Capítulo IX

Jamie

Eu quis voltar para casa assim que cheguei na cidade que era o meu destino.

Foram 10 malditos dias com os pensamentos a mil entre os negócios e Annelizy.

Que belo nome.

Nem seu sobrenome me causava mais a repulsa que eu sentia por ele há dias atrás, afinal, que culpa ela tinha de ser quem era?

Ela em momento algum foi o que eu esperei. Forte e gentil, corajosa e firme em suas convicções. Sem ilusões tolas, sem máscaras ou artimanhas, como era esperado de alguém de sua classe social.

Assim que o último dia de leilão terminou, encarreguei os empregados de levarem os novos animais que acabei comprando em segurança durante a viagem, montei em Vento Negro e segui para casa.

Maldição, eu segui para ela.

Quando cheguei, Sullivan estava saindo dos estábulos, bêbado como um gambá.

- Patrão! O senhor chegou cedo! Já sei, veio levar a forasteira embora, não é mesmo? - ele disse, rindo como um idiota em seguida. Como ele ousa?

- Não, mas se alguém vai embora será você se repetir algo assim novamente, ande, saia de minhas vistas agora mesmo. - respondi, aos gritos, e ele seguiu de volta aos estábulos.

Eu sentia pena dos cavalos por terem que aguenta-lo.

Chamei outro criado que passava e pedi que cuidasse de Vento Negro, pois eu o levei ao limite para que chegássemos o quanto antes.

Já na casa, estava subindo as escadas quando Nita me viu.

- Finalmente o senhor voltou! - ela exclamou.

Imediatamente percebi que havia algo errado. Desci e parei em frente a ela.

- O que aconteceu?

- Ela se lembrou. Pobrezinha. O senhor deveria ter estado aqui! Ela desapareceu ontem, ainda antes do nascer do sol. Eu me desesperei, imaginando loucuras, claro. O menino Ian a encontrou na Queda. -

Ian? IAN?

- Ela chorou o dia todo. E hoje foi pior. Passou o dia sentada olhando para fora daquela maldita janela da biblioteca, mal tocou nas refeições e sem dizer palavra! Logo agora que estava recuperando as forças. Vá, ande logo, vá falar com ela.

Depois que Nita me encaminha até a biblioteca aos empurrões, entro e vejo o motivo de sua preocupação.

Vejo lady Montblanc sentada no vão da janela, entre as almofadas, abraçada aos joelhos. O rosto vazio de emoções. Eu não posso nem começar a imaginar a dor que esteja sentindo.

- Nita disse que a senhorita passou o dia todo olhando essa janela.

Quando Annelizy finalmente sai do seu torpor, e percebe que estou aqui, ela se lança a mim num abraço furioso.

Sei que sou egoísta e medíocre, mas eu gostei desse abraço mais do que gostaria de admitir. Seu cheiro de capim limão e flores é inebriante.

E, olhando para ela agora, sei que minha memória não fazia jus a ela, ou talvez seja o fato de que agora ela esteja recuperada, pois, eu sai daqui a achando bonita e agora, percebo o quanto ela é linda.

Tento não babar ou dizer tolices enquanto conversamos, tamanho encantamento estou sentindo.

E, quando Lizy toca meu rosto, sinto meu corpo se acender.

E quando ela se vai, leva com ela a melhor parte de mim, pois sinto um ódio latente pulsando em meu peito.

Aquele maldito bêbado a andou importunando. Tenho certeza absoluta. Ela usou a mesma palavra que ele mesmo me disse há pouco: forasteira.

Saio e sigo em direção ao estábulo em que o vi entrar, o encontro no chão, dormindo. Pego em seu colarinho e o arrasto para fora.

- Eu não disse nada, patrão. Não disse mais nada. Eu juro! - ele grita, tropeçando em seus pés e nas palavras.

- O que disse a ela? Responda-me. O que disse a Annelizy? - eu berro em sua cara, e ele arregala os olhos, culpado.

- Eu.. eu.. apenas..

Perco o resto de controle quando vejo o covarde urinar nas próprias calças, e lhe dou um glorioso soco na cara. O segundo que lhe dou.

O primeiro foi por chamar Ian, o bastardo, de meu irmão.

- Escute bem, miserável. Saia um passo da linha novamente, e eu não serei tão bondoso de lhe dar um mísero soco. Fui claro? - ele acena a cabeça, positivamente. - Responda-me seu inútil covarde!

- Sim, senhor, foi claro! Muito claro!

Recado dado, sigo de volta a casa principal, ainda inquieto.

Preciso me informar sobre o que andou acontecendo aqui e na cidade durante minha ausência.

Nita disse que Ian a encontrou, mas porque? Ela pediu ajuda a ele, ou Lizy o conheceu no decorrer desses dias?

Já é tarde, falarei com alguns criados amanhã. E enviarei Klan para a cidade para obter mais informações.

Então, por hora, tudo o que me resta é tentar algumas horas de sono. Isso se eu conseguir parar de pensar na bela loira que está há poucos quartos de distância.

