Confissões

Encarei o escuro do alto daquelas escadas. Meus joelhos e braços doíam muito devido ao castigo, mas aquilo não era nada comparado a dor da humilhação de ter passado por aquilo e ser obrigada a aguentar sem reclamar. Abracei meus braços, sentindo a manga longa da minha camisola de algodão se grudar em meus ferimentos e dei o primeiro passo cuidadoso que me levaria ao final daquele lance de escadas. O ambiente estava quieto e calmo. O único barulho que se podia ouvir eram os suspiros trêmulos que eu dava ao tentar segurar o choro que insistia em sair pelos meus lábios. Porém, eu sabia, eu sentia a presença dele ali. A presença, que no fundo do meu ser, eu sabia nunca ter me abandonado e que presenciou cada golpe que tomei.

Sem que nenhum de nós dois dissesse algo, as velas que estavam ao chão se ascenderam, formando um círculo perfeito no meio do porão e iluminando parcialmente o ambiente. Fui capaz de enxergar o final dos degraus da escada e continuei a descer.

— Você viu tudo? — minha voz ecoou fraquinha e eu parei no último degrau, incapaz de continuar a andar. Me encolhi ali mesmo e abracei meus joelhos, sentindo os tecidos molhados se encontrarem.

— Infelizmente sim. — sua voz suave ecoou mais perto do que eu imaginava. Ele estava próximo, mas não o suficiente para que eu pudesse sentir a quentura que sempre emanava de seu corpo. Quentura essa que seria super bem vinda naquele momento. Deixei que meus olhos vagassem pelo cômodo, mas não consegui ver nada que indicasse onde ele estaria. — Aquilo foi horrível, até mesmo para mim. Eu não consegui sair e te deixar lá sozinha, mas eu juro que não olhei quando... — ele não terminou o que pretendia falar e nem precisava. Ambos sabíamos que ele estava se referindo a cena humilhante que foi eu me despindo naquela sala e depois no banheiro. E por mais incrível que pareça, eu acreditava em suas palavras. Se Nathaniel estava falando que não tinha me olhado naquele momento, eu acreditava. — Você deveria ter permitido que eu a matasse!

— Era bem capaz da culpa recair em cima de mim. — tentei soar irônica, mas falhei miseravelmente. O ressentimento por tudo que tinha me acontecido estava presente em minha voz, mas eu não conseguia sequer imaginar uma cena onde Nathaniel se fazia presente e ceifava a vida de irmã Maria. Eu estava com raiva dela, mas não queria aquilo em minha consciência.

— Eu... Eu... — sua voz me tirou dos meus devaneios e nunca imaginei que iria ouvi-lo parecer lutar com as palavras. Não que tivéssemos conversado bastante, mas eu não conseguia imagina-lo como alguém que tivesse dificuldade em falar o que quisesse. — Droga! — a voz dele estava irritada naquele momento e enfim, eu consegui ver seu olhar avermelhado aparecer e se cravar em mim. — Demônios... Ou meio demônios, como preferir... Nós não somos acostumados a mostrar piedade, compaixão ou sequer se importar com qualquer coisa. Mas eu juro por Lúcifer, que eu estava pronto para manda-la para o inferno quando ela te deu o primeiro golpe! Você não sabe como foi difícil me segurar ao ver aquilo. — desabafou de uma vez me fazendo prender a respiração e desviar o olhar, enquanto sentia meu coração disparar. Eu não queria pensar no que aquilo significava. Não naquele momento, pelo menos. Eu estava cansada demais, machucada demais... — Me desculpe. Eu não quero fazer parecer que isso é sobre mim ou...

— Está tudo bem, Nathaniel. — era a primeira vez que eu falava seu nome em voz alta, sem nenhum traço de sarcasmo ou irritação na minha voz. E me espantei ao notar que eu gostava de como soava.

— Eu posso tirar sua dor, mas seus ferimentos também vão desaparecer. E eu confesso que estou pensando em como isso poderia lhe trazer mais problemas. — encarei meus joelhos e depois meus braços, ambos cobertos pelo tecido molhado e manchado com meu sangue. — Mas não vou me recusar se você quiser que eu o faça.

