Norte: A volta da pródiga

Espinosa,
Norte de Minas Gerais, 2013

Mariana olhava mais uma vez para o teto com goteira e para os buracos na parede onde dava facilmente pra se esconder um barbeiro enorme. A mulher se impressionava por nunca ter pegado o mal de chagas. Já era difícil chover por ali, e agora que chovia lá fora, também chovia dentro da casa. 

A moça, ainda nova, tinha 28 anos e mal podia esperar para sair dali. A zona rural de uma cidade no extremo norte de Minas Gerais não era muito atraente para uma moça solteira que ainda tinha uma vida inteira pela frente. Gleice, sua irmã mais velha, gosta muito de viver ali. A simplicidade não lhe incomoda. 

As duas dividem uma casinha nas pequenas terras da família. Sobrevivem da venda de queijo e de doce de leite. Jogam o esgoto numa fossa séptica. Têm um curralzinho com sete vaquinhas, duas bezerras e um boi pra reproduzir; isso na parte de Gleice. E na parte de Mariana, tinha um lugarzinho com capim pros animais pastarem. 

O dinheirinho que ganhavam só dava pra fazer o essencial. Isso incomodava Mariana demais da conta, sô. Queria mais, sempre mais. Queria viajar pro Rio de Janeiro, comprar bolsas bonitas, comprar um carro e morar numa casa decente! Passar as férias num hotel de luxo no Sul. Ir pro Carnaval de Recife. Ah, isso sim era vida de seus sonhos! 

Suas vontades eram além do que dava naquele momento. Mariana dizia para as duas venderem tudo e arrumarem um emprego digno em Montes Claros ou em Janaúba. Quem sabe cruzar a fronteira da Bahia? Rumar ao nordeste e vender especiarias de Minas. Ou se aprofundar no centro do estado e viver na Grande Belo Horizonte. Havia tantas cidades com mais oportunidades para viver bem. Janaúba, Montes Claros, Curvelo, Sete Lagoas, Contagem, Betim, Três Corações, Pouso Alegre... 

Mas Gleice nunca quis. E sempre disse que não podiam se desfazer das terras, pois um dia elas que iam garantir pras elas um lugar pra dormir. Mariana não concordava. Como aquilo poderia ser um lugar para dormir se não conseguia dormir? E aquela goteira em seu rosto era o limite. Não aguentava mais. Amanhã mesmo diria à irmã que ia vender sua parte da propriedade. O pasto era pequeno, mas com sorte com sorte podia, em seu pensamento, conseguir talvez uns 50 mil. Isso dava pra se sustentar em um cidade grande por um bom tempo. Restava escolher para onde ir. 

No dia seguinte, a chuva tinha acabado. Enquanto Gleice fazia o queijo, Mariana fazia o doce de leite. Ela suava ao mexer aquele tacho enorme na beirada do fogão a lenha, um fogão antigo e feio, que esquentava a água da serpentina. Gleice tossiu um pouco, parecia meio resfriada por causa da chuva. Se bem que estava assim tinha dias. Dava uma febre de vez em quando, mas tomava um banho frio e faziam uns chás. Aquilo não era vida. Era sobrevivência. 

"Eu vou embora. Num dá mais! Aquela água pingando no meu rostim bonito num é vida. Vida é ficar numa cama confortável numa casa sem goteira."

"Vida é o que Deus deu pra nóis. E temo que ser grata por tudo que nóis temo. Tamo entendida?" Gleice nem deu muitos ouvidos, parecia bem concentrada em fazer o queijo. 

"Tamo entendida coisa nenhuma. Vou vender o pasto. Ele é a minha parte do terreno." Mariana disse com calma, mas com convicção, sem tirar os olhos do doce. 

"E onde eu vou arrumar comida pros bicho? Essas vaca que dão o sustento daqui de casa." Gleice se altera e larga o queijo de lado, agora olha pra cara da irmã com seriedade. Mariana não devolvia o olhar, só prestava atenção no doce, mas não porque queria um doce bem feitinho, era pra não ter que encarar a irmã durante a discussão. 

"Deixa crescer o mato e dá pras eles. Num vai mais ser problema meu." Mariana deu um risinho ao falar, a irmã já ia ficar uma arara mesmo, podia falar o que desse na telha. Essa não foi a primeira conversa que tiveram sobre o assunto, mas foi a última. 

