Capítulo IV
Quando acordei já estava anoitecendo. Observei o crepúsculo através da enorme janela do quarto por um momento.
A propriedade do senhor Mackenzie era impressionante. Se estendia até onde a vista alcançava, e provavelmente por alguns quilômetros mais. Mas ainda não sei com que tipo de negócios ele trabalha.
Me levantei, finalmente. Alguém passou algum tipo de ungüento em meus pés, e eles já não doem tanto.
Visto os chinelos fofos que deixaram para mim e saio do quarto a procura de alguém.
Desço as escadas e observo a casa. Não é o estilo tradicional dos clãs, um tipo de um castelo de pedra, mas sim em madeira e tijolos.
Vejo portas-duplas em um corredor ao lado da escada e entro, silenciosamente.
Sorrio com o que vejo: uma grande biblioteca, com poltronas confortáveis e uma mesa no centro, e um piano ao fundo.
O instrumento me desperta uma curiosidade, e me encaminho até ele. Sento-me no banco, levanto a tampa e passo minhas mãos pelas teclas de marfim. Uma melodia toma conta de meus pensamentos e, sem hesitar, começo a tocá-la.
Meus dedos dançam, mantendo o ritmo e acelerando e se acalmando, conforme os acordes da música. Quando termino estou ofegante, tanto pelo esforço quanto pela emoção de descobrir mais uma coisa sobre mim.
- A senhorita toca muito bem!
Levanto-me rapidamente e vejo lorde Mackenzie parado a porta.
- Desculpe-me! - apresso-me a pedir.
- É só devolver o que roubou. - Jamie diz, com ar divertido.
- Mas eu não roubei nada! - desconfio que ele esteja zombando de mim.
- Então pelo que está se desculpando? - definitivamente ele está zombando de mim.
- Por ter entrado aqui sem sua permissão. - respondo me encaminhando até ele.
Jamie está bem vestido em calças pretas e camisa branca, recém saído do banho, noto algumas gotas ainda em seus belos e rebeldes cabelos ruivos, e seu cheiro me invade os sentidos, deixando-me extasiada por um momento.
- Esta sala está sem receber a atenção que merece há muito tempo, sinta-se a vontade para vir aqui sempre que quiser, senhorita. Agora, que tal me acompanhar no jantar?
Sorrio com o convite.
- Claro! Na verdade eu estava procurando alguém para me alimentar quando encontrei este lugar. Creio que meu corpo está trabalhando para recuperar minhas forças e o peso perdido.
Jamie ri de meu pequeno discurso de explicação por minha fome e me estende seu braço, como um cavalheiro cortês. Aceito e enlaço meu braço no dele e seguimos para a sala de jantar.
Tenho certeza que Jamie Mackenzie é um excelente guerreiro, seu braço é firme e posso sentir perfeitamente seus músculos através da camisa fina.
Imagino como seja seu corpo sem o tecido o cobrindo. Céus! Que tipo de pensamento pervertido é este? Coro furiosamente quando percebo o rumo de meus pensamentos.
- Está se sentindo bem? - ele me pergunta. Nada escapa aos olhos desse homem? Olhos castanhos, quentes e inquietantes.
- Apenas um calor súbito. - abomino mentiras, mas nunca disse nada sobre meias verdades.
- Está febril? - ele pergunta, tocando delicadamente minha testa - Não, aparentemente está normal.
Decido me manter calada e pensando na música de há pouco para não cometer mais nenhuma estupidez, e chegamos rapidamente a sala de jantar que está cheirando maravilhosamente bem.
Mackenzie puxa uma cadeira para mim, a esquerda da cadeira da ponta, onde ele se acomoda em seguida. As bandejas já estão servidas no centro da mesa e sinto-me salivando.
- Primeiro as damas. - Jamie diz, apontando a comida.
E eu apresso-me em me servir, uma pequena quantidade de cada coisa. Não conheço alguns pratos, mas duvido que qualquer coisa aqui seja pior do que a bendita sopa daquele hospital.
Jamie se serve em seguida e o único barulho é o dos talheres e um eventual suspiro que deixo escapar, tanto pelo sabor dessa comida maravilhosa, quanto pelo alívio de saciar minha fome. Quando termino fico encarando meu prato.
- Sirva-se novamente.
Olho para Jamie que me observa com um meio sorriso.
- Eu nunca repeti os pratos em uma mesma refeição. - respondo tentando explicar a minha hesitação.
- Há sempre uma primeira vez.
- Sim. Há sempre uma primeira vez para tudo, não é mesmo? - e sirvo-me novamente de uma pequena porção de cada coisa, mas pego dois pedaços da ave assada.
Esse comentário me entristece um pouco, mesmo sendo absoluta verdade, e mesmo sabendo que não foi a intenção de lorde Mackenzie mexer em minhas feridas.
Passei por tantas primeiras vezes nos últimos dias. Primeira vez sem saber quem sou, primeiro dia como órfã, primeira fuga, primeira vez que sinto ódio por alguém, primeira vez que desejo ver um homem sem roupas, enfim… E sei que passarei por muitas mais nos dias que se seguirão, é uma pena que Jamie Mackenzie não estará ao meu lado nelas.
Termino finalmente minha refeição, a mesa é retirada e a sobremesa servida. Nem preciso dizer que também está deliciosa.
- Onde está a mulher que cuidou de mim mais cedo?- pergunto. Jamie não está comendo sobremesa.
- Nita provavelmente está em algum canto ressentido-se porque você não a deixou alimenta-la. - ele diz com outro meio sorriso.
Um homem de meios sorrisos esse Jamie Mackenzie.
