24 - A Luz do Príncipe
O silêncio entre o Magistrado Reverso e o filho do Rei Supremo permaneceu por mais alguns instantes, mas não de uma forma sufocante. Mesmo que não completamente, o peso melancólico que envolveu o ar momentos atrás havia se dissipado, dando espaço a uma quietude mais acolhedora.
Era intrigante, mas aquele menino ao seu lado havia o alcançado de um jeito que nem o próprio bruxo sabia explicar.
Sendo assim, quase como uma retribuição, Mewhicann não queria prolongar o anterior clima pesado, fazendo com que Akenmyuu se preocupasse ainda mais. O felin adulto se mexeu levemente, voltando a encarar o pequeno príncipe.
Atento como sempre, o filhote percebeu o olhar direcionado a ele e ergueu os olhos, esperando que Mewhicann dissesse algo.
O Magistrado hesitou por um instante. Havia criado sua sobrinha como filha com todo o amor e dedicação que pôde, no entanto, Mewstary já crescera há tempos, e Mewhicann nunca mais teve contato com nenhuma criança desde então. Portanto, era compreensível que não soubesse exatamente o que dizer ou fazer diante de uma, ainda mais se tratando de um menino tão novo, já que apenas viveu a experiência de ser pai de uma menina.
Contudo, sentia que Akenmyuu valeria um esforço. Por mais que Diamewd já houvesse comentado sobre o neto, Mewhicann só o conhecera pessoalmente no dia anterior, quando, a pedido de Kinmyuu para ajudar na causa do Grimório, fez uma visita oficial ao palácio. Mas, ainda assim, sem que conseguisse discernir a exata razão, havia algo em especial no príncipe que fazia Hicann sentir-se inclinado a se aproximar dele.
Talvez fosse por sua empatia genuína, o olhar sincero e inocente que não exigia nada em troca, ou, simplesmente pela sutil semelhança implícita com Devimyuu, que fazia algo dentro de Mewhicann se aquecer sem que ele percebesse.
O Magistrado estalou a língua, tentando encontrar as palavras certas.
— Então… — começou, um pouco sem jeito, cruzando os braços e desviando brevemente o olhar — Você deve estar se perguntando o que eu estou fazendo invadindo sua pista de skate, não é, príncipe Akenmyuu?
— Pode me chamar só de Aken, Lorde Mewhicann — disse, esboçando um sorrisinho amigável — E quanto a isso, não se preocupe. Minha avó disse que o senhor tava passeando por aí pra conhecer o palácio, então fica à vontade. Mas… — o filhote fez uma pausa breve, tentando conter ao máximo sua expectativa
— … Se o senhor quis conhecer aqui, quer dizer que também anda de skate?!
Perguntou animado, mas procurando não exagerar. Entretanto, era impossível não sentir uma pequena exaltação batendo em seu peito, só de imaginar que, além de ser um dos felins mais poderosos que já viu em ação, Mewhicann também pudesse ser um skatista, deslizando pelas rampas com a mesma precisão e maestria com que empunhava seu rifle arcano, enquanto realizava manobras impossíveis em seu sobretudo preto esvoaçante.
Hicann arqueou uma sobrancelha, um pequeno resquício de diversão surgindo em seu tom, ao notar o esforço do príncipe em tentar conter a empolgação em sua pergunta. Contudo, os olhos púrpura brilhando ao encará-lo com expectativa entregavam o filhote.
— Ah, não. Eu infelizmente não entendo muito do assunto, mas, meu filho gostava bastante. Por isso fiquei um pouco curioso e quis vir aqui.
Akenmyuu piscou algumas vezes, absorvendo aquela informação. Como as peças de um quebra-cabeça se encaixando, de repente tudo fez sentido.
