Especial de Natal, Parte 2

A tensão tomava conta da sala de Sully. Os dois pais entreolhavam-se de uma forma que parecia quase suspeita aos olhos do detetive.

— Muito interessante descobrir que se conhecem, será que achamos o fio da meada aqui? Vamos...estou esperando começarem a me contar!

— Contar o que exatamente, detetive? — perguntou Anderson.

— Fomos colegas de escola, só isso — disse Victor, dando de ombros.

Sully tinha certeza de que aquilo não era simples coincidência. Sua experiência gritava em sua mente dizendo que aquele era o ponto, que precisava desvendar para achar o sequestrador, só tinha que saber administrar a informação para extrair daqueles dois os motivos pelos quais alguém iria querer atingi-los daquela forma.

Depois de um breve gole em sua xícara de café, Sully continuou com seus questionamentos.

— Em qual colégio? — esperou a resposta com seu bloco de anotações aberto.

— No Meira Gomes, mais conhecido como "Meirão" — respondeu Victor.

— E como era a convivência com os outros alunos? Tinham algum inimigo? Algum valentão ou algo do tipo? Ou melhor... — Sully olhou com uma expressão acusatória para os dois — vocês não pegavam no pé de alguém?

Os dois se olharam assustados, era exatamente a reação que Sullyvan esperava ver.

— Claro que não — respondeu Anderson, depois de um breve silêncio — Todo mundo de nossa turma eram crianças comuns, afinal, o que quer insinuar?

— Insinuar? Nada! Agora eu quero confirmar. Irei coletar informações, mas algo me diz que vocês estão me escondendo algo. Só foram colegas de escola mesmo? Depois disso, não mantiveram a amizade?

— Eu não estou gostando disso! Minha filha está desaparecida e você vem nos fazer essas perguntas estranhas e impertinentes!? Se não está vendo, nós somos as vítimas aqui! Eu não perderei mais tempo, estou indo procurar por minha conta, cansei de esperar que a polícia faça algo! — Anderson levantou-se quase derrubando a cadeira, claramente irritado.

Victor parecia preocupado, mas também colocou-se em pé para sair da sala, embora olhasse para Sully como se quisesse dizer algo.

— Pense bem, Victor! Essas informações podem salvar a vida de seu filho!

Antes de sair da sala, ele olhou nos olhos de Sully e respirou fundo antes de falar.

— Depois da escola, nunca mais nos falamos, detetive.

Sullyvan estava satisfeito por hora, ao menos tinha algo que considerava consistente para trabalhar. Ele tinha certeza que aqueles dois homens tinham responsabilidade indireta pelo que estava acontecendo, e era com essa linha que ele iria investigar.

Dirigiu-se para o colégio citado, falou com a secretária da diretora, e logo teve acesso aos históricos de todas as turmas e anos. Não demorou para achar a turma de Anderson e Victor. Apesar de serem agora homens de quase quarenta anos, eles tinham quase a mesma cara de quando crianças. Sully constatou isso quando olhou suas fichas. Mas não eram as deles que ele procurava, o detetive sabia muito bem o que queria e não demorou para encontrar!

— Achei você, garoto! — Sullyvan sorriu ao pegar em mãos uma das fichas.

A ficha era de um garoto com o nome de Geison Melo Soares. Ele tinha orelhas grandes, bem maiores do que o considerado normal, o suficiente para sofrer algum tipo de bullying.

Sully imediatamente ligou para seu auxiliar na delegacia.

— Marcos, por favor, quero que entre no sistema de identificação e encontre para mim um tal de Geison, com "g", Geison Melo Soares. Puxe todas as informações que tiver desse cara. Quando eu chegar, quero tudo em minha mesa

— Claro, senhor, providenciarei agora mesmo!

Satisfeito com o que tinha descoberto, tratou de correr de volta para a delegacia ver o que seu auxiliar havia conseguido no sistema da polícia.

