Capítulo XIX: Os Favoritos da Morte

(cap: 3950 palavras)

Henrique Lago

Tentou respirar, mas o ar era seco. Algo entrou em sua boca como terra. Sufoco e morte. Acorda e sente-se preso a um lugar, não conseguia se mexer e de sua boca não saia som. Chorou desesperado esperando morrer, mas estava com medo de perceber que já estava morto. Desespero e a falta de ar. Ainda escuro e apertado. Devagar toca em volta e sente um teto duro, frio e liso. Respira, bate nesse teto e ouve metal e madeira. Estava de manopla e também sentiu seu elmo e bota. Onde estou, meu Deus? E percebeu, havia sido enterrado vivo.

Levanta as mãos rentes ao corpo e toca o teto de madeira. Tenta bater com força, mas não há espaço. Desespero e falta de ar. Acorda e ainda escuro. Começa a bater na tampa de madeira repetidamente. Sente água e gosto úmido de lama. Bate com mais força e a madeira estala. O rosto fica sujo, perde o ar. Acorda com lama sobre o peito, parte da tampa havia rompido. Consegue agora cavar um pouco da terra, mais lama em sua boca, mas não desiste. Seus dedos se quebram na terra fria, continua apesar da dor. Se apoia nos braços para continuar a cavar, solo desmorona e o aperta, mas não podia parar. A terra dura fica mais macia, remexe mais e sente água, luz e ar. Respira com todas as suas forças, queima seu peito, molha seu rosto de lágrimas, a dor de renascer. Chora e respira, mas de cansaço desfalece.

A luz clara havia se transformada em prata escura. Em sua frente uma imensa cruz de pedra. Arrasta-se e vomita na lama. É acudido por algo, um colo frio e magro. Chora. Levanta os olhos e vê uma alva cicatriz em um rosto branco como à lua, os cabelos de prata caíam sobre a face e apenas os olhos negros noturnos se contrasta. Era o conde Vladimir que morto viera lhe resgatar da morte.

- Eu estou morto?

- Você não pode morrer, Henrique.

Desmaia. Acorda e sente-se confortável, quente. Não como em seus pesadelos. Ouve um grito feminino e um cheiro metálico. Algo escorria de seus olhos e de sua boca, levanta as mãos e vê os dedos sujos de sangue. Ao seu lado outra pessoa deitada, braço cortado, estava imóvel. Acorda e a pessoa havia desaparecido. Tenta se levantar, mas não consegue. Descansa mais. Quando acorda novamente não lembra bem o que aconteceu. Vê em seu peito um buraco costurado, mas não sabe onde estava e como chegou. Alguns relances de sonhos o atormentam, mas a verdade não o alcança.

Estava sozinho, precisava levantar e procurar algo para comer. Finalmente consegue. Vê roupas novas dobradas, além da velha túnica vermelha e branca, sua cota de malha reparada, a espada e elmo de seu pai, além de uma lança montada nova de cor vermelha e preta. Correu para procurar Cavalerói, havia o perdido. Sobre uma mesa viu um saco com bastantes moedas, talvez presente do conde. Será que realmente o vi? Passa mais de uma semana se levantando apenas para comer e se aliviar. Comia pão embolorado e cerveja grossa. Depois desse tempo passou a andar mais e a comer mais, estava muito magro. Fazia pequenas tarefas domésticas e limpava a casa sempre que precisava. Nevava forte no lado de fora, não sabia quanto tempo havia passado. Até que a comida acabou e teve que na rua comprar, as pessoas não o reconheceram, mas estava a casa do pai, a casa em que matou o irmão. Do lado de fora viu uma mulher rechonchuda, muito pálida, seria Clara?

- O que faz na antiga casa da família Lago?

- Sou Henrique Lago, filho de Ricardo.

- Como é que é? Ele morreu na última primavera.

- To bem pra quem morreu. - Disse brincando. A mulher fazia sinal das Vinte Chagas e fixou o olhar nele e depois gritou:

- Adolfo, vem cá!

- Adolfo é um bêbado, ele não pode ajudar muito.