— Por favor... — me peguei sussurrando e segurei a respiração, enquanto esperava pelo que viria a seguir. Eu fui capaz de sentir sua temperatura quente, conforme ele se aproximava de mim. Sua mão cobriu o meu joelho esquerdo, ainda por cima do tecido, e logo depois a dor incomoda cessou. Ele repetiu o processo com o outro joelho e encarei maravilhada o seu olhar avermelhado. No momento seguinte suas mãos estavam em ambos meus braços feridos e logo depois a dor sumia como se nunca tivesse existido algum tipo de ferimento. — Obrigada. — murmurei sem conseguir desviar meus olhos dos seus. Aquilo era tudo que ele me permitia ver. Nathaniel não me respondeu, tampouco retirou suas mãos quentes dos meus braços e eu podia sentir que minha respiração começava a ficar desregular com toda essa proximidade. — Eu quero te ver. — as palavras saíram de meus lábios sem que eu me desse conta de que estava lhe revelando meu maior desejo naquele momento. Eu precisava de um rosto para compor aqueles olhos vermelhos que tanto me intrigavam.

Eu poderia facilmente ter tomado um susto ao ver seu rosto aparecer tão de repente, mas eu estava esperando por aquilo. Eu não sabia como explicar, mas sentia que ele não me negaria aquele pedido. E eu estava certa.

Levantei meu olhar brevemente, somente para encontrar suas sobrancelhas grossas e escuras. Então fui abaixando lentamente o olhar, encontrando um nariz um pouco empinado, sua pele era branca e seus lábios levemente avermelhados. Ofeguei voltando a encarar seus olhos embasbacada e tive consciência de que estava piscando repetidas vezes, enquanto tinha seu olhar sobre mim. Ele, definitivamente, não era nada do que eu esperava.

— Decepcionada? — seu hálito quente bateu em meu rosto quando ele sussurrou a pergunta e eu tremi me lembrando inconscientemente de que ele ainda tinha suas mãos em meus braços.

— Você é muito bonito para ser um demônio. — murmurei ainda presa em seus olhos. Se não fosse por eles, Nathaniel poderia se passar por uma pessoa normal. Ou não tão normal assim, já que sua beleza era tamanha que chegava a ser até insultante. — Você está realmente me mostrando sua aparência verdadeira ou por debaixo disso tudo, você tem uma cara de bode e chifres? — seu riso ecoou baixo e eu vi pela primeira vez ele rolar os olhos.

— Primeiro de tudo: Quantos demônios você viu para poder comparar? — seus olhos se estreitaram e sorri sem graça.

— Nenhum. — assumi e mais uma vez vi ele rolar os olhos.

— Essa é a minha aparência verdadeira. Sinto em te decepcionar, mas sem cara de bode. — seus lábios se curvaram levemente para cima em um pequeno sorriso e eu não pude deixar de notar o quanto ele ficava mais bonito quando sorria desse jeito.

— Poxa... — me peguei murmurando, entrando em sua brincadeira e sorrindo também.

— Mas eu não posso dizer o mesmo dos chifres. — agora foi a vez dele de murmurar baixo, embora não houvesse nenhum traço de diversão em sua voz. Arregalei os olhos e antes que eu pensasse no que estava prestes a fazer, minhas mãos foram parar em suas bochechas e eu abaixava sua cabeça, enquanto encarava os pequenos chifres vermelhos e pontudos que escapavam dos fios escuros e rebeldes.

— Uau... — eu esperava que ele não levasse o tom espantado da minha voz para o lado ruim. Eu estava verdadeiramente espantada ao ver alguém como ele, mas não era um espanto ruim. — Posso tocar? — eu não conseguia esconder a ansiedade que estava impregnada em minha voz. Nathaniel levantou o rosto de repente e eu sabia que ele estava vendo a expectativa estampada em meu rosto, pois rolou os olhos mais uma vez. Suas bochechas quentes ainda estavam em contato com a minha pele e eu abaixei a mão, antes que fizesse algo estupido, como passar o polegar em sua pele branca e macia.

— Você parece estar melhor. Até voltou a ser completamente estranha. — seus dentes brancos apareceram, quando seus lábios se abriram em um sorriso. Bufei ao notar o tom provocativo que ele usava.

— Não me chama de estranha. — empurrei-o para longe, mas eu estava com um sorriso nos lábios também. Me levantei e caminhei até as velas, pois eu queria vê-lo melhor.

— Mas você é estranha. — virei-me a tempo de vê-lo endireitar seu corpo e ficar completamente ereto. Okay, Nathaniel era alto. Bem alto... E pelo jeito não gostava de usar camisas, pois estava com o peito completamente desnudo, me dando a visão de sua barriga chapada. Ou ele malhava ou tinha uma bela genética, pois ele estava muito bem. Sua pele alva não tinha pelo algum e seus braços também tinham alguns músculos, pois pude perceber ao vê-lo os cruzar sob o peito e encostar-se ao corrimão da escada. Senti meu rosto esquentar ao ser pega espiando. — E isso não quer dizer que eu não goste. — declarou por fim, me deixando se possível ainda mais quente.

