O Que Ficou Para Trás (Final)


Devimyuu encarava Mewthazar de volta. Não sabia exatamente que palavras responder, porém, não era necessário, pois seu olhar dizia tudo.

O felin adulto acabou sorrindo também, no entanto, era um sorriso um tanto triste.

— Quando sua avó me disse que, ter você como meu aprendiz fazia parte do que te protegeria de qualquer mal, eu nem consigo descrever como me senti. Sendo um mago que não consegue usar plenamente sua magia, eu nunca achei que nada de glorioso estaria em meu destino. Mas eu estava errado, minha vida finalmente havia ganho um propósito maior do que eu poderia imaginar, atrelado ao destino de alguém que está diretamente ligado a vitória da profecia do próprio Lord Ghaceus!

Devimyuu ergueu uma sobrancelha, inclinando levemente a cabeça.

— A profecia… de Ghaceus?

— Sim! Você a conhece. Há três mil anos, Ghaceus profetizou que um dia, através de seu escolhido, Luz e Sombras estariam unidas novamente, como já foram antes da criação existir. Você consegue tornar luz as sombras que carrega, Devimyuu, e além disso, Odimyuus te tornou o irmão de Kinmyuu, o escolhido de Ghaceus para cumprir essa profecia. Vocês dois se amam e são mais unidos do que nunca. Agora eu vejo que não poderia estar mais claro; você é uma parte indispensável no cumprimento dessa união! É por isso que a magnitude do que está envolvido em ser seu Precursor sequer pode ser descrita em palavras. Quando paro para pensar, ainda fico incrédulo e me pergunto porquê eu, em meio a tantos outros magos talentosos que fariam qualquer coisa por essa honra.

Devimyuu parou um pouco para digerir tais informações. Nunca tinha se focado em pensar muito a respeito da profecia da União e que estaria diretamente ligado a ela. Era muito para processar, e ele resolveu pensar nisso depois. Tinha outros tópicos com os quais se preocupar no momento, como a transformação aparentemente repentina de Mewthazar em alguém que era o total oposto do que ele se mostrava às vezes, e do que Devimyuu realmente acreditava que ele fosse.

Ver sua magia na cerimônia, e as palavras de Guimewvere realmente haviam causado tamanho efeito nele? Era possível que ele estivesse arrependido verdadeiramente e não fosse tão ruim quanto Heimewdall, ou ainda, que no fundo ele fosse alguém bom que só precisava de um incentivo para despertar seu lado virtuoso? 

O mago adolescente ainda tinha suas dúvidas. Ele olhou para o Soríbia, que  seguia brilhante e intacto, indicando que Mewthazar estava sendo sincero. Entretanto, algo em toda aquela história ainda não se encaixava.

— Isso ainda não explica porque você negou a mim e a toda a tal honra que seria poder me guiar como seu aprendiz… — O menino pontuou, cruzando os braços.

Mewthazar suspirou novamente, seu rosto parecia envergonhado.

— Porque, como eu disse, eu fui um idiota ingênuo e ganancioso que achou que poderia ter tudo… Depois do que sua avó me contou, eu fiquei extasiado. Não tinha mais dúvidas quanto a você, e queria que Heimewdall também não tivesse. Eu sabia como ele sempre foi intolerante e extremamente preconceituoso com reversos, e que ele ocultou a parte de sua visão que provava claramente que você não era ameaça nenhuma. Eu sabia de todos os defeitos crassos dele, mas ainda assim, cegado pelo meu amor não correspondido, eu queria acreditar que ele poderia ser melhor, que se eu mudei, talvez ele também pudesse mudar… Então eu fui vê-lo, e contei todo animado sobre seu feitiço que tornava sombras em luz, que eu seria seu Precursor, e que portanto, ele não precisava mais se preocupar quanto a parte sombria das visões dele sobre você, porque essa era a solução para que elas não acontecessem.

Devimyuu revirou os olhos por um instante.

— Deixa eu adivinhar… Por você ter uma queda por ele, ou melhor, não é nem uma queda, tá mais pra um abismo mesmo… Ele te convenceu a mudar de ideia e voltar a me ver como uma ameaça, não foi? 

Para a surpresa de Devimyuu, Mewthazar negou com a cabeça.

— Ele até tentou, mas viu que não tinha argumentos o bastante. Eu questionei sobre a segunda parte da visão que a mãe dele havia me mostrado, e ele não pôde negar. Afinal, qualquer vidente que mentir sobre suas visões, está sujeito a perder seu poder de tê-las. Eu sabia que Heimewdall jamais arriscaria seus dons de clarividência. Só que, por mais que sua avó tenha me avisado, eu subestimei a capacidade de manipulação dele, e fui tolo e inseguro o bastante pra deixar Heimewdall me convencer que eu não seria suficientemente capaz de cumprir minha designação. 

