1
That's why I got these É por isso que eu tenho esses
Sick thoughts Pensamentos doentios
— Aqui tem alguns contratos para você analisar. — eu mal havia aberto a porta e entrado na sala de Haytham quando ele apontou para as pastas sobre sua mesa. — Veja se tem algo do nosso interesse e me fale.
Ele não tirou os olhos da tela de seu notebook enquanto falava comigo, se limitando a apontar posteriormente para a mesa quase esquecida no canto de sua sala. Deveria ter uma secretária ou secretário ali, mas ninguém, além de mim, aguentava o temperamento terrível dele nas últimas semanas. Aquela morena estava mesmo dando uma boa dor de cabeça pra ele.
Não que meu chefe e amigo não merecesse isso, mas porra, ninguém aguenta esse mau-humor dele.
Eu espalhei as pastas sobre a mesa, as encarando por um instante antes de escolher uma aleatoriamente e a abrir, lendo rapidamente o contrato. Tirar um criminoso de colarinho branco do país, ainda mais com uma oferta tão baixa? Nunca. Ele pode conseguir isso subornando policiais. Além de quê, eu não gosto desse cara.
Mais algumas ofertas ao estilo 'tirar alguém podre de rico de problemas', algumas de contrabando que até que seriam interessante e uns dois contratos para assassinato com valores muito baixos. É o meu rabo na reta. Eu não vou sair da minha cama por menos que uns cem milhões e algumas vantagens.
Só restavam duas pastas quando eu decidi levantar e pegar uma dose do whisky caro que o Haytham escondia em seu escritório. Agora ele estava trocando mensagens com cara de quem poderia matar alguém. Eu espiei por cima de seu ombro enquanto voltava e vi fotos da morena com um choker estilo coleira e um par de algemas de pelúcia nas mãos. Ela vai matar o Haytham de raiva e eu vou adorar assistir isso de camarote.
— Calado. — ele me fuzilou com seus olhos quando eu ri. Eu gargalhei ao ver o rosto dele ficar vermelho.
— Sua submissa está te dando dores de cabeça? — eu dei meia volta, pegando uma dose para ele e colocando o copo com o líquido âmbar a sua frente.
— Ou ela não compreende muito bem a definição de submissa, ou gosta de ser punida. — ele tinha uma expressão muito irritada e perigosa, ainda assim eu não conseguia tirar o sorriso que tinha em meus lábios.
— Ou ela só gosta de te ver irritado. — eu abri a primeira pasta, virando um gole generoso e sentindo o líquido queimar. — Outra hipótese é que você possa ter feito algo que a deixou chateada.
Haytham pareceu ter um estalo, respirando fundo irritado e praguejando algumas vezes baixinho. Eu ri, voltando minha atenção para os contratos. Tinha que terminar aquilo antes que ele saísse, seria impossível falar com ele, caso fosse pro apartamento.
Ambos eram contratos de assassinato e possuíam ótimas ofertas. Um era de Jacques Fontayne, o herdeiro de um negócio milionário que estava ofertando metade das suas ações junto de uma gorda quantia em troca de assassinar uma florista. O segundo, era um senador em campanha de reeleição, ofertando facilidades e muito dinheiro em troca do assassinato de sua amante. Ironicamente, o último me chamou mais a atenção. Existem poucos motivos para um homem com esse tipo de influência encomendar um assassinato e não o silenciamento de sua amante.
— O que tem aí? — Haytham levantou os olhos de seu celular para mim, afrouxando a gravata.
— Dois contratos de assassinato. Um é suspeito — eu entreguei a ele a pasta com a oferta do senador, que ele estudou com a mesma expressão de pouco interesse de sempre. — e o outro é um contrato vindo de Jacques Fontayne em que ele oferece metade das ações da empresa de seu recém falecido pai e uma generosa quantia em dinheiro.
