25 - Pupilo? (Parte 01)

O brilho pálido da magia sombria cintilava no ar, enquanto Mewhicann estendia a mão para o interior do anel de sombras líquidas que permitia seu acesso ao Armoria Nocturne, convocando uma das inúmeras armas do arsenal dimensional.

O Magistrado e o príncipe agora se encontravam numa das áreas externas do palácio, um pouco mais afastada do skatepark. Mostrando o interior do espaço distorcido dentro do Armoria Nocturne, Mewhicann havia deixado Akenmyuu ter um vislumbre de algumas de suas principais armas, desde espadas exalando uma aura negra e gélida, até rifles arcanos com canos longos e circuitos mágicos, exalando seu fulgor ígneo e sombrio (como o que usou para destruir o campo psíquico que dominava Mewthazar), ao lado de bestas tecnológicas de múltiplos mecanismos e punhais serrilhados com lâminas encantadas, capazes de cortar até o tecido da magia. 

Contou um pouco sobre a natureza de sua magia de Reequipar, sendo a fonte que lhe permitia conjurar e adquirir armamento arcano, o armazenando numa dimensão própria. Aken se atentava a cada palavra, enquanto mal conseguia piscar com os olhos repletos de admiração sobre o arsenal, fascinado com cada arma que parecia mais impressionante que a anterior.

Mewhicann fazia um breve resumo sobre cada uma que via ter chamado mais a atenção do príncipe, explicando que algumas delas foram compradas das mãos de magistas artesãos experientes, enquanto outras, ele mesmo forjou através de materiais adquiridos em suas missões do passado, dentre outras desenvolvidas exclusivamente para ele pela organização para qual costumava ser um agente (desnecessário dizer o quanto o príncipe entrou em êxtase ao descobrir que além de um bruxo muito poderoso, Mewhicann também já foi um habilidoso espião). 

 O espaço se distorceu por um instante como se rasgasse o tecido da realidade, enquanto Mewhicann retirou uma balestra arcana pequena de dentro do portal. Sua estrutura negra e prateada refletia o ambiente ao redor como uma joia forjada nas sombras.

— Olhe essa daqui — disse girando a arma nos dedos com naturalidade antes de entregá-la ao garoto — Foi uma das primeiras que eu fiz. Pode segurar.

Embora tivesse deixado Akenmyuu ver, Mewhicann não invocou nenhuma das outras armas mostradas ao príncipe, devido ao seu nível de periculosidade. No entanto, resolveu deixar o menino tocar naquela porque tinha motivos para considerá-la “apropriada” pra ser manejada por um menino de dez anos. 

Aken arregalou os olhos, segurando a balestra com ambas as mãos como se estivesse recebendo um tesouro lendário de um dos heróis fictícios que tanto adorava.

— Caraca… que daora! — Sua voz infantil chegou a soar até um pouco trêmula, devida a emoção tremenda de ter uma arma mágica de seu mais novo ídolo em mãos. 

Ele correu os dedos pelas ranhuras detalhadas no arco, sentindo a suavidade fria do metal e os leves entalhes arcanos na superfície. Ela era compacta, com um formato ágil e elegante, feita para disparos rápidos e precisos. Pequenos circuitos mágicos corriam ao longo do corpo da besta, pulsando com uma energia escura e opaca, como se a própria noite estivesse entranhada nela.

— Fiz essa quando tinha mais ou menos a sua idade.

Hicann comentou, cruzando os braços e observando a reação do filhote.

Aken estava tão fascinado observando os detalhes que levou uns segundos para processar a fala de Mewhicann. Ao enfim se atentar ao que o felin adulto havia dito, o menino ergueu a cabeça para encará-lo com uma expressão incrédula em seu rosto.

— Espera…! Sério que o senhor fez essa quando era só um filhote?!

— Não tive muita escolha. Foi uma noite… movimentada, digamos assim…

Ele deu de ombros como se estivesse se referindo a algo mundano, mas seu olhar se perdeu por um instante nas memórias antes de voltar-se para Aken e perceber pela expectativa explodindo por seu rosto, que o príncipe não sossegaria enquanto não soubesse da história inteira.

