Capítulo XVI: O Novo Integrante
(cap: 5373 palavras)
Henrique Lago
Pela manhã chegou um mensageiro do Líder que logo chegaria em três dias. Alberti reuniu todos para contar, o esperaria na entrada leste da cidade, era melhor do que passar mais um dia sem fazer nada. O dia foi longo, viram camponeses em seus carros de boi, transeuntes e viajantes, menos quem esperavam. No lusco-fusco viram a estranha figura suja de Marco e seu cão, ele não disse nada e nem se aproximou muito, ficou em um canto junto com seu animal.
- Agora vamos ter que andar com mendigos e desertores?
- Deixa ele, Comando. – Brigou Alberti.
- To falando que o Líder não vai gostar de ver ele assim. Ele também representa o Arsenal, também representa a rainha.
Só pela noite o chegou Líder coberto de neve, sobre seu cavalo imenso e ambos com cara de poucos amigos.
- Algo novo na cidade?
- Nada até agora, senhor. – Respondeu Chuchu.
- As coisas complicaram, preciso falar com sir Bocatorta, depois voltaremos para a lareira de dona Rosa.
Sir Davi ficou mais de uma hora falando com o xerife, enquanto eles passavam frio na rua, menos Marco, que apesar dos vapores que saíam de suas narinas, era o único que não reclamava. Senhora Maria ficou feliz quando voltaram e lhes serviu as melhores tortas e toucinhos com cerveja, o que desamarrou a cara do carrancudo senhor. Marco já havia desaparecido novamente. Pela manhã uma tempestade havia se formado de novo na cara do senhor da lança.
- As notícias que eu trago não são as melhores. A escuderia Bocais se ofendeu pelas mortes que causamos em Ilha Branca e quer nos desafiar para um duelo. A armada de Arsenal assume que somos os melhores e nos apoia e, se vencermos, seremos recompensados. Portanto devemos encontrar um substituto para o finado Defensor e caberá a vocês encontrá-lo. Alguma dúvida?
- A gente, senhor, mas como? – Perguntou Comando.
- Temos que organizar uma seleção, como aquela que participamos?
- Sim, Alberti, mas não será pago, quero que o próximo soldado seja escolhido por habilidade. Façam o teste em cinco dias, será em um domingo e qualquer um poderá participar.
- Por que aqui, senhor? – Perguntou Henri.
- Porque a cidade não é pequena, é perto de Portosul para qualquer situação e recebemos a benção do abade Ilião para fazer o teste em seu mosteiro.
- E o senhor? – Perguntou Henri.
- Voltarei para Londor para tentar resolver junto do coronel e do duque Primoventa uma solução mais branda. Vou provar que estávamos certos e se for necessário eu mesmo luto essa porra de duelo.
Henrique se sentia culpado, tudo o que estava acontecendo era decorrente de seu socorro ao finado conde Vladimir, era sua responsabilidade defendê-lo e falhou. Passou o dia todo pensando na melhor forma de ajudar esquecendo até mesmo de ver Ana Rosa que passou conversando com Chuchu. Pela tarde, quando viu todos reunidos falou:
- A gente podia vê com o xerife para ajudar a promover, pra chamar mais rapazes.
- Eu faço isso. – Disse Alberti. – Mas Chuchu vá ao mosteiro e veja como são as instalações, espaço e tal. Vou ver com o xerife se tem espadas sem fio e escudos de treino também.
Henri foi com Alberti atrás do xerife Edison. Encontraram-no na feira comprando os suprimentos da semana e pararam para comer peixe enquanto ele falava de torta de carne e de como sua mulher tinha engordado.
- O que vocês querem mesmo, filhos?
- Senhor, gostaria de saber se você pode nos ajudar a recrutar mais um membro para a equipe. - Falou Alberti. - Somos os soldados de sir Davi, da lança Titãs do Arsenal. Acho que ele avisou que a gente o procuraria.
- Certo, certo. Mas sua equipe não é de Londor? Bom, farei de tudo, mas acho difícil. Vou falar com alguns soldados e com alguns senhores, talvez alguém seja liberado pra fazer o teste, mas não que tenham ouro pra pagar.