O que estava acontecendo comigo?

— Okay. — murmurei envergonhada e lhe dei as costas, indo em direção a mesa. Assim que me virei novamente, pronta para me encostar ali, prendi a respiração ao vê-lo perto de mim. Perto demais...

Meus olhos se cravaram nos seus e Nathaniel colocou ambas as mãos abertas em cima da mesa, enquanto inclinava seu corpo levemente sobre o meu, ficando assim, na mesma altura que eu. Seus braços estavam próximos o suficiente para que eu sentisse a quentura emanar de sua pele para a minha. Estremeci levemente com aquilo.

— Está com frio? — ele sabia que eu não estava com frio. Eu tinha a plena certeza de que ele estava consciente de sua temperatura e do quanto estava mexendo comigo naquele momento.

— O que está fazendo? — deixei que a pergunta se escapasse em um sussurro. Meus olhos abandonaram os seus para encarar seus lábios. Pude ver o canto de sua boca se curvar para cima em um sorriso mínimo, antes que eu voltasse a olha-lo nos olhos novamente.

— Você me deixa intrigado. — ele também somente sussurrou, sem nunca quebrar o nosso contato visual. Seus olhos vermelhos brilhavam e me deixavam hipnotizada. — Como consegue continuar aqui comigo tão facilmente? Se manter tão calma depois de eu ter revelado o que sou?

— Eu, definitivamente, não estou calma. — e aquilo era a mais pura verdade. Eu não estava calma, pois meu corpo todo formigava. E eu sabia que era ele. Que era meu corpo reagindo a ele, ao dele, mas eu não conseguia pensar que aquilo era uma coisa ruim. A sensação não era ruim, pelo menos. — Eu não vou correr. — gracejei para tentar quebrar um pouco daquela tensão que nos envolvia e vi ele sorrir, agora um pouco mais amplamente. Seus braços se estreitaram um pouco mais e eu consegui sentir o calor se sua pele quando ele encostou no tecido úmido da minha camisola.

— Talvez eu não queira mais que você corra. — minha respiração ficou travada em minha garganta quando ouvi aquilo. Eu não estava mais machucada, não estava mais sentindo dor e ele, definitivamente, estava me dando coisas no que pensar.

— O que você quer então? — juntei toda a coragem que eu tinha para fazer aquela pergunta. Nathaniel tinha alguma coisa que exalava dele e me fazia ficar cada vez mais atraída. Eu não sabia se era algo exclusivo de seres como ele, ou se era somente minha mente fértil e meu corpo fraco reagindo ao seu corpo extremamente convidativo. Mas uma coisa era certa... Naquele momento, eu me perguntava se o que ele queria era compatível com o que eu queria.

— Muitas coisas... E algumas delas eu não deveria estar pensando agora. Não depois do que você passou. — dessa vez foram seus olhos que abandonaram os meus e se direcionaram para baixo, em direção a minha boca. Senti meu coração acelerar e meu corpo estremecer diante daquilo. Eu estava querendo essas coisas também. Não deveria. Mas a quem eu queria enganar? Eu estava sim, atraída por ele. — Respire. — a ordem ecoou suave, como um soprar de vento quente.

— Nathaniel...

— Shh... — uma sensação de reconhecimento passou por mim, mas diferente da ultima vez em que escutei e senti o sopro quente contra a minha pele, agora eu não sentia medo algum. Tudo o que eu podia sentir naquele momento era uma ânsia viva do que viria a seguir, quando o senti encostar sua testa na minha. Nathaniel respirou profundamente, e estávamos tão perto agora que eu podia sentir o corpo dele estremecer levemente contra o meu. — Você não imagina o quão forte estou tendo que ser, para fazer o que pretendo a agora... — prendi a respiração imaginando que seus lábios logo estariam sobre os meus, mas somente senti sua testa se afastar da minha, assim como seu corpo. — Não pense besteiras, okay? Eu não me alimento a alguns dias e eu não quero te assustar ou acabar fazendo algo que eu vá me arrepender depois. — assenti inclinando meu corpo um pouco para trás e direcionando meus olhos para o chão. Eu podia sentir meu rosto esquentando. Por mais que ele tenha explicado o motivo, eu ainda me sentia envergonhada e rejeitada. — Hey, eu disse para não pensar besteiras. — seu dedo, de repente, estava em meu queixo, me forçando a encara-lo. — Pensar no bem estar de alguém que não seja eu, é novo para mim. Não somos acostumados a nos importar com as consequências que nossos atos podem trazer.