"Cê num sabe o que cê dizendo. Eu sou sua irmã! Isso é coisa de se dizer pra família?!" Começa então a gritaiada. 

"Família tinha que se apoiar. Cê num me apoia nos meus sonhos!"

"Não é sonho! É luxúria!"

"Vou vender. Num quero saber!" O grito de Mariana foi alto e agudo. A tensão e raiva no ar atingiam o seu ápice. 

"Então sai da casa! Que ela faz parte do meu terreno! Sai!" Berrou a irmã mais velha com lágrimas nos olhos. 

Mariana largou o doce no fogo e foi até seu quarto pegar suas coisas. E levou tudo que tinha pro pasto. Montou uma cabana com lençóis e cobertas, e dormiu ali naquela noite. Ia valer a pena. Por sorte não houve chuva para molhá-la durante a noite.

No dia seguinte, foi até Espinosa, e fez a oferta pra um fazendeiro que tinha terras por ali. O homem viu de cara que a mulher era pobre, sem instruções e que queria dinheiro pra ir pra outro lugar. Fez a oferta. Disse que aquela terra é ruim de crescer coisa, que não podia dar muito, era uma terra infértil. Que era ruim pra plantar. Mal sabia Mariana, que aquela parte de Espinosa tinha terras boas. Vendeu tudo por 15 mil. Conseguiu até receber à vista e em dinheiro. Nunca viu tanto dinheiro em sua frente, ficou enfeitiçada pelas cédulas de 100 reais postas a sua frente. 

Pagou uma passagem de ônibus, almoçou num restaurante de beira de estrada e foi pro primeiro destino disponível. Montes Claros. 

Chegou lá, e pagou uma semana de diária em um hotel 4 estrelas. Almoçou todos os dias em restaurantes, comprou muita roupa nova. Ficou uma semana curtindo o hotel. Nunca viu uma cama tão macia. E em uma semana gastou quase três mil reais. 

Na segunda semana foi comprar um celular caro, com quatro câmeras, internet, tecnologia touch e joguinhos. Foi conhecer a cidade, comprar mais roupas, maquiagem e bolsas, e assim gastou mais de cinco mil reais. Na terceira semana, foi até o tão falado shopping. Comeu muitas comidas gostosas, e resolveu que se fosse comer daquele jeito, deveria pagar por uma academia e pagou um mês de treino adiantado.

Mas ainda tinha uma vontade. Arrumar um homem. Não gostava daqueles trastes feios e barbudos que tinham lá pros lados de onde vivia, só tinha peão, agricultor, capataz... uns homens barbados, suados e sujos. Ficavam mexendo o dia todo com bicho, batendo enxada, mexiam na terra e andando nuns cavalos com carrapato, e se tinha algo que ela odiava era carrapato, pois seu irmão mais novo morreu de Febre Maculosa. Mas lá no fundo, ela sabia que era desculpa pra não dizer que os homens que mexiam em bicho com carrapato eram pobres, porque ela queria mesmo era um homem com dinheiro. Mas se guardar tanto não estava a valer a pena. Não queria amor. Queria prazer carnal. Aquilo que via as outras moças exibirem que tinham na cama. 

A inocente moça do interior perguntou inocentemente em voz alta:

"Como será que faz pra arrumar um homem por aqui?"

Duas outras mulheres que estavam na mesa ao lado olharam para ela. Tinham a cara puxada, robusta e cabelos desgrenhados. Parecia que tinham chupado limão.

"Não sabe onde arrumar homem?"

"Mas é muito fácil." Elas falavam em tamanha rapidez e sincronia que quando uma terminava uma fala, a outra já estava quase no meio da sentença seguinte. 

"Tem uma rua não muito longe daqui, onde você acha todo tipo de homem."

"É só por uma noite, e eles cobram, mas é uma noite maravilhosa."

"Tem de todo tipo."

"Musculoso, magrinho, "

"Loiro, moreno,"

"Branquinho, negão," 

"Novinho, experientes..."