— Meu… pai… — ele hesitou um pouco ao proferir tal palavra que deixava um gosto amargo em sua boca, ao se referir a seu genitor cruel e insano como pai. Pois o único que enxergava nesse papel era o agente da O.R.A.C.L.E que se responsabilizou por ele quando chegou em Nova Homsafetown, aos 11 anos, e mais tarde, após resgatarem sua mãe, casou-se com ela se tornando assim seu padrasto. 

No entanto, todos os detalhes por trás de tal hesitação não cabiam para o momento, portanto, o felin bruxo apenas engoliu um pouco seco e continuou. 

— …Ele me mandou para um território do Mundo Reverso chamado Necrópole Noxmortem. O lugar era basicamente um depósito de mortos, com milhares de corpos empilhados e usados por necromantes pra praticarem rituais e testarem feitiços, o que acabava criando vários tipos de ghouls que perambulavam por todo lado… O ar era denso e carregado de energia maligna e tinha um cheiro de podridão quase insuportável por toda parte.

Os pelos de Aken quase se arrepiaram com tal descrição mórbida, e o menino precisou de um segundo para processar toda aquela informação.

— E o senhor tava sozinho nesse lugar horrível?!

— Uhum… — Mewhicann assentiu como se fosse a coisa mais normal do mundo — Meu pai me jogou lá e disse que eu tinha poder o suficiente para sair vivo, e que caso eu não conseguisse, era porque não era mesmo digno dele… 

Um tanto chocado pela resposta, o príncipe abriu a boca, fechou, e em seguida abriu de novo, como se sua mente não conseguisse compreender o que acabava de escutar. 

— M-mas… como ele pôde…? I-isso é…  — Akenmyuu interrompeu a si mesmo, incapaz de descrever o que sentia ao pensar em que tipo de pai faria uma coisa dessas com o próprio filho.

Mewhicann ergueu a sobrancelha, diante da expressão horrorizada do filhote que era totalmente compreensível.

— Pois é… Acho que não preciso dizer o quanto ele foi um péssimo pai… 

Respondeu com uma certa desimportância que provavelmente poucos teriam a frieza de demonstrar, caso fossem criados como Mewhicann foi.

— Péssimo?! Ele era LOUCO! — Akenmyuu quase berrou, ainda inconformado.

O Magistrado apenas assentiu com certa desimportância. Sua vida foi tão marcada por perdas maiores que, lembranças de sua infância caótica e brutal que poderiam ser consideradas traumas, pareciam não ter mais nenhuma relevância ou impacto sobre ele.

— É, isso também. Principalmente. Mas, não importa mais. Ele já se foi, e no final, eu acabei ganhando um pai que realmente se importava comigo e me amou como todo filho merece ser amado.  

Um pouco mais aliviado com essa nova informação, Aken olhou de novo para a besta em suas mãos, agora ainda mais admirado.

— Então o senhor criou ela pra se defender de zumbis, ghouls e monstros do tipo?

Mewhicann acenou com a cabeça.

— Isso mesmo. Estava prestes a anoitecer e eu sabia que quanto mais escurecesse, mais perigoso ficaria, então eu tinha que me preparar.  Moldei a estrutura usando partes dos ossos de um skull-golem que destruí. Nas cordas do arco usei as fibras encantadas da túnica do necromante que havia o invocado pra me atacar e eu também derrotei. Os disparos canalizavam minha magia, através de um feitiço que criei pra incinerar os ghouls por dentro, já que não adiantava só atingir a carne morta. Era preciso destruir o núcleo da essência amaldiçoada deles.

Aken ainda segurava a balestra, os olhos brilhando de empolgação com cada nova informação que Mewhicann revelava. E saber que o Magistrado a havia criado em meio a uma luta pela própria sobrevivência tornava tudo ainda mais fascinante. Ele precisava de mais detalhes.

 — Esse tal skull-golem e o necromante que te atacaram eram muito fortes? Como o senhor conseguiu derrotá-los se ainda não tinha sua arma?!

O príncipe perguntou, se virando totalmente para ele e o encarando sem conseguir disfarçar o olhar ansioso e repleto de expectativa.