No dia anterior, quando Mewhicann visitou o palácio e foi apresentado, Aken se lembrava de que Myu-Tsuki ficou fazendo perguntas sobre o cobertor de bebê preso à cintura do Magistrado (e que aliás, continuava ali presente) e onde estaria o bebezinho dele. Foi perceptível para o príncipe que havia algo mais profundo ali, pela forma de Mewhicann reagir, desviando um olhar pesaroso e respondendo que seu filhote não poderia vir porque estava com a mãe.
Isso levou o príncipe a posteriormente perguntar para sua mãe se Tsuki havia o incomodado ou feito algo errado em insistir com aquelas perguntas, pois notou que o Magistrado parecia ter ficado chateado. Anmyuu pacientemente explicou que o motivo por trás da reação de Mewhicann era o fato de ter perdido seu filho, e que por isso andava com o cobertor de bebê dele como uma lembrança, em seu luto.
Agora fazia todo o sentido para o príncipe o fato de Mewhicann estar triste quando o encontrou ali. As lágrimas que viu em seu rosto se davam pela falta de alguém que amava.
O menino sentiu uma leve pontada no peito. Ele queria dizer algo, mas ao mesmo tempo, percebeu que a fala do Magistrado não havia sido dita de maneira melancólica, nem completamente carregada de dor. Akenmyuu notou pelo tom de voz e no jeito quase distraído com que Mewhicann desviou o olhar por um instante, que era como se ele pudesse ver a imagem do filho em sua mente, mas que não queria transformar aquele momento em algo pesado. Ele estava se esforçando para manter o clima leve, e Aken respeitaria isso.
Portanto, em vez de hesitar ou demonstrar pena, o príncipe apenas sorriu, permitindo que sua resposta carregasse a mesma leveza que o Magistrado tentava manter.
— Sério mesmo? — Perguntou demonstrando interesse e ao mesmo tempo tentando passar a maior normalidade o possível — Que maneiro, Lorde Mewhicann! Aposto que seu filho mandava muito bem na pista!
Mewhicann soltou um pequeno som pelo focinho, algo entre um riso contido e um suspiro nostálgico. Seus olhos pareciam perdidos em algum ponto do skatepark, mas dessa vez, não com tristeza — e sim com um calor quase imperceptível, uma pequena contemplação.
— É, mandava sim… Ele treinava bastante, mas principalmente, se divertia muito fazendo isso. Era assim com tudo o que se dedicava a fazer… — Respondeu, inclinando-se um pouco para trás ao se apoiar nos próprios braços esticados sobre o piso liso da rampa. Parecia levemente mais relaxado, se comparado a sua habitual postura de alerta.
Aken escutava atentamente, absorvendo cada palavra. Mewhicann falava com naturalidade, sem o próprio perceber que, pela primeira vez desde que se conheceram, mencionava o filho com um tom que não carregava dor, mas sim a leveza de uma boa recordação.
O Magistrado ergueu um canto da boca, com sua voz adquirindo um toque suavizado enquanto se virava para encarar novamente o príncipe.
— Sabe… Você me lembra ele, de certa forma…
Os olhos de Akenmyuu se arregalaram levemente.
— Jura? — Perguntou incrédulo, como se tivesse ouvido errado e precisasse se certificar.
Mewhicann soltou um riso suave e contido, mantendo o olhar nostálgico.
— Sei que nos conhecemos agora, mas, sou amigo da sua avó há algum tempo, e pelo que ela me contou e pelo que pude observar a seu respeito, eu diria que são sim, parecidos.
Aken piscou, surpreso, para logo em seguida, um sorriso singelo iluminar-se em seu rosto. Mewhicann compará-lo ao próprio filho era algo que o pequeno príncipe jamais imaginaria. Não sabia muito sobre o passado do Magistrado, mas depois do que havia acontecido mais cedo, e da forma como o encontrou naquele momento de tristeza, era plenamente capaz de entender o quanto a lembrança do filho significava para ele.
Então, se Mewhicann o via — ainda que de um jeito pequeno — como alguém parecido com o filho que perdeu, isso significava algo. Algo muito importante.
