Capítulo VI
Acordo mas fico na cama por mais alguns minutos, pensando nos últimos dias. Tudo parece irreal mas sei que não é.
Sei também que minhas lembranças estão quase retornando. Posso senti-las a espreita, prontas para invadir minha mente a qualquer momento.
Isso ao invés de alívio, me causa certo medo. Há conforto no esquecimento. Eu pedi meus pais, mas não me lembro deles para lamentar. Sei que com as lembranças o luto tomara conta de mim.
Jogo as cobertas para o lado e levanto-me amaldiçoando-me por ser tão covarde. Ajeito meus cabelos da melhor maneira que posso, lavo o rosto e os dentes na bacia de água do pequeno banheiro e sigo ao café da manhã.
Tudo o que fiz, aparentemente, desde que cheguei aqui foi comer e dormir. Mas foi uma coisa boa, pois me sinto excepcionalmente bem, mais forte e disposta. Chego a sala de jantar e encontro Nita arrumando as comidas na mesa.
- Bom dia, Nita!
Ela se assusta e me olha com cara brava.
- Precisa chegar de fininho desta maneira? Já não tenho o coração jovem, menina! - ela me dá uma bronca.
Dou risada e lhe dou um beijo no rosto. A cada vez que a vejo, meu carinho por ela cresce demasiadamente.
- Desculpe-me, não fiz de propósito. Onde está o senhor Mackenzie? - pergunto indiferente, pelo menos tentando o ser. E falhando, claro.
- Em uma viajem de negócios. Partiu no primeiro raio de sol. Voltará em uma semana, apenas, mais tardar duas. Vamos, sente-se, a costureira deve chegar em breve! - Nita me empurra para uma das cadeiras, a da ponta da mesa.
- Costureira? - pergunto, colocando um pão em meu prato.
- Sim, a senhorita precisa de roupas, ou acha que o menino Mackenzie deixaria que usasse as roupas da falecida irmã para sempre? - eu estava passando manteiga no pão e parei quando ouvi isso.
- Falecida irmã? O que houve? - pergunto preocupada e triste por Jamie.
- A guerra houve, criança. A guerra. - dito isso, Nita segue em direção a saída mas a interrompo.
- Nita! Sente-se, faça a refeição comigo! - peço e ela me olha como se eu fosse maluca.
- Já tomei meu café na cozinha, senhorita. E senhor Mackenzie me escalpelaria caso eu fizesse isso.
- Então sente-se e apenas me faça companhia. E quanto a lorde Mackenzie lhe castigar, ele teria que passar por cima de mim primeiro. - meu argumento a convence e Nita se senta ao meu lado, mas com um olhar estranho.
- A senhorita não tem medo dele. - ela diz.
- E porque eu teria?
- Jamie Mackenzie é conhecido por seu temperamento difícil.
- Bom, se chegarmos ao ponto de uma discussão, recomendo que esconda as facas, eu odiaria lhe deixar desempregada. - ela ri alto com minha piada infame.
- Certamente eu o farei. Já notei que a senhorita também possui uma personalidade forte e o melhor, é corajosa para enfrenta-lo.
O comentário de Nita me desperta mais uma lembrança, um apelido carinhoso pelo qual meu pai as vezes me chamava: pequena fera.
- Algo errado, menina? Ficou calada e tensa repentinamente. - Nita diz a mim.
- Uma lembrança, Nita. O meu pai… costumava me chamar de "pequena fera". - respondo. Quase posso ouvir a voz dele, sua risada esquisita, o cheiro de seu charuto.
- Ele parecia ter orgulho da guerreira que criou. - Nita me responde.
- Sim. Até o momento em que eu o desobedecia ou não concordava com algo. Aí eu era a "fera indomável". - sorrio com tristeza.
- Pais são criaturas estranhas. São capazes de amar incondicionalmente e ainda assim cometer alguns erros com seus filhos.
- Está se referindo ao meu suposto noivado com aquele sujeito?
- Estou.
- É mentira, Nita! Ele está mentindo. - eu respondo, comento o último pedaço da fruta que estava em meu prato.
Nita, então, retira uma folha das dobras do vestido e me entrega.
Curiosa, noto que o pedaço de papel é um jornal e o abro. Perco o fôlego e levo uma das mãos imediatamente a boca, enquanto meus olhos se enchem de lágrimas.
- Eu passei metade da noite procurando por esse jornal. Eu sinto tanto, minha menina.
Eu lia e relia a nota publicada ali:
- Sim, Nita! Pais são capazes de erros absurdos. Eu espero apenas nunca cometer algum tão grave assim com meus filhos. - digo, num sussurro, devolvendo-lhe o jornal - Obrigada por ter me mostrado. E por ter se esforçado para encontar isso.
- A senhorita não se ressente
comigo? - ela pergunta, receosa.