Na manhã seguinte levanto-me com do nascer do sol, tomo um café da manhã rápido e me tranco no escritório. Klan entra alguns minutos Depois.

- Queria me ver, senhor? - pergunta da porta.

- Sim, sente-se.

Aguardo enquanto ele se acomoda na poltrona a minha frente. Klan é um homem alto e forte, na casa de seus 40 e poucos anos, e um dos poucos que gozam de minha extrema confiança. E até um pouco de afeto, não que eu vá dizer a ele.

- Conte-me o que houve em minha ausência. - peço.

- Sobre tudo ou apenas sobre a senhorita sua hóspede? - ele pergunta, virando a cabeça de lado, como um pássaro, com um olhar divertido. O maldito homem me conhece bem demais.

- Sobre ela.

- Bem, patrão, esses foram dias movimentados aqui. Aquela costureira passou um dia inteiro aqui na semana passada. E digo ao senhor, aquela mulher é maluca, chamou-me de formoso! Imagine, eu nem sei que diabos isso quer dizer, e daí...

- Klan. - o interrompo, entre irritado e divertido.

- Patrão?

- Sobre a garota. Foco.

- Claro, senhor. Desculpe-me. A senhorita recuperou as forças rapidinho. Principalmente depois que começou a frequentar os estábulos todas as tardes.  E, pelo visto, ficou bem próxima do menino Ian. Eles passaram muito tempo juntos, mas a vista de todos, senhor, claro. Sempre em meio aos cavalos e os observando quando estavam treinando.

- Ela e Ian? Como aconteceu?

Aquele bastardo insolente realmente não tem limites? Quer tudo o que possuo? Não que eu possua a senhorita Lizy, claro, apenas a estou protegendo.

- Ora patrão, a senhorita saiu para caminhar e tomar um sol, pelo visto, estava pálida feito fantasma nos primeiros dias. Encontrou a fazenda aos fundos, e ali conheceu o rapaz. O senhor precisava ver, ele foi muito atencioso. E a cor voltou ao rosto dela depois que começou a frequentar ali. E quando desapareceu esses dias atrás? Muitos de nós saímos a procurando. A senhorita, apesar de ser quem é, já é muito querida por alguns.

- Não por todos. Fique de olho em Sullivan, ele não gosta dela e não a quer aqui. Se ele abrir a boca sobre esse assunto, eu quero saber. Agora, vá a cidade e só volte quando tiver novidades sobre o caso da morte do ex general.

- É pra já, patrão. Até mais.

Assim que Klan sai, decido passar a manhã trancado adiantando o trabalho da semana, verifico as finanças, confiro as vendas e compras do mês, os lucros e gastos.

Quando dou por mim, já passou da hora do almoço, percebo isso apenas pelo meu estômago faminto. Saio e me dirijo a sala de jantar.
Nita está retirando a mesa.

- Pensei que não fosse desenfurnar daquela sala hoje, menino.

- Eu perdi a noção de tempo, Nita. A senhorita Annelizy já fez a refeição?

- Fez há muito. E saiu em disparada para os estábulos logo em seguida. Ela tem passado a tarde toda ali, quando volta até cheira a cavalos.

Aquilo me enfurece, pois sei que ela não passa tanto tempo assim apenas na companhia de cavalos, mas na de Ian também.

Sem dizer palavra, viro-me e sigo aos fundos, a passos rápidos. Mas ainda ouço Nita murmurar: "até que eles passaram muito tempo sem brigar".

Não sei se ela se refere a mim e Ian, ou a mim e a senhorita Lizy. Mas ela está correta sobre os dois.

Quando chego aos estábulos, os vejo imediatamente. Estão no primeiro, parados a porta, conversando e rindo sobre alguma coisa.

Rindo! Ele a está fazendo rir! Quanta audácia!

Sigo até eles que só percebem minha presença quando paro ao lado de Lizy.

- Oh, olá senhor Mackenzie, como vai?

- O que está acontecendo aqui? - pergunto, contendo a voz para não gritar com eles, olhando diretamente para Ian, que me encara também.

Mas é a senhorita encrenca que me responde.

- Ah, o senhor Ian estava me contando a história sobre a vez em que ele caiu do lombo do cavalo e ficou agarrado em seu rabo! Imagine! Não sei como não levou uns bons coices, Ian! - e riu novamente.

- Eu levei, Lizy. Mas de Nita. Tive que dormir de bruços naquela noite! - e ela riu mais ainda.

O que, obviamente, me irritou ainda mais. Ver a intimidade deles.

- Vá para casa, Annelizy. - digo entre dentes.

- Ora e porque eu faria isso? - ela me pergunta, indignada.

Finalmente eu a olho, ela está sem o ar triste e melancólico de ontem, suas bochechas estão coradas devido ao sol e ao riso.

E seus olhos estão me perfurando, irritados. Sinto-me mal por um momento, por acabar com sua diversão, mas esse momento passa rapidamente quando lembro-me de que esteja se divertindo com ELE.