O filhote sentiu uma pontada de desejo genuíno de saber mais, num pequeno lampejo de curiosidade e empolgação. No entanto, não queria forçar. Jamais desejaria colocar o Magistrado em qualquer situação indelicada ou desconfortável.
— Obrigado, Lorde Mewhicann, eu gostei muito de saber disso. Seu filho devia ser alguém incrível. — disse com uma sinceridade quase reverenciável — E, bom… se algum dia quiser contar mais dele, com certeza vou adorar ouvir!
Mewhicann o olhou, surpreso pela maturidade do garotinho contida naquela frase. E logo a surpresa deu lugar a um olhar mais tranquilo, tal como a expressão em seu rosto quase sempre austero, ao perceber que o príncipe não estava apenas sendo cordial. Ele realmente queria ouvir, mas ao mesmo tempo, respeitava o espaço de Mewhicann para decidir quando — ou se — gostaria de falar mais.
E, pela primeira vez em muito tempo, Mewhicann sentiu que talvez fosse bom poder falar.
O magistrado bruxo e Diamewd já deviam ter passado horas falando sobre Devimyuu, obviamente. Entretanto, Mewhicann se via mais na categoria de ouvinte durante tais conversas, já que, como a mãe adotiva, Diamewd era quem estava na posição de saber tudo a respeito de Devimyuu quando criança e relatá-lo em mínimos detalhes para Mewhicann.
E, Hicann, por sua vez, apenas guardava tais relatos para si. É claro que, por diversas ocasiões conversava com Mewstary a respeito de Devimyuu, mas procurava não se prolongar tanto quanto gostaria por receio de que talvez, sua filha adotiva se sentisse de alguma forma deixada de lado, com a impressão de que Mewhicann preferia seu filho biológico a ela, caso falasse muito dele.
Mewstary era uma das pessoas que mais se importava e o compreendia no mundo, e justamente por isso, Mewhicann devia saber que ela jamais se sentiria dessa forma, nunca demonstraria tamanho ego narcisismo a ponto de querer restringi-lo de falar sobre o filho amado que perdeu. No entanto, ela também era tão amada por ele, que, ele preferia se conter a correr o mínimo risco de magoá-la.
Mewstary e Diamewd eram as únicas com quem se sentia realmente à vontade. Sendo assim, pela primeira vez, ele tinha alguém com quem pudesse falar sobre seu filho com propriedade. E para a própria surpresa, sentia e admitia que não só gostaria como necessitava disso há muito tempo.
Talvez, aquele encontro inesperado com o príncipe da Luz fosse o começo de algo que nem ele mesmo sabia que precisava.
O felin bruxo abaixou o olhar por um instante, com os dedos enluvados deslizando distraidamente pela capa do diário em seu colo, antes de encarar o príncipe novamente, com um sorriso sutil nascendo no canto dos lábios.
— Bom… O que você gostaria de saber?
***
O sorriso de Akenmyuu se alargou um pouco mais — se é que isso era possível — e o brilho animado que surgiu em seus olhos deixava claro que mal podia se conter de admiração com tudo que acabara de ouvir.
— Miuau! Então pra resumir, o Mewwillian andava de skate, tocava bateria, era tão esperto que pulou uma série na escola normal e ainda era um dos magos mais talentosos e poderosos da academia de magia dele, sem contar que sabia dançar e com 13 anos já tinha até uma namorada?!
Mewhicann havia usado o segundo nome de Devimyuu ao falar sobre ele, caso o príncipe contasse algo ao pai sobre tudo que ouviu a respeito do filho do Magistrado. Pois ouvir o nome do irmão adotivo poderia arriscar o feitiço que bloqueava as memórias de Kin, e se isso acontecesse antes do momento certo do selo ser rompido, as consequências de tal impacto no rei poderiam ser irreparáveis.