- Será de graça, senhor.
- De graça! Vou mandar até meu filho então. Mas não terá muitas pessoas, a maioria vai para Portosul, Bocais ou nas escuderias do Dorseca como os Cabeças do Testemunho. E os bons aqui não são soldados, são ferreiros da guilda Salgueiro de Ferro.
Assim que conseguiram se despedir voltaram para a hospedaria senhora Maria esperava com tesouras, baldes e toalhas.
- Meu Deus, vocês precisam de cortar esse cabelo e fazer essa barba. Estão parecendo animais.
- Tão perdidos, mamãe agora vai pelar vocês! - Brincou Jasão.
- Vai chamar sua irmã para ajudar!
Henri foi primeiro e sentou-se na cadeira. Estava nervoso, pois se sentia feio por ter sido chamado a atenção para aparar as madeixas. Mas quando o toque das mãos da garota começou a entrar em seus fios, a delicadeza com que molhava as mechas e cortava fez se sentir bem. Ficou o mais ereto possível, pensou em mil coisas para falar, mas não conseguia sair nada. Olhava seus olhos verdes e ela também o encarou por um instante, ambos ficaram corados. Alberti ao seu lado parecia outro sem a volumosa barba, tinha cara de bobo e a pele mais branca do que leite, não dava mais tanto medo. Logo chegou Chuchu que entrou pra roda.
- Estou bem?
- Não é que o filha da puta é bonito. - Brincou Alberti, mas Henri ficou inseguro.
Depois comeram lebre ensopada com cenouras junto de Jasão que estava inquieto, parecia não muito satisfeito. Alberti conversava com dona Maria, falavam de seus casamentos, ela dava graças a Deus estar viúva e ele sentia saudades da esposa e dos filhos no norte. Mas Henri e Comando só tinham olhos para a garota, estavam um pouco apaixonados.
- Falando em casamento. - Ouviram de dona maria. - O que vocês acham da minha Ana?
A pergunta pegou Henrique e Comando de surpresa, enquanto Alberti ria alto.
- Ela é linda e minha esposa me mataria se me ouvisse falando isso.
- E vocês rapazes? - Ela insistiu.
Henrique e Comando se encararam com vergonha, mesmo sem conversarem sabiam que estavam de olho na mesma mulher. O coração de Henri bateu forte, mas foi Chuchu que respondeu.
- Ela é simplesmente incrível, realmente bela.
- Acho ela a mulher dos sonhos. – Falou Henrique sem pensar e morrendo de vergonha em seguida.
A senhora Rosa sorriu e disse:
- Minha filha está na hora de se casar e me afeiçoei a vocês. São homens honestos e sei que darão o melhor para ela. Ela não tem pai para tratar desse assunto, mas como mulher acho que sei escolher o melhor marido pra ela. Vocês não pensam em casar?
Eles ficaram em silêncio, mas ela continuou:
- Vocês têm a permissão de cortejar minha pequena Ana, mas apenas um pode fazer.
Henri e Comando se olharam em silêncio. Ambos queriam cortejá-la, mas não queria disputar entre si. A garota vermelha levantou e saiu correndo, sua mãe foi atrás gritando seu nome, enquanto Alberti e Jasão riam. Já os amigos se encararam nervosos.
- E então, como a gente vai fazer? - Perguntou Chuchu, mas não tinha a resposta.
Alberti foi até eles e falou:
- Esperem, esfriem a cabeça e vejam se realmente amam essa menina e não a sua beleza.
Ele estava certo, precisava esfriar a cabeça então foi ao estábulo, apenas lá relaxaria. Os pensamentos não saíam da cabeça. Sabia que em situações assim apenas um duelo resolveria, mas nunca teria coragem de atacar seu amigo, mesmo que amasse realmente Ana. Ainda tinha o torneio para resolverem, era culpa dele precisarem disso tudo, ele só arranjava problemas, pensava. Estava perdido, confuso e devia uma a Chuchu por ele ter arriscado a vida na ilha. No outro dia não viu mais Comando, ele ficou fora o dia todo e Henrique ficou mal por isso. Já havia traído a confiança de Jonatan e agora ele estava morto sem a chance de se desculpar.
