Capítulo Dezoito
Eros Stackhouse:
Quando chegamos à imponente mansão Compton, eu estava quase convencido de que as memórias que vinham ressurgindo lentamente não iriam me dominar. Pareciam emergir aos poucos, brincando comigo como um predador brinca com sua presa. Era como se quisessem me testar por nunca ter buscado tais lembranças antes. No entanto, eu sabia que resmungar ou ficar chateado não ajudaria em nada, então entrei na casa com Robin à nossa frente, tentando manter a determinação.
Em um dos corredores, Luna apareceu e acenou para nós, seguida de perto por Carter e Braxton. Este último parou abruptamente e fixou seus olhos em mim. Maxuel sussurrou ao meu lado, segurando meu braço e alertando sobre uma conversa importante que Braxton tinha para mim.
Enquanto Maxuel se afastava para se juntar a Robin, Rafael e Jeremy, que já conversavam com Luna e Carter, Braxton se aproximou de mim com passos firmes. Seus olhos brilhavam com uma intensidade cativante que me deixou momentaneamente sem fala.
— Eros — ele disse, fazendo-me encará-lo enquanto meus pensamentos se embaralhavam, principalmente aqueles relacionados a Logan.
— Pelo quê? — Perguntei com uma indiferença calculada, lutando para não deixar transparecer o incômodo causado por sua comparação anterior com Logan.
Braxton baixou a cabeça ligeiramente, como se estivesse tentando ser sincero ou mostrar que não queria magoar ninguém. Suas palavras vieram antes que eu pudesse responder.
— Por ter dito que você é igual ao Logan, que vai machucar o Rafael. — Ele se desculpou, e aquilo me fez considerar minha resposta. Antes que eu pudesse replicar, Robin chamou nossa atenção para segui-la até a sala de treinamento.
Braxton permaneceu tão próximo que podia sentir seu calor corporal. Ele segurou meu braço suavemente e sua mão se ajustou como uma concha em meu ombro. Os dedos dele eram firmes e delicados, e senti arrepios percorrendo minha pele sob seu toque. Ele parecia entender que havia mais para ser dito entre nós.
— Você pode ouvir o que tenho a dizer antes de tomar sua decisão? — Braxton perguntou, sua voz carregada de sinceridade, enquanto seus olhos brilhavam intensamente.
Eu fiquei momentaneamente paralisado, olhando-o diretamente nos olhos. Suas palavras me surpreenderam, e um suspiro involuntário escapou de meus lábios.
— Braxton, eu não quero sua piedade ou que se sinta obrigado a agir de forma nobre por causa de Logan — respondi, tentando controlar minhas próprias emoções e não querendo que ele se sentisse responsável por minha situação. — Gostei muito do tempo que passamos juntos, mas não quero que você me dê seu coração por pena ou por querer substituir alguém. Eu quero que, se você decidir se apaixonar, seja pelo que sou de verdade, não por uma ideia de alguém que você deseja esquecer.
Durante o tempo que passamos juntos, Braxton sempre esteve disposto a fazer companhia no restaurante, a me ouvir quando eu precisava desabafar e a estar lá quando eu mais precisava. Embora eu gostasse muito dele, não queria entrar em um relacionamento neste momento, especialmente porque sabia que o coração de Braxton ainda estava profundamente ferido por suas experiências passadas.
Braxton suspirou e balançou a cabeça, parecendo resignado diante das minhas palavras.
— Eu entendo que você acha que não somos compatíveis e que estou carregando muito do meu passado — ele disse, com uma pitada de tristeza em seu olhar.
Baixei meus olhos momentaneamente, sentindo um aperto no peito.
— Braxton, se algum dia você decidir que estamos prontos para algo mais, quero que venha até mim com certeza do que deseja — acrescentei, forçando um sorriso e beijando sua bochecha antes de seguir para a sala de treinamento com ele ao meu lado.
Enquanto caminhávamos juntos, eu não podia deixar de pensar que, embora Braxton fosse uma pessoa incrível, talvez simplesmente não fosse o momento certo para nós dois.