Assim que sentou em sua cadeira, sentiu-se irritado por não encontrar o que havia solicitado. Quando pegou o telefone para falar com Marcos, o mesmo entrou pela porta com várias folhas em mãos.

— Chefe, já está aqui o que me pediu, tem bastante coisa.

— Tudo bem, o que temos?

O auxiliar sentou e começou a folhear os documentos impressos.

— Bom, ele tem quarenta anos atualmente, nunca foi casado, mora em um bairro próximo com sua mãe e já foi fichado algumas vezes. Deixe-me ver aqui... uma vez por dirigir embriagado, outra por uma briga com o vizinho, e a última e mais grave por furto de carro, pagou um ano de prisão e saiu por bom comportamento. Essa aqui é a foto mais recente que temos dele — Marcos mostrou aquele típico retrato de quando o suspeito é detido e é obrigado a posar para o registro da polícia.

— Ah, Geison, orelhas grandes e tatuagem na mão! Peguei você! Mas me parece que as orelhas estão deformadas, além de grandes. Só preciso de uma confirmação, mas para adiantar as coisas por aqui, peça para o delegado solicitar ao juiz que me conceda um mandato para a casa desse cara, eles já estão por dentro do caso e não devem demorar.

Sully uma vez mais saiu da delegacia rumo à casa do senhor Antunes.

— Acharam meu carro? — perguntou o velho homem, ao ver Sully novamente.

— Estamos perto disso, será que poderia dar uma olhada nessa foto? O senhor me disse que o homem que levou seu carro tinha orelhas grandes e tatuagem na mão, ele se parece com este cara?

O velho senhor pegou com as duas mãos a foto, fez um esforço com as vistas cansadas, e então se lembrou dos óculos que estavam pendurados no pescoço. Após encaixar as lentes nos olhos, pôde ver com mais clareza aquele rosto.

— Era noite quando tudo aconteceu, mas se parece muito com ele, sim. Talvez na época não tivesse tanto cabelo como na foto.

— Muito obrigado mais uma vez. Se tivermos notícias de seu carro, o comunicaremos.

Ao entrar de volta no carro, Sully ligou para seu auxiliar uma vez mais.

— Marcos, novidades para mim? Já expediram o mandato?

— Senhor, estou pessoalmente esperando a impressão do documento, eles estavam fazendo corpo mole, mas quando avisei que era para o senhor, a coisa começou a agilizar por aqui.

— Ótimo, bom trabalho. Escute, estou indo para o endereço do suspeito. Vou esperar em frente à casa dele. Assim que sair o documento, traga-me imediatamente!

Com a ordem dada, Sully fez o que disse. Ficou estacionado em frente à casa do suspeito em outro bairro simples de São Paulo.

Durante a primeira meia hora, nada aconteceu, deixando-o impaciente. Sully então saiu do carro e começou a andar pelos arredores da casa, tentando achar alguma coisa.

— O senhor é da polícia? — disse uma idosa de cabelos curtos, assustando Sully.

— Sim, eu sou, algum problema, senhora?

— Já era hora de aparecerem, eu liguei umas cinco vezes!

— E qual seria o motivo?

— Bom, é que faz semanas que minha amiga desapareceu, e o retardado do filho dela não me responde quando pergunto dela.

— O filho dela, o Geison?

— Ele mesmo, aquele perturbado. Sabe, eu sempre temi que ele pudesse fazer alguma coisa a ela. Ele não bate bem das ideias.

— Tudo bem, eu vou pedir para a senhora entrar em sua residência; vou averiguar o que está acontecendo, ok?

Assim que a vizinha entrou na casa, Marcos finalmente chegava com a ordem expedida. Com ela em mãos, Sullyvan pôde apertar a campainha da casa do suspeito. Tocou várias vezes, mas ninguém saiu para atendê-lo.

— Me ajude aqui, Marcos.

