Capítulo III

Jamie


A maldita garota desmaiou. Em nem três minutos de cavalgada ela perdeu a consciência. Acelerei Vento Negro que rumou para casa a galope. Ele também parecia preocupado.

- Sullivan!! - gritei chegando às portas da casa, chamando meu criado, o mesmo que avisou que havia um invasor na propriedade. Ele apareceu correndo, pegando o cavalo pelas correias. Desmontei trazendo facilmente o corpo inerte junto comigo. - Dê ao cavalo os cuidados necessários.

Adentrei a casa seguindo ao quarto de hóspedes mais próximo, inconvenientemente no segundo andar. Felizmente avistei um criado, o amanhecer não tardaria e a movimentação ali começava cedo.

- Ei, você, traga Nita aqui, imediatamente. Venha com ela.

O rapaz magricela correu em disparada, depois de arregalar os olhos para a jovem desacordada. Abri a porta do quarto em um pontapé e a depositei na cama, com todo cuidado.
Tudo nela gritava FRÁGIL! Me sentei suavemente ao seu lado e retirei os cabelos que estavam em seu rosto.

Annelizy Montblanc, a filha do general dos exércitos que massacrou meu país e cultura estava em minha casa. Eu preferiria perder uma das mãos antes de ajudar até mesmo um vira latas de nome "Montblanc", mas vendo a situação dela não foi fácil ignorar meu senso de dever.

Um grande e feio curativo estava em toda sua cabeça, os cabelos, de um tom de areia da praia estavam bagunçados, agora na luz podia-se notar a palidez assombrosa que essa menina estava, com olheiras arroxeadas ao redor dos olhos, e é visível que perdeu peso, estando com uma aparência assustadoramente magra. Nem assim, nesse estado, ela era feia.

- Por Deus! O que o senhor fez? - Nita entrou correndo no quarto, com o rapazote em seu encalço.

- Pelo que me toma, Nita? A senhorita aqui estava perdida e fraca, eu estou fazendo minha obrigação e a estou ajudando. - disse na defensiva, me levantando.

Entendo que não sou conhecido pela minha gentileza e paciência, virtudes que certamente não possuo, mas não sou capaz de desejar mal a uma donzela. Nem mesmo a uma Montblanc, aparentemente.

Nita aproximou-se da jovem e lhe tocou a testa.

- Você, Dimmet, traga água quente e panos limpos. Avise na cozinha para prepararem um caldo agora mesmo. - notei que o jovem estava paralisado. - ISSO É PARA AGORA, RAPAZ, ANDE! -
Nita gritou antes que eu mesmo o fizesse.

Em seguida, começou a abrir o curativo.

- Não sei se isso é prudente, Nita.

- Ora! Precisamos saber com o que estamos lidando, não acha?

- Precisamos é de um médico. Veja, os pés dela estão sangrando. - notei com certo desespero.

Há quanto tempo ela estava caminhando? Bem, a cidade ficava há 3 horas de cavalgada daqui, então ela levaria o dobro para chegar caminhando, no mínimo. Isso explicava os ferimentos nos pés, mas não a razão de ela ter feito tal coisa.

- Pois então vá atrás de um.

- Não saio deste quarto.

- Então cale-se e me deixe trabalhar. - Nita disse, como se eu fosse uma criança birrenta.

Ela era a única pessoa em todo o mundo que falaria assim comigo. E a única que permito que o faça. Ela me criou desde que minha mãe faleceu, quando eu tinha 5 anos. Então eu realmente me calo e a deixo trabalhar.

Até que um suspiro de susto toma minha atenção.

- Pobrezinha!

- O que houve? - pergunto me aproximando e vejo por mim mesmo a grande ferida do lado esquerdo da cabeça dela.

É irregular, com pelos menos uns 15 centímetros, e ainda tem os pontos. Muitos pontos. Ainda há alguns resquícios de sangue seco em seus cabelos. Uma ferida dessa deve ter sido causada por uma forte pancada nessa cabecinha frágil. Isso explica a situação vulnerável em que se encontra.

O rapaz retornou com os itens pedidos, Nita está limpando as feridas, da cabeça e em seguida dos pés, pequenos cortes e bolhas. Algum tempo depois, o caldo chega.

- Ela precisa de roupas limpas, senhor. - Nita pede. É claro que precisa, a barra do vestido dela está em trapos.

Saio dali e me encaminho ao último quarto do corredor, o quarto de Jeny, minha irmã, minha falecida irmã, e pego um dos vestidos dela, amaldiçoando a mim e a lady Montblanc por violar seus pertences.

- Dê-me e saia. Não verá a senhorita sem roupas. - Nita diz quando lhe entrego a roupa e em seguida bate a porta em minha cara.