Tinha tomado a decisão de não tentar nada com ela, deixar que Chuchu faça o cortejo. Devia muito a ele, mesmo que seu coração se apertasse só de pensar e tomar essa decisão. Ouviu um barulho no estábulo e era o amigo.
- Não fale nada, vim aqui apenas para falar. - Disse o amigo nervoso que continuou: - Acho que é para você tentar algo com a Ana. Eu já vi como ela te olha e você já perdeu tanto. Case com ela e seja feliz, me torne seu padrinho e me pague umas putas.
Henri emocionado o abraçou até tirá-lo do chão, ele riu, mas sabia que anda estava um pouco triste, ele gostava muito dela, mas parece que ela não queria o amigo.
- Eu prometo fazer ela feliz e te arranjo uma bem bonita!
Durante o resto do dia foram e voltaram do mosteiro, levaram cavaletes, armas, palha, rasparam neve, pintaram o chão de cal e mais inúmeros outros serviços, mas fazia isso tudo com um largo sorriso no rosto. Marco ajudava, sempre distante. sentiu que o amigo também estava feliz, excitado com algo.
- Parece que um dos monges vai concorrer. - Falou Alberti.
As pessoas da cidade e do entorno vieram assistir, entre eles viu Jasão ao lado da irmã, ela linda com cabelos em trança. Ela também o olhou e sorriu, travou de imediato, nunca teve medo de inimigo algum, mas amedrontava-se diante dela. Alberti soou a corneta, os candidatos se aproximaram e ele gritou:
- A primeira prova será uma corrida a cavalo. Apenas os cinco primeiros participarão das próximas.
Henri gostava de ver as pessoas gritando, trazendo seus cavalos e algumas mulas. Sentia o cheiro de esterco, suor e apreensão. Como combinado um soldado Titã iria participar em uma disposta, dessa vez seria Marco que cavalgava muito bem. O jovem postou os competidores na pista de corrida cheia de gelo e lama, alguns poderiam cair.
- Agora!
O monge largou na frente de forma impressionante usava um cavalo emprestado por um espectador, mas parecia dele de longa data. Fazia curvas precisas economizando tempo e sem correr demais para não cair, sabia utilizar a pista. Na primeira volta já estava um corpo e meio na frente de Marco, dois cavalos na frente do camponês segundo colocado e bastante longe do nobre mais atrás, a vitória foi fácil.
Comando começou a berrar:
- A próxima prova será de arco e flecha, os últimos não participarão.
Comando seria quem participaria junto do monge, de um camponês e três soldados milicianos da cidade. Começaram os disparos e o camponês se mostrou inepto com a arma, mas não muito melhor que um soldado. Comando estava inspirado e conseguiu duas moscas, mas não foi páreo para o monge que acertou as cinco flechas no alvo, sendo três na mosca. Os espectadores gritavam, o menino era um prodígio.
- Ele parece com você, Henri. - Falou Marco ao seu lado.
- Você acha?
- Tem algo diferente nele. Assim como você ele parece que não é daqui. Essa cara de sonso dele não me engana, ele é tão perigoso quanto você.
Henrique ficou quieto, estava cansado de ouvir as pessoas dizendo isso. Todos pareciam saber de onde ele vinha e o que era, menos ele.
As provas eram sem pausas e já estava para começar o duelo em um pátio com lama quase congelada onde Henri lutaria. Logo se formou um círculo de pessoas, soldados e monges. Henrique se aproximou sem blusa ou manoplas e o monge enrolou um terço no punho e beijou seu escapulário, seriam eles os primeiro, os outros dois candidatos lutariam entre eles e o vencedor de cada rodada lutaria na final, quem caísse perderia.
- Eles combaterão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis. - Ouviu a oração do monge soltando neblina dos lábios. Olhou o oponente, era baixo, mas o corpo largo e atarracado como um javali
- Quantos anos tem, rapaz?
- Dezessete, senhor.
- Minha idade.