Sullyvan estava tentando pular o portão que não era alto, mas tinha lanças que podiam machucar.

— Tem certeza, senhor? — Marcos perguntou, ajudando Sully — Acho que no mandato não está descriminado que podemos fazer isso.

— Nunca me pergunte isso novamente, é claro que estamos errados, mas não me faça sentir mal com minhas decisões, funciona melhor quando não me lembram disso. Fique aqui, esperando.

— E se você... sei lá, não voltar?

— Chame a polícia, Marcos.

— Sim, senhor!

— Que sim senhor o quê, Marcos? Eu fui irônico, você é a polícia! Entre e vá ver o que está acontecendo!

— Mas, senhor, eu não tenho experiência em campo, nunca disparei um tiro sem ser no treinamento — dizia Marcos, suando frio.

— Marcos, olha, se acalme, eu só vou lá ver o que está acontecendo. Se eu demorar, chame reforços, mas, cara, se minha vida depender de você, eu espero poder contar com sua ajuda, tudo bem?

Sully nem esperou uma resposta, já estava do outro lado do portão, indo para a porta principal da pequena casa.

O imóvel era antigo e apresentava desgaste do tempo por toda sua estrutura. Sully deu leves batidas com a mão fechada na porta e esperou por um tempo, mas mais uma vez nada aconteceu. Embora estivesse trancada, a porta tinha um batente frágil, e mesmo sabendo que estava indo contra lei, Sully forçou com o ombro e não demorou para abrir.

— Nossa! Essas pessoas que esquecem suas portas abertas, não é mesmo? — Disse para si, dando uma pequena risada da piada.

Ao invadir a casa vagarosamente, pegou sua arma, uma Glock que usava a contragosto, já que sua favorita de uso pessoal era um calibre 44.

— Senhor Geison? É a polícia!

A casa era uma completa bagunça. Havia lixo para todos os lados, caixas de pizza e garrafas pet de refrigerantes, era o que predominava no ambiente de cheiro ruim; uma mistura de urina, comida podre e vômito.

Não havia muito o que procurar naquele lugar mal ventilado e iluminado, era apenas uma sala com poucos móveis e um computador ligado, dois quartos, sendo que um não tinha nada além de bugigangas, e uma cozinha, o cômodo mais fétido da casa. Mas algo chamava a atenção. Havia um freezer grande, ligado na potência mais alta de congelamento, pelo menos era o que o painel luminoso do eletrodoméstico apontava.

Sully chegou a tremer, pensando que poderia encontrar os corpos das crianças. Com cuidado, ergueu a porta revelando um corpo, mas não era de criança e sim, de uma idosa.

Em pouco tempo o domicílio estava tomado por policiais e perícia. Sully estava do lado de fora, enjoado daquele cheiro ruim que parecia ter impregnado em suas narinas.

— Chefe — Marcos veio informá-lo — O legista disse que apesar do corpo estar muito congelado, é possível saber que ela não foi vítima de violência. Isso até agora, vai depender de mais exames, é claro, mas enfim, o corpo pertence à mãe do suspeito. Já averiguei e descobri que o benefício do INSS dela ainda era mensalmente sacado, mas o legista disse que esse corpo está há pelo menos três meses congelado.

— Faz sentido, Marcos, não é a primeira vez que vejo isso, ocultar o corpo sem dar parte para poder continuar recebendo o benefício. Bem, e o que mais descobriram? E no computador? Alguma coisa?

— Sim, o investigador digital, o Gomes, já desbloqueou a máquina. Bem, o que ele encontrou foram textos de teor raivoso, e no histórico da internet o site mais visitado é o Orkut, e ele sempre entrava nos mesmos perfis: Victor e Anderson.

— Então é ele mesmo! Esse desgraçado estava investigando as famílias, precisamos encontrá-lo. Fique aqui com a equipe e veja se encontram mais alguma coisa, preciso falar com os pais!