As duas senhoras começaram a rir após suas falas alternadas. A pobre moça do interior sabia do que se tratava. Mas precisava sair da sua seca de homem. Ela tinha dinheiro, e poderia comprar o que quisesse, até uma noite com um homem. O que dinheiro não compraria? Pois afinal, no mundo em que viviam, absolutamente tudo se tornava mercadoria, e sexo não era diferente. 

"Me leva até lá." Disse a moça do interior.

"Não dá, nós só vamos uma vez por mês."

"Não são serviços muito baratos." Completou a outra moça. As duas com um sorriso maldoso e aproveitador. 

"Eu pago! Eu tenho dinheiro." O tom de desespero na voz fazia parecer que Mariana era desesperada por um carinho. Se você lê isso, não pense que ela era desesperada, mas que era curiosa. Pois vivia esperando o príncipe encantado que nunca chegou. E queria uma experiência de prazer de que tanto ouvira falar. Uma noite para gozar. Um a noite para o luxo de que tanto ouvira. 

E as desprezíveis senhoras foram até lá com Mariana, para explorar da ingenuidade da mulher. Chegando ao prostíbulo a céu aberto da rua escura e cheia de homens, as duas foram até dois homens musculosos e bombados. Mariana deu 900 reais para as duas pagarem pelos homens e pelo motel. 

Mariana foi até um rapaz novinho, devia ter uns 25 anos, no máximo. Ela teve a sua noite, e o rapaz o seu pagamento. Por mais que ouvisse as outras falarem daquilo, nunca esperou sentir dor no momento do ato. Mas até que não fora de todo mal. Mariana não sabia, mas o seu primeiro sexo foi melhor do que de todas as outras que diziam ter tido noites incríveis. Pois o jovem rapaz de programa atendeu todas as suas necessidades. O menino sabia usar bem sua boca. E ela gozou, algo que as amigas faziam os homens passarem semanalmente, mas elas mesmas mal sabiam que raramente tinham um orgasmo. O menino podia ser jovem, mas sua língua era experiente. 

Depois de um mês em Montes Claros. Mariana olhou para sua mala em busca de dinheiro pra ver quanto tinha. E se surpreendeu. 

"Como assim? Será que eu perdi dinheiro? Só tem 400 reais? Vou ter que sair do hotel amanhã, não dá pra ficar aqui! Preciso de um emprego hoje!" A voz tremia enquanto falava. As vibrações em sua garganta travavam e sua voz diminuía em reação à descoberta da dura realidade para a qual voltava. 

Mariana começou a olhar empregos. Mas nenhum lhe agradava:

Faxineira, Vendedora, Recepcionista, Secretária... o resto tinha que ter curso, faculdade ou técnico. Foi de prontidão tentar ser recepcionista.

Levou os documentos necessários, esse era o que teria a entrevista no primeiro dia. Não passou.

No dia seguinte saiu do hotel e ficou o dia na rua, e foi em busca da vaga de diarista. Conseguiu 80 reais em uma faxina. No outro dia ia pegar mais uma faxina por 120 reais.

De noite não tinha força e nem dinheiro para ir aproveitar clubes, bares ou homens. Conseguiu vender algumas bolsas, joias e coisas que não eram necessidade. E depois de uma semana dormindo na rua, alugou uma quitinete. 

Na manhã seguinte, batiam na sua porta. Era Paulinho Garrote. Um homem que vivia em Espinosa, e trabalhava numa fazenda de gado leiteiro do lado da Bahia.

"Que que é isso? Como me achou?"

"Vim aqui pra levar ocê de volta. Gleice tá passando mal sem ocê lá. E tá ruim pra fazar os doce e os queijo tudo sozinha."

"Num quero saber! Eu num volto pra lá mais."

"Oh, Mariana. Volta, vai? Cê num sabe como ela tá triste. Tá até doente de tristeza." A cara de Mariana que se fechou ao avistar o vaqueiro só ficava cada vez mais carrancuda. Não conseguia ainda ouvir o nome da irmã. Na verdade, ainda não tinha pensado nela em todo esse tempo em Montes Claros. Mas agora que pensou, sentiu um aperto no peito, mas que foi aliviado pela rigidez de seu orgulho e raiva por não ter recebido apoio de Gleice. 

"Eu num quero saber como cê me achou, mas isso aqui é muito melhor que lá. Vai embora!" Ela bateu a porta com muita força, e fez um estrondo que fez Paulinho dar um pulo de susto. 