— Investigue o primeiro. — Haytham devolveu a pasta a minha mesa, olhando de relance em seu celular e abrindo um sorriso predatório. — Quanto ao segundo... — ele voltou seus olhos para mim, assumindo novamente sua postura séria. — Acha que vale a pena?
— Ele vai cobrir minhas despesas de viagem e estamos há tempos de olho nos negócios da família Fontayne, então creio que sim. Posso aproveitar e dar uma olhada em nossos negócios em Nova York enquanto isso. — eu o vi virar a pasta com o contrato do Fontayne e rubricá-lo antes de enfiar o celular no bolso e sair sem uma palavra. — Bom dia pra você também.
Uma risada escapou quando ele voltou bufando, pegando qualquer coisa que tivesse esquecido em sua mesa e saindo novamente com passos duros e irritados. Eu fechei a pasta com o contrato do Fontayne, pegando meu celular e buscando pelos contatos o número da 'equipe especial' do Haytham.
— Kid. — ouvi um bufar irritado do outro lado da linha antes de ouvir o ruivo gritar com alguém próximo de si e o som de algo se quebrando. — Por favor, me diga que não está destruindo o seu QG de novo... Tem noção de como é difícil reparar esse lugar sem chamar atenção?
— Tenho. E não estamos destruindo nada. O que quer dessa vez, Cormac? — a voz do ruivo soou rouca enquanto seus companheiros de equipe gritavam. Uma onda de xingamentos e gritos depois e tudo se tornou silencioso. — Foi mal, estamos com um jogo novo aqui.
— Tudo bem. Preciso que descubram tudo o que podem sobre uma pessoa. Como prefere que eu te mande as informações? — eu olhei com desinteresse para a pasta, folheando-a.
— E-mail. Quero testar nosso novo sistema de segurança. Ei seus imbecis eu estou no telefone! — eu precisei afastar meu telefone, respirando fundo. Não era á toa que o Haytham me deixou de babá dos hackers dele.
— Certo, vou te enviar os dados detalhados das pessoas que quero que você investigue. Tente me mandar tudo o mais direto possível, sem rodeios. Estou indo para um trabalho aí, vou mandar o endereço para vocês, veja o que pode me mandar para facilitar a minha vida. — eu ouvi ao fundo os meninos gritarem novamente antes de desligar o telefone e bufar. — Bem, ao trabalho.
Eu me levantei, juntando os outros documentos e os jogando no triturador de papel que o Haytham tinha em sua sala antes de pegar às duas pastas restantes e sair para o elevador.
Uma dupla de secretárias entrou logo em seguida, me encarando por um instante antes de sorrirem e começarem a cochichar. Eu era uma peça destoante no prédio da A&T Tecnologies com a jaqueta de couro, jeans escuro, coturnos e quase sempre com óculos estilo aviador de lentes pretas, andando em meio aos almofadinhas engravatados que trabalhavam para o Haytham.
Às duas belíssimas secretárias saíram alguns andares antes de mim, acenando e sorrindo da forma mais sedutora que podiam. Não que eu não quisesse me divertir um pouquinho antes de trabalho, mas dessa vez estava com pressa.
— Ah, Morrigan... Eu vou levar você comigo. O Fontayne que vai estar pagando mesmo... — eu passei as mãos pela minha Street Rod* guardando as pastas dentro da jaqueta antes subir na moto e sair do prédio.
Eu tinha uma longa viagem a minha frente e mais coisas do que realmente queria ter que lidar para resolver. E de todas essas coisas, o assassinato daquela florista era a menor delas.
Está em todo lugar. Eu desliguei a televisão, jogando o controle pro outro lado do meu pequeno sofá antes de olhar as horas no celular e bufar. Eu me deitei, encarando um ponto qualquer a minha frente antes de sentir algo subir nas minhas costas e se aninhar ali.
— Eu me recuso a sair de casa hoje. — eu fechei meus olhos, respirando fundo por um momento. Já tinha chorado tudo o que tinha pra chorar no dia anterior, a minha cozinha perfeitamente arrumada e cheia de doces era a prova disso.