O monge sorriu, levantou as duas mãos em posição de combate, afastou a neve com um dos pés e deu um passo para trás um instante depois em que Alberti gritava para começarem a luta. Em um instante ele já estava diante do guerreiro, com um braço aparava o soco que Henri tentou acertar e com outro golpeou seu abdome. Henri gemeu e foi para trás, o monge segurou o seu braço e deu uma cotovelada em seu rosto. Henri quase caiu, estava tonto, mas antes de poder reagir o monge chutou sua perna e o puxou fazendo-o cair na lama. Depois pisou forte em sua nuca.
Alberti entrou e parou a luta. Henri quase desacordado sentiu-se sendo levantado, tocou o próprio rosto e o nariz estava quebrado. Mal viu as outras lutas, mas soube que o monge havia vencido. Tocou o rosto e sentiu uma dor terrível.
- Caralho...
- Caralho mesmo! Porra! – Emendou Comando.
- Olhem a boca, rapazes, estão em um lugar santo. Parabéns Julian, meu filho, você mereceu.
Com a visão embaçada Henrique reconheceu a profética foz do velho monge. Marco se aproximou, molhou o rosto de Henrique e colocou seu nariz no lugar causando dores e mais palavrões.
- Desculpe-me senhor. Não queria te ferir, fiz apenas para poder entrar em seu grupo.
- Com muito orgulho declaro minha derrota e proclamo esse jumento, digo, Julian, certo? Proclamo ele como o novo integrante da lança Titã da escuderia de Arsenal. Palmas para o vencedor. - Disse com o orgulho um pouco ferido.
Sujo de sangue, ferido, dolorido e sentindo o gosto de sangue foi levado por Marco até um canto onde se sentou e colocou seu capote. Algumas pessoas vieram cumprimentar, mas nada percebia além de Ana que preocupada não saia de seu lado. Henry olhava todos os belos traços de seu rosto, era como uma obra-prima. As curvas delicadas das bochechas avermelhadas pelo frio, sua boca bem vermelha e um pouco ressecada e mesmo os flocos de neve nos cílios. Ela tocou em seu braço e ele se afastou com vergonha sentindo muita raiva de si próprio por ter a chance de magoá-la.
- Me desculpa.
Ela sorriu e passou um lenço na neve e colocou em seu lábio machucado. Henri gemeu e ela sorriu.
- Te amo desde o momento em que te vi. Você é linda, a mais linda desse mundo. Ai meu Deus, consegui falar e não quero mais parar de falar isso! Como eu te amo e quero me casar com você. Mas você também me ama?
Ela ficou vermelha e Henrique pensou que ela iria sair correndo, mas respondeu.
- Sim. Mas achei que você queria alguém mais nobre.
- Eu que não te mereço, minha amada! Por favor, deixa eu te namorar.
Ela sorriu e fez que sim.
- Vamos contar pra sua mãe!
E se esquecendo do torneio foram a cavalo direto para a hospedaria. Assim que Maria Rosa os viu disse sorrindo:
- Finalmente criou coragem para cortejar minha filha. Saiba que espero que seja um homem justo e gentil. Não permitirei que minha filha sofra e quero que lhe arranje um casamento digno.
- Farei e faço de tudo por sua filha. Tenho um dinheiro guardado e recebi uma herança de meu antigo senhor. Não se preocupes, sua filha será feliz comigo.
- Muito bom. – Disse ela o beijando seu rosto. - Agora vai se limpar, filho. Está sujo e machucado como um porco.
Henri riu e foi terminar de se limpar. Os soldados chegaram e Comando sorri para ele. Henri vai até ele e beija seu rosto.
- Nunca serei grato o suficiente.
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Marco Cume
Ficou rondando o novo garoto, era forte e cheio de uma fé perigosa. Homens como ele mudaram o mundo matando a magia. Ele também o encarava, devia sentir o poder que lhe foi concedido, estavam fadados a se tornarem inimigos, a cruz e a lua. Andando na escuridão da noite no entorno do mosteiro foi surpreendido pelo velho cego na estrada.
- Me ajude, por favor!
- O que está fazendo sozinho, aleijado?
