13 - Flagrante?!

— Nesse aqui também não...

Dizia Mewleficent, fazendo um biquinho com a expressão frustrada, enquanto usava seus poderes para fazer com que mais um livro de feitiços voltasse magicamente ao seu lugar, na enorme estante à sua frente.

A princesa das Trevas e o gêmeo fantasma se encontravam no último lugar do castelo onde deveriam estar - no Santuário das Sombras de seu pai.

De início, Mewleficent obviamente ficou muito preocupada com o pai, ao vê-lo repleto de ataduras e runas de cura, não dando indícios de que acordaria tão cedo. Mewosek e Silmyuu fizeram de tudo para tranquilizá-la, afirmando que o rei estava apenas dormindo, e que logo após descansar um pouco, ele voltaria ao normal tão forte e poderoso como sempre foi.

A menina ainda ficou um pouco receosa, mas Mewdarthe também cumpriu seu papel em confortá-la, a lembrando de que o pai deles era não só um semideus como o bruxo mais poderoso daquela era, e garantindo que não seriam meras mordidas de alguns vira-latas infernais que o derrotariam.

Convencida pelo irmão, Mewleficent conseguiu sentir-se mais tranquila em relação à situação de seu pai, embora tenha sido estranho vê-lo desacordado por tanto tempo. A filhote aproveitou todos os momentos que pôde para ficar ao seu lado, e mesmo sabendo que ele estava dormindo, contava-lhe sobre seu dia; as lições de magia, de música, e qual havia sido o conto de fadas (literalmente contado por felins fádicos) encenado pelo teatro de marionetes que fora contratado pelo rei, para que toda noite após o jantar, se apresentasse para entreter a princesa.

Mewleficent até aproveitou a situação para se divertir penteando os longos cabelos negros do pai, algo que adorava fazer com frequência em tempos anteriores, quando forças demoníacas não privavam Devimyuu da companhia de seus filhotes (mas não que a princesa soubesse desse fator que os afastava).

"Papai não pode ficar bagunçado, mesmo dormindo ele tem que estar sempre lindo." Foram as palavras da princesa na noite anterior, enquanto fazia a trança com a qual Devimyuu acordara.

Entretanto, o principal proveito que Mewleficent tirou com a indisponibilidade momentânea dele, foi poder dar início ao seu plano: encontrar um feitiço poderoso e impressionante o suficiente para realizar, na esperança de que ao vê-lo, Devimyuu permitisse que a menina entrasse no Santuário das Sombras. Uma vez que ela e Mewdarthe estivessem lá, o irmão fantasma ficaria na frente do Sombríage para que seu reflexo espectral fosse visto, e assim o pai de ambos enfim acreditaria que Mewdarthe não tinha partido totalmente. E talvez com isso, Devimyuu se sentisse um pouco melhor e sua família voltasse a ser algo próximo ao que era antes da morte do príncipe.

Na mente da pequena princesa, essa era a melhor opção que tinham, um "plano perfeito"; pelo menos, do ponto de vista dela.

Por esta razão os gêmeos se encontravam nesse exato momento, em mais uma invasão secreta ao Santuário, na décima terceira torre. Porém, a busca se mostrava um tanto frustrante, já que Mewleficent havia procurado em diversos livros raros de bruxaria que o pai tinha ali, mas nenhum deles parecia ser o feitiço ideal para seu plano, ou então simplesmente eram difíceis demais para uma filhote de apenas 9 anos executar, por mais talentosa que fosse.

— Sabe, mana, se isso não tiver dando certo, a gente podia tentar o plano "B", que tal?

Darthe perguntou, observando o rosto aborrecido da gêmea ao ter que folhear o próximo livro.

Mewleficent se virou para o espírito do irmão, o olhando desentendida.

— Que plano B? - Perguntou a princesa.

Mewdarthe desviou o olhar, esfregando a nuca fantasmagórica com uma mão.

— Já que você não tá achando nenhum feitiço que queira, eu podia só... tipo... esperar o papai aparecer e ficar na frente do espelho mágico dele...

A expressão de Mewleficent ficou preocupada.

— Como vai fazer isso se eu não posso ficar aqui dentro com você? Papai também não deixaria eu ficar nem no corredor, e... e mesmo que eu me escondesse lá pra ficar perto enquanto faz isso, ninguém garante que aquela Ceifeira horrorosa não ia aproveitar pra aparecer e te levar. Não podemos arriscar, Darthe. Você tem que ficar perto de mim o tempo todo!

