Noroeste: Pré funeral
Paracatu,
Noroeste de Minas Gerais, 2018
Tava uma algazarra na sala da casa da família Esperança. A hora que todos esperavam parecia estar chegando. Dona Genevive estava nas últimas. A pobre velhinha, que já tinha 87 anos, descansava no quarto. Os filhos e os netos nem tinham coragem de ir olhar se a senhora ainda estava viva, pois ninguém queria ser aquele que iria achar a idosa defunta.
Bebel, a netinha mais nova, já tinha ido pra casa da mãe. O Pai dela, Eugênio, ainda ficava no local a espera do pior. Talvez até ansiasse a morte de sua mãe, assim não teria que a ver sofrendo mais. Alice andava pra lá e pra cá. Se ficasse assim no quintal, já até teria feito um buraco no chão para enterrar sua amada mãe. Juliana não tinha com quem deixar Tomézim, então o rapazinho dormia em seu colo. Estela era sem dúvidas a mais tranquila ali. Talvez porque não era a mãe dela que morria, e sim a avó de seu filho Júlio. Natália estava chorando silenciosamente. Nunca se esqueceu do dia em que a senhora a tirou do orfanato e a deu uma casa para chamar de sua. Amara era quem estava no quarto esperando sua patroa morrer. Era a única ali que não era uma Esperança. O que é a empregada senão aquela que tem que fazer o serviço sujo? E dessa vez, o serviço era necrótico. Era seu dever esperar a velha partir e informar para os familiares.
"Que a gente faz? Mamãe tá lá no quarto agonizando de dor. Num tem mais o que fazer não, gente?" Alice quebrou o silêncio.
"Fazer o quê, Alice? Se até o doutor falou que num tinha mais o que fazer cum mamãe. Que que nóis ia poder fazer? O jeito é esperar." Eugênio tinha sangue frio. Era seu dever segurar as pontas enquanto os outros desmoronavam.
"Num sei. A velha é forte. Já pegou Amarelão, Malária, Catarata e até Pneumonia. E agora vai morrer de algo que a gente nem sabe o que é? Se não dá pra salvar, ao menos deixar ela ir de forma menos dolorosa. " Alice podia até citar cada perrengue que a mãe passara, mas não impedia o que estava por vir.
"Mais o trem é sério, a gente fez o que estava ao nosso alcance, lotamos o quarto dela de equipamentos, conseguimos enfermeira e consulta domiciliar, ela já tá o mais confortável possível. E como ninguém quis deixar pra ela morrer no hospital, o jeito foi esse. E ela pegou tudo isso quando era mais nova." Muito bem lembrado, Júlio. O menino de ouro. O primeiro na família a fazer faculdade. Era pra ir conhecer uma república em Betim hoje ainda, mas preferiu ficar.
Um Veterinário. Todos o questionaram por não escolher medicina humana. Mas por que escolher salvar a vida humana? Humanos são tão maus com ele. Só porque ele não joga futebol, se irrita com barulhos altos, é muito reservado e faz movimentos repetitivos sempre que está concentrado? Sim, porque qualquer motivo que te torne diferente é um pretexto para a ruindade atuar. Não importa o quão inteligente, focado e quanta gentileza pessoa tenha, as diferenças parecem ser mais notáveis do que as inumeráveis habilidades e talentos, e parece ser mais notável que o respeito.
Mas talvez nesse momento, quisesse ser médico de gente para poder fazer algo por Dona Genevive. Embora não pudesse mais. Os lamentos pararam. Foram dois minutos de um mortal silêncio. Amara saiu de dentro do quarto e fechou a porta atrás de si.
"Ela acabou de ir. Acho que a dor dela parou agora..." A moça fungou um pouco e suspirou. Limpou lágrimas nos olhos e fixou seu olhar para todos ali. "Sinto muito pela perda d'ocêis. Ela era muito generosa e alegre, agora ao menos tá junto do Seu Gonçalo."
Alice finalmente se sentou. Talvez não quisesse ter que pagar pra tirarem suas marcas de pegadas do chão, prestes a afundar. Eugênio pareceu se acalmar. A aflição da espera chegava a ser pior que a própria perda, e quando finalmente acabou, eles também se aliviaram. Juliana tentava se manter calma para não acordar tomézim. Natália permanecia quieta. Estela não respeitava o luto alheio, mas fazia parecer que sim. Ou tentava, pois se você franze o rosto durante um momento de morte, não parece que está realmente comovida. Amara saiu para chorar sem ser vista. Dona Genevive sempre disse que ela era da família, então ela também tem o direito de sofrer. Mas não sabia se esse direito seria respeitado.
