07 - Veridiana
O Reconhecimento saiu aquela manhã para explorar além das muralhas. Tentar ver o que podia ser resgatado nos distritos tomados por Titãs.
Quando a Muralha Rose foi invadida pelo Titã Colossal e o Titã Blindado. O desespero tomou conta de todos. O Reconhecimento teve que voltar às pressas para salvar o Distrito de Trost. Era o pesadelo acontecendo mais uma vez.
Aquele dia foi de muitas emoções por assim dizer. Muitas mortes, a descoberta de que um dos novatos podia literalmente se transformar num Titã. Entre muitas outras perguntas que não existiam resposta. Pelo menos não ainda.
Betina estava no escritório de Erwin analisando os relatórios da Batalha de Trost. O comandante estava conversando com Levi e Hange sobre os acontecimentos.
-Então este novato se transforma em um Titã? - Hange disse empolgada.
-Como isso é possível? - Levi disse secamente.
-Teremos que conversar com o Eren para saber. - Erwin disse. - Vou providenciar a autorização para que possamos interrogar Eren.
-Eren Yeager né? - Levi disse desdenhoso.
-Bem eu e Levi vamos até o subterrâneo interrogar o Eren. Hange você provavelmente vai continuar sua pesquisa com os Titãs capturados. - Erwin disse.
-Sim.
-E você, Betina continue preenchendo a papelada.
-Sim senhor.
Erwin viu Hange e Levi saírem.
-Levi, pode ir na frente, te encontro lá.
-Certo... - ele olhou para Erwin desconfiado.
-Eu vou indo então... - Betina disse se levantando.
-Você fica. - Erwin disse a ela.
-Precisa de mais alguma coisa, Erwin?
Ele olhou fixamente para Betina com a expressão séria, depois perguntou.
-Você sabe de alguma coisa?
-Não. Mas, certa vez ouvi rumores a respeito. Mas, pensei que fosse uma lenda.
-Se lembrar de algo, não hesite em me contar.
-Ok.
Ela seguiu para a saída quando Erwin tocou sua mão delicadamente e olhou bem dentro dos olhos dela.
-Eu quero que saiba que me importo com você. Apesar de... tudo.
-Não faça isso. Já passamos desta fase a muitos anos. Mesmo assim sou grata por isso.
-Betina... - Erwin olhou para ela com os olhos pesarosos.
-Não, Erwin. Não desenterre isso. Ok? Até mais.
Erwin viu a mulher sair e ficou pensativo. Depois seguiu para o subterrâneo e topou com Levi no corredor um pouco depois de sair do escritório.
-Levi? - ele perguntou surpreso. - Pensei que já estivesse no subterrâneo!
-Não. Eu resolvi esperar. - ele disse com a expressão fria de sempre.
-Então vamos! Fui passar instruções para Betina.
-Claro...
Betina saiu pelas ruas do Distrito enquanto Erwin e Levi iam para a prisão subterrânea. Estava imersa em seus pensamentos. Muita coisa estava acontecendo ao mesmo tempo. De repente passou por um rosto conhecido em meio a multidão. Ela pensou estar vendo coisas. Não podia ser verdade. Não ali.
Ela seguiu atrás da pessoa coberta por um capuz. A pessoa apressou o passo. Betina fez o mesmo. Quando percebeu estava correndo atrás da pessoa.
A pessoa habilidosa como era deu um pouco de trabalho, mas Betina não desistiu. Ao perceber que ia entrar num beco ela deu a volta e saltou por cima do prédio e caiu em cima dela.
-Calígula? - os olhos de Betina brilharam ao ver a amiga.
-É Veridiana agora. - o rosto da mulher surgiu de baixo do capuz.
Ela abraçou a velha amiga fortemente.
-Veridiana?
-É. Consegui um favor com um conhecido, são meus documentos agora.
-Você conseguiu documentos?
-Sim. O nome John estava sendo difícil de ficar explicando.
Linda como a noite, era assim que Betina a descrevia. Pele negra, olhos âmbar, sorriso branco. As duas serviram juntas por muitos anos ao governo do país de onde vieram, Vermogen.
-O que está fazendo aqui? - Betina disse a erguendo do chão.
-Eu fugi.
-Veridiana...
-As coisas ficaram difíceis lá. Heide é a nova rainha.
