Capítulo 1 - Mudanças necessárias


Acordo mais cedo do que costumo fazer. Afinal, hoje é um grande dia e talvez seja um dos melhores da minha vida. Hoje eu inicio um novo passo na minha trajetória nesse mundo, um novo caminho a trilhar. A espera aflita por tantos dias e meses finalmente foi findada. O nervosismo acaba me corroendo por completo e fico em torno de uns quinze minutos olhando para o teto e pensando nas várias vezes em que imaginei esse momento se concretizando. Como eu sonhava que todos os meus planos em relação a isso fossem realizados, e ao mesmo tempo como isso me deixaria a pessoa mais realizada do mundo.

Felizmente tive a proeza de conseguir esse sonho depois de muita persistência e paciência da minha parte. Não foi fácil sempre ser otimista e achar que tudo daria certo. Afinal de contas, a vida não é um paraíso e nem um filme da sessão da tarde com finais felizes e um roteiro previsivel. Eu adoro aquele ditado popular que diz: "O buraco é mais embaixo...", pois combina exatamente com a minha vida.

Voltando ao presente, levantei da cama com um entusiasmo a mais e passei pela minha mãe na ida ao banheiro. Desde o momento em que anunciei para ela que tinha conseguido um emprego e que iria morar em Fortaleza, ela se mantinha neutra e não mostrava objeção nenhuma. O que eu sabia que não era a sua vontade. Dona Francisca gostava que eu ficasse sob os seus olhos mesmo eu já tendo 22 anos na cara.

A verdade é que muitos pais ainda não se acostumam com a maioridade dos filhos e ainda os trata como adolescentes sem responsabilidades. É o caso da minha mãe, ou pelo menos era. Ela sabia que não podia me impedir de querer voar com as minhas próprias asas, e por isso, tratei logo de contar para ela todos os meus planos de querer morar sozinho e ter minha independência, muito antes de conseguir o emprego. Por outro lado, achando estranho todo esse silêncio, começo a iniciar uma conversa:

- E aí mãe... chegou o grande dia não é.

Ela demora um pouco para responder. Já estava esperando um daqueles sermões de que a capital é perigosa e que eu não vou conseguir me manter sozinho.

- É o jeito né! Eu tenho que me conformar de alguma forma. – Diz minha mãe em seguida.

As vezes fico triste por ela, eu não queria ter que deixá-la sozinha, mas é uma coisa que não está sob o meu controle. Já tem alguns anos que moramos em casa só eu e ela. Minha irmã recentemente voltou para casa só ano passado mas já se mudou outra vez. Um assunto que prefiro deixar para contar depois.

Entretanto, caso eu me mude, o que irá acontecer, ela ficará sozinha depois de muitos anos se dedicando ao nosso bem estar. Apesar de achar que será bom para ela essa experiência sozinha, sem toda essa preocupação ao meu redor, ainda fico com o coração apertado em ter que deixá-la. Minha mãe foi o meu tudo por anos desde que eu nasci, a minha âncora sobre esse mundo. Mas sei que o melhor também era eu arranjar um emprego e quem sabe assim começar a ajudar com as despesas.

- Será bom para mim mãe, tenho certeza disso. Irei ter o meu próprio dinheiro e ainda vou conhecer um lugar novo e pessoas da minha idade, além disso será uma experiência também de amadurecimento. Já adiei isso por falta de oportunidades, mas agora não dá mais para fugir. Só preciso do seu apoio para que isso dê certo. – Falo com convicção.

Ela acentiu em seco, mas sei que não consegui convencê-la o suficiente. Espero que com o tempo ela se acostume. Voltando a minha higiene matinal, depois de fazer minhas necessidades diárias, tomei um banho demorado e fiquei perdido em meus pensamentos. Eu não tô brincando quando digo que é um dos melhores dias da minha vida, talvez porque eu nunca tinha feito nada parecido. Estou emergido em um turbilhão de emoções que prevalece entre a felicidade e o medo. Não sei o que me espera e essa sensação deixa a minha ansiedade a mil.

Vou procurar focar mais nas coisas básicas e me apresso para me arrumar e checar se coloquei todas as minhas coisas na mala. Como eu tenho poucas coisas a levar e já separei praticamente tudo no dia anterior, apenas dou uma conferida básica para saber se não falta alguma coisa importante. Em seguida, escovo os dentes e tomo o café da manhã.

