouco receosa. Mas o que me segurava realmente dentro do quarto, era a possibilidade de ser pega no pulo pela irmã Maria. Eu, definitivamente, não era fã de ficar ajoelhada no milho enquanto rezava incontáveis "Ave Maria's"

— Eu realmente não acho uma boa...

— Você não vai me deixar ir sozinha, vai? Sabe que eu sou curiosa, mas tenho medo. E além do mais... — Brenda parou de falar naquele momento e ambas olhamos para o canto esquerdo do quarto, onde Melissa soltou um audível ronco. Prendi meus lábios entre os dentes para não deixar o riso histérico escapar. Aquilo tinha sido um baita susto! — Além do mais, precisamos de seis pessoas para jogar. E não confiamos em mais ninguém para chamarmos. — ela cochichou para mim, enquanto dava olhadelas para o resto das meninas dormindo. Eu suspirei exageradamente alto e vi um sorriso vitorioso nascer nos lábios da minha louca amiga. Brenda sabia que eu tinha concordado com sua ideia absurda, sem nem mesmo que eu precisasse abrir minha boca. — Eba! — e aquela tinha sido sua comemoração, enquanto eu rolava os olhos e me deixava ser arrastada porta afora.

Os corredores daquele convento, onde fui obrigada a chamar de casa desde meus onze anos de idade, estavam escuros como um breu. Aquilo estava assustador e meu corpo foi se arrepiando a medida em que Brenda me arrastava em direção a porta do porão. Assim que ela abriu a porta, meus olhos se arregalaram para a fraca luz que mal iluminava o topo das escadas.

Aquilo era uma péssima ideia!

— Brenda...

— Shh! — ela me calou apressadamente, enquanto se lançava na frente e me puxava junto. — Você já concordou. Estamos aqui e não dá para dar para trás agora. — sua voz não passava de um sussurro ansioso.

Eu estava quase lhe dizendo que se eu quisesse "dar para trás" eu daria, quando ouvi vozes femininas sendo murmuradas lá embaixo.

— Brenda? Rose? São vocês? — a voz inconfundível de Agatha ecoou e eu espremi os lábios um no outro com força ao notar que ela estava com medo.

— Quem vocês chamaram para essa loucura? — perguntei a Brenda conforme íamos descendo as escadas cuidadosamente. Poxa, Agatha só tinha treze anos, coitada. Ela era só uma criança!

Agatha era somente dois anos mais velha do que eu era quando fui forçada pela minha mãe a vir para cá. Obviamente aprendi a aceitar essa decisão imposta por ela. Era aceitar ou enlouquecer com o monte de regras do convento, afinal, se dependesse da minha mãe eu não sairia nunca daqui. Ela esperava que eu fizesse os votos e me tornasse freira, mas eu tinha outros planos.

Há um ano comecei a lançar currículos pela internet em busca de um primeiro emprego. Irmã Izobel era quem me ajudava nessa, além de enrolar a irmã Maria e conseguir mais tempo para mim, antes que eu fosse obrigada a fazer meus votos, pois precisávamos tomar a decisão assim que completássemos dezoito anos. Izobel era uma das poucas irmãs, e ouso dizer a única, em quem podíamos confiar. E ela sabia que eu estava aqui contra minha vontade. Embora eu já fosse legalmente adulta e pudesse tomar minhas próprias decisões, eu não tinha para onde ir. Minha querida mãe não me acolheria em sua casa se eu saísse do convento.

— Só algumas pessoas... — Brenda murmurou apreensiva, me tirando dos meus devaneios. — Alicia me ouviu comentando com outras garotas e se convidou a vir. E você sabe que ela não faz absolutamente nada, sem sua fiel escudeira, Agatha. — observei Brenda rolar os olhos e segurei o suspiro de irritação.

Enquanto nos aproximávamos do pequeno círculo de garotas sentadas ao chão, percebi que a luz que iluminava o ambiente eram velas que elas espalharam no chão. Aquele era o cenário perfeito para uma tragedia.

— Isso vai dar uma merda gigantesca. — murmurei baixinho e vi Brenda rolar os olhos e soltar uma risadinha.