“Não posso negar que existe verdade no que você está dizendo, e por mais que eu odeie, existe mesmo a possibilidade de Devimyuu não se tornar aquele destinado a nos destruir no futuro, se tudo ocorrer de acordo com a visão que a Guimewvere usurpou de minhas previsões. Mas, tendo em vista a importância disso, como você mesmo mencionou, você realmente acha que está apto a cumprir esse papel, Mewthazar? Respeito seu empenho, e sei que você tem mais força de vontade do que qualquer outro, mas precisamos ser realistas… Nem sempre força de vontade é o suficiente para determinadas situações. Você carrega uma das magias primordiais mais versáteis e quase ilimitadas como um descendente de Mizantri, mas não é capaz de usá-la plenamente. Acha que só 40% dela será o bastante para a amplitude do que está querendo se envolver? Se você falhar, minha previsão sobre a Escuridão que aguarda o pivete reverso se realizará e você terá condenado o nosso mundo! Se realmente quer poupar a todos nós da devastação, o melhor que pode fazer é se afastar. Ceda seu lugar a alguém que sabe que será mais apto. Se acredita tanto que o futuro de Devimyuu é tão promissor e brilhante como diz, já que você agora é outro que parece tão… “favorável” a ele, não deveria atrapalhar, não concorda? Digo isso pelo seu próprio bem. Você sabe que estou certo, não tente negar isso.” 

Essas foram as palavras que Heimewdall usou para atingir Mewthazar como lâminas afiadas, penetrando em sua mente com uma precisão implacável. A força manipuladora de Heimewdall, amplificada por seu poder psíquico, desmontou cada pilar de determinação que Mewthazar havia construído. Ele havia tentado resistir de início, mas a voz de Heimewdall parecia ecoar cada vez mais dentro dele, se tornando uma verdade inegável e devastadora. 

Era típico de Heimewdall fazer o uso cruel das inseguranças de outros para fazê-los agir exatamente como ele queria. O peso de suas palavras invadiu a mente de Mewthazar, que já era extremamente suscetível à sua opinião devido aos seus sentimentos quase irracionais por ele. Portanto, facilmente ele foi dominado por uma sensação sufocante de inadequação, envolto pela influência insidiosa de Heimewdall. Ele se permitiu acreditar que sua própria fraqueza era o maior obstáculo, desistindo do que que tanto desejava.

Devimyuu o encarava boquiaberto.

  — Então… foi por isso que desistiu de ser meu Precursor? Não foi por eu ser reverso, mas sim porque ele te fez acreditar… que você não seria bom o bastante pra mim?

Mewthazar assentiu, cabisbaixo.

— Ele me convenceu de que, se eu realmente me importava com você e queria ajudar a garantir um futuro onde nenhuma Escuridão te afligiria, o melhor que eu poderia fazer era não interferir.

Tudo fazia sentido para Devimyuu agora. Ele olhou para o cetro da falecida mãe biológica. Estava feliz por ter entendido os sinais de que deveria voltar e dar uma chance ao que Mewthazar tinha a dizer.

— Entendi… Mas se esse era o motivo, pra quê deixar todo este mal entendido rolar? Eu fiquei bolado, seu pai discutiu com você, e o meu te proibiu de pisar em Majodrya, e tudo porque deu a entender que você tava me discriminando. Por que não explicou isso pro meu pai no dia que foi ao nosso palácio dizer que não podia ser meu Precursor?

— Eu estava com vergonha, chateado e com raiva de mim e da minha própria fraqueza por ter que desistir do que eu queria… Eu não me expressei bem naquele dia, e assim que ouviu que eu não poderia te guiar, o Rei Odimyuus imediatamente achou que fosse por puro preconceito e já ficou furioso, e não permitiu que eu dissesse mais nada. Eu não o culpo… No final eu achei melhor apenas me calar e obedecê-lo. Mas de qualquer forma, eu não queria te deixar acreditando que eu tinha te discriminado, por isso já estava decidido a explicar tudo a você, mesmo com a ordem dele proibindo de me aproximar.

— Ah, tá… E seria impossível conversar comigo em qualquer outro lugar que não fosse aqui, pode crer… Bom, acho que agora tudo faz sentido… 

A expressão pensativa no rosto de Devim indicava que ele ainda ponderava sobre tudo que Mewthazar lhe confessou, refletindo se deveria ou não aceitar seu perdão.