Mewhicann soltou um suspiro breve, como quem remexia em memórias há muito tempo trancadas e parcialmente esquecidas. Afinal, tudo havia acontecido há 50 anos.

— Pelo que me lembro, tudo começou logo depois que eu afastei uma horda de esqueletos soldados. Surgiram do nada na minha direção, armados e prontos pra despedaçarem qualquer criatura viva que vissem pela frente, ou seja, eu. Seres desse tipo só existem pra esse único objetivo, portanto não hesitavam. Eu sabia que precisava me livrar deles o quanto antes… 

Ele ergueu uma das mãos, como se ainda pudesse sentir a magia pulsando na ponta dos dedos, e a seriedade em seu tom de voz fazia Akenmyuu não conseguir focar-se em mais nada além dele.

— Usei a Restrição Silente, um feitiço que paralisa temporariamente os ossos do inimigo, impedindo qualquer movimento. Para usar contra criaturas que eram apenas esqueletos, foi perfeito. Eles congelaram no lugar, mas eu sabia que precisava ser rápido, porque além das limitações do próprio feitiço, eu ainda era muito moleque pra conseguir usá-lo plenamente, então o efeito acabaria mais rápido do que deveria.

Aken arregalou os olhos.

— Miuou…! E o que o senhor fez?!

— Usei meu ataque de Explosão Umbral; com ele eu crio uma esferas de sombras que atinge diretamente a estrutura molecular do alvo, desfazendo-o de dentro para fora. Mas, como eram vários inimigos e eu não tinha muito tempo, antes conjurei um círculo mágico de expansão e repetição pra conseguir atacar todos de uma vez. Pareceu uma chuva de meteoros negros caindo sobre eles. Em segundos, os esqueletos não passavam de um monte de poeira e fragmentos despedaçados.

O príncipe o encarava boquiaberto e admirado, completamente imerso na cena.

— Foi aí que apareceu o necromante?

Mewhicann assentiu.

— Ele me viu em ação e provavelmente decidiu que eu seria uma excelente adição à coleção dele. Daí, antes que eu pudesse reagir, ele mandou o Skull-Golem para me matar.

Akenmyuu até engoliu em seco

— E como derrotou ele?!

— Não foi fácil, no final eu tive que usar a Pulsação do Purgatório…

Aquela frase carregou um peso diferente. Hicann inclinou a cabeça, seu olhar um tanto distante dando a impressão de que por um segundo, era como se voltasse a viver aquele momento. 

 — Essa era uma magia proibida que meu pai me obrigava a dominar desde pequeno. Eu nunca tinha acertado antes, pois era um feitiço um tanto complicado e toda vez que eu falhava… bom, digamos que as consequências não eram agradáveis…

Aken percebeu que ele não se alongaria nesse detalhe, mas ficou tenso só de imaginar. O pai de Mewhicann lhe parecia até pior do que os monstros que ele obrigava o próprio filho a enfrentar.

Mewhicann continuou, apesar de tudo não parecendo se importar ou afetar muito com o tom sombrio por trás daquela lembrança.

— Essa magia trava o alvo dentro de um pentagrama amaldiçoado e ergue um pilar de energia sombria que o liquefaz completamente. Então,  pra mim só restava acertar ou morrer. A urgência de sobreviver deve ter me ajudado, e surpreendentemente, eu consegui invocar o feitiço. O golem se dissolveu numa poça negra e nojenta onde restaram só os ossos. Eu parecia ter vencido, mas o problema é que essa magia consome muito Nei. Assim que terminei, veio a fadiga, tontura, um pouco de náusea, e meu corpo imediatamente ficou pesado.

Akenmyuu prendeu a respiração, já prevendo que aquilo não poderia ter terminado ali.

— O necromante achou que eu estava indefeso e veio para cima com um punhal. Mesmo sem o skull-golem, ele já dava a luta como ganha, achando que era só me capturar. Mas eu não iria me entregar tão fácil… 

— E o que aconteceu?!

Aken até se inclinou mais para frente, mal podendo conter sua ansiedade.