"A véia foi até onde conseguiu. Era forte demais." Falou Eugênio para quebrar o gelo.
"E esse sitiozim, tão bonitim... ela vai tê saudade demais daqui." Agora Alice resolveu continuar a falar. Talvez falar ajudasse a encarar a morte.
"Não importa esses últimos momentos. Vamos lembrar da alegria dela. Vamos continuar a cuidar da casa, que nem ela gostaria." Júlio falava enquanto olhava fixamente para um retrato dos avós, agora ambos falecidos, pendurado na parede da sala.
"Eu já acho que tinha que vender. Mamãe num tá mais aqui. E todo mundo mora longe. Como é que vamo cuidar do lugar?" Juliana tocou na ferida aberta. Parecia disposta a isso, mesmo que a perda fosse de minutos.
"Eu acho que devia alugar." Estela entrou interessadíssima no assunto.
"Cê num pode nem dá opinião. A mãe num era sua." Eugênio respondeu grosseiramente e rudemente.
"Mais era avó do meu filho. Minha ex-sogra."
"Se é ex, num é mais nada." Ele continuou a dar más respostas para a mulher. Estela nitidamente estava começando a se revoltar com a atitude do ex-cunhado
"Mas o meu filho sempre vai ser neto."
"E o que é que esse menino pode decidir? Ele num tem capacidade." Eugênio permanecia inalterável. A cara fechada dizia que ele tinha autoridade ali por ser o mais velho, porém essa autoridade só era legítima em sua cara e em sua mente. Ninguém aceitaria suas decisões por decidir.
"Se num tivesse capacidade ele num ia ser o primeiro nessa família a ir pr'uma universidade." Estela continua firme.
"Azar. Os filhos que tem o direito de escolha." Eugênio começava a se irritar.
"Mas o Robson já morreu. O que era pra ser dele, agora é do Júlio. A Estela não tá de todo errada não." Natália vai em defesa não de Estela, mas sim de seu sobrinho. O jeito de Eugênio que irritava todos a tantos anos agora estava completamente insuportável dado ao momento da discussão.
"Vai defender ela agora, Natália? Ela nunca foi com a cara da mamãe. Nunca valorizou a pessoa boa que ela era. Ocê tinha que saber disso mais do que ninguém." Eugênio continuou com o drama de novela das nove.
"Resolveu jogar na minha cara que sou adotada justo agora? Num tinha outra hora pr'ocê dá seu show não?" Natália agora também começava a se irritar. A tensão ia aumentando, e os ossos da defunta ainda mal tinham parado de tremer.
"Gente, num vamo brigar. A vovó morreu agora a pouco. Deixa isso pra depois que lerem o testamento." Júlio tenta amenizar a confusão. Era a atitude mais que óbvia, mas foi algo que gerou espanto em todos. Desde quando aquele velha tinha testamento?
"Isso, Júlio. Vamo deixar pra hora certa. Agora não é hora de nada." Exclama Eugênio. Ele não sabia que
"Claro, Eugênio. Porque aí o homi vai lê o papel do inventário e ocê acha que vai ficar tudo pr'ocê, né não?" Juliana botou mais lenha na fogueira.
"Eu sou o mais velho. Tenho direito de ficar com a casa pelo menos." O homem bate no peito e se reafirma como o herdeiro da tão disputada casa.
"Mas quem viveu mais tempo aqui e ajudou a mamãe fui eu. Eu vivi aqui por 20 anos. Com 15 cê fugiu pra ir viver com uma rapariga em João Pinheiro." Alice agora também se exaltou.
"Essa Rapariga é minha ex-mulher. Então cala a porra da boca, Alice." Eugênio estava prestes a perder a cabeça.