Porém, antes que Devimyuu chegasse a uma conclusão, havia outra coisa que Mewthazar gostaria de lhe dizer. Se apoiando sobre os joelhos, ele respirou profundamente, enquanto seus punhos fechados apertavam fortemente a grama lilás sob seus dedos. Então ergueu o rosto, encarando o garoto a sua frente com sua determinação renovada.

 — Ouça, Devimyuu. Eu não vim aqui apenas para te pedir perdão. Posso estar sendo ganancioso outra vez, mas pelo menos, agora será pelos motivos certos. Ou talvez… eu esteja só sendo muito abusado… — ele desviou os olhos por um instante, com um pequeno sorriso sem graça, antes de encarar Devimyuu novamente — Mas a verdade é que, eu quero reconquistar o direito que uma vez foi meu, então, do fundo do meu coração, eu gostaria de pedir que você me desse uma segunda chance para assumir meu lugar como seu Precursor Mágico. Vou entender se não quiser, é claro, mas saiba que não pretendo desistir tão fácil.

O jovem mago até ergueu uma sobrancelha, desacreditado. Ele cruzou os braços e o encarou com um olhar malandro.

— Achei que seu namorado psicótico tivesse te convencido de que não era capaz disso. O que te fez mudar de ideia de novo?

O felin adulto demonstrou um sorriso de conformação.

— Como você sabe, meu pai ficou furioso quando descobriu tudo, e eu estava tão destruído por dentro que não fiz questão de explicar. Afinal, esse mal entendido não teria acontecido se eu não tivesse compactuado com o preconceito de Heimewdall diversas outras vezes. De uma forma ou de outra, fui preconceituoso antes, então, achei que aquele tratamento era justo. Mas, para minha surpresa, a pessoa que eu mais esperava que estivesse aborrecida comigo me entendeu, sem que eu precisasse dizer uma só palavra. Isso só me fez perceber o quanto ela sempre me compreendeu, mesmo com todos os meus defeitos. Ela sim, sempre foi a minha verdadeira mãe… 

Divagando um pouco ao mencionar sua madrasta, Mewthazar acabou esboçando um sorriso suave, carregado de uma certa melancolia contida. 

Devimyuu demonstrou um olhar orgulhoso novamente.

— Bem, eu não esperava menos da vovó Guimew. Ela é o máximo, diferente da sua mãe de sangue que parece ser alguém horrível… Ela sim deveria ser a mãe do Heimewdall!

Mewthazar gesticulou em concordância, e até acabou rindo um pouco. Não havia como discordar das palavras de Devimyuu.

 — Não posso dizer que você não tem razão, heh… Mas, enfim, sua avó percebeu que minha desistência e mudança drástica de atitude só poderiam estar por trás de uma pessoa. Através de sua própria história, ela mostrou o quanto a manipulação de Heimewdall tinha me dominado, e me transformou em outra pessoa, trazendo meu pior lado… Heimewdall não é quem eu pensei que fosse, e ele não quer o meu bem, ou o de ninguém. Tudo que importa pra ele é achar que está certo para se sentir superior aos outros. Não posso mais continuar a mercê dele. Permiti que ele me moldasse por muito tempo, mas chegou a hora de dar um basta nisso. Ele não pode definir o seu destino e nem o meu. Por isso, vim te pedir pela segunda chance que não pude aproveitar. Quero provar que Heimewdall está errado sobre nós dois, e nunca mais deixar que ele nos faça sentir mal outra vez!

A proposta era muito tentadora para Devimyuu. Não haveria reviravolta mais satisfatória do que ver Heimewdall perder seu único lacaio para ficar ao lado dele. Apenas imaginar sua revolta ao ser abandonado por Mewthazar era delicioso. No entanto, por mais que soubesse que o felin adulto estava sendo sincero, ainda havia um ponto que o deixava preocupado.

— Isso quer dizer que vocês terminaram? Definitivamente? 

Mewthazar ficou um pouco vermelho.

— Nunca fomos nada além de amigos, pra começar… 

Respondeu, esfregando a nuca sem graça, com uma das mãos sob as mechas louras.

— Mas você ainda gosta dele, né? Não acha que isso pode ser um problema se ele usar sua paixão pra te convencer a ficar do lado dele de novo? Eu preciso poder confiar que meu Precursor não vai um dia resolver ficar contra mim… 

O mago adulto o olhou diretamente nos olhos.