— Somos nós, Agatha. Quem mais poderia ser? Os demônios só vão aparecer mais tarde, quando começarmos a invoca-los. — a voz de Brenda não passava de um murmúrio baixo, mas foi o suficiente para que todas escutássemos. Vi Agatha e Alicia á olharem assustada e depois cochicharem entre si. Eu somente prendi os lábios entre os dentes para evitar rir, afinal, eu estava acostumada com esse humor de Brenda. E assim como ela, eu também não acreditava nessas baboseiras de anjos, demônios ou fantasmas. O que era uma tremenda ironia do destino conosco, afinal, morávamos em um convento. — Brincadeirinha. — sua voz melodiosa estava risonha ao se sentar no espaço vazio do círculo e me puxar para que me sentasse ao seu lado.

— Um tabuleiro Ouija. Quanta originalidade. — comentei encarando o tabuleiro que estava no meio do círculo.

— Okay, Okay... Vamos começar com isso ou não? — olhei atentamente para a dona daquela voz e segurei a vontade que eu estava de rolar os olhos. Por um momento eu cheguei a pensar que aquela ideia boba tinha partido de Brenda, mas é claro que eu estaria enganada. Ali estava Linda, a típica patricinha estudantil que mandava e desmandava em toda escola. A única diferença, era que aqui no convento, ela era a que adorava aprontar com as outras garotas. Aquilo era tão clichê... Me perguntava como Brenda tinha se deixado cair no papinho dela e me arrastado junto. — Okay, primeiro vamos as regras...

Nunca jogue sozinho;

Nunca jogue se estiver doente ou sentindo algum mal estar;

Se o ponteiro se mover para os quatro cantos do tabuleiro, significa que o espirito é mau;

Não mencione a bíblia ou nada relacionado a ela;

E por último, mas não menos importante, nunca saia do jogo sem dizer "Adeus", ou coisas terríveis vão te acontecer.

Eu estava completamente ciente de que ela estava inventando aquelas regras estupidas, mas não consegui evitar o arrepio que subiu pela minha espinha. Trinquei os dentes com força me obrigando a ficar ali e não soltar qualquer comentário sarcástico diante de toda aquela palhaçada. E evitei ficar olhando para Linda, que tinha um sorrisinho em seus lábios.

— Okay, todas com o dedo indicador no ponteiro. — Brenda fez o favor de quebrar o silencio que se instalou no ambiente, que embora eu não quisesse admitir, era assustador. Ela e Linda pareciam ser a únicas pessoas excitadas com aquela brincadeira.

Observei todas as cinco garotas colocarem seus dedos indicadores no ponteiro e imitei o movimento, enquanto normalizava a respiração e encarava o tabuleiro em derrota. A partir dali não tinha mais volta.

Ninguém falou absolutamente nada quando o ponteiro fez um círculo no tabuleiro seis vezes. Olhei para Linda e ela me encarou com um sorriso de lado. Claro que ela estava o controlando.

— Vamos Rose, faça as honras. — meus olhos que tinham voltado a encarar o ponteiro, se voltaram para Linda assim que ela proferiu aquelas palavras. — À não ser que esteja com medo. — essa última parte foi murmurada baixo, mas todas podíamos escuta-la. Estava claro que o intuito de Linda era mexer conosco, mas o alvo naquele momento era eu.

Rolei os olhos, ignorando o sorriso de zombaria em seus lábios e respirei fundo, voltando a encarar o ponteiro que agora descansava embaixo das palavras "Sim" e "Não".

— Tem alguém aí? — deixei a voz completamente monótona e ainda rolei os olhos, deixando transparecer toda a credibilidade que eu dava para aquele jogo idiota. O sorriso de Linda morreu e a risada de Brenda ecoou baixa, porém ela parou de rir no momento em que o ponteiro deslizou para o "Sim" do tabuleiro. Algumas meninas, ou melhor dizendo, Agatha deixou escapar um gritinho agudo e histérico. — Shh! Quer calar essa boca, Agatha?! É só a Linda mexendo o ponteiro.

— Não fui eu. — Linda apressou-se para se defender, mas eu pude ver o mínimo sorriso que ela tentava segurar. — Vamos, pergunte mais alguma coisa.

— Só eu vou perguntar? Por que você não pergunta? Essa ideia estupida foi sua, afinal. — tentei ao máximo controlar o tom de voz, enquanto piscava descontroladamente. Brenda riu novamente e eu tentei me acalmar ou alguém acabaria me escutando. Eu me conhecia o suficiente para saber que minha voz levantava algumas oitavas sempre que eu ficava nervosa.

— Tudo bem, Rose. Se está com medo, eu posso pergun...