"Vai defender a mulher que te botou uma galhada na cabeça de tanto chifre, e te roubou pra ir morar com um garotão no Mato Grosso?" Alice mexeu num assunto delicado para Eugênio. "Não era ocê que chamava ela de Rapariga antes porque ela te largou pra ficar com Ricardão?" O divertimento na face dela era claro. Sempre que tinha a chance ela jogava na cara de Eugênio, que agora era um homem de meia idade rabugento com uma esposa vivendo com um jovem vaqueiro de rodeio. Isso o tirava do sério. Por mais que ele usasse da sua idade para se afirmar, também era uma questão muito mal resolvida.
"Ela me fez bem me tirando daqui. Nesse lugar eu num ia ter chance de crescer na vida. E ela me largar me fez conhecer a mãe da minha filha." Respondeu com calmaria. Na sua cabeça, ele era um ser evoluído por responder com calma e deixar a irmã se alterar para poder pintar Alice de histérica, como fez a vida toda com todas as mulheres que conheceu e se desentendeu.
"Cresceu só em altura, né?" Alice continuou a provocação.
"PAREM DE BRIGAR!" Foi nessa hora que Amara voltou para junto dos filhos da patroa.
"E o que a senhora empregada acha que tem de interferir?" Juliana mais uma vez entrou na discussão quando lhe interessou.
"Sou empregada, mas a Dona Genevive dizia que eu era da família, e se sou da família tenho o direito de pedir pra vocês pararem de brigar no leito de morte dela. Conversem feito pessoas civilizadas." O sermão de Amara pareceu acalmar as coisas.
"Desculpa. Gente, a Amara tá certa. Se o problema é a casa, vamo falar direito e resolver o que fazer do jeito certo, e na hora certa, que não é agora. Gritar num vai levar a gente pra lugar nenhum." Alice se acalmou e voltou ao tom racional.
"Cês tem razão." Estela também se acalmou.
"Amara, vai fazer um café pra gente. Enquanto isso, nóis se resolve aqui." O carrancudo Eugênio fez o pedido do café para ajudar nos nervos, mas antes de mais nada, foi para tirar a empregada da sala.
"Tá certo, Seu Eugênio. Vou lá." A moça foi para a cozinha. Ao chegar lá, soltou mais algumas lágrimas inaudíveis da sala.
Todos se acalmaram um pouco mais. Se sentaram. Juliana botou Tomézim pra ir dormir num canto mais afastado do sofá. Júlio ficou quieto na cadeira. Todos se sentaram, e esperaram até que alguém resolvesse falar.
"Tá gente. Olha. Todo mundo aqui mora em outra cidade. Eu em João Pinheiro, Alice em Vazante, Estela em Ituiutaba, Natália em Uberaba, Juliana em Belo Horizonte e Júlio vai pra Betim pra estudar em BH mês que vem. A gente num vai ficar aqui. Num vale a pena manter a Amara pra cuidar da casa pra ninguém viver nela. Ou a gente podia vender... ou aproveitar aquelas lagoinhas atrás da casa. A gente vai expandindo como uma represa. Bota um tanque de criação de peixe, e faz um pesque e pague." Eugênio camomilamente explicou sua ideia, bem diferente de suas reações e atitudes anteriores.
"E quem vai cuidar? Se todo mundo mora longe..." Juliana nem acabou de falar direito e Eugênio a respondeu na hora.
"Eu cuido. Moro mais perto do que todo mundo. E com uma coisa aqui pra dá renda, vale a pena mudar pra casa se for o caso. A gente reforma, aumenta a cozinha, faz um varandão, bota uns banco com uns telhadinhos ao redor da represa e tá pronto. Paracatu tem movimento. A BR-040 passa na cidade. Tem um movimento de carro constante tanto pra Brasília e Goiânia quanto pra Belo Horizonte e pro Rio. A pessoa quer parar pra descansar da viagem, e passa uma tarde pescando. Meu amigo Marcão tem uma loja de equipamento de pesca. A gente pede em grande quantidade e ele faz um desconto pra gente." Eugênio tinha até um sorrisinho no rosto.
"Sei não. A gente num tem dinheiro pra investir." Alice logo se apressou em falar.
"Então a gente vende?" Juliana falou da venda novamente.
"Vender a casa de mamãe? Tá doida, é?" Alice fala com a irmã como se ela não tivesse noção do que tava falando.
"E o que ocê sugere?" Juliana tinha um tom de desafio na voz.
