Capítulo 4
"Amar não é encontrar a pessoa perfeita, e sim aprender a ver a perfeição em uma pessoa imperfeita". (Sam Keen)
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Três fisioterapeutas em três semanas. Trent achou esquisito quando entrou no ambulatório todo equipado e encontrou um fisio diferente, de novo. Agora era uma mulher. Ele olhou discretamente para Sam e viu um sorriso confiante em seu rosto. Foi impossível não sorrir também. Ele não tinha nenhuma queixa dos profissionais anteriores, mas ele notou um desconforto, ou seria ciúme, vindo de Samuel. – Agora, você não precisa ter uma crise enquanto a doutora estiver me tocando. – Bom humor permeava suas palavras. Mas, quando o silêncio foi a resposta ele encarou o seu companheiro.
Sam estava com a mandíbula tensa e punhos fechados. Foi por um segundo, antes da postura relaxar. Se Trent tivesse demorado alguns segundos para olhar teria perdido o timing. – Eu não senti ciúme. Só achei que os caras anteriores tinham certas intenções não terapêuticas ao tocarem você.
̶ Sam, essa reação é normal. Nós já conversamos sobre isso. Ainda não reivindicamos um ao outro e essa insegurança irá passar quando nossa ligação mental estiver estabelecida. – Trent sentia-se responsável pelas atitudes possessivas e protecionistas de Sam em relação a ele. – Desculpa por causar essas sensações em você. Só peço mais um pouco de paciência comigo, Sam.
̶ Trent, sua sessão vai encurtar se você ficar de bobeira aqui comigo. – Dando um empurrão de encorajamento, Samuel observou seu companheiro entrar na sala de terapia. Ele deu um olhar carrancudo para a terapeuta e ela começou a tremer e deixou cair os plugues da corrente alternada duas vezes.
O lobo olhava de um para o outro e decidiu. – Sam, por favor, pegue minha sacola? Devo ter esquecido no banco de trás do carro. – Ele observou Sam balançar a cabeça e sair. Virou para a fisio. – Desembucha. O que está acontecendo.
Com a voz trêmula a mulher sentou a sua frente. – Seu namorado acusou os outros dois fisioterapeutas de assédio. Eles tinham uma ficha impecável. Para não ficar parecendo intriga eles foram transferidos para New Forest e eu vim de lá para substitui-los. – As palavras dela saíram numa explosão de desabafo.
Trent franziu o cenho. – Não se preocupe mais com isso e faça seu trabalho. Quero sair dessa merda de cadeira-de-rodas o mais rápido possível. – Ele deu um tapinha tranquilizador no joelho dela.
Não ocorreu mais nenhum transtorno pelo resto da hora. O shifter lobo estava preocupado. Ele precisava falar com alguém. Sam estava estranho desde que trocaram as cartas. Ou ele já estava assim antes? Sempre que saíam, a volta era permeada com brigas e discussões. Até que pararam de sair. Nem na noite da pizza iam mais. Sam sempre achava que tinha um homem querendo se aproveitar de Trent, por ele estar numa situação "frágil". Eles discutiam. Acabava com Sam chorando e pedindo desculpas. Isso estava ficando sério. Ele pensava em propor ao seu fênix uma terapia de casal. Devia ter um terapeuta shifter em algum lugar por perto. Ligaria para o doutor Nolan, em New Forest, ele poderia indicar alguém.
Chegaram em casa e Sean não estava à vista. Ele deixou um bilhete preso na geladeira por um imã, avisando ter ido visitar Tom e Kayla. Que bom, assim poderiam conversar.
̶ Sam, o que você acha de fazermos terapia de casal. Eu penso que seria bom, pra mim, pra nós. – Trent virou a cadeira e olhava para Sam esperando uma resposta. - Sam? O que você acha? Sentiria confortável em fazer terapia comigo?
Samuel sacudiu a cabeça para sair do devaneio. – Porque antes disso não passamos umas duas semanas na cabana de veraneio do meu pai? Só nós dois. Assim, deixamos Sean arejar a mente sem se preocupar conosco. Depois voltamos e colocamos nossas ideias no papel.