- Meu Deus e meu Imaculado! Henrique, você está vivo! Todo mundo falou que você morreu na estrada para Pedraprofana! Ouvi falar de um enterro com cavaleiros.

Um enterro!

- Você sabe como o povo fala, né. Talvez enterraram outro soldado e acharam que era eu. – E riu forçadamente.

Com ajuda de Clara e sua família conseguiu se recuperar, arrumar a casa e se sentir bem, se sentir em casa. Descobriu que já havia passado a Encetadura, era meio de inverno. Melhor foi procurar o padre Eduardo na capela da Cruz Quebrada, mas era outro padre que presidia o ritual. Ele falava com calma e de forma bem fácil de entender. Era loiro de cabelos bem fino e usava uma batina branca com verde por baixo do grosso casaco cor de rato. Ao final da missa esperou as carolas e finalmente foi saber do amigo.

- Olá, sou Henrique Lago e venho à procura do padre Eduardo. – Disse após beijar sua mão santa.

- Não é o primeiro, meu filho. Sou frei Samuel de Bocais, o novo pároco. Já faz algum tempo que este padre se ausentou e ninguém sabe o seu paradeiro. Mas o que te aflige? Talvez possa te ajudar.

Henri precisava mesmo de uma confissão, precisava desabafar o que havia acontecido, sua morte, o retorno do conde, sua macabra cura e seus sonhos. Mas apenas o padre Eduardo deveria saber do ocorrido, apenas ele.

- Me desculpe, padre, mas é pessoal.

- Nada é pessoal diante dos olhos de Deus. Caso precise de mim venha me ver Henrique. Aliás, sou novo aqui, seria boa alguma companhia.

- Sua benção, frei.

Saiu pensando na profecia do abade Ilião estava se concretizando, até o padre Eduardo havia ido embora. Precisava recomeçar, procuraria o coronel sir André Garrido de Portosul e pediria ajuda. Passou na feira da cidade, próximo ao porto para comprar um cavalo, sela e outros itens de montaria. Estava cheia de gente e algumas delas olhavam e apontavam, estava sendo reconhecido e deviam saber de sua suposta morte. Olhou alguns cavalos, não estavam muito bons. Parou no estábulo da fazenda do marquês de Guarda. Olhava um por um, passava a mão nos animas sentindo as contrações dos fortes músculos e o estado dos cascos e dentes, até encontrar o animal perfeito. Ele era de tamanho médio, com pernas fortes, lobuno. Seu pelo e seus cascos estavam um pouco mal tratados, mas isto era fácil de remediar. Ao tentar montar o cavalo demonstrou um pouco de insegurança, era como se ainda fosse meio selvagem, mas passando alguns minutos começou cavalgar em passagem, passo, passando para trote, e por fim, galope. Foi pelo centro do comércio com facilidade e mostrando um belo desempenho. As pessoas se afastavam do cavalo sem medo, confiantes na habilidade do cavaleiro. A apresentação acabou chamou a atenção das crianças e de alguns camponeses que aplaudiram.

Henri ficou meio constrangido, agradeceu e desmontou do cavalo para pagar logo e sair dali. Não gostava de chamar tanto a atenção. Pagou o cavalo, uma boa sela, estribos, arreios, rédea e tudo mais. Custou quase todas suas moedas, umas cem moedas de ouro.

Antes de sair alguém tocou em seu ombro e disse:

- Vale-me Deus. Como pode estar vivo? Meu escudeiro foi ao seu enterro Henrique.

Assustado Henri virou e viu um cavaleiro de olhos cinzentos e sorriso verdadeiro. Usava a túnica Portosul sobre um grosso casaco.

- Ora, estou vivo. - Respondeu Henri tentando lembrar-se do homem. - Ando, durmo, como e cago como todos. Não morri, meu senhor, no máximo fiquei doente?

- Mas houve um enterro.

- Um outro pobre coitado deve ter sido enterrado em meu lugar. Que Deus tenha piedade.

- De todas as histórias a seu respeito esta, sem dúvida, será a mais comentada. O cavaleiro que voltou da morte. O novo Lázaro. De qualquer forma meu senhor ficará feliz em saber que está vivo.