— Heh… Pois é. — Mewhicann passou uma das garras de leve pelo cavanhaque, como se refletisse por um instante, antes de soltar um breve riso nasal — Colocando dessa forma, até eu fico impressionado. Meu filhote era realmente incrível…
O felin adulto então ajeitou o diário em seu colo, num gesto inconsciente carregado de um orgulho que, pela primeira vez, não vinha acompanhado apenas de dor.
Akenmyuu ainda tentava absorver tudo o que Mewhicann acabara de contar, e cada nova informação parecia apenas aumentar sua admiração. Era como se estivesse conhecendo um heroi adolescente lendário, mas, ao mesmo tempo, depois de ver do que o Magistrado bruxo era capaz, não se surpreendi que seu filho fosse tão incrível quanto.
— Miuau… — O príncipe repetiu, dessa vez num tom quase reverente, arregalando os olhos cintilantes de fascínio — Ele era mesmo demais! Se eu tivesse conhecido, com certeza ia querer ser amigo dele!
O magistrado bruxo se pegou sorrindo sem nem perceber. Era um sorriso discreto, mas genuíno, acompanhado de um brilho suave no olhar que não carregava o peso de sempre.
— Sim, ele era… — murmurou, como se apenas reafirmasse algo que já sabia há muito tempo.
Era um sentimento estranho e simultaneamente, confortável. Ele nunca teve a oportunidade de apresentar o filho a ninguém. De falar dele em voz alta, sem que o amargor do luto o acompanhasse. Mas agora, a sensação era diferente. Se lembrar de Devimyuu com tamanho orgulho e carinho, e compartilhar com alguém que realmente escutava tudo que sabia sobre ele, fazia de forma sutil Mewhicann sentir que estava sendo mais do que apenas seu genitor biológico. Que ele enfim estava verdadeiramente sendo seu pai.
— Ele teria gostado de você, Aken — disse com uma leveza rara — Provavelmente te desafiaria pra uma competição de skate, videogame ou algo do tipo.
Aken riu carregado de animação,ao imaginar aquilo acontecendo.
— Heh! Eu ia curtir! Também acho que a gente ia se dar muito bem!
Mewhicann soltou um breve suspiro, ainda absorvendo a sensação nova e inesperada de poder se orgulhar do filho sem que a saudade o esmagasse.
— Mas sabe… — o príncipe agora parecia estar refletindo em algo sério, pelo menos, sério do seu ponto de vista — O senhor disse que eu te lembro dele de certa forma, e eu fico honrado mas, comparado ao Mewwllian, eu sou praticamente um noob…
Dessa vez foi o felin adulto a involuntariamente soltar uma leve risada divertida.
— Ah, não se preocupe com isso. Ele era mais velho do que você quando fazia todas essas coisas. Você fez 10 anos só há uns dois ou três meses, não foi? Tenho certeza que quando chegar na idade dele, fará coisas tão impressionantes quanto.
Disse o magistrado, bagunçando levemente os cabelos do príncipe num afago divertido. Dada sua fofura e simpatia, (além de ainda não ter crescido tanto em estatura quanto gostaria) Akenmyuu constantemente recebia esse tipo de carinho por parte de praticamente todos os adultos do palácio, e as madeixas platinadas que herdara do pai pareciam não ter um dia de paz ficando penteadas. Mas, felizmente, o filhote gostava delas arrepiadas e não se importava com isso.
— Eu espero que sim, hah! Mas, agora fiquei curioso… Como o senhor sabe do meu aniversário?
Aken perguntou com uma expressão intrigada.
— Sua avó me contou. Estávamos conversando na época e ela mencionou algo sobre escolher o que te dar de presente.
O magistrado respondeu com naturalidade, sem perceber a situação que aquelas palavras acabariam por colocá-lo.
Akenmyuu ergueu uma sobrancelha, encarando o felin adulto com um sorrisinho suspeito e desafiador.