Ele não respondeu e Marco o pegou pelo braço.
- Não toma banho? Tem hora que eu preferiria não ter nariz. - Assim que ele disse sentiu toda a sujeira impregnada em seu corpo.
- Você viu meu filho no torneio, o Julian?
- Monges não deveriam ter filhos.
- Não meu de verdade, mas fui eu que o criei.
- E o que diabos um monge faz em uma escuderia?
- Ele sabe o lugar dele nesse mundo. As coisas irão mudar, o que estava longe irá voltar e tudo vai mudar. Ele vai lutar contra isso.
- Quem ensinou ele a ser tão forte?
- Os monges não venceram os pagãos apenas com as escrituras, rapaz. Você, mas do que ninguém, devia saber disso.
Quando percebeu estava diante do mosteiro. Ajudou o velho a subir as escadas e a entrar no sem quarto privativo.
- Tira o que tiver sobre minha cama, por favor.
Marco pegou um anel estranho e colocou sobre a mesa diante da estátua de um santo qualquer. Depois o ajudou a tirar as velhas botas e ele se deitou. Antes de sair ouviu:
- Tome um banho. - Seguido de uma gargalhada.
Assim que amanheceu foi para o córrego e se banhou, depois foi para a hospedaria onde estavam os outros, eles ainda o temiam, gostava disso. Pela hora do almoçou chegou o Líder perguntando quem era o novo soldado. O monge, que estava junto do Henri e Comando se levantou sem medo algum e respondeu:
- Sou eu, senhor, Julian Elias, noviço do mosteiro do Sagrado Coração Imaculado.
- E está preparado para me obedecer e a matar, monge?
Não houve resposta o que irritou o Líder.
- Não acredito que você seja capaz de ficar nessa lança! Você vai ser capaz de lutar? Será capaz de matar um traidor ou inimigo da rainha?
- Sim, irei. - Respondeu ele por fim.
- Veremos. Prestem atenção! Antes do duelo precisamos intimidar os homens de Bocais e aumentar nosso prestígio aqui no Sul, então vamos atrás de um grupo de bandoleiros que assalta a estrada até Plantazul. Temos três dias e esse será o verdadeiro teste para esse monge. Não irei, pois tenho assuntos em Primoventa. Alberti, você os lidera. - Depois se virou para Marco e falou: - Ainda precisamos conversar, Marco! Mas por hora você vai ajudar nessa missão.
Assim que o Líder foi embora Alberti pediu para a senhora da hospedaria costurar uma túnica da Lança nova para Julian, mas por hora suaria qualquer coisa, não daria tempo. Saíram pela manhã, Marco ia a frente com a desculpa de ser um batedor, mas era por não aguentar o falatório do restante, principalmente a conversa fiada de Henri e Comando sobre a garota. Alberti foi para seu lado, não conversaram, mas sentia amizade com ele, o respeitava. Já pela tarde foram divididos em dois grupos, Marco e Julian ficaria com o tenente, enquanto Henri e Comando seguiria a frente para avisar as autoridades locais. Viajando olhava de esguelha o monge e ele também o encarava, foi ma viagem nervoso, mas sua concentração mudou quando ouviu um latido de Besta e encontraram uma carroça completamente queimada.
- Deve ter sido os bandoleiros. - Declarou Marco olhando pegadas.
- Estou vendo fumaça, tenente Alberti. Eles devem estar lá. - Apontou o novato para uma fraca fumaça clara refletindo o ultimo raio de luz que escapava do bosque.
- Seu cão consegue encontrar essa fogueira?
- Claro e essa ideia de se separar foi idiota. - Reclamou Marco enquanto cavalgava a frente para buscar os tagarelas, mas na verdade havia gosta do silêncio.
Os três esconderam os animais em um bosque e Marco amarrou a boca de Besta com um pano para que ele não latisse. Encontrou uma trilha e seguiram a pé na escuridão da mata, a única luz era de um lampião carregado pelo caçador que guiava o grupo. Começaram a ouvir vozes, gritos e risadas, como uma festa. Ficaram quietos e se aproximaram como podiam até verem duas dúzias de pessoas malvestidas, magras e doentes em volta de dois senhores nobres, um homem e uma mulher. O velho tinha o rosto todo cortado com lâminas e a mulher caída no chão com seu vestido rasgado e sangue em suas partes íntimas. Haviam encontrados os malditos bandoleiros.