Um focinho gelado encostou na minha bochecha e eu levantei minha mão, a colocando sobre a cabeça do meu doberman que decidiu começar a lamber o meu rosto.
— Cerberus... Non. — eu ri tentando afastá-lo do meu rosto e abrindo meus olhos, vendo-o balançar o rabo e me encarar. — C'est bon, vamos passear então. Só me deixa tomar um banho tá?
Eu ri, fazendo um carinho em suas orelhas e me levantando. Tanatos não pareceu muito feliz em ter sua soneca interrompida e me encarou com seus olhos verdes antes de ronronar e ir atrás de Cerberus, deitando em suas costas.
Eu entrei na suíte, tirando o pijama e o jogando em um canto antes de tomar uma longa ducha, repensando cada momento da minha vida e o que seria dela agora, me arrependendo de alguns momentos e várias decisões que eu não queria, mas tive que tomar. Como, por exemplo, me afastar do meu avô e única família por causa da ganância de todo mundo ao meu redor.
— Certo, certo, estou indo. — eu ri ao ouvir Cerberus arranhar a porta, puxando a toalha para mim e saindo do chuveiro. Apesar de não estar com a menor vontade de sair de casa, sabia que tinha que fazer isso.
Fazia mais de uma semana que eu estava me escondendo de tudo e todos dentro de casa. Estava na hora de voltar a viver e seguir em frente, mesmo que isso fosse ser difícil como o inferno. Eu estava sozinha de novo e isso doía demais.
— Prontos meninos? — um sorriso surgiu em meus lábios quando Cerberus veio trotando até mim com as coleiras antes de voltar para buscar Tanatos, que miou reclamando. — Vamos Tanatos, vai ser divertido, uma voltinha pelo quarteirão. Você vai ver várias gatinhas.
Ele ficou sentado, me encarando com seu doce olhar assassino enquanto eu colocava nele a coleirinha preta com asinhas de anjo pretas nas costas. Cerberus se sentou ao lado dele, esperando que eu colocasse sua coleira de corrente.
— Prontinhos, estão muito estilosos. Vamos? — eu arrumei o quimono preto sobre meus ombros, pegando o chapéu perto da porta antes de sair.
As ruas estavam calmas e quase desertas, com um ou outro corredor que ia para a outra calçada quando me via. Havia também algumas senhorinhas curiosas que me encaravam e cochichavam quando eu passava e isso sempre me fazia rir.
Afinal, eu era uma mulher de pele extremamente pálida, com cabelos brancos, olhos violetas e usando roupas de estilo gótico com um doberman enorme e um gato preto a tira colo em um bairro conservador, religioso e supersticioso. Não é preciso ser um gênio para saber o que essas pessoas pensavam de mim.
— Seja bonzinho Cerberus. — eu estava quase virando a esquina que levava ao meu prédio quando um grupo de baderneiros passou por mim, se afastando um pouco ao ouvir Cerberus rosnar, mostrando os dentes. — Bom garoto... Connards.
Eu acelerei meu passo, desejando meu sofá. Talvez amanhã eu abra a loja. Eu passei pelo porteiro do prédio, seguindo para o elevador. As portas estavam quase se fechando quando alguém gritou, pedindo para segurá-las.
— Eu prefiro esperar. — eu sorri de canto, passando minha mão em um carinho pelas orelhas de Cerberus, encarando minha vizinha e a peste que ela chamava de filho.
— Como quiser, vizinha. — eu bati no peito, chamando Tanatos que pulou em meus braços. Eu acenei com um sorriso debochado para a mulher, que deu um passo para trás enquanto as portas se fechavam. — Isso nunca perde a graça.
Alguns minutos depois e eu estava de volta ao meu apartamento, separando uma fatia de torta e me sentando na bancada, esperando meu chá ficar pronto. Que tédio de vida.