Trent pensou. Ele não gostava da ideia de isolamento. No atual humor isolacionista de Sam isso soava sinistro, mas ele não queria magoar seu companheiro. Tentou uma abordagem racional. – A cabana é de verão e estamos entrando no inverno. Não quero correr o risco de ficarmos presos lá em cima das montanhas. Tem minha fisioterapia. E prometi a Peter marcar um psicólogo.
̶. Nós sabemos a rotina da fisio de cor. Eu posso te ajudar com isso. E inverno é uma estação romântica. Lareira. Aconchego. Chocolate quente e carinho. – Ele tinha aquele olhar de cachorro pidão.
Trent ainda não estava convencido de que isso era uma boa ideia. – Acho melhor não, Sam. Vamos depois do degelo. O começo da primavera ainda é frio e podemos acender a lareira e fazer chocolate quente sem ficar preso em uma eventual nevasca.
Sam levantou as mãos em um sinal de rendição. – Ok! Você venceu. Eu vou preparar um chá para nós. Do que você quer.
Trent observou as costas de Sam enquanto ele pegava o chá e a chaleira e colocava a água para ferver. Como Samuel era lindo. Seu cabelo vermelho. As sardas espalhadas no rosto e pelo corpo. Seus olhos de floresta. Sua alma gentil.
Tomaram o chá e Trent sentiu uma sonolência gostosa. Não tinha percebido o quanto estava cansado. A fisioterapia sempre o casava. Sam o levou para a cama dando beijinhos em seu rosto. Ele dormiu pensando se não seria besteira fazer Sam esperar até ele conseguir andar para deixar que o fênix o reivindicasse. Poderiam fazer isso funcionar para os dois.
Trent acordou sentindo uma leve dor de cabeça. Piscou os olhos demorando um pouco para reconhecer onde estava. A lareira acesa deu a dica. Com os olhos arregalados ele procurou Sam. Pelo barulho ele estava rachando lenha. Por que? Ele sentia-se violentado. Sequestrado. Culpado por sentir isso, também. – "Ó Deusa, o que eu fiz com você, Sam?". – Esse pensamento o fez cobrir o rosto com as mãos e chorar.
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̶ Tio, você tem que voltar pra oficina ou se desligar de uma vez. Isso de ficar pendurado em licença eterna não é legal com o resto da equipe. Eles contam com a sua volta.
̶. Eu sei. Preciso tomar decisões e não estou preparado para elas. – Sean suspirou e soprou a barriguinha de Kayla e a bebê riu gotoso como todo bebê faz. – Eu queria que tudo fosse mais simples. Por que eu fui ser companheiro de um shifter? Quem decide isso, de qualquer maneira? Os Deuses? O destino? Carma?
Tom ria como um bobo, babando na filha pequena. – Eu não sei tio. Só tenho duas certezas: você precisa procurar tia Meg para colocar alguma coisa nesses arranhões nas suas costas. E não me dê detalhes de como conseguiu eles. E, uma vez na casa de Megan, pergunte para ela sobre a matilha. Ela estava aqui quando eles chegaram. Peter disse que quando ele foi designado como guardião de Bitter Creek, tia Meg veio para treiná-lo e supervisionar os primeiros anos. Observando os conflitos de uma aldeia, depois vila e enfim cidade, que abriga abertamente shifters, outros seres, e é gay friendly.
̶. Sim, vou fazer isso. – Sean levantou-se do chão onde brincava com Kayla. – Vou parar na casa de Megan no caminho de casa. – Ele deu um beijo no topo da cabeça de Thomas. – Não precisa levantar. Fique aí aproveitando a brincadeira. Cada fase é gostosa e passa muito rápido.
Tom bufou. – É o que eu falo pra aqueles dois chatos. Eles ficam entupidos de trabalho e eu fico aqui em casa. Ainda bem que voltei a trabalhar meio período na biblioteca ajudando Mays. – A bebê tenta colocar o pé na boca arrancando risadas do pai.
Sean saiu com um sorriso no rosto. Aqueles momentos curtindo sua sobrinha-neta eram um oásis na sua vida atribulada. Deusa Lua, quando tudo ficou tão complicado? Quando decidiu viver na propriedade que seu irmão tinha escondido deles, ele pensou que uma cidade pequena nas montanhas seria tranquila, sem incidentes, suave. E nada disso aconteceu. No ano anterior quase perdeu Tom. E no final, ganhou dois "genros" e uma sobrinha-neta linda. Com esses devaneios na mente nem percebeu parar em frente à casa de Megan.
