Gods of Death (Interlúdio I)
Dentre todos os planos dimensionais, o Entremundus era o aquele por onde atravessavam equitativamente, todas as almas de cada ser e criatura onde o fôlego da vida já habitara, na passagem rumo ao seu destino final.
Sua vastidão era como um mar de sombras e éter, tão infinito quanto mutável. As paisagens flutuavam entre o abstrato e o real, enquanto flocos de luz pálida e prata cintilavam no ar, como estrelas despencadas de um céu sem horizonte.
Ao longe, colunas de névoa negra e branca se erguiam, serpenteando em espirais como pilares entre o mundo físico e o espiritual. Ao redor, o Véu era uma presença tangível, como uma cortina translúcida ondulante que delimitava as fronteiras com cada plano; fina como uma teia de aranha, mas tão resistente quanto à própria vontade dos deuses responsáveis por tal dimensão.
Repleto de infindáveis caminhos, cada pavilhão do Entremundus se refazia constantemente. Alguns se moldavam pelas memórias e vivências das almas perdidas que por eles vagaram, já outros, pareciam templos etéreos formados por arcos de vidro negro e chamas espectrais que dançavam sem consumir. Também havia vastos campos enevoados, onde espectros recém chegados aguardavam silenciosamente pelo chamado que os conduziria ao seu lugar. Todo o espaço era ao mesmo tempo denso e vazio, carregado de um silêncio profundo e pontuado apenas por murmúrios distantes.
No coração do Entremundus, havia um local especial conhecido como Nexo Sombrífero. Tratava-se de uma estrutura flutuante, composta de duas torres entrelaçadas, uma de obsidiana reluzente e outra de cristal fumê. As torres se espelhavam e orbitavam a esfera central, um núcleo de energia pulsante que iluminava o espaço ao redor com seu brilho espectral. Correntes de energia fluíam entre as torres, formando pontes que se estendiam como galhos vivos.
Tal refúgio fora esculpido pelas próprias divindades gêmeas que ali habitavam. Os regentes dominantes do pós-vida; Gheseolth e Ghehenaith — únicos filhos legítimos de Ghanog junto a deusa do Tempo que um dia foi sua amada, Timenus.
Gheseolth era o deus da Morte. Portanto seus domínios traziam um aspecto sombrio, porém, munidos de total serenidade. Ali, seus Ceifeiros envoltos em mantos escuros com capuzes ocultando suas faces trabalhavam diligentemente, guiando as almas resignadas para seu destino final.
Já os territórios de Ghehenaith — a deusa Intercessora das Almas — traziam uma certa aura de melancolia. Eram labirintos de infinitas portas por entre reflexos aquosos e flores espectrais, com correntes cristalinas que sussurravam lembranças esquecidas. Onde almas desencarnadas perdidas vagavam, cercadas por sombras em busca de si mesmas, enquanto Ghehenaith intercedia por elas com paciência e compaixão, até que pudessem enfim aceitar sua própria morte sem nada mais que as prendesse ao passado da vida que se fora.
Seus domínios podiam ser separados, contudo, os deuses irmãos compartilhavam o Nexo, o dividindo em dois lados que refletiam as naturezas complementares dos gêmeos.
O lado de Gheseolth era uma galeria sombria, com tetos altos decorados por constelações que se moviam, desenhando histórias de vidas passadas. Havia estantes flutuantes repletas de fragmentos de memórias das almas que ele levara.
Já a parte de Ghehenaith era munida de corredores amplos e sutilmente luminosos, repletos de espelhos translúcidos que refletiam as imagens, emoções e momentos de cada uma de suas almas perdidas.
No centro do Nexo, um salão circular conectava ambos os lados. O teto era transparente, revelando o céu do Entremundus, em seu redemoinho de nebulosas prateadas. E era neste lugar onde as divindades gêmeas se encontravam sempre que necessário, ou simplesmente, quando ansiavam desfrutar da companhia um do outro.
Gheseolth estava sentado sobre o parapeito de uma das janelas flutuantes no salão central, com os braços cruzados e a expressão pensativa. Seu manto de sombras pulsantes misturava-se com seus cabelos longos e lisos que desciam como uma cascata acinzentada, exibindo mechas negras que pareciam oscilar ao menor movimento da névoa senciente presente naquele submundo.
Seus olhos de globos oculares completamente negros, profundos e insondáveis que herdara de Ghanog, contrastavam com suas íris luminescentes refletindo um branco perolado brilhante, personificando a complexidade do além-vida. E era com esses olhos que ele encarava sua irmã, trazendo uma nuance de curiosidade e sutil preocupação.