(...)

Faltando poucos minutos para sair de casa e pegar o ônibus, me despeço de minha mãe. Percebo que seus olhos estão mais brilhantes do que o normal, o que entrega um pouco da sua emoção. Não está sendo fácil para ela me ver partindo assim, então tento a manter tranquila assegurando que vou ficar bem e que ela poderia ligar quantas vezes quisesse que eu atenderia.

- Assim que você chegar você me liga no mesmo instante ouviu?! Se não vou bater lá nessa Fortaleza pra te trazer de volta. – Diz ela quando nos abraçamos.

Eu dei um sorriso e afirmei com a cabeça. Pelo visto, Dona Francisca assegurará de não me sentir tão distante dela.

- Pode deixar mãe! Só lembrando a senhora que só porque vou morar em outra cidade não quer dizer que não vou voltar mais para casa. Disse antes que pretendo passar alguns finais de semana com a senhora e pretendo cumprir com esse acordo. — Afirmo para deixá-la tranquila.

Ela pareceu ter ficado contente com isso. Logo após, lembrou-se de algo:

- E você não vai se despedir da sua irmã?

Bingo! Claro que ela tocaria nesse assunto mais uma vez.

- Eu acho que não tem necessidade, apenas vou para outra cidade, não quer dizer que eu vou mudar de estado ou país. – Digo de uma vez para encerrarmos esse assunto por enquanto.

- Mesmo assim, nem vai se despedir da sua sobrinha? – Dona Francisca continuou.

Minha sobrinha se chama Lúcia e é filha da minha irmã Raquel. Ela chegou nas nossas vidas faz pouco tempo e já preencheu um sentimento de alegria que não sabíamos que precisávamos.

A gravidez da minha irmã não foi planejada e abalou todos nós. Eu mesmo nunca imaginaria vê ela sendo mãe e cuidando de uma criança. Porém, quando Luce chegou ao mundo foi uma emoção tão grande que até esqueci essa hipótese. Claro que eu não tinha vocação para ser aqueles tios babões e tudo, mas pretendo contribuir com o melhor para o seu futuro.

Voltando ao assunto do porque não vou me despedir da minha irmã, a última vez que falei com ela foi só para passar raiva e eu sabia disso muito bem antes de tentar. Claro que a minha queridissima irmã colocaria vários impecilhos para eu não me mudar, como se ela tivesse alguma experiência em mudança de cidades.

Ela acha que não sou capaz de me virar sozinho e que meu emprego não é garantia nenhuma. Mas não se engane em achar que ela está preocupada comigo de verdade. Era apenas uma desculpa para exalar sua negatividade para comigo porque acha que não tenho coragem para tal coisa. E eu ainda sou ingênuo em achar que talvez ela me apoiaria e me daria força e dizer que ficaria tudo bem. Não seria a irmã que eu conheço desde que eu me entendo por gente.

Por isso, como tive essa discussão com ela, não quero ter que forçar sorrisos e abraços. Quero ter toda energia positiva ao meu lado. Já estive com minha sobrinha e ela é apenas uma recém nascida, não se dará conta da minha falta. Acho até melhor quando for visitá-la trazer alguns presentinhos de bebê. Pelo menos não estarei com as mãos abanando. Por fim, digo a minha mãe que falarei com minha irmã depois.

Após isso, me despeço dos meus três gatos Marry, Minie e Pirata. É a primeira vez que ficarei tão distante deles e eu já estou morrendo de saudades. Pretendo levar Minie e Pirata para morar comigo daqui um tempo e deixar Marry com minha mãe para ela não se sentir sozinha.

Depois de toda a despedida, finalmente pego minha mala e coloco minha mochila nas costas e saio pela porta. Até o dia ensolarado e o clima parecem estar diferentes, o que contribui ainda mais com esse momento. Caminho a passos curtos e contemplo a vista que percorri por tanto tempo. É uma sensação tão esquisita que até me pergunto se isso está realmente acontecendo.

Ao chegar no ponto de ônibus, recapitulo na minha mente tudo que farei quando chegar no meu apartamento. Felizmente consegui um local apropriado, e ao mesmo tempo sendo do meu gosto e não muito caro. Após cinco minutos, avisto o ônibus se aproximando e aceno.

É isso aí, não tinha mais jeito! Agora não adianta mais desistir. O que será que essa nova fase da minha vida reservará para mim?

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