- Porque eu estou mandando. - digo, simplesmente.

- O senhor não manda em mim! Ouviu bem? - ela grita comigo.

Na frente dele.

Não sei se dou risada ou se grito com essa maluca de volta.

- O senhor Mackenzie e eu temos assuntos pendentes, querida Lizy. Nos dê licença, por favor.

Annelizy então olha para Ian, e então para mim, e para ele de novo.

E, bufando, ela sai batendo os pés.

Quando ela não está mais a vista, eu digo:

- O que pensa que está fazendo?

- Eu poderia lhe fazer a mesma pergunta. - Ian diz e cruza os braços.

Não posso dizer que o odeio, mas não gosto dele. Nunca gostei e nunca tentei. Há demais do meu falecido pai nele para que eu me sinta confortável.

- Eu a estou protegendo.

- Como a protegeu ante ontem quando ela fugiu para a Queda? - ele diz, me acusando. - Eu também a estou protegendo.

- Isso não cabe a você. Afaste-se dela, ou então tomarei medidas de que não gostará.

- Baterá em mim como bateu em Sullivan novamente? Baterá por causa de Lizy ou apenas por ser seu irmão?

- Irmão bastardo. E eu bati nele pois a desrespeitou. Meus atos não giram em torno de você.

- O que ele fez?

- Não é da sua conta. Está avisado, Ian.

Vejo a raiva em seus olhos e me sinto bem por tê-lo irritado.

Então, volto para casa para enfrentar a retaliação de Lizy que, tenho certeza, virá de forma pesada.

Quando entro, sigo para a biblioteca pois sei que ela estará lá, aquele se tornou o seu lugar.

E não erro. Quando passo pela porta, um livro passa voando por mim e acerta com tudo a parede.

Me esquivo, e a olho, admirado. Ela me jogou um livro? Um livro!!

É uma maluca corajosa, isso que ela é.

- Quem o senhor pensa que é? Seu lunático! - ela grita, tendo outro livro em mãos, e o sacudindo em minha direção.

- Eu? Lunático? Não sou eu que estou atirando os pobres livros inocentes.

Ela se dá conta da bizarrice da situação e coloca o livro na mesa, e cruza os braços aguardando a minha resposta.

- Não a quero na companhia dele. De forma alguma. - digo, simplesmente.

- E sobre o que eu quero? Isso não lhe importa?

- Quer passar suas tardes nos estábulos?Ótimo, passe o tempo que quiser. Mas arrumarei alguém de confiança para que lhe faça companhia.

- Alguém de confiança? Não quero um criado me seguindo aonde for, quero um AMIGO! - ela grita a última palavra.

- E acha que Ian é isso? Pois saiba que ele não é confiável. - grito de volta.

- Não é confiável? ELE É SEU IRMÃO!

- Ele é um BASTARDO. Só está aqui pois respeitei o último desejo de meu pai. Não é nada para mim e não confio nele.

- Isso é problema seu. E um erro, devo dizer. Ele é meu amigo e não há nada que o senhor possa fazer quanto a isso. Que fique remoendo seu rancor e ódio, mas o faça sozinho. Saiba que com certeza Ian não seria seu irmão por vontade própria. E, aliás, se eu fosse como o senhor e tivesse um irmão, mesmo que bastardo, eu agradeceria por não ser uma pessoa totalmente solitária e ainda ter alguém com meu sangue ao meu lado.

  Dito isto, ou melhor, gritado isto a plenos pulmões, ela sai batendo os pés.

Seria melhor se tivesse me dado um tapa, penso.

Fico estático por alguns segundos, então sigo ao meu escritório e ali me tranco o restante do dia, pensando em tudo o que me disse, e tomando uma ou duas doses de conhaque.

Aquela mulher insuportável e geniosa está certa, novamente. Ian, mesmo que bastardo, é a última família que me resta. E eu sou a dele.

Sou tomado por um sentimento de vergonha.

Desde que Annelizy apareceu tenho contestado muitas certezas em minha vida.

Percebo, então, que assim como ela não tem culpa de ser filha de quem é, tampouco Ian tem.

E eu sempre o maltratei por isso.

Ele nunca conheceu a mãe, que morrera no parto. E o nosso pai morrera antes que ele criasse barba no rosto. A única pessoa que era gentil com ele foi Jeny, que morreu na guerra, nas mãos do Cachorro Louco.

Eu, em minha dor e egoísmo, não percebi que Ian também perdeu sua irmã.

Não percebi quanta dor compartilhamos juntos, porém sozinhos.

Eu pensei que estivesse ajudando Annelizy nessa fase difícil dela, mas percebo que em retribuição, ela está me ensinando coisas que jamais fui capaz de aprender sozinho.

Como perceber meus erros.

Mas, a partir de amanhã, tentarei reparar cada um deles. 

Geeente, o Jamie tomou uns esporros merecidos, né!

Mas ele tá aprendendo ❤️

Comentem e votem 😘

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top