— Olha só se não é o idiota do meu melhor amigo. — Liam estava com seu corpo apoiado ao seu caro Porsche X6, com os braços cruzados em frente ao peito.
— É, eu mesmo. Agora pare de me insultar e me ajude com a bagagem. — meu telefone começou a tocar em algum lugar da minha mochila, mas eu apenas a joguei dentro do carro enquanto arrumávamos às duas malas que eu havia trago no porta-malas.
— Precisa mesmo de tanta coisa? — Liam se sentou no banco do motorista, me encarando enquanto eu o ignorava procurando pelo maldito celular.
— Sim. Estou aqui por um contrato. — logo a frente do aeroporto foi substituída por ruas cheias de carros. — Cormac.
— Seu maldito! — eu sorri divertido, me arrumando no banco e olhado Liam de soslaio antes de colocar o telefone no viva-voz. — Eu não acredito que você trouxe a sua maldita moto! Tem noção da taxa de transporte que eu estou pagando por isso?
— Bem, se quer algo bem feito, precisa desembolsar alguns milhões, Fontayne. — eu encarei Liam que se controlava para não rir.
— Você não poderia ter simplesmente alugado um carro? — Liam revirou os olhos, dizendo 'burro' silenciosamente.
— Não. Isso deixa rastros. — eu olhei com desinteresse para a paisagem que passava rapidamente por nós.
— E levar uma moto via transporte aéreo para o outro lado do mar não? — eu ri, praticamente vendo a cara do Fontayne se revirar de irritação.
— Não. Agora, eu tenho mais o que fazer além de ouvir você tentando me ensinar a fazer meu trabalho. — eu o ouvi dizer espere antes de desligar o telefone. — Dá pra acreditar nesse idiota?
— Sim, ele tem dinheiro agora e acha que sabe algo. — Liam riu, mantendo os olhos fixos ao caminho a sua frente. — Agora, o que acha de um café?
— Ótimo. Preferiria algo mais forte, como vodka ou whisky, mas acho que você ainda está trabalhando. — eu ri quando ele tirou sua mão do volante para acertar um soco no meu braço.
Alguns minutos e xingamentos trocados com taxistas depois e estávamos em uma cafeteria, sentados em uma mesa com xícaras de expresso e tortas de maçã em nossas mãos.
— Não cruzou o oceano apenas por um contrato, não é? — Liam apoiou seu rosto a uma das mãos, me encarando. Eu bufei, revirando os olhos.
— Sim e não. Haytham tem interesse nas empresas do Fontayne há muito tempo. Esse contrato é nossa grande chance. — eu dei ombros, bebericando meu café. Não era segredo nenhum para Liam os negócios sórdidos do Haytham, mesmo que ele fosse um renomado policial a serviço da cidade de Nova Iorque. Basicamente, o Liam tinha dois empregos e eu posso te garantir que não foi com o salário de detetive que ele comprou esse Porsche. — Mas antes de executar esse contrato, eu quero dar uma olhada nas boates, ver como estão as coisas com a nova equipe.
Liam pareceu desconfortável antes de esconder seu rosto atrás da xícara.
— O que foi? — eu apoiei meu rosto em uma das minhas mãos, o encarando.
— Certo. Se alguém perguntar, eu não disse nada. Mas nos últimos dias desapareceram algumas garotas nas boates do Kenway. — Liam ajustou sua postura, me encarando. — Eu tentei investigar, mas pela primeira vez, fui barrado.
— Eu vou resolver isso. Eu já não gostava desse novo gerente mesmo. — eu puxei o celular, enviando algumas mensagens para os hackers particulares do Haytham e pedindo os arquivos das câmeras das boates. — Bem, se eu quiser ter um tempo para ir retirar a Morrigan a noite, é melhor eu ir logo. Além do mais, vai ser uma merda tentar resolver algo com a boate funcionando.
Liam concordou com aceno, se despedindo de mim enquanto eu deixava o dinheiro para o café e saía.