- De maneira alguma. A verdade é sempre a melhor forma de lidar com qualquer coisa. E, de qualquer maneira, isso não muda nada. Noiva ou não eu nunca me casarei com Ethan Coen.
- Nunca. Disso eu tenho absoluta certeza. - Nita concordou comigo com aquele ar de gente velha que sabe das coisas, e confiei nela.
Passei o restante da manhã nos ajustes dos vestidos que madame Brulee trouxe. Um total de 6 vestidos. Um exagero.
A cada troca e a cada alfinete e comentário sobre moda da costureira, foi Nita quem respondeu por mim, pois eu não estava ali, eu estava pensando o que diabos meu pai tinha na cabeça ao consentir e me forçar a esse noivado.
Pois eu obviamente não aceitaria tal absurdo. Neste momento, mais do que em qualquer outro desde que acordei, quero me lembrar de tudo, entender o que aconteceu, sofrer o luto de uma vez e seguir em frente. Só assim conseguirei me livrar desse homem.
Quando a modista termina de tirar minhas medidas, e após a orientação de Nita de deixar os vestidos alguns centímetros largos, pois estou recuperando meu peso, sou liberada para almoçar e terei a tarde livre, enquanto a costureira termina de costurar os ajustes das roupas que serão entregues até o por do sol.
Como apressadamente minha refeição e saio da casa, pois necessito de uma caminhada.
A luz do sol faz maravilhas com meu humor aflito e, apesar de ainda um pouco fraca, ando lentamente pelo lugar observando a bela paisagem.
Sei que o precipício, ou a "Queda" como chamam aqui, está alguns quilômetros a frente da casa, portanto me encaminho aos fundos, e tenho uma grata e feliz surpresa com o que vejo: estábulos!
Dezenas de estábulos e cercados para adestramento de cavalos. Esse lugar é realmente enorme e agora sei quais os negócios do senhor Mackenzie. Ele reproduz e vende cavalos de raça.
Me encaminho então ao estábulo mais próximo de mim e entro. Vi algumas pessoas durante minha caminhada, porém ninguém falou comigo, ou me impediu de vir até aqui. Então imagino que não seja um problema.
Há dez grandes baias, cinco de cada lado, quase todas cheias. Me encaminho pelo corredor até o fim e vejo a égua mais linda que já vi na vida. Sigo até ela e vejo a placa: Luz.
Dou risada do nome extremamente apropriado, já que ela é de um caramelo tão claro que se assemelha a cor da luz do sol. Me aproximo, ela me nota também e vem até mim, curiosa. Lhe faço carinho, e a égua relincha, feliz.
- Está gostando do carinho, não é Luz? Aposto que sim. - conversar com cavalos me parece tão normal, que sei que já fiz isso antes. Muitas vezes.
Meu desejo é monta-la mas não tenho roupas apropriadas.
- Ela com certeza está. Ainda mais por receber carinho de alguém tão linda quanto a senhorita.
Olho para a porta e vejo um rapaz entrando, vindo em minha direção.
Alto e magro, cabelos castanho avermelhados e olhos azuis, parece ser um ou dois anos mais velho que eu, e de longe o criado mais bem vestido que já vi.
- Ora, obrigada. Mas não creio que ela saiba diferenciar uma coisa como essa. - digo, tentando fazer do elogio motivo de piada para disfarçar meu constrangimento.
- Não, mas eu sei. - o homem para ao meu lado e sorri.
- E o senhor lá é cavalo para saber esse tipo de coisa!? - pergunto, ainda fazendo carinho na égua.
- Não, sou o cuidador dela. - ele me devolve, num olhar conspiratório - Percebe como ela abaixa a cabeça para que fique a sua altura? Ela gostou da senhorita. Ela se levanta o máximo que pode sem empinar quando alguém que ela não vai com a cara se aproxima.
- Quantos anos tem?
- Ela tem dois anos. Já está quase pronta para reproduzir.
- Égua de reprodução? Veja esses músculos e essas pernas longas! Ela deveria ser uma competidora nas corridas.
O rapaz estreita os olhos em mim, visivelmente surpreso.
- Entende de cavalos?
- Bom, aparentemente, entendo mais do que o senhor. Esta é uma égua de corrida.
- Deveria dizer isso ao patrão, pois foi ele que mandou que treinássemos o Escuridão e não ela. - diz apontando a baia em frente, onde um enorme cavalo negro como a meia noite nos olhava, atento.
Me aproximo dele e vejo que sim, seria um bom cavalo de corrida, mas Luz seria melhor se tivesse o treino e a oportunidade.
- Mackenzie é um tolo e eu lhe direi isso assim que retornar de viagem.
O jovem dá uma sonora gargalhada com minha frase atrevida, e sorrio com isso, em como é bom o riso leve e contagiante.
- Depois volte aqui e conte-me a reação dele, eu lhe imploro, senhorita! A propósito, sou Ian, a seu dispor e encantado em conhece-la. - ele me estende a mão, e eu a minha, onde ele deposita um beijo suave.
