Capítulo Quatro

Eros Stackhouse:

No dia seguinte, a sensação de desconforto se intensificou ainda mais, exacerbada pela chuva incessante que criava um véu opaco de nuvens densas no céu. A visibilidade na rua era comprometida, mas ainda assim, cada objeto e detalhe se destacavam em meio ao cinza.

O cansaço persistia, uma noite mal dormida atormentada pelos ecos do vento e os barulhos que me remetiam à figura sombria que havia avistado na noite anterior. Durante toda a manhã, a apreensão em relação ao almoço cresceu, temendo os olhares inquisitivos de Jeremy, que claramente percebia algo errado.

Em nossa casa, a tarefa de cozinhar recaía sobre mim, pois Jeremy se limitava a habilidades culinárias básicas, como fritar ovos e bacon ou preparar uma tigela de cereal. Assim, era minha responsabilidade cuidar da cozinha quando estávamos em casa. Ele demonstrava grande interesse em transferir as chaves do salão de banquetes para mim.

Foi quando percebi que estávamos desprovidos de comida em casa. Com isso em mente, elaborei uma lista de compras e entreguei o dinheiro a Jeremy, instruindo-o a ir até o mercadinho no final da rua. Dirigi-me à porta dos fundos, contemplando o quintal, onde as árvores e a grama ondulavam sob a influência do vento.

Conforme me aproximava, uma sensação de alerta me invadiu, indicando que alguém havia se aproximado perigosamente. Sem pensar, reagi instintivamente, executando uma manobra ofensiva que eu não usava desde que havia abandonado meus treinamentos de autodefesa há dois anos. Era uma reação impulsiva, impulsionada pelo medo, mas sem esperança real de sucesso. O intruso era um lutador experiente e notavelmente ágil, superando-me com facilidade.

Suas mãos entraram em contato com meu corpo, lançando-me para trás. Não creio que sua intenção fosse me ferir gravemente, provavelmente apenas desejava me afastar, mas minha falta de coordenação comprometeu minha capacidade de reação. Enquanto caía em direção à grama, prevendo uma queda dolorosa, algo inesperado ocorreu.

Antes que eu pudesse atingir o solo, o homem estendeu a mão com uma destreza igual à que havia usado para bloquear meu golpe. Ele me segurou, permitindo que eu recuperasse o equilíbrio, mas seus olhos estavam fixos em meu pescoço. Era o mesmo homem que eu havia avistado no dia anterior.

Ele se aproximou e revelou presas afiadas, enquanto eu lutava para conter minhas emoções.

— Afasta-se e guarda teu objeto de proteção solar — exigi, e o estranho parou abruptamente. — Guarda-o agora! Quem é você? E por que está espionando minha casa e a mim?

Ele me soltou e retirou um anel de sua mão, revelando sua identidade.

— Este é meu irmão — ouvi uma voz atrás de mim e me virei surpreso, encontrando Braxton. — Carter, então foi você quem veio atrás do Eros na madrugada? Que coisa feia, irmãozinho.

Carter rosnou em direção ao irmão mais velho, e eu, confuso, me afastei.

— O que diabos está acontecendo em minha casa? — gritei. — Seu irmão não parece muito esperto; por que diabos ele me atacou?

*****************************

Aguardava em silêncio, com o coração cheio de raiva contida, enquanto os dois homens à minha frente permaneciam em absoluto silêncio. Apesar de meu desejo ardente de utilizar meu dom para desvendar o que estava ocorrendo, mantive a compostura.

Finalmente, joguei o anel para Braxton, cujo olhar expressava total desilusão em relação ao irmão.

— Não pretendem dizer nada? — indaguei, indignado, ignorando os Compton enquanto Braxton me seguia, puxando o irmão pela manga e desaparecendo de minha vista. — Malditos.

Regressei à casa, passando por Oscar, nosso gato, que miou de forma desdenhosa, como se também estivesse xingando os irmãos Compton. Era por essas pequenas razões que amava tanto aquele gato.

Vinte minutos depois, Jeremy retornou com as sacolas contendo o que eu havia solicitado, depositando-as na mesa da cozinha antes de se virar para mim.

— O que temos para o almoço? — perguntou, seus olhos vagando pelas diversas opções que havia mandado comprar.

Assim como nossa mãe, eu era um cozinheiro cheio de imaginação, e nossas experiências culinárias eram sempre emocionantes e surpreendentes. Antes, Jeremy costumava criar um jogo para determinar o que iríamos preparar.

— Bife com molho de tomate e batata frita — dissemos juntos, e Jeremy exibiu um brilho nos olhos, aceitando a sugestão com entusiasmo.

Ele se arrastou em direção à sala de estar para assistir TV enquanto eu me ocupava na cozinha. Era uma dinâmica na qual ambos nos sentíamos confortáveis.