A entrada da boate estava vazia e sem um segurança, os neons apagados e pareciam precisar de reparos e limpeza. É, tá indo muito bem até agora.
— Aqui, fique com o troco. — eu me afastei do táxi, vendo-o se afastar antes de arrumar a pistola presa as minhas costas no cós da calça. Eu caminhei lentamente em direção a porta, constatando com certa irritação que estava aberta e destrancada. Muito profissionais. — Querida, cheguei.
Minha voz ecoou pelo salão pouco iluminado onde algumas das garotas limpavam o chão e as mesas. Eu dei mais alguns passos, percebendo que apesar de me encararem com curiosidade, não levantavam os olhos para mim. Que merda aconteceu com esse lugar?
— Quem é você? — um cara qualquer se aproximou, tentando parecer intimidador, mas no máximo era patético. Vi de soslaio as meninas se afastarem.
— O inspetor sanitário. Quem você acha, seu pedaço de merda? — eu o empurrei para fora do meu caminho, vendo ele se aproximar por trás. Com um movimento rápido eu desviei de seu, pra dizer o mínimo, mal calculado golpe, agarrando seu braço e o torcendo para trás antes de bater com sua cabeça contra o palco, o nocauteando. — Está demitido.
— Mas que porra tá acontecendo aqui? — um grupo apareceu do outro lado do balcão de bebidas, apontando algumas armas para mim. — Quem é você?
— Porra, mas não sabem perguntar outra coisa também. — eu limpei as mãos nas laterais da calça, dando um passo a frente. — Shay Cormac.
O cara que estava a frente do grupo ficou branco como quem vê um fantasma. Eu sorri de lado, me aproximando dele e passando o braço ao redor de seu ombro.
— Nós temos assuntos a tratar. Vamos subir. — o sorriso em meus lábios desapareceu à medida que subíamos os degraus que levavam a área reservada e ao alojamento que era formado por 4 quartos com camas de solteiro, dois banheiros e uma cozinha. — Esse lugar está um lixo.
Eu cobri o nariz após entrar na cozinha, cheirava a podre e tinha garrafas de bebida espalhadas por todo o chão, caixas de comida e a pia parecia estar entupida e com tanta louça que parecia transbordar.
— Não estaria assim se essas vagabundas limpassem. — o 'gerente', vamos chamar assim porque não tem outro nome melhor, passou a minha frente, puxando um par de cadeiras e limpando a mesa. Ou seja, ele jogou tudo o que tinha em cima no chão.
— O trabalho dessas vagabundas é outro. — eu voltei meus olhos para o corredor, as portas dos quartos fechadas e um silêncio incomodo. — Onde está a equipe de limpeza?
— Nós dispensamos. — o homem se encolheu quando eu voltei meus olhos para ele. — Era um gasto desnecessário.
— É, estou vendo. — eu suspirei, me arrependendo disso quando novamente aquele odor pungente tomou meus sentidos. — Que merda! Mande seus homens limparem isso, caralho!
— Sim senhor. — ele se afastou, berrando pelos corredores pelos nomes de seus subordinados enquanto eu voltava para o corredor, batendo nas portas dos quartos, esperando pacientemente por uma resposta que não veio.
— Moças? — eu abri a porta do quarto maior, esperando encontrar Halle. Em todas as nossas visitas à Nova Iorque e às boates ela nos recepcionava bem calorosamente, fosse bancando a submissa perfeita pro Haytham ou a enfermeira sexy pra mim. — Cadê a Halle?
Eu encarei às duas garotas no quarto, que trocaram um olhar enquanto eu entrava e fechava a porta atrás de mim.
— Mas que porra tá acontecendo nesse lugar? — eu alternei meus olhos entre elas, vendo os olhos vermelhos e os vergões roxos e inflamados da jovem mulher deitada na cama. — Como você ficou assim?
— Um cliente, seu idiota. — a garota que estava cuidando da amiga me encarou, se encolhendo quando eu sorri. Eu gostava quando elas eram assim, era um problema a menos pra gente.
