III - Fogo e Morte

Rae

Quatro Soláris atrás

O chilrear dos pássaros era intenso, eles assobiavam sempre a mesma música, a música que a rapariga cantava todos os dias no seu caminho de regresso a casa.
O vento assobiava, revoltando os seus cabelos ruivos.
A brisa era um tanto fresca, e piorava com o entrelaçar da noite.
O sol descia lentamente pelo monte enorme que se erguia no alto das montanhas.
A água dos riachos corria lentamente, quase inaudível.
As pernas da rapariga, embora cansadas, caminhavam rapidamente para chegar a casa.
As folhas secas rachavam debaixo dos seus pés à medida que esta dava um passo.
Um cheiro intenso passeava no ar, um cheiro adocicado e refrescante, flores de Yasminn.
Apesar de não ser a época delas, elas floresciam por entre as ervas, largando o seu odor viciante.
Havia árvores em cada canto, umas eram altas, com troncos grossos e ásperos enquanto outras eram tinham caules finos, com folhas bastante largas.
Eram visíveis alguns rebentos e até mesmo pequenas sementes na terra.
A lua começara a aparecer no canto, pequena, com as suas crateras irregulares.
A rapariga conhecia a floresta, conhecia cada rebento, cada árvore, cada ser vivo, cada cogumelo, a floresta era também a sua casa.

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Um cheiro nauseante começa a apoderar-se do ar, misturando-se com o cheiro dos Yasminn.
Já era de noite e a lua cheia agora maior, iluminava a noite negra.
Ao fundo no céu, outra cor se confundia.
Outra luz aparecera, uma luz bem acesa, como a de uma fogueira.
O cheiro tornara-se pior, mais intenso, mais desagradável.
A rapariga começa a correr.
Os seus passos não eram rápidos, mas ela corria.
A sua respiração constante começara a descontrolar-se.
A rapariga acelerou, começando a correr velozmente.
As chamas eram visíveis, altas e luminosas.
O som de madeira a arder era possível ouvir de longe.
O cheiro já era decifrável, era fumo.
O coração da rapariga acelerou, batendo rapidamente.
Os pequenos troncos batiam ao longo do seu corpo. Uns partiam-se nela enquanto outros voltavam para trás.
A rapariga largou as suas coisas no chão.
Ganhou velocidade, tornando os seus passos rápidos e ágeis .
Ela corria contra o vento da noite.
À medida que saia da floresta, menos árvores se encontravam.
Ao longe era possível avistar o fim da floresta.
À sua frente, um calor tremendo invadiu o ar.
Os gritos de dor eram ouvidos.
A rapariga estava confundida, sem saber o que fazer.
As chamas eram altas, a sua cor vermelha viva misturava-se com o laranja e o amarelo berrante.
O fumo era negro, e o seu cheiro sufocante.
Depois de olhar pelas casas todas que se incendiavam, a rapariga voltou-se e começou a correr para a confusão, para o fogo.
Casas desabavam, pessoas feridas e mortas caídas no chão.
Embora a rapariga as quisesse ajudar, ela não podia, ela tinha de ajudar os seus pais.
Continuou a correr até chegar a uma fileira de casas, todas a arder.
Parou na segunda casa e gritou pelos seus pais.
Eles não responderam.
Continuou a chamar por eles, desesperadamente.
À frente dela a sua casa desabara.
o impacto fez a rapariga cair ao chão.
A sua cara estava suja e o suor escorria-lhe pelo rosto, por causa do calor do fogo.
A rapariga levanta-se do chão e fita a sua casa que agora estava em ruínas.
As lágrimas apareceram nos seus olhos, desaparecendo no mesmo instante.
A rapariga levantou-se confiante e continuou a chamar pelos seus pais.
A sua voz começara a tornar-se fraca com o esforço.
A rapariga caiu sobre os seus joelhos, no chão poeirento.
Um grito histérico ecoou no meio do caos.
Em seguida ouviu-o-se palavras.
-Socorro, Socorro!! -gritou uma voz.
A voz era conhecida, era uma voz familiar.
A rapariga levanta-se rapidamente e corre para a sua casa agora desabada.
No chão estava uma mulher, de cabelos claros, de olhos alaranjados.
Era a sua mãe.