- Na verdade também quero falar com ele. Quero saber por onde anda minha antiga equipe e sei que ele tem meios para descobrir. Qual o seu nome.

- Sou tenente Atento, muito prazer. Vem comigo à Santa Maria e pode começar a me contar o que aconteceu de verdade.

Foram conversando com Henri tentando diminuir a sua suposta morte. Também avaliou o cavalo, Noturno seria seu nome. Passou por ruas conhecidas e viu rostos familiares de antigos amigos e adversários. Bandeiras vermelhas e brancas, com a árvore a flor tremiam em altas torres e mastros. Foi direto para o prédio do coronel, na entrada tinha grande cavaleiros de altas patentes que o reconheceram. Atento começou a contar histórias e os homens riam falando:

- Essa porra desse menino não morre!

Foi chamado para entrar na reunião. Entrou apreensivo, talvez fosse chamado para mais um duelo, não queria mais lutar. A sala era apertada e havia outros cavaleiros dentro, fora os que entraram com ele.

- Olha quem tá vivo, coronel!

- Das muitas histórias que ouço falar de ti garoto, ressuscitar dos mortos é a mais impressionante. O que realmente houve?

- Não sei ao certo, meu senhor. Fui derrotado e me lembro de acordar na casa de meu pai.

- Sim, pobre Ricardo, um bom amigo. Mas isto não responde minha pergunta. Houve um enterro, perguntei para seu antigo senhor, o cavaleiro de Aqueduto. Ele confirmou sua morte.

Henri ficou quieto. Não sabia o que responder, até brotou involuntariamente as palavras de sua cabeça:

- A mim não cabe entender os mistérios de Deus e seus milagres. Apenas fico grato por estar vivo.

- Não me venha falar como um padre.

- Senhor, acho que enterraram outro em meu lugar.

- E esteve na casa de seu pai o tempo todo? Por que não saiu antes?

- Senhor, mal pude cavalgar até aqui. Deixe-me mostrar as feridas.

Henri levantou a túnica e mostrou o peito costurado, os dedos enfaixados e várias escoriações no corpo todo.

- Justo. Vi que padre Eduardo lhe ensinou sobre Jesus, agora quero saber se seu pai lhe ensinou o que é honra.

- Claro que sim, senhor. Prezo a honra como minha alma. E por isso venho aqui tentar me redimir e pedir mais duelo contra Esmondo.

- Pensei que faria isso, aliás, ele me disse que não se sentia honrado em ter lutado com você naquelas circunstâncias. Peço perdão em nome dos soldados, você sabe, soldados costuma ser idiotas. Quero que você duele na frente de todos e que com isso termine esse ciclo de morte que começou sem minha permissão.

Henri sentiu o peso da responsabilidade de acabar com isso. Sabia que tinha que desafiar o arqueiro Esmondo, mesmo na desvantagem de lutar contra um arqueiro. E que pela honra tinha alta possibilidade de morrer, logo agora que obteve uma nova oportunidade de viver. Mas como cavaleiro deveria seguir o código "Não Retirarás Perante o Inimigo", mesmo que lhe custasse à vida, uma morte com honra era mais valioso que uma vida desonrada.

- Aceito e agradeço a oportunidade. Quero lutar para recuperar meu prestígio e a honra da escuderia Arsenal.

Seguiram andando até um dos campos de luta onde preparou seu cavalo. Nevava muito. Esperou a chegada de Esmondo. O soldado apareceu extremamente surpreso e disse:

- Como pode estar vivo? Estive em seu enterro e vi várias pessoas chorar sua morte.

Henrique não respondeu.

- Não posso lutar contigo, Henrique. Vi você morto e não posso tentar te matar outra vez. Naquela noite parecia que queria morrer e morreu. Não sei o que fez para voltar, mas não vou lutar contigo outra vez.

Esmondo sai e vai à direção do coronel que sorriu.

- Então está acabado. Não haverá mais luta, pois Esmondo não quer lutar. Demonstrou honra, rapaz. Vamos todos lá para dentro tomar um chá e fugir do frio.