Hicann chegou até a demonstrar um pequeno meio sorriso, diante da empolgação do filhote como seu ouvinte. Suas experiências bizarras de sobrevivência não eram o tipo de história de sua infância que ele costumava contar a Mewstary enquanto a criava, pois ela era uma garotinha doce e sensível, e ele não queria assustá-la. Mas com Akenmyuu era diferente; ele não só não sentia medo algum, como ficava vidrado a cada palavra dita.

— Me joguei no chão, fingindo que estava sem forças. O idiota acreditou. Então quando ele se abaixou para me pegar, aproveitei a oportunidade e enfiei uma adaga imbuída com magia de envenenamento direto no peito dele. Essa adaga foi um presente da minha mãe, em segredo. Ela disse que se um dia eu estivesse em perigo e não pudesse contar com a minha magia, a adaga poderia me salvar. E no final, foi exatamente assim. Minha mãe era uma bruxa muito sábia.

Aken piscou algumas vezes, assimilando tudo. Então, abriu um sorriso de puro fascínio.

— Miau! Que bom que ela te deu isso! E então você fingiu que tava  derrotado só pra enganá-lo. Isso foi genial, Lorde Mewhicann!

Hicann deu de ombros com um sutil sorrisinho torto. Chegava a ser até divertido pra ele ver como o príncipe parecia se impressionar ao máximo com tudo que ele fazia; coisas que para o bruxo adulto não eram nada demais.

— Imagino que ele baixou a guarda e me subestimou porque eu era criança. Mas esse foi um truque até que relativamente simples. Eu já tinha o usado com algumas quimeras da Floresta da Voragem nas noites que passei lá, mas essa já é uma história para outro dia… 

O Magistrado disse deixando um tom de mistério no ar, já imaginando que, com o jeito curioso e empolgado que o príncipe vinha demonstrando, com certeza gostaria de saber mais sobre essa história da floresta e das quimeras. E ele realmente não se importaria em contar, porém como havia dito, seria em outro dia.

Realmente, a curiosidade de Akenmyuu a respeito correu por cada fibra de seu corpo, mas, entendendo e respeitando a decisão de Mewhicann, o filhote se conformou em esperar para saber mais de suas desventuras de infância noutra ocasião.

— Bom, o importante é que o senhor venceu, e conseguiu materiais pra fazer uma arma irada no final!

Exclamou o príncipe.

— Isso é verdade. E realmente veio a calhar já que eu estava com o Nei limitado por causa daquele feitiço e sabia que assim que anoitecesse, os ghouls surgiriam pra tentar me fazer de prato principal. E depois de derrotar um skull-golem e seu necromante, eu jamais poderia perder pra monstros imbecis desse nível, por mais que vencessem em quantidade. Foi assim que criei essa belezinha pra me ajudar a acabar com a raça de cada um deles.

 
Conforme falava, Mewhicann passou um dedo pela lateral da balestra, e pequenas fagulhas negras dançaram pelas runas entalhadas. Aken analisava a arma com um olhar cada vez mais fascinado.

— E o que acontece se alguém digamos… não-ghoul for atingido?

— Ah, eu diria que nada de mais… Só causa uma febrezinha chata, e alguns calafrios e tremores junto com talvez uma ardência interior, porque acaba queimando a alma superficialmente, mas passa depois de mais ou menos uma semana.

O príncipe ficou estático alguns segundos diante do ponto de vista de Mewhicann sobre o que era “nada de mais”.  

— Miahn… Não me leve a mal, Lorde Mewhicann, mas eu acho que ficar com a sua alma queimada por uma semana inteirinha sentindo tudo isso é bastante coisa… 

— Parece muito, mas você se acostuma.

Mewhicann disse como se fosse a coisa mais simples do mundo.

O filhote encarou o magistrado, depois olhou para a balestra, e então para o magistrado de novo.

— É impressão minha ou o senhor já se acertou com ela sem querer?

Mewhicann arregalou levemente os olhos.

— Isso… caham…! Não vem ao caso agora, guri… Que tal nos concentrarmos em eu te mostrar como atirar com ela? 

Isso era tudo que o príncipe precisava ouvir. Com um sorriso enorme, assentiu empolgado para o Magistrado.

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