Aguardo do lado de fora, impacientemente. Algo de muito errado aconteceu. E preciso saber o que, o quanto antes. Noto que o sol já nasceu quando Nita permite que eu entre novamente.

Agora, sem aquele curativo horrendo, limpa e com um vestido azul suave, a jovem parece um pouco melhor. Mas ainda é uma jovem desacordada, o que me causa preocupação.

O que eu farei caso ela venha a falecer em meus cuidados? Estremeço com esse pensamento mórbido.

- O senhor chegou de viagem há pouco, deveria descansar.

- Não estou cansado. - era uma mentira, claro, mas eu não deixaria a menina até que acordasse e me explicasse o que estava acontecendo.

- Ora, mas é claro que está! Não preciso de dois doentes para cuidar, veja bem já não tenho idade para isso.

- Você é forte, Nita. Cuidaria de nós dois, tranquilamente.

- Mas o senhor.… - Nita foi interrompida, em sua série de impropérios que ela certamente começaria a despejar sobre mim, com um gemido vindo da cama, e ambos notamos quando a garota desfalecida recobrou a consciência, e nos aproximamos.

Os olhos dela num tom de verde ou azul era algo que nunca vi em toda minha vida, não era nenhum e era ambos. E estavam fixos em mim, me causando arrepios.

- Como se sente, menina? - Nita questionou, colocando as mãos em sua testa.

- Faminta. - ela respondeu com um constrangido sorriso.

- Isso é ótimo! Aqui está, já pedi que lhe preparassem um caldo. - a garota torceu o nariz. Como imaginei, ela era uma garotinha fútil e mimada - Ora, não faça cara feia sem nem provar a comida! Cada coisa!

- Desculpe-me. É que me lembrei da sopa que tomei no hospital mais cedo. - a jovem disse, apresentando agora um leve rubor nas bochechas.

Não posso ignorar em como isso lhe favoreceu a aparência pálida.

- Esse caldo em nada se assemelha a comida de hospital, ande, e coma tudo! - Nita encheu uma colherada e levou até a boca dela, que se desvencilhou.

- Não é necessário me alimentar assim, senhora, apenas me ajude a chegar até a mesa que eu consigo fazer o resto.

Bufando, Nita recolhe a tigela e talheres e os organiza na mesa, se retirando em seguida. Ela não suporta não ser útil. E tem um gênio quase pior que o meu.

A senhorita e eu nos encaramos por um momento, até eu perceber que devo ajudá-la a ir até a mesa. Me encaminho até ela, lhe estendendo a mão.

- Senhorita. - ela toma minha mão e se levanta, apoiando-se em mim. Enlaço meu braço em sua cintura e seguimos até acomoda-la na mesa.

Aguardo que ela dê a primeira colherada até começar a falar.

- Eu tenho algumas perguntas.

- Tenho certeza de que o senhor as tem. - ela toma outra colherada e me olha. Seu olhar me enerva. Cruzo os braços.

- Onde estão seus pais?

- Mortos.

- O que? O general está morto? Como isso é possível?

- Assassinato, lorde Mackenzie, já ouviu falar?

- E eles tentaram matá-la também? - ela me olha como se eu fosse louco e apenas aponta para a cabeça , realmente foi uma pergunta idiota.

- Porquê?

- Eu não sei.

Ela passa os próximos minutos tomando todo o caldo enquanto eu tento fazer essas informações terem algum sentido.

A família do general fora brutalmente atacada. Se fosse alguém do meu povo eu certamente saberia do ocorrido, das razões e dos culpados. Não, foi alguém do lado deles. Mas, quem? E talvez o mais importante, porque?

- Se quiser minha ajuda eu preciso saber mais do que isso.

A jovem então me olha de forma avaliativa. Ela parece observar atentamente cada centímetro do meu rosto. O que está procurando? Eu ofereci ajuda, ela está decidindo se deve confiar em mim ou não.

Devo lhe dar créditos por ser cautelosa, mas minhas intenções são boas. Pelo menos em sua maioria.

- Eu acordei esta manhã em um hospital sem saber quem era. Apenas sei meu nome pois me foi informado. Tudo o que sei, foram os médicos que disseram.

- Então o que faz perambulando tão longe de um hospital quando está necessitando de cuidados, senhorita? Não percebe o risco que estava correndo? - ela baixou os olhos para as mãos depois de minha reprimenda.

Respiro fundo, devo ser mais delicado com ela.

- Eu fugi. Estar naquele hospital no momento era mais perigoso do que tudo que havia fora.

- Tenho certeza que a senhorita poderia ser mais clara sobre isso.

- Um homem queria me levar de lá. Um homem que me dá calafrios. Se denominando meu noivo, mas não é verdade!

- Ora, como sabe disso se não sabia nem o próprio nome? - perguntei e ela imediatamente me lançou um olhar ressentido.