Foi assinado um tratado de paz e Henrique foi o representante. Depois disso sir Garrido convidou Henrique para ir a sua casa .

- Tenho algo que é seu, rapaz.

Entraram na bela casa, foi recebido por servos, ele parecia não ser casado. Mando-o ficar esperando, o que lhe custou uma semana de hospitalidade. Nesse tempo ficou amigo de todos, os mais velhos conheceram seu pai falando que ele visitava frequentemente a casa quando mais novo. O coronel enviou uma carta para sir Percival, coronel do Arsenal, explicando tudo e ainda não permitiu que ele fosse embora ainda. O tempo passava, via a neve caindo na fonte e nas árvores formando cristais. Queria ir logo a Londor, mas o coronel não permitia que fosse embora, não até todos os de Portosul perceber a sua estima, ele estava o protegendo afinal. Nessa tarde bateram na porta e um dos servos o chamou. Era frei Samuel coberto por um grosso casaco cinza e com as pernas sujas de barro.

Henri beijou a mão do frei e disse:

- O que lhe trás a esta agradável visita frei? Sir Garrido não está, mas acho que não há problemas de o senhor esperar comigo.

- Na verdade não lhe trago boas notícias. Sir Cárdio Augusto de Verano e Portosul, conde de Portosul, faleceu a menos de uma semana e seu filho primogênito, sir Charles, tomou posse do feudo. O pai tinha muito apresso por seu pai, o sargento Ricardo, e por isso permitia que a casa de sua família ficasse contigo. Mas agora, o seu filho quer a casa de volta e acha que você não ostenta o pequeno título de seu pai. Desculpe-me por ter que escutar isso.

Henri ouvia e ficava mais triste com cada palavra. Realmente agora havia perdido tudo. Família, dinheiro, títulos e amores. Estava sozinho, não havia nada que o prendesse ninguém para velar seu corpo caso morresse, nem senhor algum para proteger. Era um vilão. Passou o resto do dia pensando em um recomeço. Um reencontro com a lança Titã, com todos. Líder, Alberti, Comando e até Marco. E voltaria a ter um senhor, o único que sempre teve, reencontraria o conde Vladimir, pois no fundo de sua alma sabia que estava vivo. Com essa resolução procurou sir André que não o impediria e feliz disse:

- Vou te dar algo que fará você nunca mais você perder lutas contra arqueiros.

Ele saiu e voltou com um grande escudo metálico na mão e nele havia gravado o símbolo de Arsenal.

- Foi de um grande oponente, o próprio sir Percival, que perdeu para mim no torneio de nascimento da princesa. Tome, é seu.

- Não posso aceitar senhor. - Disse querendo muito aceitar.

- Nunca desobedeça a um superior e não preciso do escudo. Fique com ele e aprenda a usá-lo. Assim nunca mais será derrotado por um arqueiro.

- Obrigado, senhor. Muito obrigado mesmo. Ensinou-me o que é ser honrado e me ensinou como se deve tratar um adversário. Além disso me salvou. Voltarei um dia e pagarei por tudo.

- Pagará e será na forma de um duelo. Agora vá. Ninguém mais irá te atacar na estrada.

Henri montou em seu novo cavalo em busca de novos caminhos. Rumou para Londor e de lá para onde Deus quiser.

§§§

Vladimir Testemunho

A morte é o despertar.

Uma hora antes do ataque a mansão Testemunho o conde pegou um vasilhame de vinho e pingou nele o próprio sangue. Serviu em uma taça e ordenou:

- Beba Jonatan.

- Posso saber o porquê disse, senhor?

- Não, mas irá me agradecer e com certeza te transformará.

- Pronto, sobrará até pra mim sua bruxaria?Não quero mudar coisa nenhuma.

- Todos mudam Jonatan. E você irá mudar comigo, pois é o seu dever.

Logo depois já se via a fumaça subindo em Porto da Vaca, pouco depois os gritos dos servos nos jardins sendo mortos pelos cavaleiros de Velavilha. Fazia parte do destino deles. O temor de Jonatan também era aparente, mas transformou-se em fúria quando viu seu irmão Josefo sendo morto tentando proteger a entrada do palácio.