Tia Meg, como era conhecida. Era uma bruxa mestiça, muito antiga e poderosa curandeira. Só Peter conhecia sua verdadeira idade e mesmo ele não sabia toda a extensão de seu poder, conhecimento e outros segredos.
Ficou ali, parado, olhando em direção ao jardim da frente. Mas, seus pensamentos voavam e seu olhar fixado no vazio. Uma batidinha na janela do carro o assustou. Tia Megan estava ali na calçada sorrindo e chamando para entrar.
Sean respirou fundo desligou o carro e entrou na casa dirigindo-se a cozinha. Sempre o melhor lugar de um lar. Onde estava o coração, o calor e a comida. E nisso Meg nunca desapontava. Um chá muito cheiroso estava nas canecas e uma torta de maçãs. Era como se soubesse que Sean iria estar ali nessa tarde.
̶. Então, senhor McLean, alquimista amador, tio de Thomas e companheiro do Alfa Ortiz; o que traz tão notável pessoa a minha humilde cozinha? – Ela dizia tudo isso com um ar de riso e irreverência.
Sean riu pegando sua caneca de chá. O clima estava mais frio. O final do outono já anunciava um inverno bem frio naquelas montanhas. – Só busco algumas respostas de quem viu essa cidade desde o seu começo e assim tranquilizar um pouco minha mente e meu coração.
̶. Eu entendo sua motivação. Vou contar o que ouvi e o que vi. Antes de mais nada tenha em mente o seguinte: lobos são conservadores, machistas. O chefe do clã ou Alfa é sempre um macho, geralmente, 99,99% dos casos, héteros. Conheci matilhas compostas somente por casais homoafetivos, mas é uma raridade. O Beta é o segundo em comando. Todo o círculo íntimo e o Beta são Alfas em potencial e podem desafiar o Alfa para ocupar seu lugar no clã. Ômegas são incomuns, são menores e emitem um cheiro mais doce; entram no cio atraindo alfas para uma possível reprodução. Todo ômega tem algum poder oculto, o mais comum é cura através do toque. Ou uma leitura psíquica através do toque. Tanto machos como fêmeas ômegas podem engravidar. Mas, um ômega já é raro, um ômega macho é um unicórnio, ou seja, altamente improvável. Por essa baixíssima incidência de machos ômegas e companheiros do mesmo sexo, isso foi dado por um erro. Não existem companheiros homossexuais nem ômegas machos. Isso é o que foi espalhado entre as matilhas. E os lobos que se perceberam "diferentes" eram incentivados a esconder sua natureza e tomar uma parceira fêmea. A eles era dito que nunca teriam um companheiro, porque eles eram uma aberração.
Meg tomou um gole de seu chá e cortou a torta servindo dois pratos. – Não estou tentando justificar a atitude de Ortiz, mas você precisa entender sua mente. O que ele teve que enterrar de sua própria natureza nesses últimos trezentos anos. Ele nasceu aqui e era um pirralho quando Christina chegou a Bitter Creek. Imagina um moleque de uns 10 ou 12 anos, descobrindo sua sexualidade, com um escândalo tanto no mundo dos humanos, como dos shifters. Um shifter com dois companheiros... homens. – Tia Meg deu uma risada gostosa e colocou uma garfada generosa de torta na boca. – Um shifter com dois bruxos como companheiro e sendo um deles ômega e travesti. Abalou muitas estruturas em muitos clãs. Foi uma loucura. Acredito que se a inquisição humana não tivesse pego Christina... o mundo paranormal também a teria condenado, matado ou no mínimo expulsado. Mesmo ela sendo companheiro do guardião da cidade. Peter era recém-nomeado e não tinha nem a força política nem mágica necessária.