Julian tremeu, bem devagar pegou seu escudo e avançou antes do sinal de Alberti, empurrou o homem que cortava a vítima e em seguida acertou com o escudo outro que se aproximava. Houve gritos, ele sacou a espada e Marco desamarrou o focinho de Besta que avançou. Com o susto do cão Alberti surgiu com sua espada bastarda em punho e atacou com fúria, dilacerava os marginais, cortava-os ao meio com apenas um golpe. Eles assustados correram, mas as certeiras flechas do caçador acertou dois deles que caídos foram atacados por Besta. A senhora gritava e o senhor retalhado se arrastava para longe disso tudo.
- Estão todos bem? – Perguntou Alberti.
Julian limpava o rosto ferido do nobre e falava com a senhora muito abalada. Eles não falavam nada com nada. Alberti teve que levar o senhor no colo, enquanto o monge guiava a senhora que tremia como uma vara. Assim que chegaram nos cavalos amarrados a mulher pareceu se controla rum pouco mais e disse.
- Pelo amor de Deus, obrigada! Muito obrigada! Ajudem meu marido! Ele é sir Vilmo de Carpetaria.
Foram a Carpetaria, uma pequena vila do condado de Meandro, a cidade se comoveu com o resgate e junto com o povo encontraram Henri e Comando. A vila era de pedra sobre uma colina bem posicionada, foram direto para o casarão onde os nobres foram cuidados por servos. Marco o ajudou, limpou a ferida com água para examinar, o rosto dele estava desfigurado, precisava de emplastros e algumas feridas precisavam de costura.
- Me arranja pano, água quente, água ardente ou vinho forte, plantazul, agulha e linha. Agora!
Os servos o atenderam depois do grito da senhora que mesmo ferida se manteve firme ao lado do marido. Marco limpou o rosto com água ardente e com água para poder ver os cortes. O homem tremia de dor, mas a plantazul o fez sonhar. As feridas não eram profundas, mas eram muitas, teve que costurar com delicadeza para não o deformar ainda mais. Quando o padre voltou estava quase terminado, ele fez suas orações e queria fazer uma sangria, mas não deixou, ele precisava agora de dormir, sonhar o sonho de cura. Encontrou os outros soldados em uma sala com lareira bem quente comendo toicinho.
- Ele vai ficar bem?
- Vai sim se o padre não fizer merda.
Olhou a sala com os tijolos de pedras iluminados pelo fogo, uma bandeira como uma abetarda e um carpete sujo que o fez lembrar do nome da vila. Dormiram na sala mesmo e no outro dia foram ver o velho coberto de ataduras sangrentas, mas ele estava desperto. Sua esposa rezava virada por uma cabeça de Cristo Imaculado bem realista, parecia uma pessoa decapitada em uma mesa.
- Obrigado por salvar-nos. Peçam o que quiserem e daremos de bom grado. – Falou o nobre com a voz fraca.
- A mim já foi dado, senhor. Os senhores estão bem e só isso me importa. – Falou Julian.
- Honra maior foi a nossa de prestar socorro aos senhores. – Completou Alberti.
- Permita-nos apenas andar por suas terras, isto é mais que o suficiente. – Pediu Henrique.
- Não vão querer ouro nem prata?
Todos negaram.
- Serão mais que bem-vindos em nossas terras soldados. Não soldados, mas verdadeiros cavaleiros. Vocês salvaram nossas vidas e nossa casa sempre estarão abertas a vocês. Por favor, venha nos visitar em algum tempo, quando eu meu esposo estivermos melhor.
Saíram depois de mais uma dúzia de delicadezas nobrescas que estava irritando Marco. Não admitia ter que pedir alguém para andar na terra, malditos nobres que gritaram que o chão eram deles e mais malditos ainda os tolos que o seguiam. Saíram com previsões e presentes como túnicas e alguns capotes de pele. Os meninos ficaram se gabando e falando da honra de ser um Arsenal, Marco foi na frente novamente, Besta o acompanhava.