***

— Ouçam com atenção, não temos muito tempo, então é melhor abrirem o jogo comigo. O que fizeram com esse garoto? — Sullyvan jogou à mesa a ficha escolar de Geison.

— O que esse cara tem a ver com nossas crianças? — questionou Anderson.

— Não se faça de burro; está óbvio, não? Esse menino cresceu e, com raiva por algo que fizeram no passado, levou as crianças de vocês. Agora eu quero é saber o motivo.

— N- não fizemos nada, eu... eu juro — disse Victor, acovardado.

— Ah, não? Então seria apenas uma coincidência? Me digam logo, é importante!

— Mas qual o motivo dessa merda importar agora? — Anderson estava exaltado e irritado.

— Talvez ele faça com suas crianças o que fizeram com ele!

— Não! Meu Deus, Anderson, vamos falar logo, temos que resolver isso! — Victor olhou para Anderson, derramando lágrimas.

1983

— Olha lá, Victor, o bobão do Geison.

— Ah, deixa ele, é só um garoto tímido por ser tão feio.

— Ele não fala com ninguém da sala, passamos o ano todo estudando e ele não abriu a boca, mas todo dia aqui na rua ele passa brincando com aqueles dois ratos.

— Não são porquinhos da índia, Anderson?

— Tanto faz! Vamos lá falar com ele!

Geison era um garoto solitário que não conversava com ninguém além de sua mãe; ele tinha vergonha de sua aparência, tentava esconder a todo custo suas orelhas que já tinham rendido milhares de piadas na antiga escola. Foi vítima de bullying, o que o deixou em depressão.

Sua mãe, por amor, tirou-o da escola, mas as autoridades ameaçaram toma-lo de sua guarda se não fosse matriculado novamente em uma rede de ensino. Desde que começou na escola nova, o "Meirão", os alunos fizeram um tratado de não caçoar do menino. Mas aquilo era impossível para Anderson, o valentão da turma.

As aulas já tinham terminado aquele ano. Já era dezembro, logo seria natal. Geison tinha ido com o pouco dinheiro que tinha até a feira para comprar um presente para sua mãe na companhia de seus dois únicos amigos, dois preás. Uma fêmea branca e um macho de pelagem tigrada.

Victor e Anderson estavam andando de bicicleta e começaram a acompanhá-lo de perto.

— E aí, sexta-feira treze! — Anderson começou a provocá-lo.

— Meu nome, é Geison, com "g" não com o "j" do cara do filme — respondeu o garoto com medo.

— Olha só, Victor, ele fala! E esses dois ratos aí, são seus amigos?

— São preás, mas também os chamam de porquinhos da Índia — respondeu, sorrindo humildemente.

— Deixe-me vê-los!

— Na verdade eles não gostam muito quando outras pessoas os pegam.

— Me dê eles agora, seu orelhudo!

Geison engoliu seco, mas já estava com medo, ele já havia apanhado tantas vezes gratuitamente que não queria isso uma vez mais.

Anderson, em uma atitude cruel e imbecil, jogou um dos animais na mão de Victor e, com o outro na mão, começou a pedalar em sua bicicleta na direção oposta.

— Ei, o que estão fazendo? — disse Geison, com medo de perder os animais!

— É melhor correr, se quiser tê-los novamente, otário! — gritava Anderson, ainda pedalando e olhando para trás.

Geison começou a correr o máximo que podia, mas não tinha um bom físico, era muito magro e se cansava rápido, mas com medo de não ver mais seus bichos, não parou. Ele seguiu os dois meninos diabólicos até uma antiga casa abandonada do bairro.

Quando finalmente chegou ao local, Geison estava sentindo gosto de bile em sua boca; àquela altura já até tinha perdido o presente de sua mãe, sem que pudesse notar.

— Olha só, Victor, ele conseguiu nos achar!

— Sim, Anderson, acho que podemos devolver agora os bichos, não é?