-Santos! - Betina encostou na parede como se tivesse ouvido um nome amaldiçoado. - E como me encontrou?
-Há alguns anos enviei uma mensagem codificada a um mercenário para ir atrás de você, o pagamento, foi feito pelo mensageiro que mandei. Eu tinha minhas suspeitas de que você estava aqui, visto que Heide caçou você por todos os países. Menos aqui, dada as circunstâncias deste local. Fechado demais, ninguém entra, ninguém sai.
-Foi você que mandou o Kenny? - Betina disse surpresa.
-Sim. Ele depois me confirmou se tratar de você. Eu rastreei o navio que você fugiu. Nunca chegou no local.
-Naufragou a alguns quilômetros da costa daqui. Fiquei a deriva e parei neste lugar. E... O que aconteceu com você para você fugir?
Veridiana abaixou o olhar, triste.
-Pessoas como eu não são bem vindas no governo da nova rainha. Sou uma aberração... uma profanação.
-Nunca mais diga isso! - Betina a repreendeu. - Se tem algo profano aqui sou eu! Você é perfeita!
-Por isso gosto de você, Betina.
-Temos que sair daqui. Vamos, eu vou te levar para outro lugar.
As duas caminharam para um pequeno apartamento.
-Entra. - Betina disse dando passagem para Veridiana, observando ao redor.
Veridiana passou a mão na mesa e notou a quantidade poeira.
-Você mora aqui? - Ela fez cara de nojo.
-Morava, na verdade. Hoje passo a maior parte do tempo no alojamento da Divisão.
Veridiana deu uma olhada para Betina. Cabelo amarrado num rabinho de cavalo, vestida com um sobretudo verde com a insígnia de duas asas sobrepostas.
-Exército? - ela perguntou.
-Sim. Divisão de Reconhecimento, também conhecida como tropa de exploração. Matamos Titãs.
-Aqui é mesmo a terra dos demônios...
-E como você fez?
-Sou especialista em infiltração, lembra? Passo despercebida entre humanos, imagine com gigantes.
-Convencida. - Betina olhou debochada.
-Parece tá um caos lá fora.
-Descobriram um menino que se transforma em titã.
-Eles não sabem? - Veridiana estava surpresa.
-Não. As histórias contadas aqui é de que só eles sobreviveram.
-Pobres demônios. Presos aqui como gado. - Veridiana disse com pesar
-Não sei o que pensar. Fora daqui são odiados pelo mundo inteiro.
-Os Titãs arrasaram meio mundo. Quantas pessoas morreram? Quantas nações caíram? Nós mesmo guerrilhamos contra eles antes de sermos subjugados.
-Mesmo assim... as pessoas aqui, não tem culpa. Eles sofrem, Veridiana. Não tem esperança.
-E você não disse nada a eles? - Veridiana disse.
-Qualquer um que cogite dizer algo aqui é morto.
-O rei daqui então é um covarde.
Betina abaixou a cabeça e suspirou.
-Me sinto mal por mentir.
-Não se sinta mal. São os descendentes dos demônios. - Veridiana disse com desdém.
-Então, eu também sou. Comi da comida deles, deitei sobre o mesmo teto... eu... me deitei com um deles e me apaixonei perdidamente por outro.
Veridiana percebeu que agora, Betina era mais de Paradis do que de Vermogen e não tinha mais como voltar atrás.
-Se apaixonou? - Veridiana perguntou com os olhos brilhando.
-É... um baixinho arrogante...
-Você e seus gostos peculiares....
Betina ficou tensa. Se Veridiana estava ali, não demoraria para as Fúrias de fato virem.
-Elas estão vindo? - Ela perguntou olhando para Veridiana.
-Kaoru e Fyodor.
-Não estão para brincadeira. Vão chegar e se infiltrar provavelmente. Eles sabem sobre a perfuração da Muralha? - Betina disse franzindo o cenho.
-Somos aliados de Marley. Isto é um fato. Aproveitaram a oportunidade e devem estar aqui.
-Você chegou quando?
-Ontem. Eu ia escalar a Muralha ou simplesmente bater no portão. O tumulto foi minha chance de ouro. - Veridiana deu um suspiro e continuou - tenho a impressão de que estão aqui também por um outro motivo.
-E qual seria?