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Henrique Lago
Assim que voltaram para hospedaria, Jasão já aguardava para saber da aventura. Não os deixou nem sairem do cavalo direito:
- Me fala! Aquele estranho não quis me dizer.
- O Marco? -Riu Comando – Ele nunca falaria nada.
- Então me fala você! Para onde vocês foram? Vocês mataram?
- Matar não é algo a ser comemorado, Jasão. Vou para a igreja. - Falou Julian que estava calado desde o ataque.
Ele se provara um soldado, mas talvez o custo fora muito caro. E quando Henrique encarou Comando percebeu que para ambos a morte já não lhes custava tanto.
- Vou atrás de Julian. - Saiu Henrique atrás dele e cavalgou ao seu lado sem que dissessem nada. Saíram da cidade e foram sobre neve até o Velho Salgueiro.
- Por que aqui?
- Aqui foi uma igreja, mas alguma coisa aconteceu, uma guerra, eu acho. O abade Ilião sempre me disse que aqui era sagrado.
- Acho que da ultima vez eles viram algo na neve, um anjo me parece, Jasão e Comando.
Julian sorriu depois se ajoelhou no chão frio para rezar em silêncio. Henrique percebeu que eles eram realmente parecidos, como dissera Marco, ambos usavam o próprio sofrimento no processo de cura. Ele ficou bastante tempo antes de levantar, estava vermelho e tremendo.
- Você está gelado, Julian, vamos voltar, tudo bem?
Andar o ajudou a se esquentar e ele ainda não falava nada. Chegaram e jantaram. Dessa vez Marco acompanhava e conversava com Chuchu e Alberti. Ana também estava perto e ela lhe serviu cerveja tocando sua mão. Havia fumaça saindo da cozinha e o cheiro era bom.
- Mamãe tá preparando um jantar de noivado.
- Opa! – Gritou Alberti e Comando bateu palmas.
Henri disse em seu ouvido:
- Sou muito feliz com você e senti sua falta como um pássaro espera a primavera. Eu te amo.
- Também te amo. – Ela respondeu encabulada.
Maria trouxe a comida sorrindo, ela sempre linda, mas Marco que estava falando parou e a encarou. Seu rosto estava estranho, avermelhado, em seu pescoço saltava uma grande veia, seus olhos estavam ainda mais loucos.
- Marco? - Chamou Henrique preocupado. Ouviu cães latiam do lado de fora da pensão e viu que o caçador arranhava a mesa com grandes unhas escuras.
- Você está bem, Marco?
Ele levantou e começou a seguir dona Maria até a cozinha ignorando seu chamado. Henrique levanta e o segue, os outros também levantam e Ana assustada grita. Na cozinha dona Maria grita, Marco segurava o cabelo da mulher enquanto tentava beijar seu pescoço. Ela o empurra e o esmurra, mas ele rasga seu rosto com suas garras e uiva. Henri avança tentando segurá-lo, Ana pedia socorro e os outros soldados corriam para socorrer a mulher. Henrique o empurra gritando:
- Você está doido Marco?
Ele uiva como um animal e pula pela janela, no lado de fora sai correndo. O rosto de Maria sangrava e ela chorava de raiva, ouviu Comando dizer que ele ainda estava possuído e que ele tinha que morrer. Henrique se adianta e corre na direção de seu cavalo para tentar salvá-lo, mas Julian já estava atrás dele.
- Para Julian!
Pegou o cavalo e foi atrás, pouco depois viu o monge sobre Marco socando seu rosto inúmeras vezes. A neve envolta estava vermelha, assim como seus punhos e o corpo de Marco tremia. Besta saltou sobre Julian mordendo seu rosto, Marco se levanta, seus dentes vermelhos de sangue pareciam presas e os olhos amarelados olhavam para o céu. Ele correu e o seu animal correu atrás, Henrique ajudou Julian que estava sangrando, enquanto os outros soldados montavam em seus cavalos para irem atrás do caçador.