— Isso vai depender dele, não é Geison? Olha só, eles estão seguros aqui nessa lata de tinta, mas acidentalmente, a lata pode ser arremessada para muito longe, você não quer isso, quer? O quanto ama seus amiguinhos?

— Não, por favor, o que querem que eu faça?

— Sabe o que eu acho? Eu não acho que você seja tão feio, eu acho que falta apenas estilo para você, que tal se colocarmos brincos? Veja minha proposta, você vai se deitar no chão e vamos martelar um prego em suas orelhas, não dói nada, eu garanto. Olha a minha, é furada, e eu nem senti no dia!

Geison estava chorando e preocupado com os seus bichos, que pareciam se lamentar também dentro da lata.

— E depois me deixam ir?

— Claro, dou minha palavra, depois irá me agradecer, ficará mortal aos olhos das meninas, mais que o Jason do filme.

Geison se deitou em uma tábua de madeira suja, cheia de musgo. Anderson pegou dois pregos grossos e enferrujados que achara por ali. Ele posicionou o grande prego na orelha do menino e mirou uma pedra nele, com o intuito de pregá-lo.

— Anderson, esse negócio está contaminado, pode ter tétano, vamos deixar quieto isso aí — tentou alertar Victor.

Sem ouvir o amigo e sem misericórdia, ele bateu no prego uma, duas, três vezes, fazendo o aço transpassar a orelha, causando uma grande dor ao menino, que urrou desesperado.

— Seja homem, sexta-feira treze, já foi uma! — disse rindo, removendo o prego de forma grosseira da orelha esquerda — Agora é a outra!

Da mesma forma que fez com a esquerda, fez com a direita, mas para ser mais sacana ainda, ele deixou o menino preso à tábua.

— Por favor, me soltem, estou sangrando, doí muito, me deixem ir, já cumpri com o que disseram! — dizia Geison, chorando muito.

— Certo, tudo bem, já vou te soltar, mas sabe, estou pensando... estou com fome, e dizem que esses preás são uma delícia na grelha! Não se preocupe, vamos matar só um, qual deles vai poder passar bem o natal? — Anderson ria, mostrando frieza.

Geison, ao ouvir aquelas palavras, arrumou forças e, em um movimento de extrema dor, levantou a cabeça, rasgando a orelha por consequência do ato. Com muita raiva e ódio, correu na direção de Anderson e o derrubou, fazendo-o bater a cabeça no chão.

— Victor, tire ele de cima de mim!

Victor agarrou Geison e o removeu de cima do amigo que, ao se levantar, desferiu dois murros no estômago do pobre garoto que desfaleceu.

— Idiota, eu não ia fazer nada com eles, mas agora veja o que vai acontecer!

Anderson, impiedoso, pegou a mesma pedra que já tinha utilizado e esmagou a cabeça dos dois animais na frente de Geison, que caiu ao chão chorando e abraçando os bichos.

— Se contar isso a alguém, vamos pegar você novamente, e será bem pior!

2008

— Foi isso o que aconteceu — Victor terminou de contar.

— Então foi isso, uma "brincadeira" sádica? Estou seriamente preocupado, será que apenas ele é um psicopata? O que me diz, Anderson?

— Por Deus, eu era um garoto, crianças são cruéis, eu admito. Eu me arrependo disso, sou um novo homem, vou à igreja, faço tudo pelos necessitados, isso faz muito tempo, além disso, o que esse cara quer? Comparar a vida de nossos filhos com a vida de dois animais?

***

Alguns dias se passaram até que a véspera de natal chegasse e uma mensagem simultânea para os dois pais aparecesse em seus celulares. O texto dizia:

"Quer tê-lo de volta? Tudo vai depender de você, te espero onde tudo começou, em 83. Qual o tamanho do seu amor? Sem polícia, acidentes podem acontecer! Dia 24, às 21h"

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