- O que esta acontecendo, conde? Não irá fazer nada?

Não respondia. Tinha apenas que esperar. A porta se abriu e junto com soldados entra as gargalhadas Elisabete.

- Sempre soube que você é especial. - Disse a ela.

Os cavaleiros lutaram com Jonatan que conseguiu derrotar dois, mas foi ferido no abdome pelo virote da besta da mulher. Caiu de joelhos e levou golpes na cabeça. Depois os homens foram até o conde e o espancaram. Caia seu sangue nobre enquanto Elisabete enchia uma taça de vinho. Ela gostava da violência, sentia prazer em ver. Já o conde não tinha medo da dor, ela o fortalecia.

- Leve o serviçal lá para fora Heitor. O resto me ajuda a levar o conde para a torre.

O conde foi arrastado para lá e sentiu uma corda amarrada a seu pescoço. Ela mesmo o empurrou da parte mais alta da mansão para que todos vissem sua derrota. Conseguia ver o lindo espetáculo da morte e da fúria. Seus jardins manchados de rubro, sua casa lavada com sangue. Homens no térreo tentavam acertá-lo com flechas e muitas vezes conseguiam, enquanto Elisabete se mantinha no alto olhando seu sucesso.

Sentiu seu corpo esfriando e corvos comendo sua carne em guerra de grasnar. Os bicos os rasgavam, incluindo um de seus olhos que foi completamente devorado. As moscas que penetravam nas feridas abertas e colocavam seus ovos, como em cadáveres pútridos. Mas sentia um pedaço de si dentro de cada animal. Sua vontade e sua inteligência, ódio e fúria, a morte. Todos eram filhos da noite e das trevas e todos tinham uma ligação. Não sabe quanto tempo ficou pendurado, mas viu quando Jonatan ainda acordado voltou a ser espancado por Alfredo. Sentia seus ossos quebrando e a carne sendo rompida. Ouve mais uma voz, era Henrique falando, mas não o viu.

A mulher puxou a corda e se espantou quando percebeu que o conde ainda vivia.

- Não morre desgraçado?

- Morrer?

E todas as suas feridas passou para o corpo da mulher que gritou de dor e o empurrou novamente. Ela grita enforcada, o som um mero suspiro assustado, seu corpo se debati ao invés dele. Desesperada ela começou a se contorcer e se arrastar até a viga onde estava amarrada a corda que enforcava o conde e a corta em desespero. Vladimir cai do teto nas escadas quebrando vários de seus ossos. E em seu ângulo estranho viu Henri trespassando Alfredo com sua lança. Seus olhares se confrontaram na derradeira hora e o conde viu a beleza da luz da vida extinguindo, assim como a nascente de sangue que jorrava forte de suas costas.

Acordou e só restaram os mortos em uma cova rasa. Os corpos levantaram da vala de lama, sangue e vísceras, tiraram o conde e Jonatan e os levaram para dentro. Passou a viver do sangue dos moribundos e depois das carnes dos cadáveres. Do mesmo vivia Jonatan. Logo camponeses chegaram para saquear. Seu sangue era mais forte. Com o passar do tempo Jonatan passou a se levantar e cuidar do seu senhor. Estava muito magro, com olhos fundos e feridas negras na face, mas ainda sorria com os poucos dentes que restara.

- Tinha razão, senhor.

- O que houve?

- Aquele vinho me mudou.

Alguém entrou na casa. Novamente um ambicioso ladrão ou desafortunado curioso teve coragem de entrar na mansão mal assombrada. Jonatan foi mancando até lá, estava quase morto. O conde ouviu um grito e pouco tempo depois volta Jonatan junto com alguns cadáveres trazendo o corpo do homem. Ambos se alimentaram e beberam de seu sangue.