- Vou matar ele! - Gritou Julian também montando em um animal e seguindo seus rastros. Henrique foi atrás dele junto com os outros soldados amedrontados que não entendiam o que estava acontecendo. O perseguiram na nevasca e mesmo que ele estivesse correndo seus cavalos não o alcançava.
- Para onde ele foi, Henrique? - Perguntou Chuchu e Henrique não sabia. Julian parecia saber, pois seguia direto para fora da cidade adentrando-se na nevasca. Perdeu seus companheiros, mas seguia os rastros de Julian por horas até Pedraprofana que estava rodeada de cães e lobos. Viu Julian todo ferido e Marco caído no chão coberto de sangue, Besta estava caído.
- Ofereço esse sacrifício ao Pai e ao Filho. O santo Imolado Rei dos Reis.
Rezou antes de cortar a cabeça do cão negro.
- Para Julian! - Grita Henrique que vê uma luz dourada nos olhos do soldado.
Marco desesperado vai até seu animal, chorava e gritava de raiva. Julian perfura seu coração com a espada, depos se ajoelha chorando e reza:
- Mas eu te oferecerei sacrifício, com a voz do agradecimento; o que votei pagarei: do Senhor vem a salvação.
Segurava sua ferida e olhava para os cadáveres.
- O que você fez, Julian? Você os matou?
- O que vai ser de mim agora, Henrique?
- Quem é você afinal? Vai embora! - Gritou e Julian se afastou com suas feridas.
Os cães se aproximaram latindo e corvos vieram da escuridão da noite trazendo uma neblina densa. O que está acontecendo? Olhou em volta e os cães se calaram, todos olhavam para Henrique. Os corvos começaram a voar em círculos em volta das grandes pedras que pareciam refletir o brilho de uma grande lua crescente azulada. Um corvo com olhos de gente posou diante dele sobre um dos grandes monólitos e o encarou diretamente nos olhos. A expressão do animal era imensamente humana, parecia entender o sofrimento de Henri. Depois ela abriu o negro bico e disse:
- O que está disposto a pagar para que seu amigo seja salvo?
A voz da ave era feminina e forte. Tinha um sotaque diferente e familiar, era como a noite delicada, mas absoluta. Não estranhou ouvir um animal falar, parecia que esperava por isso. E disse com toda certeza do mundo:
- Com minha vida!
Ao dizer isso todas as gralhas gorjearam ao mesmo tempo em um lamento divino, parecia invocar algo. Do portal de pedra mais alto as aves se avolumaram em uma nuvem de penas negras, escuridão, gritos e movimentos. Aos poucos uma silhueta negra, humana, começou a ser percebida em estranhos movimentos de transformação ou dança. As aves pousaram e restou uma mulher alta e magra, de mãos finas e delicadas, uma cascata de cabelos pretos e prata quase até o chão e um longo vestido negro coberto de penas e objetos prateados. Ela se aproximava com rosto fino marcado com o tempo sem perder a beleza. Olhava com poços negros, curiosos e perigosos. Sua presença era aterradora, tornando-a imponente e poderosa. Havia um ar de superioridade e disse na língua de sua infância:
- Sou Ravena, a Gralha. Está mesmo disposto a pagar com vida?
- Sim.
A mulher pegou Henri com as mãos e o colocou ajoelhado sobre o corpo de Marco. Depois pegou uma adaga prateada na forma de lua e tocou no pescoço do soldado que chorava de medo, mas que não conseguia se libertar. Viu a neve cair lentamente e as aves negras a voar e gorjear a sua morte.
- Assim saberá, Gauvain, que é da raça dos antigos altos-homens que só os deuses podem matar.
Antes de terminar ela cravou a faca em sua garganta, rasgando de um lado ao outro. Sentiu a dor, o ar sumindo e o sangue quente derramando-se sobre Marco. Ela o segurou e os corvos cantaram. Olhava para a mulher, mas sua imagem estava borrando. Estava cada vez mais baixo e um branco muito forte dominou tudo. Frio e dor, depois só frio. Depois nada.
§§§
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