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Assim, nos dirigimos à sala de treinamento. Embora a conversa com Braxton ainda estivesse fresca em minha mente, eu não conseguia deixar meus sentimentos desaparecerem completamente, mas concentrei minha atenção no treinamento. Depois que tudo terminou, entrei em meu carro para voltar para casa, ignorando completamente as perguntas não ditas de Maxuel e Jeremy sobre o que aconteceu entre mim e Braxton.
Rafael estava entretido e rindo ao contar sobre sua brincadeira com os bonecos encantados de Robin ou ao ver Maxuel exibir suas asas e voar até o teto.
Ao chegar em casa, abri a porta e subi as escadas diretamente para o meu quarto. Minutos depois, alguém bateu na porta e pediu permissão para entrar. Concedi, e Maxuel colocou a cabeça para dentro do quarto.
— Quer conversar sobre o que aconteceu entre você e Braxton? — Ele disse, com um sorriso preocupado nos lábios e olhos cheios de compreensão.
— Não foi nada demais, só conversamos, e eu disse a ele que só quero ter algo mais sério quando ele tiver certeza do que deseja comigo. — Respondi, vendo Maxuel se acomodar na beirada da cama e indicar com um gesto para que eu encostasse minha cabeça em seu colo. — Acho que já sou adulto o suficiente para lidar com essas questões dessa maneira.
Maxuel me olhou com um olhar cético, mas eu o deixei persuadir-me a deitar minha cabeça em seu colo. Ele começou a fazer um carinho suave em meus cabelos, e a sensação era reconfortante.
— Braxton ainda está preso ao seu passado, ao Logan que o atormentou tanto. — Falei em um suspiro. — E, considerando que sou uma duplicata dele, acho que isso complica as coisas.
Maxuel parou subitamente e seus dedos pararam no meu cabelo. Ele olhou fixamente para o espaço por um momento e suas asas de anjo se desdobraram, enchendo o quarto com uma aura divina.
— Então, Braxton foi gerado através do sangue do Logan? — Maxuel perguntou, sua voz carregada de tensão. Seus olhos brilhavam intensamente em azul.
Fiquei perplexo com a reação intensa de Maxuel e me levantei para encará-lo de frente. Ele se virou na minha direção, parecendo envergonhado.
— Maxuel, está tudo bem? — perguntei, preocupado com sua súbita exibição de poder e emoção descontrolados.
Ele balançou a cabeça lentamente, retomando sua forma anterior. Seus olhos voltaram a encontrar os meus, agora demonstrando uma expressão sábia que contrastava com sua aparência jovem.
— Sim, eu só perdi o controle por um momento. Às vezes, as lembranças podem ser avassaladoras — ele explicou. — Na verdade, acho que fez o certo em falar com Braxton. Não podemos permitir que o passado nos domine; precisamos viver no presente e avançar para o futuro.
Maxuel piscou para mim, demonstrando sabedoria além de seus aparentes vinte e três anos.
— Quem te transformou em um vampiro? — Perguntei, curioso sobre sua história.
Os olhos de Maxuel voltaram a se encontrar com os meus, e ele pareceu ponderar por um momento antes de responder.
— Fui transformado por meu meio-irmão Logan, o mesmo que destruiu a minha vida — Maxuel disse, levantando-se. — Mas eu prefiro não falar mais sobre isso. Estou aqui para ajudar no que for preciso.
Com essas palavras, ele saiu do meu quarto, deixando-me com uma sensação de curiosidade e respeito por sua história que estava envolta em mistério.
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Sentindo a necessidade de sair de casa e espairecer um pouco, decidi visitar a casa de Ramona. Quando toquei a campainha, um estridente latido preencheu o ar, e um pequenino pequinês muito velho e rechonchudo chamado Leny tentou escapar, beliscando meu tornozelo enquanto passava.
— Olá, Eros — Ramona cumprimentou com um sorriso. — Pode entrar, o que o traz à minha modesta morada?