- Ora! Mas não sou uma inválida!
- Isso é muito bom, menina! - a senhora a que me referi entra na sala, então. Tem uma cara de brava mas os olhos são puro amor e bondade - Vim saber se a menina gostou de minha comida!
- Nita! Sua comida deveria ser a atração principal de algum renomado restaurante! É simplesmente maravilhosa. - levanto-me e a abraço - Obrigada. Por cuidar tão bem de mim, meus pés já nem doem mais.
Nita tem o corpo baixo e rechonchudo, cheirando a lenha e farinha, e reconfortante. Tão, mas tão agradável, que apenas agora em seus braços percebo o quanto eu precisava disso: carinho.
Sinto meus olhos lacrimejando e me afasto dela, que também está emocionada com minha reação. Pela visão periférica noto Jamie nos observando atentamente.
- Sentirei falta da senhora. E lhe agradeço imensamente também, lorde Mackenzie, mas devo seguir meu caminho. Partirei amanhã.
A única reação de Jamie é o abrir de suas narinas em uma expiração profunda.
- Nita, deixe-nos a sós, por favor. - ele pede a ela, mantendo o foco em mim num olhar afiado.
Nita me dá um aperto no braço, um gesto de despedida e solidariedade, pois, aparentemente, eu irritei o senhor Mackenzie, e sai nos deixando a sós. Jamie se levanta e segue porta a fora a passos largos.
- Venha. - ele diz, simplesmente.
Sigo seus passos até a sala de visitas, ele aponta um dos sofás para que eu me sente, e se senta no outro a minha frente. Uma pequena mesa está entre nós.
- A senhorita não irá a lugar algum! - Jamie me diz como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Eu irei sim! Ou sou sua prisioneira agora? Não se esqueça que não tenho ninguém para lhe pagar uma recompensa. - quem esse homem pensa que é para me dar ordens?
- Não diga tolices! Ou melhor, diga sim. Diga-me o que pretende fazer saindo daqui?
- O senhor sabe o que pretendo fazer. Ir ao Porto. Embarcar rumo a Londres e encontrar algum parente. Aguardar minhas memórias voltarem e então me vingar do assassino de meus pais. - na minha cabeça meu plano era o mais lógico e concreto possível, mas agora, dito em voz alta, percebo ser apenas um desejo, não um plano.
- Não lhe ocorreu que Coen a esta caçando e que será pega assim que colocar um pé para fora do território Mackenzie?
- Se ele está me procurando tão avidamente, então me encontrará, mais cedo ou mais tarde. Se eu permanecer aqui vocês estarão correndo perigo também.
Jamie sorriu, um sorriso completo dessa vez, um sorriso perigoso.
- Que o Cachorro Louco venha. Tenho minhas contas a acertar com ele, também. E quanto a senhorita, não há lugar mais seguro em toda a Escócia do que aqui.
Se eu gostaria de ficar aqui? Sim!
Desde que Clary me disse aquilo sobre a energia das pessoas eu tenho prestado atenção. Com Jamie eu sinto segurança, ele me irrita e provoca algumas vezes, mas me sinto bem.
Então, que lugar há melhor que aqui?
Quando vou abrir a boca para responder, Nita entra carregando uma bandeja com duas xícaras, a apoia na mesa e olha para mim.
- Então? Ficará conosco? - ela pergunta.
- Espiando atrás da porta, Nita? - diz Jamie.
- Claro que não. - Nita responde de uma maneira que fica claro que sim, ela estava ouvindo atrás da porta. - Então?
- Ficarei. - digo, com um sorriso. Seus olhos brilham mas ela não dá mais nenhuma outra reação.
- Bom! Tome todo o chocolate quente. Boa noite. - e se retira, tão abruptamente quanto apareceu.
Olho para Jamie que já estava me encarando. Pego minha xícara e a tomo devagar, saboreando o doce e pensando se Nita quer me engordar.
Ela quer que eu me recupere logo, percebo. É o que minha mãe faria se estivesse aqui. Noto que Jamie não está tomando a bebida dele, mas não tira os olhos dela.
- Esta outra é sua. - digo a ele.
- Eu não tomo chocolate quente desde criança.
- Então é bom se apressar, pois quando eu terminar a minha provavelmente tomarei a sua também. - repondo rindo. Eu não conseguiria tomar as duas bebidas mesmo que quisesse. Estou explodindo!
Jamie então pega a xícara e toma um pequenino gole, quase como se tivesse medo de estar envenenado. Então, depois de saborear seu gosto, toma um gole maior e termina antes mesmo que eu termine a minha.
- Eu nem me lembrava do sabor. É muito bom! - ele me diz, quase constrangido.
Aquela situação por alguma razão me aquece o coração. Jamie as vezes tem um olhar de garoto tão lindo que me causa sentimentos estranhos. E também tem aquele olhar em que parece que enxerga minha alma, o que me causa outros tipos de sensações novas.
Termino minha bebida e deposito a xícara na bandeja.
- Fico feliz que tenha tomado, eu não aguentaria nem mais um gole! Estou cansada, senhor, vou me retirar. - levanto-me e Jamie me acompanha - Boa noite.
Jamie apenas acena com a cabeça e me encaminho a saída, juro que posso sentir seus olhos em mim e, na porta viro-me para ele.
Sim, ele estava me olhando. Mas não foi para conferir isso que me virei, foi para agradecer-lhe.
- Obrigada! De todo coração, senhor Mackenzie. Por tudo.
Alguma emoção que não sei decifrar passa pelo belo rosto dele, que apenas me dá um novo aceno e eu sigo, então, ao meu quarto.
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