 — Eu ainda tenho sentimentos por ele, é lógico. Sei que eu não deveria, e que isso não é amor de verdade. Porque o amor verdadeiro deve despertar o que há de melhor em nós, e não o contrário. Não será tão rapido e nem fácil, mas um dia, sei que vou aprender a superá-lo. Mas até lá, eu garanto que nunca deixarei ele se colocar entre nosso vínculo destinado de Precursor e Aprendiz novamente. Isso se… você me aceitar de volta, é claro… 

Devimyuu o encarava como se analisasse cada mínimo gesto no rosto de Mewthazar, buscando evidências se poderia mesmo ter sua palavra como garantia. O garoto em seguida apanhou o Soríbia, o erguendo na altura do rosto, e alternando o olhar entre o objeto mágico e o mago adulto. Mewthazar teve a impressão de ver os cristais florais resplandecerem de forma diferente por um instante, até que, com os olhos fechados após um lento suspiro, Devimyuu o colocou de volta na relva brilhante entre eles.

— Hmm… é que eu não sei se quero um Precursor que seja um mago fracote boiola… 

Mewthazar arregalou os olhos ficando em choque por uns instantes, quase como se seu coração errasse uma batida. Até que Devimyuu começou a gargalhar despreocupadamente, com uma expressão travessa ligeiramente malvada.

— Relaxa, hahahah! Foi mal ter dito isso, mas é pra você ver como não é legal discriminar os outros pelo que eles são. Agora eu sei que não tinha me recusado por isso, mas você mesmo reconheceu que já foi um preconceituoso babaca várias outras vezes, então isso foi um teste pra ter certeza de que você aprendeu sua primeira lição.

Mewthazar reconheceu que mereceu tal zombaria por parte de Devimyuu, e no final, até ele acabou rindo um pouco. Mas, ouvindo a última frase do felin adolescente, ele ergueu uma sobrancelha, curioso.

— Minha primeira lição?

— Pois é. O vô Mewrilin disse que o vínculo de Precursor e Aprendiz envolve aprenderem um com outro, então sugiro que fique esperto a partir de agora.

A face de Mewthazar iluminou-se com um sorriso que quase não lhe cabia no rosto. Seus olhos entregavam a inquietação vibrante de seu coração, e ele mal acreditava no que acabara de ouvir.

— Isso quer dizer que me perdoa e que… aceita esse mago fracote boiola como seu Precursor?

Perguntou com um olhar divertido.

— Fazer o quê, é o que tem pra hoje né? — O garoto brincou — Isso é pra você ver como eu sou uma alma virtuosa… 

Disse estufando o peito e cheio de pompa.

— Sim, você é! Definitivamente é! — Num impulso repentino, Mewthazar acabou abraçando Devimyuu fortemente, pegando o menino de surpresa. 

— Okay, tá legal, tá legal! Me soltaaa! Contato físico demais, segura sua onda! 

Percebendo o que havia feito, Mewthazar rapidamente o soltou.

— Ah sim, naturalmente! Me desculpe, heh… 

— Vamos combinar que sua segunda lição é que só a minha namorada e a minha família estão liberados pra me abraçar, falou? — ele disse ao se afastar um pouco dele, se recompondo — Bom, mas agora acho que tá tudo resolvido então. Ah! Mas tem um detalhe. O Kinmyuu veio como meu acompanhante, e eu quero continuar o resto dos dias aqui em Arcanatus com o meu irmão. Depois que a gente voltar pro palácio e eu explicar tudo ao papai sobre você, nós vemos como vamos começar.

— Claro, como você quiser! — Respondeu o felin adulto sem objeções.

— Falou. Então, nos despedimos por aqui. Os banhos do Kin geralmente são meio, ahn…longos… mas até ele vai perceber se eu demorar muito mais, e não quero que ele fique preocupado.

Devimyuu disse, se levantando do solo enquanto batia as mãos em seu manto da Academia para tirar algumas gramíneas que haviam grudado nele. 

Mewthazar também se levantou. Em seu rosto ainda estava a expressão de incrédulo contentamento, com os olhos levemente emocionados, que ele procurou disfarçar. 

Ele estendeu o braço na direção de Devimyuu, oferecendo um aperto de mãos.

— Tudo bem, nos vemos daqui a uma semana então. Eu te desejo um ótimo rito, Devimyuu. Tenho certeza que todas todas as bênçãos de Mizantri através de Arcanatus estarão sobre você. E mais uma vez, eu te agradeço por ter me dado uma nova oportunidade. Muito obrigado, meu caro aprendiz.

Dizendo isso com um sorriso sincero, Mewthazar logo desapareceu,  através de um círculo mágico de teletransporte que Devimyuu nem tinha o visto invocar. Ele ainda estava um pouco incrédulo com tudo que acabara de acontecer, entretanto, enquanto tomava seu caminho de volta à torre índigo, um pequeno sorriso teimoso inevitavelmente surgia nos lábios do jovem Mago Supremo.

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