"Vamo fazer uma criação de porco aqui. Tem os chiqueiro velho no fundo. A gente pode muito bem reformar. É só expandir umas paredes, botar umas ripa pra melhorar o telhado, e tá feito. Eu mais o Fabrício podemos vir de Vazante pra cá e criar os bicho. E a gente arca com os custo. Muito mais fácil que mexer com uma reforma daquele tamanho que todo mundo ia ter que ajudar pro Eugênio ficar com a maior parte do lucro depois que cobrisse os investimento inicial dos outros." Alice deu sua sugestão.
"Tá achando que eu ia me aproveitar d'ocêis?" Eugênio se ofende com o final do comentário de Alice.
"Não é isso. É que a sua proposta ia dar despesa pra todo mundo, e como ocê é que ia trabalhar aqui, ia pegar a maior parte dos lucros por ser o gerente. A gente ia ter despesa que ia demorar pra acabar e ocê morando aqui e já trabalhando, ia ter menos com o que se preocupar, porque seu serviço tá garantido. Mas do meu jeito, eu tomo conta de tudo e não dá dor de cabeça pr'ocêis."
"AH, Alice! Pó'parar. Aí cê sai é no lucro e a gente fica na mesma. Vamo vender tudo e repartir." Juliana novamente insiste na venda.
Amara chegou com o café e uns pães de queijo. Ela se sentou também pra ouvir a conversa. Numa cadeira no cantinho, foi escutando todas barbaridades que ainda estavam vindo.
"Juliana, cê tem certeza disso? Mamãe era super apegada com essa casa." Natália questiona a irmã.
"Certeza. É a melhor opção. Assim não dá briga. Eu conheço um fazendeiro aqui do lado que ia querer comprar. Ele chama Afonso."
"Aquele que você tá namorando mamãe?" A voz de Tomézim se fez presente. Ninguém vira que o menino havia acordado. Juliana tava vermelha feito um tomate.
"Eu não estou namorando ninguém não, meu filho." Ela se esquiva rápido da fala de Tomézim.
"E aquele moço do cavalo que vem lá em casa? Ele disse que era de Paracatu e te ouvi chamar ele de Afonso." O menino abre a boca novamente, para desgosto da mãe. Mas sua fala era inocente. De curiosidade. Ele acabou de acordar. Ainda não sabia que a vovó dele tinha morrido. Não sabia do que era a conversa. Só estava sendo criança e perguntando. Mas o filho entregou a mãe no pulo.
"Então, Juliana, tava querendo pegar tudo pr'ocê, né?" Alice acusa a irmã.
"Nada disso. Ele tá fazendo confusão. Mentir é feio, Tomé!" Juliana repreende o filho.
"Ele não tá mentindo. Ele fez uma pergunta. E todo mundo aqui conhece o Tomézim. Ele não mente. É criança, criança é sempre honesta quando não é algo relacionado a ela. E disseste que ele fez confusão e que mentiu. É um ou outro. Ou você que mentiu, Juliana." Júlio faz a acusação inegável contra a tia.
"Isso. O menino é estranho, mais é inteligente e tá certo. Você mentiu pra ficar com tudo. Tinha era que te tirar da partilha, Juliana. Falar com o Juiz na hora de dividir os bens." Eugênio fala em tom de ameaça.
"Mas já tem o que a vovó fez. O Juiz não vai tomar nenhuma decisão." A voz de Júlio fez todos se tocarem de algo. A matriarca havia feito um testamento. Nessa hora todos se viraram para encarar Júlio. Cada cara mais espantada que a outra. Quando ele falou mais cedo em testamento foi somente um choque por um momento e se recuperaram porque se deram conta da ausência de testamento, mas a situação agora era outra.
"Que história é essa?" Eugênio diz preocupado. Até onde todos sabiam, não havia testamento deixado por Dona Genevive.
"É verdade. Eu tinha esquecido. Na metade do ano passado, a Dona Genevive foi no cartório e deixou o testamento. Foi quando o Júlio veio ver ela nas férias. Acho que ele lembra por isso." Fala Amara.
"Então, resta esperar. Mas independente de quem ficar com a casa, acho que poderíamos alugar por uns anos. O Júlio vai ser o primeiro a fazer faculdade, e vai ter o aluguel lá em Betim pra pagar. O aluguel da casa aqui podia cobrir os custos. Só os 4 anos do curso." Estela se pronuncia novamente.