Delicadeza, Jamie, lembro-me rangendo os dentes.

- O senhor não entende! - ela está ofendida.

- Pois então explique-me! - ela bufa.

Ofendida e irritada. Para alguém na situação em que ela se encontra, essa dama se mostra extremamente geniosa.

- Minhas lembranças estão aqui. - disse apontando a própria cabeça. - Apenas não consigo acessá-las.

- Sim, essa é a definição de perda de memória! - respondo, exasperado.

- O senhor vai permitir que eu fale ou não? - estávamos quase gritando um com o outro. Menina irritante. Quase prefiro quando está desacordada. Quase. Fico calado aguardando que continue.

- Quando me disseram meu nome ele me pareceu correto, portanto sei ser verdade! Já tive alguns vislumbres de minha casa, lembro-me os ensinamentos de meus pais, apesar de não me lembrar do rosto deles. Está tudo aqui e aqui. - apontou a cabeça e depois o peito no lugar do coração - O médico disse que meu cérebro está bloqueando os momentos terríveis do ataque, e consequentemente todo o resto, mas que muito provavelmente recuperarei a memória mais tardar em algumas semanas.

"Cérebro idiota" ela murmurou ao final da frase.

- Então, não "pareceu certo" quando disseram que aquele homem era seu noivo. É isso? - um aceno positivo - E qual o nome do sujeito?

- Ethan Coen. - ela disse sussurrando, como se temesse que ao dizer o nome seu dono se materializasse ali.

Finalmente eu entendi o motivo dessa fuga insana, e o medo que a jovem dama a minha frente enfrentou no último dia.

Esse homem era o pior tipo que já conheci, foi um dos comandantes de médio escalão durante a guerra, conhecido por ter um prazer sádico em torturar seus prisioneiros e seus subalternos mais insubordinados.

Percebi o quanto, apesar de jovem, ela é corajosa e intuitiva. E, conhecendo o sujeito, eu sei que ele a está procurando. Mas, conhecendo o pouco que conheci o general, ele entregaria seu maior tesouro nas mãos de um maníaco?

Eu ainda não tenho resposta para tal pergunta.

- O senhor o conhece não é? - intuitiva até demais, tenho certeza.

- Já nos vimos algumas vezes. - digo-lhe evasivo.

- E então?

- Não acho prudente dizer. A verdade será terrível para a senhorita.

- E o que há além da verdade, lorde Mackenzie? É tudo o que quero, tudo o que lhe peço. Não aceito nada que não seja verdadeiro. Se me disser que aquele homem é o diabo encarnado eu acreditarei pois foi isso que vi quando olhei naqueles olhos negros. - tenho que admitir que ela me surpreende a cada vez que abre a boca.

- Ele ficou conhecido durante a guerra como "Cachorro louco".

- Ele matou e torturou seu povo? De forma grotesca e sem sentido? - definitivamente a menina tem uma mente afiada.

Que os céus me ajudem.

- Alguns dos seus, também, senhorita. - eu disse suavemente, tentando aliviar a gravidade da informação. Ela apenas assentiu, tristemente.

Pensei que esse seria o momento em que a dama se desmancharia em lágrimas em minha frente, mas apenas uma lágrima solitária escorreu por sua face, e ela a limpou logo em seguida, e me olhou com determinação em suas feições.

- Eu sei que foi ele. Ele matou meus pais, e tentou me matar também.

- É uma acusação muito séria.

- É a verdade. E eu descobrirei tudo, e farei com que ele pague. Sangue por sangue. Agora, já abusei demais de sua hospitalidade, senhor, já é dia e preciso ir. - ela disse levantando-se e quase caindo em seguida.

Fui rápido e a segurei em meus braços.

- Tenho certeza de que o fará. Mas precisa se recuperar primeiro. Vamos, está na hora de descansar.

- Sim, tirarei um cochilo e então seguirei meu caminho. - a acomodei na cama e antes mesmo que eu terminasse de cobri-la já estava quase adormecida.

- Quando o vi no precipício, pensei que fosse algum dos capangas dele.

- Quando eu a vi, temi que pulasse. - eu disse tirando os cabelos de seu rosto e a acariciando consequentemente.

- Se fosse um dos capangas dele, eu teria pulado.

E, depois disso ela estava em sono pesado.

Observei a intrigante jovem dama por alguns instantes, com sentimentos desconhecidos e conflitantes em mim.

E, saindo do quarto, tenho certeza total de apenas duas coisas: eu investigaria a  fundo toda essa história, e Annelizy Montblanc não iria a lugar algum.

Se você ainda não quer guardar o Jamie num potinho, é porque ainda não o conhece bem ❤️

Vocês acham que esses dois vão se estranhar? Ou vão se entender logo?

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