Do outro lado da sala, Ghehenaith aparecia como uma sombra translúcida antes de se materializar por completo. Seu vestido parecia feito de fumaça cintilante, esvoaçando suavemente conforme a jovem deusa se movia, tal como seus cabelo longos e ondulados, de um prateado cintilante com algumas mechas num tom branco azulado e translúcido, conferindo-lhe um ar etéreo e neblinoso.
Seus olhos, cujas íris eram profundamente negras e brilhantes, como obsidiana sob a luz da lua, encontraram os do irmão. Ela inclinou a cabeça levemente, já percebendo suas intenções.
— Algum problema, caro irmão? — perguntou desconfiada, aproximando-se enquanto pequenas flores espectrais brotavam e em seguida desabrochavam a cada passo que dava.
Gheseolth hesitou por um instante, olhando para o vazio infinito do Entremundus pela janela.
— Eu não diria problema, é apenas um breve… questionamento.
Ghehenaith sentou-se ao seu lado, com o semblante suavemente curioso. Ela colocou a mão no ombro do irmão, um gesto de afeto costumeiro entre eles.
— Por tua expressão, posso supor que não se trata de um questionamento sobre teus domínios, e sim pelos meus.
O jovem deus da Morte encarou sua gêmea. E jovem porque, se fossem vistos como mortais, poderiam ser equiparados a meros estudantes colegiais.
— Não questiono tua regência, irmã, apenas observo atentamente tuas concessões.
O ar em torno deles, impregnado com a névoa etérea do Entremundus, cintilava com um brilho opaco que oscilava entre tons de prateado e cinza, enquanto Ghehenaith ergueu o rosto para o irmão, mantendo um olhar firme e resoluto.
— Se dizes isso referindo-se aos recentes atos do espírito de Renesmew, saiba que não há concessões, apenas compensações.
Gheseolth inclinou ligeiramente a cabeça, seus cabelos acinzentados balançando suavemente como se um vento inexistente os tocasse. Ele descruzou os braços devagar, e caminhou alguns passos em direção à irmã, parando próximo a ela.
— Os atos dela alteram o destino de seus próximos ainda pertencentes ao mundo dos vivos. E ela faz isso selada em seu receptáculo e sem perder-se como um espírito vingativo rendido à insanidade. — disse ele, com a voz carregada de um peso meditativo — Não estou me opondo, tampouco opino, pois jamais usurparia teus domínios. Mas não posso deixar de impressionar-me com o poder notável que ela carrega. Nenhuma alma desencarnada chegou a tais níveis sem antes passar por uma transição.
Os olhos perolados de Gheseolth fixaram-se nos de Ghehenaith, com a profundidade de seu tom ressoando como uma confissão.
Um sorriso sereno e quase enigmático curvou os lábios da jovem deusa. Ela deu um passo adiante e ergueu uma mão delicada, como se quisesse aliviar as preocupações que sentia na aura do gêmeo.
— Se está preocupado que isso afete o caminho que a levará a finalmente aceitar sua morte e passar para teus domíniosl, não te aflijas, caro irmão. Nossa mãe é aquela que rege o Tempo, e ele sequer existe aqui. Então saiba que a travessia dela há de acontecer, um dia. Mas até lá, tudo segue de acordo conforme as regras previamente estabelecidas.
Completou, com sua costumeira serenidade inabalável contrastando com a inquietação contida nos olhos de Gheseolth.
— Mas não foi você aquela que estabeleceu tais regras?
Gheseolth questionou, a encarando com um olhar pertinente, ao que Ghehenaith devolveu com uma expressão de plenitude.
— Sabes que foram necessárias para que eu pudesse exercer minha regência divina. O desequilíbrio causado por nosso pai ao libertar o Mal no universo abriu feridas que jamais se fecharão por si só. A dor, o sofrimento e a injustiça provindas de seu egoísmo criaram um vazio entre os vivos e os mortos, e foi nesse vazio que minha função se revelou. Se Ghanog não tivesse escolhido o caminho da destruição em oposição a tudo que nosso tio Ghaceus criou em perfeita harmonia e bondade, jamais haveria almas perdidas, pois mesmo a inevitável morte seria pacífica, justa e piedosa.
Ela fez uma pausa breve, permitindo que suas palavras pairassem entre eles, antes de prosseguir com uma calma quase solene.