— E quais são as consequências? — murmurei sem pensar, tão presa em seu olhar quanto antes.

— Você pode acabar sendo observada por um demônio. — rolei os olhos ao notar o traço de diversão em sua voz.

— Até agora não está tão ruim. — brinquei e sorri esperando que ele me acompanhasse, mas só obtive o silencio de sua parte. — O que mais? — eu sabia que tinha mais, sempre tem mais.

— E acabar se prendendo a ele sem perceber...

— Eu estou presa a você? — perguntei num fio de voz. Nathaniel ficou em silencio por um tempo, enquanto eu sentia meu coração começar a acelerar.

— Não, não está. Eu vou embora quando você quiser, basta me pedir. Mas isso não quer dizer que não seja perigoso. — ele falou aquilo rapidamente e se afastou brevemente de mim.

— E se eu não quiser?

— O que? — suas sobrancelhas se juntaram em confusão e eu respirei fundo, tomando coragem para falar.

— E se eu não quiser você vá embora? — abaixei o olhar para o chão, pois eu não conseguia encara-lo e revelar que eu queria que ele ficasse.

— Rose...

— Rose! Rose! — meu nome sendo chamado e as batidas na porta do porão atrapalharam o que quer que Nathaniel iria me dizer. Desencostei da mesa e subi as escadas correndo, pois eu podia ver a sombra de Brenda por debaixo da porta.

— Brenda. — murmurei ao encostar minha mão na porta e ouvi um "Graças a Deus" vir do outro lado.

— Aí amiga, eu soube do que aconteceu. — a voz dela estava triste. — Aquela velha desgraçada! Ela te machucou muito? — senti meu rosto esquentar ao imaginar que eu estava sendo a fofoca do convento naquele momento.

— Estou bem. Como ficou sabendo? — ela ficou em silencio por um tempo. — Brenda?

— Linda. — a resposta veio em um murmúrio baixo e eu respirei fundo. Claro que seria ela. — Ela escutou a irmã Maria falar com a irmã Izobel. Rose, por que voltou para mexer no tabuleiro? Está acontecendo alguma coisa? — olhei para trás e meus olhos se grudaram em Nathaniel, que me observava com os braços cruzados e encostado na mesa em que eu estava a uns minutos atras.

— Eu não voltei para mexer no tabuleiro. Eu só me lembrei dele e quis esconder para que ninguém encontrasse. — eu esperava que ela acreditasse naquilo. — Mas aí a irmã Maria...

— Eu sinto muito. — respirei aliviada quando notei que seu tom de voz tinha voltado a ficar triste e não mais temeroso. — Eu vou dar um jeito de te trazer comida, eu...

— Não! Brenda, não se preocupe. Eu posso aguentar duas refeições por dia. — eu sabia que as refeições seriam mínimas, mas não iria reclamar. — E eu não quero que ela te pegue também. Eu vou ficar bem.

— Mas...

— Está tudo bem, Brenda. Eu juro! Amiga, eu não quero que ela te veja. — eu não queria expulsa-la, mas eu realmente não queria que Brenda fosse castigada por minha causa. — Não se preocupe comigo e não se coloque em perigo, por favor. Eu vou ficar bem.

— Eu vou falar com a irmã Izobel. — a voz dela estava firme e eu soube, naquele momento, que nada que eu lhe dissesse iria fazer com que ela mudasse de ideia. Suspirei me rendendo e vi sua sombra se afastar, assim como o barulho de passos, indicando que ela tinha saído correndo dali.

Me voltei para Nathaniel e o vi se desencostar da porta, enquanto eu descia as escadas com cuidado.

— Me desculpe, por um momento eu esqueci que você não jantou ontem e nem tomou café. Está com muita fome? Eu posso trazer algo para você. — fui bombardeada com várias perguntas e antes que eu pudesse lhe dizer que eu sabia que ele estava tentando mudar o foco da conversa e que aquilo não iria funcionar, minha barriga roncou. Ele riu e eu senti meu rosto esquentar. — Eu já volto. Não saia daí. — bufei com aquela tentativa de ser engraçado e ouvi a sombra do riso dele ecoar por todo o porão, antes que ele desaparecesse da minha frente.  

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