"Você num é da família, num pode decidir." Outra vez veio Eugênio com seu tom de voz bruto.
"É pro seu sobrinho, Eugênio. Num é pra mim não. E cê queria lucrar em cima dos outros com esse rancho de pesca. A Alice queria ficar com a casa pra ela criar porco e mandar no lugar, e a Juliana ia fazer o namorado comprar pra ficar com tudo pra ela." Estela lança a acusação para os demais.
"E a Natália? É filha também, gente." Amara lembrou a todos de Natália, que permanecia silenciosa ali.
"Adotiva. O nosso direito de decidir tem que ser maior." Eugênio se mete de novo, e voltando ao tom estressado de antes.
"Olha, eu não vou fazer o pecado de na hora da morte da mamãe fazer confusão por herança. Eu abro mão da minha parte de for o caso. Resolvam vocês aí." Natália parecia ter perdido a paciência com os irmãos e cunhada.
A confusão ia começar de novo quando uma voz idosa e arrastada se fez presente e acalmou o tumulto. Dona Genevive estava de pé na frente de todos. Translúcida. Espectrasmagórica.
"Já chega! Que vergonha. Nem na hora de eu morrer, cês tem respeito por mim. Já foi tanta discussão que cês tiveram antes de eu morrer, que eu pensei que pelo menos no meu leito de morte cês iam me dar um sossego. Mas num pode nem morrer em paz agora. Cheguei na porta do além e tinha pedágio, voltei pra buscar R$ 3,80. Aí chego aqui e tem um barraco na sala da minha casa, e o meu corpo largado no quarto. Foram resolver herança antes mesmo de me levar pra enterrar. Bando de vagabundo." Dona Genevive fez questão levantar o dedo do meio pra todo mundo na sala.
"Vovó? Isso é ilógico. Eu estou sonhando?" A voz de Júlio quase não foi ouvida. Tinha dado um bug mental na cabeça do rapaz.
"Ah, meu netinho. Quem me dera tá sonhando agora. Mas tô mortinha da silva. E tô com desgosto. Eugênio, seu vagabundo. Raparigueiro! Mora perto, mas nem vem me ver. Alice, fala que morou mais tempo, mas foi porque num quis sair de casa pra trabalhar, e nem me ajudava quando tava aqui. Juliana mentiu pros irmãos. Estela, cê num engana ninguém, ia usar o dinheiro do aluguel pra não ter que ajudar seu próprio filho com os estudos, Mão de vaca. Natália, Júlio, Tomé e Amara foram os únicos que respeitaram a minha morte. Amara é parte da família, só pr'ocês saberem. Vocês botaram ela pra ficar comigo, porque acharam que era serviço pra empregada. Ocês vão ver. Bando de anta. Eu vou lá no cartório mexer no testamento. Mas antes vou ali no quarto pegar o dinheiro do pedágio."
E a velhinha vinda do além desapareceu. Todos ficaram em estado de puro pavor. Menos Júlio que acreditava estar tendo um sonho. Demorou até alguém se mover e ir conferir se de fato viram um fantasma, se foi uma histeria coletiva ou se Dona Genevive não tinha morrido. Amara foi a mais corajosa e foi até o quarto e disse que a velha estava defunta novamente. O choro de Tomézim acordou a todos do transe.
Quando chegou o dia de ler o testamento, uma semana após o enterro, a surpresa foi grande. Para quando Tomézim fizer 18 anos, ele ganha um terreno da idosa em Pirapora. Natália ficou com uma coleção de cerâmica europeia da avó, bem valiosas, e uma pequena jarra grega que a melhor amiga de sua mãe lhe dera após uma viagem para a Europa. Júlio ficou com todo o dinheiro das contas da avó. Um total de 50 mil. Amara, que esteve por anos com Genevive, e carregou as pestes dos filhos dela no colo, ficou com a casa, pois foi a única que sempre esteve ao seu lado, inclusive na morte. Era uma Esperança maior que os demais, mesmo não tendo o sangue. Os demais foram deserdados. E falar no tribunal que um fantasma da mãe viera no leito de morte pra tirar eles do testamento não foi algo bem visto pelo juiz quando recorreram.
Afinal, será que eram parentes? Ou eram família?
A família ganhou a herança. Os parentes foram deserdados.
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