— Argh! — trinquei os dentes e evitei encara-la. Garota estupida! — Okay, qual o seu nome, Sr. Demônio? — deixei uma risadinha escapar de proposito no final da pergunta e adotei uma expressão sarcástica ao encarar Linda. Abaixei o olhar brevemente quando o ponteiro começou a se mover formando o nome "Nathaniel". — Sério Linda? Não tinha um nome menos... "bíblico"?. — fiz aspas com a mão livre e deixei a risada fluir pelos menos lábios.

— Idiota! Não se pode falar da bíblia! — por um momento me espantei com o tom histérico em sua voz. Ela realmente parecia estar se empenhando em todo aquele teatrinho. — E não fui eu quem mexeu o ponteiro... — a voz dela foi morrendo aos poucos e ela deu uma olhada ansiosa para Laura, que estava sentada ao seu lado. Laura encarou-a com os olhos escuros arregalados e somente balançou a cabeça negando. Espera aí...

— Vocês duas estão de sacanagem com a nossa cara! — explodi me levantando. Eu não iria deixar aquelas duas garotas mimadas e estupidas ficarem tirando uma com a minha cara. E não queria admitir, mas estava começando a ficar com medo disso tudo. Prova disso era meu coração extremamente acelerado.

— Senta ai! Não se pode ir embora sem se despedir. — a única coisa que me fez voltar a sentar, foi o tom de sua voz. Linda parecia realmente assustada. Coloquei o dedo novamente no ponteiro e olhei para Brenda. Ela estava congelada ao meu lado, mas moveu seus lábios silenciosamente me pedindo calma. — Juro por De... Eu juro que não foi eu quem mexeu isso. — Linda respirou fundo, olhando mais uma vez para sua amiga Laura, que encarava o ponteiro em transe e tremia em seu lugar. — Vamos terminar de uma vez com isso! Adeus. — ela murmurou e mais uma vez o ponteiro se mexeu, mas dessa vez parou no "Não". Agatha gritou novamente e dessa vez algumas meninas acompanharam-na. Eu só não fui uma delas, porque estava congelada em meu lugar. — Por favor... O que você quer?

Observei completamente em transe o ponteiro se movimentar rapidamente pelas letras, até que se formasse a palavra "diversão". Olhei para cada um daqueles rostos com expressões amedrontadas e me perguntei qual delas estaria fazendo isso. Mal deu tempo de concluir qualquer pensamento, pois assim que o ponteiro voltou para seu lugar habitual, embaixo das palavras "Sim" e "Não", as velas se apagaram nos deixando na mais profunda escuridão.

O primeiro grito ecoou alto e estridente, fazendo com que um arrepio gelado subisse pela minha espinha. Minhas pernas se moveram por conta própria e quando percebi já tinha agarrado a mão de Brenda e começava a puxa-la comigo em direção as escadas. Enquanto nos afastávamos, eu tive a certeza de escutar uma risada baixa vindo de onde antes estávamos sentadas.

Não me preocupei em pedir desculpas em quem estava esbarrando, ou se quer me preocupei com o barulho que estávamos fazendo naquele momento. Só parei de correr quando encarei a porta vermelha com a pintura descascada, indicando que chegávamos ao quarto. Com o coração ainda aos pulos, coloquei a mão na maçaneta, olhando sob o ombro e vendo alguns vultos se aproximarem sobre aquela escuridão. Antes que eu gritasse o rosto amedrontado de Agatha apareceu na minha frente, juntamente com Linda, Alicia e Laura.

— Abre logo essa porta, Rose! — Agatha pelo menos teve a inteligência de manter o tom de voz baixo, mas sua expressão assustada deixava claro que só precisava de um mínimo barulho para que ela soltasse o grito que tanto tentava segurar.

— Espere! Nem um pio sobre o que aconteceu. — Linda estava ofegante e tinha uma carranca, enquanto colocava seus olhos em cada uma de nós. — Eu comecei mexendo aquilo, mas está bem claro que alguma de vocês conseguiu pregar uma peça melhor e me pegar. Há, há, há! Foi ótimo, meus parabéns! Conseguiu me assustar por um momento e eu não quero nem saber quem foi. — abri a boca para contestar, mas ela levantou o dedo, me silenciando. — Nem um pio ou todas nós estaremos encrencadas. Lembrem-se: Se a irmã Maria descobrir e eu cair, levarei vocês todas comigo. Vamos logo e em silencio, por favor, para não acordar as outras meninas. — fui obrigada a fechar minha boca e girei a maçaneta, enquanto espumava de raiva. Eu torcia para que ninguém tivesse acordado com nossos gritos.