-Surgiu em Vermogen uma resistência. E ganhou muita força nos últimos anos. Reivindicando a legitimidade do trono. Querem tirar a usurpadora. Heide era da nobreza, mas não da família Real. Com a morte de todos os descendentes e da oposição que deu o golpe, ela assumiu por ser a conselheira. Mas, descobriram que de acordo com a árvore genealógica, o rei tinha uma prima.
-Uma prima?
-Ou algo assim. A mais de 100 anos, Max o Rei de Vermogen teve 3 filhos. Um morreu ainda jovem, o outro primogênito se tornou rei. Mas, o segundo na linha de sucessão saiu de Vermogen e foi para outro continente. Para Marley. Aparentemente ele se casou com uma Marleyana e teve família. Depois que o rei Fritz isolou seu povo dentro destas Muralhas não se teve mais notícia dele. O que significa...
-Que ele veio para dentro das Muralhas...
-Sim.
-E como vamos encontrar? É o mesmo que procurar uma agulha no palheiro!
-Ah não ser que você tenha acesso a certos documentos. - Veridiana disse se aproximando da janela e fechando as cortinas.
-Quais documentos?
-A certidão de casamento do príncipe Timothy.
-Sério? Mas, a uma hora dessas eles já deve ter dado cabo disso.
Veridiana abriu um largo sorriso e ficou olhando para Betina antes de dizer.
-Eu estive em Marley antes de vir para cá.
Betina finalmente entendeu do que se tratava.
-Está com você? - Betina arregalou os olhos.
-Claro. Num lugar seguro, na verdade. Ele nunca seria encontrado facilmente, pegou o sobrenome da esposa. Ele passou a se chamar Timothy Wolfgang.
-Você é incrível! - Betina sorriu.
-Mas... eu estava com um problema. Preciso de acesso aos registros daqui de Paradis. Mas, sabendo que você é do Exército deles torna tudo mais fácil.
-Posso ver o que consigo. E estamos procurando o que exatamente? - Betina perguntou.
-Um descendente da realeza. Levamos para Vermogen e nos unimos ao Sangue de Dragão para derrubar a Heide.
-Sangue de Dragão? - Betina ficou confusa.
-Menina. Você virou uma lenda... seu nome ecoou pela Cidade Baixa. Betina Sangue de Dragão vingou a família Real.
Betina olhou para Veridiana surpresa.
-Fala sério? - Betina disse confusa.
-Sim. E também... aumentou o preço por você. É procurada, viva ou morta. Por quase 1 milhão de marcos.
-Santos... - Ela levou as mãos à cabeça. - então temos que ser rápidos. Vamos encontrar os descendentes de Timothy e dar um jeito de derrubar o reinado de Heide. - Ela se levantou e foi em direção à porta. -Eu tenho que ir... onde você está ficando?
-Numa pensão aqui perto.
-Venha para cá e fique aqui. Não abre para ninguém. - Ela tirou a cópia da chave e entregou para Veridiana. - Eu trago comida para você mais tarde. Preciso ir antes que deem falta de mim.
-Tá bom. - Veridiana fez uma pausa e depois disse - Estou feliz por você, Betina. Está bem melhor do que quando estava em Vermogen... parece... viva.
-É o que Astrid queria...
Betina sai do apartamento apressada até o quartel. Ela chegou rapidamente terminou a papelada e depois estava de saída para comprar as coisas para levar para Veridiana, quando alguém a chamou.
-Onde vai com tanta pressa? - Levi olhava com cara de desconfiado.
-Eu... preciso comprar umas coisas...
-Coisas? - Ele ergueu as sobrancelhas.
-Sim. Coisas... de mulher. - Betina mentiu. Detestava mentir para Levi, mas era caso de vida ou morte. Apesar de meias verdades se tornarem um péssimo hábito.
-Sei... O julgamento do Eren vai acontecer. Você não vai? - Ele disse cruzando os braços. - Você é uma capitã, deveria estar presente.
-Eu sou mesmo necessária?
-Tem algo mais importante para fazer? Não pode dar o ar da sua ilustre presença?
Betina sentiu a testa suar frio. Ela não tinha argumentos contra Levi. O ideal seria não ter encontrado com ele, mas, foi inevitável.
-Claro, mas você poderia me dar 10 minutinhos. É realmente muito importante.
Levi franziu a testa e depois disse secamente.
-Eu vou com você. Não se importa né?
-Não. - Betina disse lá do fundo da garganta.