- Pegue um espelho, Jonatan. - O criado trouxe e viu seu rosto ferido com as marcas branca de cicatrizes e seu único olho negro. O outro era habitado por vermes e pestilências. Seu cabelo branco era pouco e os ângulos de sua face agudos. Em seu corpo ainda há duas feridas infestadas, uma no peito outro na perna. Parecia a descrição da morte pelos doutores das escritores. Jonatan também parecia um cadáver, agora com pouco de seus volumosos cabelos vermelhos.

- Vamos chamar a atenção, é melhor deixarmos a mansão por algum tempo.

Um olhar de ódio o fitava até surgir a alma de Alfredo ainda com o ventre rasgado por Henrique.

- Sabe onde posso ir, Alfredo?

Não precisava mais de resposta.

- Venham comigo meus tesouros. - Os mortos que antes estavam em sua masmorra levantaram e de suas vísceras brilhavam o ouro escondido de Vladimir. Jonathan organizou a carruagem negra a procissão de cadáveres, partiram para Cavalgada e de lá para Bocais. Durante a noite eram acompanhados por sombras de Benjamin, não havia dia. Corvos o acompanhavam gorjeando e voando, como arautos da própria morte. Chegaram às imediações de Londor logo antes do amanhecer. Foram recebidos por Tomás em sua casa. Jonatan abriu a porta para o conde sair e o levou pelas mãos. Vladimir reparou e viu toda a força da vida no mago e como que isto era efêmero, passageiro. Entrou e jantaram pela primeira vez.

- Aconteceu como previ, foi atacado, mas me surpreende seu criado continuar vivo.

- Não se preocupe comigo, Tomás. Não preciso de tanta atenção sua.

Vladimir fala:

- Quero ver a carta dos Decadentes. A carta Nefastus.

- Por quê? Algo a se revelar?

- Sim. Há algo que preciso saber.

Tomás o pega e abre diante dos dois. Vladimir se concentra nas palavras escritas de sangue seco.

- Aponte para mim, Alfredo.

Uma mão translúcida apontou para as palavras, o sangue seco se tornou vivo, transformando-se em palavras como cartas. Um chagário em Riacheiro e nele havia o sangue da família.

Anoitecendo saiu da casa de Tomás e vai para o norte, no condado de Bonorio, sempre envolto pelas sombras de Benjamin. Na última noite o conde sente algo e olha para trás. De longe se via tochas se aproximando rápido, estavam a cavalo, cinco homens e todos com a luz da vida fraca. O destino deles havia sido traçado quando resolveram, por azar, tentar roubá-los.

- Carne fresca? - Pergunta Jonatan.

O conde rindo abre a porta e fita os animais que já se aproximavam. Sua face por um segundo desfigurada como um predador, um demônio, com olhar feroz e assustador. Todos os cavalos empinam ao mesmo tempo, assustados, tentando desesperadamente fugir. Três dos homens caem, sendo que dois morrem com o impacto e um fica inconsciente. Jonatan retira seu sabre e finca a lâmina em seus olhos, morte rápida.

- Precisava danificá-los tanto?

- Precisava.

-É verdade. – Diz o conde que rindo: - Venham.

Os cadáveres tremem na medida em que os músculos do nobre vibram, era como ter mais de um corpo.

- Quem é você? O que estou fazendo aqui? - Perguntavam confusos.

- Não digam nada, apenas entrem na carruagem.

Continuaram a viagem nas paisagens de pastos e bosques. Passavam por alguns viajantes e tiveram sorte de não se deparar com alguma caravana. Chovia e nevava todos os dias. A carruagem atola e Jonatan descer para tentar empurrar. Sem resultado o conde manda os cadáveres duros pelo frio.

- Idiotas, não prestam para nada mesmo? - Perguntou o servo.

Enquanto arrumam Vladimir percebe uma pequena placa de madeira encoberta por neve, indicava a direção do chagário. Nos primeiro raios de sol voltaram a andar e já viram de longe a grande torre marrom e um imenso portão em arco que dava acesso a um pátio. Em todos os corredores e na entrada pessoas se arrastavam no chão soltando gemidos e gritos. Estavam num verdadeiro limbo entre a vida e a morte. Era uma bela forma da morte se manifestar, vagarosa, mas irremediável.  

§§§


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