Para meu espanto e alivio, o quarto continuava na mais completa escuridão e silencio, exatamente como estava quando saí com Brenda. Ao me lembrar dela, soltei sua mão e caminhei com cuidado até minha cama, cobrindo-me até a altura do nariz. Não me movi quando ouvi o barulho da cama ao lado, indicando que Brenda tinha acabado de se deitar também.

— Rose. — meu coração acelerou dentro do peito ao escutar minha voz sendo sussurrada no escuro, mas ao ouvir novamente, percebi que era somente Brenda tentando chamar minha atenção. — Rose, foi uma péssima ideia. Eu sinto muito ter te arrastado para isso. — por um momento eu fiquei tentada a manda-la a merda, porém rapidamente desisti ao notar o medo em seu tom de voz. Virei-me de lado para poder encara-la e pude distinguir vagamente seus olhos azuis na escuridão do quarto. Respirei fundo, até que consegui acalmar meu coração, que ainda estava acelerado.

— Não é culpa sua. Eu também estava curiosa e no final quis ir. — murmurei baixinho para que somente ela escutasse. — Vai dormir! Vamos esquecer isso. Ainda não estou completamente convencida de que isso não foi obra de Linda e Laura. — quase que no mesmo instante em que falei aquilo, minha mente me lembrou da parte em que as velas se apagavam sozinhas. Não tinha como elas terem feito aquilo, tinha? E aquele riso que eu escutei? — Eu acho que até escutei elas rindo...

— A última coisa que escutei, foi o grito da Agatha e a correria para sair dali. — ela murmurou e voltei a focar meu olhar em seus olhos. — Você escutou elas...

— Eu falei que achava ter escutado... Pode ter sido somente minha mente me pregando uma peça. Sabe... Quando estamos com medo nossa mente as vezes nos prega peças. — eu tentava ao máximo acreditar naquilo, mas ao mesmo tempo me questionava sobre as velas.

— Verdade! Não digo nada se uma delas não deu um jeito de soprar as velas, sem que nós percebêssemos. — a voz dela ecoou depois de um tempo e eu percebi que Brenda estava com um pouco menos de medo do que há alguns minutos atrás. Ela realmente estava acreditando naquilo e eu me perguntei se teria como uma delas terem feito aquilo sem que alguma de nós percebêssemos.

Fiquei ali, na penumbra daquele quarto e completamente acordada, enquanto aos poucos eu escutava Brenda começar a cair em um sono profundo. O quarto ainda continuava silencioso, a não ser pelo som da respiração das meninas dormindo, e eu me encontrava completamente alerta em busca de não sei o que. Um som? Um vulto? Um demônio adentrando por debaixo da porta? Aff! Aquilo era ridículo! Por fim tentei esvaziar minha mente de qualquer pensamento e focar no ronco baixo de Rebecca, tentando respirar conforme ela roncava e aos poucos senti meus olhos se fechando conforme o sono finalmente chegava para mim, enquanto ao longe, quase que inconscientemente, me lembrei da última regra.

Nunca saia sem dizer "Adeus".

...

Abri meus olhos, de repente, enquanto ofegava e sentia meu coração disparar dentro do peito à medida que meus braços se arrepiavam. Por mais que não tenha parecido eu tinha cochilado e as regras daquele jogo estupido, de repente enchiam minha mente. Puxei o cobertor até o nariz e varri o quarto escuro com os olhos. Conforme eu ia vendo as camas com as meninas adormecidas, pude sentir meu coração ir se acalmando.

Passei os olhos sobre a cama de Rebecca, que tinha sua cama a frente da minha e automaticamente meu olhar foi vagando desinteressadamente para o canto do quarto, enquanto eu sentia meu coração acelerado pelo susto ir se acalmando conforme eu via que tudo continuava perfeitamente normal. Até que minha respiração ficou travada na minha garganta e meu coração voltou a bater ainda mais acelerado dentro do meu peito, quando meus olhos se cravaram na sombra extremamente alta no canto do meu quarto.

...

N/A: Rooooi, tuto pom? 

Essa história já foi postada aqui e retirada, restando somente capítulos de degustação. E agora, quando eu finalmente vou poder dar continuidade nela, voltei para repostar e matarmos a saudade do nosso querido casal e de alguns personagens secundários que acabaram roubando o nosso coração. 

A história está com poucas modificações, mas espero que gostem <3

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top