Preparei uma salada fresca, o molho de tomate e, enquanto os bifes grelhavam na frigideira, fritei as batatas até que ficassem douradas. Por fim, arrumei a mesa.

Chamei Jeremy quando a refeição estava pronta, e o aroma delicioso o atraiu assim que cruzou a porta.

— Fantástico como sempre, Eros — elogiou Jeremy.

— Obrigado pelo elogio — respondi, rindo.

Comemos em silêncio por alguns minutos, mas a ausência de palavras não era desconfortável. De alguma forma, nossa convivência fluía naturalmente.

Finalmente, aquele dia terminou de forma tranquila. Adormeci rapidamente, exausto, mas pela primeira vez em algum tempo, sem a sensação constante de desconfiança em relação ao mundo ao meu redor.

O restante da semana transcorreu com calma. Braxton Compton não reapareceu no restaurante, e tampouco vislumbrei seu irmão. Era como se aquele encontro inexplicável tivesse sido apenas um breve desvio em nossas vidas.

********************

Na tranquila sexta-feira à tarde, enquanto estava atrás do balcão, meu olhar se fixou em um canto onde Braxton e seus irmãos estavam sentados, compartilhando risadas e conversas animadas.

Ramona, minha colega de trabalho, apoiou-se no balcão, acompanhando minha mirada curiosa.

— Eros, no que está de olho? — ela perguntou, seus olhos seguindo meu olhar.

Naquele exato momento, os olhos de Braxton capturaram os meus. Virei a cabeça rapidamente, certo de que, ao encontrarmos nossos olhares, ele não exibia mais a rudeza e a hostilidade que havia demonstrado da última vez que nos vimos. Agora, ele parecia mais curioso e, de alguma forma, insatisfeito.

— Braxton está te olhando — Ramona comentou, soltando uma risada. — Parece que ele quer que você vá atender a mesa deles e de seus irmãos.

— Pare de olhar para ele — murmurei com firmeza. — Deixe que outra pessoa os atenda.

Ramona riu baixinho, mas voltou sua atenção para um cliente que acabara de se sentar no balcão.

Uma voz calma e serena me cumprimentou.

— Olá.

Olhei para cima e me deparei com o sorriso de Braxton.

— Olá, qual será o pedido de vocês? — perguntei com indiferença, fazendo com que ele me encarasse com aquela mesma expressão de frustração inexplicável nos olhos.

— Sei que está chateado pelo que aconteceu no domingo, e eu entendo que devemos explicar muitas coisas para você — Braxton disse, e eu quase o nomearia o melhor detetive do mundo.

— O que aconteceu no domingo... — Ele fez uma pausa, evidentemente evitando mencionar a parte vampírica, considerando a presença de Ramona e outros funcionários. — Meu irmão estava tendo um surto, daqueles que ele tem. Ele fica meio fora de controle quando isso acontece, foi por isso que agiu daquela maneira.

Se aquilo pretendia ser uma desculpa, era a pior que eu já tinha ouvido.

— Não quero discutir isso agora, mas você deveria prestar mais atenção ao seu irmão antes que algo estranho aconteça — repreendi, estalando a língua, antes de me afastar um pouco. Meus olhos, então, foram atraídos para um homem lendo o jornal da cidade.

Meu olhar percorreu as notícias calmamente. Em um jornal local repleto de fofocas da cidade, uma manchete chamou minha atenção: "Casal morre instantaneamente em acidente de carro... Acidente ou assassinato?". Era a sétima vez que uma notícia assim aparecia nas últimas semanas. Eu sabia que se referia ao acidente dos pais de Bonnie e JP, ou talvez estivessem comparando com o que aconteceu com meus pais, e tantos outros que vieram antes de nós.

Era a sétima vez que notícias sobre esses acidentes eram publicadas como se houvesse uma conspiração por trás deles, e isso só nesta semana.

Em outras palavras, as notícias sobre essas mortes vinham sendo divulgadas uma após a outra há quase um mês e meio.

A cada sexta-feira, sábado e até mesmo domingo, eram publicadas notícias sinceras de mortes ou, pelo menos, alegações de uma sociedade secreta oculta no mundo.

Embora as vítimas fossem sempre diferentes, havia algo em comum: todos os falecidos eram pais, e apenas as crianças sobreviviam.

A ideia de que qualquer família com mais de dois filhos estava fadada a perder seus pais em um misterioso acidente de carro rondava como um boato assustador. Alguns acreditavam nisso e viviam apavorados, temendo serem os próximos. No entanto, eu sabia que essas manchetes eram apenas palavras cruéis escritas por pessoas insensíveis, que não deixavam ninguém esquecer os trágicos eventos do passado.

___________________________________

Gostaram?

Até a próxima 😘

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top