A sala de estar estava turva e repleta de móveis ricamente decorados, com pesadas cortinas adornando as janelas. Mary, a mãe de Ramona, estava presente, retirando um alfinete do chapéu que adornava seus cabelos prateados, que caíam em ondas suaves.
— Eros, que prazer tê-lo aqui — Mary disse com um sorriso caloroso. — Você e Ramona deveriam nos visitar mais vezes, não esperaríamos que tivéssemos que vir até aqui. Especialmente com o que o delegado nos contou sobre o ataque que ocorreu perto do local onde vocês trabalham, foi por isso que não fomos até aí.
— Mas quem foi atacado? O que aconteceu? — indagou Ramona. — Por que você não me contou assim que chegou em casa ou me ligou?
— Eu não sabia. Esta manhã, um dos trabalhadores o encontrou deitado nas proximidades. Parece que era um mendigo, talvez estivesse dormindo próximo à lanchonete quando foi atacado. Mas ele estava à beira da morte quando o trouxeram e ainda não recuperou a consciência. Há chances de que ele não sobreviva.
— O que quer dizer com "atacado"? — questionei, engolindo em seco.
— O que quero dizer — Mary explicou com firmeza — é que sua garganta quase foi arrancada. Ele perdeu uma quantidade chocante de sangue. Inicialmente, pensaram que poderia ter sido um animal, mas o Dr. Lowen acredita que foi causado por uma pessoa. A polícia também acha que quem quer que tenha feito isso pode estar escondido por ali. Portanto, não fiquem sozinhos à noite, pois essa pessoa pode ter estado perto de vocês. Compreendido?
— Não precisa nos assustar, mãe — Ramona falou com um suspiro. — Nós entendemos.
— Tudo bem, bom — Mary relaxou um pouco, seus ombros caindo enquanto ela esfregava a parte de trás do pescoço cansado. — Só estou sendo uma mãe preocupada e temerosa. Mas que tal prepararmos um chá para relaxar?
Ela se levantou e se dirigiu à cozinha.
— Minha mãe realmente sabe como nos deixar ansiosos — Ramona comentou. — Mas ela está certa, precisamos ter cuidado. Afinal, somos nós que ficamos na lanchonete até tarde da noite.
Concordei com um aceno de cabeça.
— Não quero falar mais sobre isso agora — acrescentei enquanto Ramona me olhava. — Vamos deixar quieto até que a polícia tenha algo a dizer ao público.
Ramona assentiu compreensivamente, e os dois de nós decidimos seguir em frente com o nosso dia, tentando deixar de lado as preocupações sobre o recente incidente. Ainda assim, havia um nó de inquietação em nossos estômagos enquanto saboreávamos o chá que Mary havia preparado para acalmar os nervos.
A conversa naquela tarde girou em torno de assuntos mais leves, como os últimos acontecimentos na cidade, filmes e programas de televisão. Era nossa maneira de fugir temporariamente das preocupações e da sombra do misterioso ataque.
Quando finalmente decidi voltar para casa, Ramona e sua mãe me acompanharam até a porta.
— Cuidado, Eros — Mary disse com uma expressão preocupada. — Certifique-se de ficar atento por aí. Se notar algo suspeito, não hesite em chamar a polícia.
— Eu vou ficar de olho, prometo — respondi com um sorriso fraco.
Ramona me deu um abraço apertado.
— Se precisar de alguma coisa, estamos aqui para você, Eros. Ligue ou venha nos visitar sempre que quiser.
Agradeci a ambos pelo apoio e me despedi, deixando a casa de Ramona com um sentimento de gratidão por ter amigos tão preocupados com o meu bem-estar.
No caminho de volta para casa, não pude evitar pensar no misterioso ataque e nas palavras de Mary sobre a possibilidade de o agressor ainda estar por perto. O medo e a incerteza pairavam no ar, mas eu estava determinado a manter a calma e a vigilância enquanto aguardava por mais informações da polícia. Sabia que, acima de tudo, precisava proteger a mim mesmo e àqueles que me importavam.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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