- Annelizy Montblanc. Mas imagino que já o saiba. - ele acena positivamente. - Então, apenas Ian? Sem sobrenome?
- Ian é apenas o que importa. Esta na hora de levar Luz para o cercado, gostaria de me acompanhar na tarefa?
- Sim! Mas é claro!
Observo enquanto Ian coloca a correia na égua e seguimos juntos para fora, ele permite que eu leve Luz.
Devo admitir que estou apaixonada por ela. Quando a soltamos no cercado, tenho mais certeza ainda do quanto ela é rápida e ágil.
Ian e eu conversamos um bom tempo, ele me disse que há quase 100 cavalos adultos aqui, de variadas raças e alguns já são premiados. Fico supresa e admirada.
- Ian, obrigada pela atenção e por me permitir ficar aqui, mas estou cansada, e já está quase escurecendo, Nita irá me matar! - sorrio.
- Vamos, lhe acompanharei até a casa principal.
Assim, sigo com Ian, conversando sobre raças de cavalos, bem mais leve e tranquila do que quando encontrei os estábulos mais cedo. Quando chego nos despedimos, e Ian deposita um novo beijo em minha mão.
- Luz e eu esperamos uma nova visita, o mais rápido possível, senhorita!
- Verei como andam meus compromissos e voltarei em breve para visitá-los, senhor Ian.
Entro e vou direto aos meus aposentos, e encontro uma Nita muito rabugenta me esperando.
Sem cerimônias, começa a retirar minha roupa e me enfia na banheira de madeira que colocaram no meu banheiro.
- Nita! Está fria! - grito, estremecendo.
- Se tivesse chegado na hora certa, tomaria banho quente. Agora, pare de reclamar e lave-se logo antes que a água esfrie mais.
Tomo meu banho rapidamente, então, e Nita me ajuda a lavar meus cabelos, com muito cuidado para não comprometer a cicatrização da ferida.
Quando termino, visto o vestido verde que usava quando cheguei aqui, que agora está limpo e com remendos na barra. Eu não me importo com isso.
Além do mais, a qualquer momento minhas novas roupas chegarão. Tristemente percebo que não tenho nenhuma roupa de montaria.
Já na mesa de jantar, Nita novamente me faz companhia, mas desta vez ela mesma se convidou, pois quer saber detalhes da minha tarde e a razão por eu ter me atrasado.
- Então, desembuche logo, menina! Onde esteve? - ela pergunta, servindo comida em meu prato, eu tentei mas Nita não permitiu que eu me servisse sozinha.
- Já disse a você, Nita! Encontrei os estábulos. Estive lá. - eu disse, agradecendo o prato que ela me serviu e começando a comer, e pelos céus, estava delicioso.
- Disso eu já sei. Quero saber o que tanto fez lá. Passou horas a fio longe de casa. Não se esqueça que ainda está se recuperando! - ela me diz, numa bronca protetora.
- Eu sei, desculpe-me. Mas acontece que eu me apaixonei!
Nita quase cai da cadeira.
- A senhorita o quê? - ela berra.
- Ora Nita! Não se irrite! Ela é a égua mais linda e carinhosa que já vi. Uma pena eu não ter dinheiro para compra-la do senhor Mackenzie. Imagine! Ele quer fazer dela reprodutora, quando claramente é uma corredora.
Nita riu uma gargalhada com meu discurso indignado, e com um alívio percebo que estou perdoada.
- Peça a ele que a mantenha para a senhorita e, assim que sua vida se ajeitar a senhorita a compra. Mas então passou o dia todo na companhia de cavalos?
- Certamente que não, Nita. Conheci algumas pessoas que ali trabalham, o senhor Ian me apresentou a alguns treinadores e…
- Eu sabia! Sabia que tinha um dedo daquele moleque encrenqueiro do Ian em seu sumiço. - Nita diz em outra risada.
- Mas porque fala assim dele, Nita? Ele foi gentil comigo! - respondo indignada.
- É claro que foi. Ian é um rapaz bondoso, e muito conquistador, então tome cuidado. Por acaso ele lhe disse seu sobrenome? - ela pergunta com aquele olhar que me diz que ela está doida para me dar a informação caso eu não a tivesse.
- Não. Se apresentou como Ian, apenas. Ele é alguém importante? Quando o vi imaginei que fosse algum trabalhador daqui, mas percebi que estava muito bem vestido.
- Um trabalhador daqui ele é. Importante? Não sei lhe dizer, menina, apesar de ser querido por quase todos. Ele é Ian Mackenzie, meio irmão de Jamie.
- Então temos dois belos ruivos aqui, produção? É isso mesmo? 😍
Produção: temos sim, pessoal!!
E aí, o que estão achando?
Deixem nos comentários ❤️
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