Sean só balançava a cabeça para demonstrar sua atenção e comia torta tomando seu chá. Megan continuou. – A matilha tem seus próprios segredos sujos e estão registrados. Eles têm uma figura denominada guardião dos livros, encarregado de manter um registro de acontecimentos importantes. Provavelmente sua declaração de ser o companheiro do Alfa já esteja nos livros. – Outra rodada de risadas. – O que vou contar agora, conto em total confiança de que não irá revelar a ninguém. Se Carlos Ortiz quiser saber a verdade ele tem os livros. Mas, ele sempre preferiu uma cegueira auto imposta. – Meg viu Sean sacudir a cabeça em concordância com seus termos.
Terminaram os pedaços de torta e serviram-se de mais chá. – Bem... para começar Carlos Ortiz não é filho natural do antigo Alfa. Nem é um lobo puro como ele próprio imagina. Sua mão não morreu no parto e sim, foi executada como traidora da matilha. E o bebê só foi poupado porque perceberam que sua forma shifter era um lobo. Sua outra natureza foi suprimida. Guilhermo Ortiz pediu para selarem a segunda natureza do suposto filho.
Sean estava de boca aberta babando sua bebida. – Pera aí! Ortiz não é um lobo puro? E é totalmente consciente de ser um gay enterrado nas catacumbas?
Meg deu um sorriso sem alegria. – Não sei o quanto ele é consciente da segunda coisa. Mas, da primeira ele é totalmente inconsciente. Pois fui eu mesmo que o selei ainda bebê.
̶. Não tinha dúvidas quanto ao selamento, assim que você mencionou imaginei ter sido você. E também não tenho dúvidas que ele sabe que sou seu companheiro antes mesmo de mim. Eu sei que o vínculo entre companheiros é sagrado para um shifter e, normalmente, se tem um só companheiro a vida toda.
̶. Isso. Esse laço é sagrado. Levando em conta que lobos são shifters que vivem em média mil anos, é muito tempo para se estar sozinho. E o vínculo, quando afirmado numa marca, mordida ou outro dependendo do tipo de shifter; vai equiparar as vidas pela mais longa. Bem, voltando a história da matilha. A mãe de Carlos percebeu que seu companheiro destinado era de um outro clã, e um shifter não lobo. E... claro... eles foram atraídos um pelo outro e entregaram-se a paixão. Os lobos têm um olfato muito bom e Guilhermo percebeu que o bebê no ventre de sua parceira não era dele. Num rompante ele rasgou as roupas da mulher na frente da matilha a procura da marca vinculativa. E claro que achou. É muito difícil para companheiros segurarem suas presas quando fazem sexo. Ela não entregou seu companheiro e o odor nela era confuso por causa da gestação. Assim que Carlos nasceu ela foi executada. Esperaram três anos, a idade da primeira transformação. A expectativa era grande. E quando viram um pequeno lobinho saltitando todos suspiraram aliviados. E no momento seguinte o lobo entrou em combustão instantânea.
Um som estrangulado saiu da garganta de McLean. – A desaprovação de Carlos com relação a Samuel é mais intuitiva que eu pensava. Deuses! Qual será o grau de parentesco deles. Não são irmãos, certo?
̶. Não. O companheiro de Madalena Ortiz foi exilado do clã e voltou para a Irlanda. Mas, você está certo. Intuição forte. Mas... uma carta recente de uma amiga daquelas paragens da onde também vim, avisou que Connor está voltando. Bitter Creek vai se agitar mais uma vez. – Agora o sorriso de tia Meg era malicioso e chegava aos olhos.
Com informações o suficiente para ficar mais uma semana sem dormir, Sean foi para casa. Encontrou um bilhete de Sam dizendo que ele e Trent foram passar duas semanas na cabana da família de Sam nas montanhas. Isso daria a McLean tempo para digerir tudo. Ele era muito grato por ter a rede de apoio que tinha. Sem Thomas, Peter, Jalen, tia Meg e Bony; já teria enlouquecido ou cometido mais idiotices como a que fez na festa.
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Olá bruxarada!!! Que história. Adoro fofocas!! Bicho se eu entendi bem Carlos é meio lobo meio fênix. Que bomba!!! Imagino quando o Beta souber disso. Acho que Rafael vai colocar as asinhas pra fora daqui a pouco. huahuahuahuahaua.
Gostaram? Clica na estrelinha. Deixe seu comentário.
até a proxima att.
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