— Ahh…! Pelo jeito, o senhor e a vovó são mesmo bastante amigos, não é? Desde quando?
Mewhicann piscou, seu semblante impassível por um segundo. A sutileza daquele sorriso travesso no rosto de Akenmyuu logo lhe provocou uma sensação curiosa, como se tivesse sido colocado contra a parede de repente.
O olhar danado do garoto não dava para ser ignorado, e Mewhicann tinha a nítida impressão de que Akenmyuu talvez estivesse insinuando algo. O problema era que ele não sabia exatamente o quê — ou, melhor dizendo, sabia. Mas era… complicado? Talvez sim, talvez, não, mas o fato era que ele preferia não pensar muito no assunto naquele momento, e muito menos instigado por um filhote de dez anos.
O felin bruxo pigarreou discretamente, desviando o olhar e passando a mão pelos cabelos que desciam sobre o pescoço, num gesto automático que o denunciava mais do que gostaria.
— Ahn… Faz muito tempo. Anos, na verdade. — Respondeu, como se estivesse apenas informando um fato qualquer, mas sua tentativa de soar casual saiu mais forçada do que esperava.
Akenmyuu estreitou os olhos, agora ainda mais desconfiado e no fundo divertindo-se horrores com aquilo.
— Hmmmm, tendi… — Disse o príncipe de um modo propositalmente melodioso, ainda mantendo o olhar estreito, enquanto batia a ponta da cauda no chão ritmicamente.
Mewhicann rapidamente percebeu que precisava cortar aquele assunto antes que as coisas fugissem ainda mais do controle. Então, endireitou-se e limpou a garganta, ainda que não conseguisse esconder a leve tensão provocada pelo andamento daquela conversa.
— Mas… caham… enfim… Agora que parei pra pensar, você parecia estar me procurando quando por coincidência nos encontramos aqui. Queria me dizer alguma coisa?
Akenmyuu piscou ao ouvir a pergunta de Mewhicann, como se tivesse levado um segundo a mais para processar. Até que a lembrança da cena épica que assistiu no vídeo voltou com força total.
Os olhos do filhote brilharam, sua cauda até ricocheteou de animação e toda aquela energia antes contida acabou explodindo de uma vez.
— MIUAU! É VERDADE! EU TAVA TE PROCURANDO PORQUE VI O QUE O SENHOR FEZ NO VÍDEO! — Aken exclamou eufórico, dando um pulo e gesticulando com as mãos de forma frenética — O senhor foi simplesmente INCRÍVEL, Lorde Mewhicann!
A empolgação tremenda do príncipe denunciava que ele sentia como se estivesse diante de um autêntico personagem de ação de seus filmes e quadrinhos favoritos.
— Tipo, o senhor DESPEDAÇOU aquele campo psíquico como se não fosse NADA! E aqueles disparos mágicos?! O senhor nem hesitou! Pew, pew, pew! — Aken imitava com as mãos o gesto de atirar com um rifle, enquanto fazia os sons com a boca.
— E no final, o senhor tava lá todo badass com seu casacão esvoaçando, e rolou até aqueles segundos de silêncio dramático que sempre acontecem depois de uma cena épica num filme! Foi a coisa mais maneira e incrível que eu já vi desde a batalha final de Felinvengers Ultimato!
Aken até arfava levemente após sua fala o deixar quase sem fôlego, e o entusiasmo em seus olhos era inegável.
Mewhicann, por sua vez, piscou algumas vezes, pego completamente desprevenido pela onda avassaladora de empolgação do filhote. O alívio por ter conseguido tirar totalmente o foco do assunto anterior foi imediato, mas, ainda assim, ele não esperava que a conversa tomasse um rumo tão animado.
— Hah… — Ele cruzou os braços, tentando disfarçar uma expressão sutilmente encabulada e desviando o olhar de leve. — Eu só fiz o que tinha que fazer.