-Que bom, então vamos?
-Sim.
Betina seguiu acompanhada de Levi e foram em direção ao centro da cidade. Ela poderia contar para ele, mas era uma situação bem complicada de explicar. Ela caminhou até o boticário e chegou no balcão.
-Preciso de um remédio para... cólicas... do meu ciclo... - Betina pigarreou sem graça. Além do fato de ser uma grande mentira.
O baixinho mantinha-se ao lado dela com cara de poucos amigos e braços cruzados. Ela pegou o remédio e pagou o boticário e depois seguiu para a rua.
-Nunca ouvi você reclamar de cólicas. - Ele ainda estava desconfiado e Betina não tinha a menor ideia do que fazer.
-Eu não sou de reclamar.
-Sei.
Betina então fez a única coisa que podia naquele instante.
-Preciso passar na minha casa.
-Nunca me disse que tinha uma casa.
-Sim. Eu tenho...
-Você está cheia de segredos hein? O que mais anda escondendo de mim?
-Nada. Quanta desconfiança! Eu tenho um pequeno apartamento que eu alugo. Para ir de vez em quando, quando quero descansar um pouco. - Betina ficou desconcertada.
-E por que EU nunca soube disso? - Ele parou e olhou fixamente para Betina - o Erwin sabe deste lugar?
Betina engoliu seco. Não sabia nem o que dizer.
-Bom, você e eu... bem. Você nunca mostrou interesse em ter um dia comigo, fora do alojamento...
Ele ficou em silêncio. Pensativo. E depois disse.
-E quanto a minha outra pergunta?
-Sobre... O Erwin? - Ela tentou desconversar. - Nós nos conhecemos a bastante tempo...
-E?
-Por que quer saber disso? - Betina estava realmente aflita com a quantidade de perguntas.
-Porque sim.
-Ele sabia... ele me ajudou a alugar.
Levi não pareceu muito convencido, mas não respondeu nada e continuou caminhando ao lado dela até o apartamento. Ela abriu a porta rezando para que Veridiana se escondesse. Levi correu os olhos pelos móveis empoeirados e fez uma careta.
-Que lugar imundo Betina! Como pode deixar este lugar assim?
-Eu nem venho aqui direito! Nem compro nada de comer para deixar nas prateleiras. - Ela disse elevando levemente a voz.
-E o que viemos fazer aqui? - Ele disse ainda com o rosto de desagrado.
-Ah! Encontrei! - Ela pegou um pequeno punhal que ela havia se lembrado de ver sobre a mesa quando esteve lá com Veridiana.
-Veio aqui só por isso?
Ela colocou a faca na bota.
-É a minha da sorte. - Ela deu uma piscadinha. - Vamos?
Depois disso, Betina e Levi seguiram junto com os demais para o julgamento de Eren na capital. O garoto acabou sendo livre de ser morto, mas seria de total responsabilidade de Levi.
Betina estava preocupada com Veridiana, mas ainda tinha suas responsabilidades como soldado. Estava na oficina limpando seu equipamento quando Levi entrou rapidamente.
-Só vim avisar que estarei em missão. - Ele disse diretamente.
-Achei que ia amanhã.
-Quanto mais rápido melhor. Eu só vim avisar mesmo, sabe que cada missão nossa é como se fosse a última.
-Tudo bem. Vai com o garoto?
-Sim, e o meu esquadrão.
-Eu devo me encontrar com vocês depois. Falando no garoto, pegou pesado com ele... no julgamento. Ele deve estar sentindo o gosto do couro das suas botas até agora.
-Hum, foi necessário. - Ele se aproximou de Betina como um cãozinho sem dono e ficou do lado dela por um tempo.
-Quer um beijo? - Como ele era extremamente temperamental, ela nunca fazia nada sem confirmar com ele antes. Ela nunca sabia o que ele estava pensando.
-Quero. - Ele disse sem fazer contato visual com ela.
-Já disse que não precisa hesitar. Se quiser me beijar, é só beijar.
Ele tocou o rosto dela e deu um longo beijo nos lábios de Betina.
-Se cuida, tá? - Betina disse com os olhos brilhando.
-É de mim de que estamos falando.
E depois ele seguiu. Saiu junto de Eren e o esquadrão rumo ao um antigo castelo onde foi o Quartel General da Divisão de Reconhecimento. Seria uma jornada complicada.
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