— Relaxa, tô aqui pra resolver um problema. — eu me abaixei ao lado delas, encarando os machucados e as marcas de amarras. — Se não me falha a memória, o sr. Kenway tem um médico de confiança aqui. Vou chamá-lo para você.
— E para as novatas também. Ele vai ter um bocado de trabalho por causa desses merdas. — a garota se levantou, arrumando o pijama desleixado. — Eles estão deixando elas drogadas para elas não reclamarem.
Eu vou matar esse desgraçado!
— O quê? — eu abri a porta e ela me seguiu pelo corredor, abrindo as portas dos outros quartos. Haviam pelo menos três garotas que eu nunca tinha visto na minha vida, totalmente drogadas e, graças a todos os deuses, ainda vestidas. — Me diz que ninguém encostou nelas, por favor.
— Ainda não. — eu respirei aliviado, pegando o celular e mandando mensagens para o Liam. Ele que se virasse, já vou fazer a parte mais difícil mesmo.
— Lawrence. — aproveitei que o 'gerente' estava demorando para subir e liguei para o tal médico.
— É Law. Quem está morrendo dessa vez? — ele parecia irritado e eu não me surpreenderia se ele novamente tivesse sido obrigado a demitir outra recepcionista/enfermeira.
— Ninguém. Mas preciso de você nas boates. — eu esperei a resposta, ouvindo alguém berrar do outro lado da linha e o irritado doutor xingar.
— Escuta aqui, Cormac. Tem pelo menos uns dois meses que não me deixam pôr os pés nessa merda de boate depois que eu quebrei o nariz de um dos seus 'subordinados' que tava encurralando uma garota! — ah, merda. Esse dia só piora.
— É, eu sei, eles são uns merdas. Eu vou resolver isso hoje à noite. Mas será que dá pra você tirar essa maldita bunda desse consultório e vir aqui? Por que eu tô bem mais fodido do que só os 'funcionários' assediando clientes. Eu tenho três desconhecidas drogadas só na Starlight. E tenho algumas desaparecidas segundo minha fonte. — eu suspirei. Caralho, quando foi que isso ficou assim?
— 'Tá. Eu chego aí em... quinze minutos. — eu respirei fundo, vendo de relance o 'gerente' voltar com sua equipe.
— Tem dez. Se vira. — eu desliguei o telefone, vendo que minha 'amiguinha' tinha voltado para o quarto e se trancado lá. Talvez fosse melhor assim. — Bem senhores... Eu terminei minha inspeção sanitária e nós temos muito o que conversar. Então, eu espero que a sua equipe esteja aqui à meia-noite. Ah, e não abram a Starlight hoje.
Eu desci as escadas, passando novamente pelas garotas de antes e acenando para elas antes de sair da boate. Quem diria que eu ia ter tanto trabalho assim...
***
— É sério? — Liam me encarou enquanto eu me aproximava, entrando no carro e arrumando a sacola do fastfood no meu colo. — Eu venho te buscar para o que eu creio ser uma chacina e te encontro comendo como se nada fosse acontecer?
— É meu trabalho e eu tô com fome. Vamos. — acenei com a mão, ignorando a expressão irritada do meu amigo por eu ter falado de boca cheia. Três carros nos seguiam de perto, todos um tanto familiares. — Quem são?
— Dois são investigadores que também fazem um 'extra' pro Kenway e os outros são alguns informantes e aliados. Se os negócios do Kenway caírem, eles caem junto. — Liam tinha uma expressão sombria enquanto encarava o caminho a nossa frente.
— Ótimo. Os garotos me passaram um resumo dos vídeos da segurança, eles vão mandar para você assim que limparem as gravações de hoje. Parece que o problema é apenas na Starlight. A Diamond e a Effects estão limpas e sem problemas. — eu limpei o canto da boca, pescando na sacola a garrafa de cerveja importada e virando um gole. — Dei uma passada por lá antes de ir comer. Tudo em ordem. Garotas felizes, local limpo, segurança 24 horas, o que se espera de um estabelecimento do Haytham.