— Então, como compensação pelos atos dele, precisei estabelecer tais regras que concedem força as almas cujas mortes foram marcadas pela injustiça e pelo peso das sombras. Quanto mais abrupto e imerecido é o término de uma existência, quanto mais malignas forem as forças que tentaram apagar a essência de um ser antes de sua hora, maior será o poder que essa alma carregará, mesmo antes de atravessar o Véu.
Seus olhos, negros como obsidiana, brilharam com uma luz interna ao encarar o irmão novamente.
— Essas almas, se carregarem dentro de si sentimentos tão profundos e verdadeiros que resistem à loucura do esquecimento, podem reclamar o direito de resolver seus assuntos pendentes. Não como entidades vingativas cegas, mas como guardiãs conscientes, ligadas àqueles que não puderam proteger em vida. É a maneira que encontrei de equilibrar a balança que nosso pai inclinou tão drasticamente. Uma forma de reparar aquilo que jamais poderá ser desfeito. Mesmo no caos, as almas merecem a chance de encontrar paz e propósito, por mais breve que seja o eco de sua existência. É assim que intercedo por elas e as guio, até que possam ser aliviadas pela vindoura aceitação do fim, em paz.
Um leve sorriso curvou seus lábios, carregando um misto de tristeza e esperança.
O rosto jovem de Gheseolth, que mesmo com traços delicados e simetricamente perfeitos lembrava uma máscara de caveira ornamentada, encarou a irmã com uma expressão que demonstrava não apenas compreensão como admiração também, mesmo na sutil melancolia que fazia parte natural de sua essência.
— É um fardo para mim aceitar as consequências dos atos dele. Mas isso só me faz compreender e admirar mais a nobreza de teu papel como deusa, minha irmã. Através do que eu chamaria de um dos maiores servos á sua causa profana, nosso pai interviu diretamente nos eventos trágicos que culminaram na morte de Renesmew, tudo na vã tentativa de distorcer o destino da inevitável derrota que o aguarda, fazendo do Terceiro Lorde das Trevas seu peão, contra a própria vontade dele. Nada mais justo que agora a alma de Renesmew carregue o poder necessário para ajudar o herdeiro dela a livrar-se dos nefastos grilhões de trevas que nosso pai tenta lhe impor desde a infância.
Ghehenaith esboçou um olhar de contemplação.
— Como eu disse, querido irmão. São compensações, não concessões.
Gheseolth levantou- se, colocando as mãos para atrás das costas, onde ele carregava a envergadura de uma única asa esquelética negra como ônix, com bordas iridescentes que reluziam em tons de violeta e prata, combinando com o par de foices divinais cruzadas sobre suas costas, complementando a imagem que lhe fazia jus como o deus da Morte.
— Perdão se o que eu disse antes transpareceu uma conotação negativa quanto a concessões, irmã. Como deuses, isso é o mínimo que cabe a nós fazer pelos mortais. Não tomo partido em nenhum lado quando as questões entre nosso pai e nosso tio, pois a morte vem igualmente para as criações de ambos, e portanto, devo manter-me neutro. No entanto…
Gheseolth fez uma pausa, olhando para fora da torre, onde a vastidão etérea e infinita do além-vida dominava a paisagem. Ele pareceu refletir em algo antes de olhar novamente para a irmã.
— As ações estapafúrdias de nosso pai em suas tentativas ardilosas e vis de obter uma vitória que jamais pertenceu a ele, afetam não só o destino dos mortais como até os demais planos da existência, incluindo Teodise, onde está nossa mãe, e o nosso. E sei que graças a esse desequilíbrio crasso no cosmos, chegará a hora que até mesmo na morte, terá de haver uma concessão para que ela seja desfeita.
Ghehenaith também levantou-se. Ela se aproximou; a barra enevoada de seu vestido deslizava, enquanto seus pés sequer tocavam o chão.
— A morte por aquela que deu a vida, e a vida por aquela que entregará sua própria morte. A trapaça de nosso pai desfeita, e sua impiedade subjugada.
— Concessão e compensação, unidos, rumo a um único propósito.
Disse o deus da Morte, indo de encontro a ela.
Ghehenaith então segurou na mão de seu irmão, ao que ele retribuiu o gesto a apertando com gentileza.
— Tal como você e eu, querido irmão. Como você e eu.
Os deuses gêmeos permaneceram ali por um momento, com o silêncio do Entremundus envolvendo-os como um manto, antes de desaparecerem em meio à névoa.
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