"Mariana..."

"Ou sai, ou é polícia." A ameaça surtiu efeito. E Paulinho se foi. 

Mariana seguiu pra faxina, naquele dia ia ser na casa de Dona Carlota. Assim que chegou foi atendida por um homem que a levou até os fundos. Mariana pôs o uniforme, e foi varrer a casa. Dona Carlota chegou até ela e disse:

"Vai me fazer um chá. Vai! Que eu não estou mais aguentando de dor de cabeça. Então faça algo que preste!" Mariana se assustou com o pedido repentino. Sentiu uma raiva do modo que aquela mulher chegou, lhe gritou uma ordem e então saiu, deixando Mariana sozinha. O medo de não receber falou mais alto. A pobre mulher foi fazer o chá e pôde ouvir da cozinha a conversa da patroa.

"Sim, sim... eu odeio aqui! Aonde já se viu? Aqui é uma roça. Não tem nem um milhão de habitantes. São Paulo era muito maior. Tinha mais opção de lazer. Logo eu tive que vir pra Norte de Minas. Mas foi aqui que o Cláudio arrumou um esconderijo pra gente... como assim?... concordo... mas ele foi burro... ele devia saber que tem certos negócios que não se deve fazer... um marido preso é demais pra mim... mas você tem razão, ninguém vai me achar aqui! Estou com novos documentos. E estou recebendo uma merreca da empreiteira pra ficar de bico calado. 15 mil por mês... sim... também acho... pra um pobre que não tem nada isso é muito, mas se não sabe gastar, vira pouco. Ai, que dó me dá de quem pensa que qualquer quantidade abaixo de 60 mil é muito... muito era 100 mil por mês..."

Mariana entregou o chá pra patroa e saiu dali. Aquilo foi um tapa na cara. Não queria, mas ouviu tudo. Não pôde deixar de se sentir mal. Foi fazer a faxina. E a cada momento a mulher a xingava:

"Sua estabanada! Não é assim! Vai deixar sujo do mesmo jeito. Você não sabe limpar um chão? Esse piso é antiderrapante, não se limpa assim!"

Foi assim o dia todo. E no final do dia, a mulher a chamou:

"Por que você está aqui?" Mariana não pôde deixar de olhar com espanto para a pergunta. Não compreendido. Era claro que estava ali para fazer um trabalho. 

"Não entendi a pergunta."

"Por que é diarista, estabanada? Você claramente não tem experiência. Não sabia mexer com ácido muriático e nem sabia usar a máquina de lavar. Você é nova nisso, não é?" A senhora ria enquanto falava, com claro divertimento em ver os perrengues a moça estava passando para limpar a grande casa de Dona Carlota. Isso se Carlota era seu verdadeiro nome. Mas por hora, Mariana não arriscou responder do modo que gostaria, e decidiu somente dizer o que lhe fosse pedido. 

"Sim, briguei com a minha irmã. E vim pra cá."

"Veio como?"

"Vendi um terreno por 15 mil."

"Só isso?" A senhora começou a rir da cara da coitada ainda mais. Era puro divertimento o estado em que Mariana se via. 

"O homem disse que era infértil..." Carlota deu outra risada e cortou a menina. 

"Te passou a perna, meu bem. Até terra infértil vale mais. Você foi burra..." Mariana perdeu a paciência e tentou se impor. 

"A senhora me respeite, ou vai ouvir poucas e boas..."

"Não! Quem vai ouvir é você! Volta pra sua casa. Eu demorei pra subir na vida. Me casei com um homem rico, mas mesmo assim, caí na vida de novo. O que tenho hoje pode ser muito pra você, mas tem gente com muito mais que eu. E assim como eu tenho mais que você, muitos outros também têm. Se você é faxineira, é porque gastou tudo, estou certa? Afinal veio com 15 mil, dava pra se sustentar até achar outro emprego." 

"Sim..." Mariana tinha a cara vermelha. A mulher acertou tudo que supôs sobre ela. Gastou tudo, foi enganada e não conseguiu achar outro emprego em uma das cidades, que segundo ela, abriam oportunidades. 