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-Minha filha, ainda bem que estás viva! - falava a mãe com dificuldade.
-Que se passou? Consegues sair daí de baixo?
-Acho que não - respondeu a mãe.
-Vou pedir ajuda - falou a rapariga
A mãe não proferiu nem uma palavra.
- Ajuda!!! Ajuda!!- gritou a rapariga de seguida.
-Ninguém vai vir, não vai servir para nada - falou a mãe calmamente.
A rapariga parou, ajoelhando-se diante da sua mãe. Ela encarava a mãe de modo pensativo.
- Já sei! - acabou por dizer - Eu vou tentar sozinha, ao três vou levantar isto, e tu vais tentar sair.
-Está bem - respondeu a mãe ao mesmo tempo que acenava com a cabeça.
- 1,2 e ... 3.
A rapariga agarrou o pedaço de madeira e tentou puxá-lo para cima, mas numa questão de segundos o pedaço de madeira caiu, fazendo maior pressão sobre a mãe.
-Ahhhh - gritou a mãe de dor.
-Vamos tentar outra vez, Vá 1,2 e 3.
O pedaço de madeira começou a levantar-se lentamente.
- Aaaaaagh! Está quase!! - falou a rapariga entre dentes.
A mãe saiu lentamente, rastejando com dificuldade.
A rapariga deixou cair o pedaço de madeira no chão.
-Consegues andar?
A mãe tentou levantar-se mas caiu ao chão de imediato.
Tinha um corte profundo na perna, e outro na barriga.
A rapariga pegou nos ombros e tentou puxar a sua mãe, sem êxito.
-Não vai dar - falou a mãe calmamente.
A Rapariga sentou-se ao lado da sua mãe para descansar.
-Onde está o pai? - perguntou a rapariga.
-O teu pai... ele não conseguiu sobreviver, desculpa... - respondeu a mãe com um olhar triste.
- Não isso não é verdade eu quero vê-lo! - exclamou a rapariga
-Ele foi-se está bem, eles mataram-no! - gritou a mãe ferozmente, com lágrimas nos olhos.
- Eles?-questionou a rapariga.
-O incêndio não foi natural, foi o exército do rei - explicou a mãe calmamente.
- Porque raio fariam isso? Eu vou matá-los! -gritou a rapariga.
-Não vais nada - começou por dizer a mãe - Promete-me por favor, que não o vais fazer.
-Eles mataram o pai, eles mataram todos estes inocentes!- berrou a rapariga para a mãe.
A mãe não respondeu, apenas continuou fitando o rosto da sua filha.
- Eu quero que isto acabe. - falou a rapariga num tom triste.
- Eu sei minha filha - a mãe abraçou a filha nos seus braços.
Lágrimas escorreram pelos olhos da rapariga, que junto da sua mãe tornara-se apenas uma criança indefesa.
A mãe agarrou os braços pequenos da rapariga e levantou-lhe o queixo delicadamente.
-Agora ouve-me, por favor - falou a mãe docemente - Não podes confiar em ninguém, prometes?
-Prometo - disse a rapariga baixinho, limpando as lágrimas dos olhos.
-Não podes confiar em ninguém por que se o rei descobrir, tudo será em vão.
- Mas o que tem o rei? O que se passa?
- Este mundo... Ele é complicado - começou a mãe por dizer - Há coisas que são difíceis de perceber.
Um silêncio profundo instalou-se, enquanto apenas olhos tristes se fitavam mutuamente, por entre as chamas vivas.
A rapariga não proferiu nenhuma palavra, esperando que a mãe continuasse.
-Eles querem matar-te, tens de fugir, eles não podem saber quem és, percebeste? - falou a mãe tossindo.
- O que sou eu então? - perguntou a rapariga à sua mãe.
- Tu... Tu és especial minha filha, e para tua segurança é melhor não saberes o que és.
-Mas...
-Por favor, agora tens de ir, deixa-me aqui, eu já não vou sobreviver- interrompeu a mãe rapidamente.
-Não, eu não vou deixar-te - a rapariga abanava a cabeça.
A mãe agarrou a cabeça da rapariga, e beijou-lhe a testa lentamente.
-Vai.
A rapariga levantou-se lentamente sem pestanejar, começando a correr em direção à floresta.
Por último ouviu-se um último suspiro, uma última palavra da sua mãe que foi engolida pelas chamas ardentes da morte.
"Amo-te, minha filha"
As palavras voaram com o vento pela floresta negra onde a rapariga entrava à procura de sossego.

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