— Eu não entendo. Está tudo bem estar envolvido em prostituição, assassinato, tráfico de drogas, tráfico de armas e tecnologia militar. Além dos negócios dele que eu desconheço. — eu abri um sorriso de canto quando Liam me olhou rapidamente antes de voltar seus olhos para a rua. — Mas sequestrar garotas e tratar mal as prostitutas dele não pode... Qual a lógica?
— Consensual. As garotas estão ali porque querem e elas têm bem aberta a opção de saírem, além do mais, o Haytham tem uma lista bem estrita do que ele considera fetiche, se foge a essa lista os seguranças podem se divertir. — eu me recostei ao banco, terminando de beber a cerveja e jogando a sacola no chão do carro. — E o Haytham pode se envolver em vários negócios sórdidos, mas tráfico humano não é um desses negócios. E ele tem pavio curto pra esse assunto.
— Eu conheço o seu chefe. Nem quero ver como ele é de pavio curto. — eu ri com o comentário de Liam antes de assumir uma postura mais séria vendo o Starlight completamente apagada e deserta. — Chegamos cedo?
— Não. Vamos. — eu ajeitei a pistola, seguindo para dentro da boate. Mal dei um passo quando ouvimos os ruídos vindos da área vip, rapidamente seguindo para lá.
Eu tinha que dar o braço a torcer, o Liam tinha arrumado um bom time dessa vez. Estavam todos calmos, centrados, já sabendo o que viria. Gostei, estou mesmo precisando de um time assim pras minhas 'missões'.
— O chefe chegou. — o 'gerente' sorriu, abrindo os braços e percebendo tardiamente o grupo atrás de mim devido a seu estado alterado.
— Eu vou ser rápido, tenho mais o que fazer do que limpar essa bagunça, literalmente. — eu suspirei, puxando a pistola e a engatilhando, um tanto entediado. — Senhores, estão dispensados de suas atividades.
Apesar de estarem praticamente bêbados, eles entenderam bem rápido o recado. O sangue sumiu da cara deles enquanto o 'gerente' dava um passo a frente, tropeçando na mesinha de centro.
— Espere, sr. Cormac. Podemos conversar, talvez entrar em um acordo. — ele olhou por cima do ombro para seus subordinados que concordaram baixinho, acenando com a cabeça.
— Não há o que conversar. O senhor Kenway tem regras claras e fáceis de serem cumpridas. Infelizmente, você e seus associados parecem ter alguns neurônios faltando, já que se mostraram incapazes de cumpri-las e infringindo outras mais. — eu levantei os olhos da arma, encarando o grupo a minha frente. — Vocês foram negligentes e estúpidos ao ponto de colocar o negócio em risco ao sequestrarem aquelas garotas e as drogarem ao ponto de mal se moverem. Não há o que negociar.
Liam deu um passo para trás e antes que o homem pudesse abrir sua boca novamente eu disparei contra seu peito, rapidamente voltando a arma na direção de um dos que estavam sentados no sofá, disparando em sua cabeça.
Uma curta salva de tiros me fez olhar por cima do ombro para Liam e sorrir.
— Você é um idiota arrogante e impulsivo. — ele suspirou, guardando a arma em seu coldre.
— Por isso eu trouxe você. — eu sorri, saindo da sala vip e seguindo para o bar. — Senhores, foi uma excelente noite de trabalho. Esperem o gordo pagamento da forma que preferirem amanhã pela tarde.
— A única coisa boa disso é o dinheiro. De resto, só me dá dor de cabeça. — Liam se sentou à minha frente no bar, pegando a dose de tequila que eu havia acabado de servir para nós e nossos associados, virando o conteúdo de uma vez.
Ele não estava errado, mas também não estava 100% certo. Às vezes esse trabalho te surpreende.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top