— Só fez o que tinha que fazer?! — Aken repetiu, incrédulo, com as orelhinhas se abaixando e voltando a se erguer num reflexo automático — Miuau! Até as suas falas são como de um verdadeiro herói que salvou o dia! O senhor realmente é igualzinho a todos os protagonistas dos filmes e desenhos que eu mais adoro!
Se houvesse mais brilho nos olhos do príncipe, facilmente poderiam ser comparados a dois pequenos faróis púrpura. O menino estava praticamente saltitando de animação, encarando Mewhicann como um verdadeiro ídolo.
Hicann não pôde evitar um meio sorriso, soltando um suspiro divertido diante de seu pequeno e aparentemente mais novo fã.
— Protagonista, é? Interessante… Eu diria que estou mais pra aquele tipo de cara misterioso que aparece, ajuda com o problema e depois some sem deixar rastros.
Aken arregalou os olhos e apontou para ele com ambas as mãos.
— ISSO! O senhor é tipo um anti-herói badass que todo mundo sabe que é OP, mas finge que não, porque só usa seus poderes na hora em que mais precisam!
Mewhicann riu pelo focinho, sacudindo a cabeça.
— Ah é? Hah. Fico feliz de saber que me vê assim.
— Mas é claro! — Com um salto animado, o menino voltou a sentar-se ao lado do Magistrado, na beirada da rampa — O senhor com certeza tá no meu top 5 de maiores ídolos de todos os tempos!
Exclamou, balançando as pernas inquietas devido a empolgação que ainda corria por suas veias.
Mewhicann arqueou as sobrancelhas, pego de surpresa por aquelas palavras. Ele já havia recebido respeito e admiração ao longo da vida — de familiares, aliados, até mesmo de inimigos que reconheciam suas habilidades antes de sua fatal derrota — mas ser chamado de ídolo por uma criança? E logo o filho do Rei Supremo que também era um semideus?
Era algo inusitado de fato. Mas por algum motivo, isso o atingiu de um jeito mais positivo do que poderia imaginar. Ele desviou o olhar por um instante antes de voltar a encarar Akenmyuu, observando a forma como o menino balançava as pernas inquietamente, e o brilho sincero em seus olhos que transbordava empolgação em cada pequeno gesto.
Mewhicann soltou um riso curto, antes de simular uma expressão exageradamente pensativa de propósito, brincando com ele.
— Top cinco, ahn? Bom, eu agradeço pelo posto de honra… Mas, só por curiosidade, agora estou me perguntando quem seriam os outros quatro…
Perguntou, fazendo uma pequena pausa e inclinando-se um pouco para a frente, apoiando os braços nos joelhos, encarando Aken.
O filhote começou a contar nos dedos enquanto falava.
— Bom, o vovô Dim tá em primeiro lugar sempre, depois vem o vovô Mewthony, daí o papai, e o Capitão Mysticat, que eu deixo de reserva mais pra completar os cinco mesmo, então o senhor tá na frente dele. Aliás… — o príncipe colocou uma das mãos na frente da boca e baixou o tom da voz quase sussurrando, por mais que só houvessem ele e o magistrado ali — Não conta nada pra ele, mas, pensando melhor, o senhor tá na frente do papai também… Eu adoro o meu pai, ele tem uma forma de semideus e tal, e eu quero ser um rei tão bom quanto ele quando eu crescer, mas… O senhor sabe abrir um portal mágico de sombras de onde tira quinzilhões de armas arcanas super iradas pra usar! Então né…
Akenmyuu gesticulou com ambas as mãos, erguendo uma mais que a outra para exemplificar o peso de sua comparação.
Dessa vez, embora tentasse manter sua postura habitual, Mewhicann acabou rindo alto, não mais capaz de se conter. Ele então fez uma pausa, se pondo de pé ao encarar o príncipe. Seus olhos dourados refletiram um brilho misterioso.
— E por acaso você gostaria de me ver invocar meu arsenal de novo?
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