"Não tenha vergonha. Já vi histórias assim. Não tenha vergonha de voltar para sua família. Trabalhando em casa de família, você vai ver e passar por muita coisa. Quem diz 'casa de família' não sabe o que isso realmente é. As pessoas com dinheiro amam se sentir melhores que as outras. E empregadas sofrem muito com isso. Eu adoro. Não tenho medo de admitir. Não vai dar em nada pra mim mesmo. Se você só está onde está porque brigou com a irmã, se resolva com ela. É claro que vou cobrar o resto dos serviços, te contratei para uma semana, então fique até acabar e saiba honrar seus compromissos. E se endireite na vida, pois sou sua patroa e não me importa o que acontece com você. Tudo o que eu vejo é o seu rendimento. E qualquer outro vai ver isso antes de mais nada. Está entendo onde quero chegar?"

"Sim."

"Então, volte aqui amanhã e depois de acabar seus serviços, se resolva com sua família."

Mariana voltou para a quitinete que alugou, e chorou em sua cama. Pensou no inferno que foi seu dia, e no que ouviu. Achou que tinha muito dinheiro, mas não tinha. Deixou isso lhe cegar, e gastou tudo. E teve que se submeter a um serviço que nunca esperou fazer. 

Ela queria trabalhar em grandes empresas, não em casa de família, e como a moça disse, as famílias são sujas e más, ainda mais algumas famílias com dinheiro. Casa de família não tem nada de família para uma empregada recém chegada. 

Naquela noite choveu e acabou a luz. Não teve um banho quente. E novamente a goteira estava em seu rosto. Sair de onde estava não era necessariamente uma melhora. A água em Espinosa estava quente se tivesse fogo no fogão a lenha. A goteira que foi a gota d'água para sair de onde morava a perseguiu.  

Quando acabou a semana na casa de Dona Carlota, pegou o que tinha sobrado e voltou pra Espinosa. Já perto de casa, viu Paulinho Garrote vindo em sua direção.

"Tá fazendo o que aqui?" O peão perguntou com estranheza.

"Voltei, vim me resolver com minha irmã." Mariana disse com um certo embraço na voz, mas com um certo alívio. 

"Ocê num soube? Ai, Mariana. Com'é que vou falar isso pro cê? A Gleice tava meio ruinzinha antes de ocê ir, né?" A cara de Paulinho era de muita pena. A realidade foi aos poucos chegando para Mariana. 

"Tava. Parecia resfriado. Por que ocê tá me falano isso?" Mariana já queria chorar. O seu peito apertou. 

"A gente tava pensando que era tristeza. Mas aí ela começou a piorar muito um dia, e cuspiu sangue. Foi no dia seguinte que fui te chamar."

"Que que houve?" Falava com aflição na voz. Ainda tinha uma certa calmaria, como se nagasse o que ela já desconfiava. 

"Ela tava com mal de chagas. Ela num resistiu. Enterramos mais cedo no cemitério da cidade. Eu num tive tempo de te falar. Ia ainda hoje mesmo pra Montes Claro pra te dá a notícia." Paulinho tinha uma cara de dor compartilhada. Ele conseguia em alguma medida sentir um pouco da dor de Mariana. 

A moça desabou a chorar. Nunca pensou que sua volta fosse como a do filho pródigo da bíblia, com festa ou algo do tipo. Mas nunca esperou voltar pra casa e não ter mais família.

O dinheiro não podia comprar os últimos momentos com sua irmã. Já estava sem os pais que se foram por velhice, o irmão morreu por Febre Maculosa anos atrás, e agora a irmã morreu de Chagas. Se perguntava qual doença que ia lhe matar, se seria dengue ou o arrependimento. 

E sem dúvidas foi o arrependimento. Sua alma morreu naquele momento. E por mais que tivesse o apoio de Paulinho Garrote, Mariana nunca se recuperou. 

Quando entrou em casa, olhou para seu fogão à lenha que esquentava tão bem a serpentina para ter água quentinha para um banho, e ajudava a fazer seus doces. Aquele fogão feio nunca pareceu tão bonito. E o telhado podia ser consertado. Quem sabe tapar os buracos das paredes não seria bom? Mariana nunca mais foi a mesma. Deu mais valor ao que tinha, e passou a dar valor às pessoas que sobraram ao seu redor, mas a pessoa que ela mais deveria valorizar, não estava mais lá.

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