Capítulo VII

Na manhã seguinte, o médico chegou para retirar meus pontos.

Eu não queria recebê-lo, com medo de que ao sair ele me entregasse a lorde Coen, mas Nita me garantiu que se tratava do médico da família e de extrema confiança.

Foi dolorido, mas não insuportável, e depois de terminado o médico seguia até a saída sem muitas perguntas.

Mas eu queria lhe fazer algumas perguntas.

Estávamos descendo as escadas, o médico, Nita e eu, e apenas quando Nita abriu a porta para a saída dele eu tomei coragem.

- Doutor! Um momento! - chamei e o médico se virou para mim.

- Pois não, senhorita?

- O senhor trabalha na cidade? Atende também no hospital?

- Não, senhorita. Apesar de conhecer alguns médicos lá.

- E o senhor sabe se tudo anda bem lá? Digo, no hospital, tudo tranquilo como deveria ser? - tenho uma sensação ruim a respeito disso, posso estar parecendo maluca e paranóica, mas preciso saber.

- Bem, senhorita, até onde eu sei, não houve nenhum acontecimento estranho.

Um pequeno alívio me tomou.
Agradeço aos céus internamente.

- Fico feliz! Muito obrigada, doutor! Tenha um ótimo dia.

Assim que Nita fecha a porta, me olha com uma cara estranha.

- Qual a razão dessa pergunta, criança?

- Tenho um mal pressentimento, Nita. Temo que aquele homem faça mal a enfermeira Clary e ao Dr Cooper por terem me ajudado.

- Entendo. Mas não adianta ficar enfiando caraminholas na cabeça. Agora esqueça esse assunto.

Passei, então, o restante da manhã no piano, tocando músicas que minha mente puxava das suas partes obscuras.

E depois do almoço, decidi caminhar ao sol, novamente, e segui até os estábulos, onde encontrei Ian.

Ele acenou para mim, da porta do estábulo de Luz e segui até ele.

- Belo vestido, senhorita! - ele diz, se referindo a minha roupa nova, um vestido azul da cor do céu - Valoriza seus olhos!

- Como ousa? - pergunto, irritada.

- Lhe tecer elogios? - Ian pergunta, confuso.

- Mentir para mim! E eu já lhe considerando um amigo. - cruzo os braços, magoada.

- Nita claramente não consegue se manter calada, não é mesmo. Mas a senhorita descobriria mais cedo ou mais tarde.

- Então porque não me disse de uma vez?

- Porque eu me envergonho de quem sou. Sou um bastardo.

- Mas o antigo lorde Mackenzie o assumiu, lhe deu seu nome, parte da herança.

- Isso não me torna menos bastardo. - ele responde, fitando o horizonte.

Noto então sua magoa nesse assunto e entendo a razão.

- Seu irmão é o problema não é?

- Não diga que somos irmãos na frente dele, o último criado que o fez perdeu dois dentes.

- Ian, não se culpe por algo que você não pôde controlar.

- Então, isso não fez com que gostasse menos de mim? - ele pergunta, num sorriso esperançoso.

Aquele olhar de garoto me lembra imediatamente de Jamie e noto como são parecidos, e ao mesmo tempo tão diferentes.

- Claro que não! Agora vamos, leve-me até minha égua. - digo, enlaçando nossos braços, e seguimos em frente.

- Sua égua? A senhorita é bastante possessiva, não é mesmo?

- Ian, você nem faz ideia.

Criei uma rotina nesse lugar.

Nas refeições Nita me fazia companhia, e conversávamos sobre todos os assuntos possíveis, eu já conhecia todos os criados da casa.

Durante as manhãs, eu tocava piano ou lia livros na biblioteca.

E minhas tardes eram todas em meio aos cavalos e quase sempre na companhia de Ian. Ali eu também já conhecia alguns dos empregados.

Já faziam 10 dias que o senhor Mackenzie se ausentou. E eu estava inquieta aguardando a sua volta.

Mas, não foi isso que me tirou o sono agora.

Eu estava dormindo em sono profundo, quando despertei abruptamente. Tantos pensamentos me sobrepujando ao mesmo tempo, que eu mal pude respirar por um momento.

Me levanto, mal enxergando devido as lágrimas, e visto a primeira coisa que encontro pela frente.

Ainda é madrugada, mas corro para fora mesmo assim, sigo em direção dos penhascos, correndo desesperada.

Quando chego ao meu destino, o sol já está nascendo. Encontro a árvore solitária e me jogo ali, aos seus pés.

E choro.

Choro copiosamente, finalmente sentindo o peso do meu luto.

A voz forte e risada estranha de meu pai. A voz suave de mamãe cantando para mim, e sua risada musical. O perfume deles. A sensação exata dos abraços.

O peso e a falta de tudo o que perdi. 

A saudade e a dor me ferem e eu percebo que meu cérebro bloqueou tudo isso para tentar evitar esse momento, também.

Já é sol alto, quase tarde, quando me encontram. Ian chega a mim em passos lentos, como se faz com um animal acuado.

Ele se abaixa em minha frente, e nos olhamos um momento. Sem que eu diga uma palavra, ele sabe o que aconteceu. Vejo o entendimento em seus olhos.

- Eu sinto muito, Lizy. - ele me diz.

Em um pulo eu o abraço, retomando minha sessão de choro. Ali ficamos por mais um tempo, até Ian nos interromper.

- Há mais alguém que veio ver a senhorita. - Ian diz, me fazendo olhar para trás, até ver Luz.

Me levanto e sigo até ela, meio trôpega. Ela abaixa a cabeça, e eu a abraço. Seu corpo quente e firme me consola.

- Podemos cavalgar por um tempo? Por favor? - peço.

- Com toda certeza.

Ian me ajuda a montar e sobe também em seguida. Deixamos que Luz decida o caminho, e ficamos vagando por um tempo até que ficamos preocupados com o bem estar dela e decidimos voltar.

Mais nenhuma palavra foi dita a mim por Ian. Não era necessário, e de qualquer forma, palavras não fariam diferença.

Chegamos aos estábulos primeiro, já que fizemos um caminho diferente, Ian insiste em me acompanhar até a casa principal, mas eu recuso, insistindo que ele cuide de seus afazeres e agradecendo toda a ajuda.

Quando estou quase chegando ao meu destino, vejo Sullivan, um dos criados da casa, vindo em minha direção.

Eu sei que ele não gosta de mim então me mantenho calada e sigo em frente.

- Porque ainda está aqui, forasteira? Aqui não é seu lugar. - ele murmura cheio de raiva para mim.

Olho para ele, que cospe no chão aos meus pés e segue para onde quer que estivesse indo.

Apesar de já estar sofrendo meu luto, ainda sofro por isso também.

Pois, é verdade. Aqui não é meu lugar. Eu não tenho lugar algum.

Quando entro na casa, Nita está pronta para me encher de xingamentos, quando percebe o que aconteceu.

- Você se lembrou. - ela sussurra, e eu aceno positivamente.

- Eu nem pude ir no enterro deles, Nita, nunca disse adeus. - corro para seus braços, que me confortam.

- Ah, minha menina, não existe essa história de adeus. Eles estão com você a cada segundo.

Então, Nita me leva aos meus aposentos, e me faz tomar um chá amargo, que tenho certeza possuir algum sonífero, pois o sono me leva rapidamente.

Alguém mais quer dar um abraço na Lizy? 😢

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