— Mas talvez...

— Não! — Mewleficent exclamou quase em desespero, interrompendo qualquer chance de Mewdarthe argumentar.

O irmão se surpreendeu com sua reação por um instante, mas procurou entender quando viu lágrimas brotarem em seus olhos multicores mareados.

— Quando você ficou bravo aquele dia, e sumiu... foi muito assustador... Papai já não é mais o mesmo, e se eu ficar sem você também, eu... Vou ter perdido todos que eu amo... A Ceifeira deixou você voltar daquela vez, mas, e se dá próxima não? Talvez meu plano seja difícil e... a gente nem tem certeza se vai dar certo. Mas não, importa. Eu não me importo de me arriscar com ele, eu só não posso... arriscar perder você...

A filhote desviou o rosto enquanto um par de lágrimas descia silenciosamente por sua bochecha, que ela enxugou com sua mãozinha delicada.

Mewdarthe podia sentir a dor de sua gêmea, e acima de tudo entendê-la. Ficar separados era simplesmente inconcebível. Mewdarthe era a prova disso, tendo desafiado a própria morte para que pudesse continuar ao lado dela. O irmão gostaria de poder fazer algo a mais para consolá-la, como dar-lhe um abraço por exemplo. Mas tudo que ele podia fazer era oferecer suas palavras e seu apoio, como sempre fizera desde que sua curta vida foi covardemente tomada.

— Você tem razão. Eu... vacilei. O meu plano B é tosco, heh...

O pequeno fantasma forçou um sorriso na tentativa de aliviar a tensão do momento; o que não pareceu funcionar muito bem. Então Darthe se mostrou mais sério, contudo, ao mesmo tempo encarou a irmã com um sorriso gentil.

— Desculpa dizer isso e te deixar triste, tá, Lelef? Vamos seguir com o seu plano mesmo. Eu vou olhar os livros daquela estante ali, tá bom?

O príncipe disse, em seguida, se deslocando para o outro lado do Santuário, torcendo para que a irmã pudesse se sentir pelo menos um pouco mais tranquila ao saber que ele não tentaria seu plano "B". Em partes, Mewdarthe também se afastava porque não queria vê-la triste e não sabia exatamente o que mais poderia dizer. Além disso, a fala dela também o fez chegar a conclusão de algo.

Nos últimos dois dias, algumas servas do Palacete Carmim haviam comparecido ao palácio principal, trazendo uma mensagem em nome de Mewlith — já que sua senhora detestável era terminantemente proibida de adentrar nas propriedades particulares do rei — afirmando que a mãe da princesa queria vê-la.

Com a indisponibilidade de Devimyuu, Mewleficent estava sob a tutela de Mewosek, já que além de Chanceler Real, ele era também o padrinho dos gêmeos e de Mewhades. Ele mandou dizer que se a princesa desejasse, ela poderia ver a mãe, mas que tal visita deveria ser feita no jardim invernal do palácio principal e sob sua vigilância. Pois jamais confiou em Mewlith, principalmente após a perda de Mewdarthe e a disseminação de ódio que a fêmea vil propagava para fazer Mewleficent odiar seu novo meio-irmãozinho.

Mewosek desconfiava que Mewlith nunca aceitaria tais condições, e que assim, ela seria uma dor de cabeça a menos, deixando evidente também que seu real interesse não era passar tempo com a filha, e sim tentar manipulá-la ao seu favor como de costume. Entretanto, a resposta do Chanceler nem precisou ser levada de volta ao Palacete Carmim, visto que antes de qualquer coisa, Mewleficent afirmou que não desejava ver a mãe. Em todas as tentativas das servas, sua resposta negativa era a mesma. A princesa estava irredutível.

Agora Mewdarthe entendia o motivo: o tempo de Mewleficent com Mewlith era esporádico e normalmente raro, não passando de mais de alguns meros minutos em alguns dias da semana. Por isso, a princesa sempre estava ansiosa por qualquer migalha de falsa atenção que Mewlith se propunha a lhe oferecer. E dessa vez, ela estava a convidando para uma suposta tarde juntas, e mesmo assim, em todas as vezes, Mewleficent recusou.

Mewdarthe sabia que a irmã fizera isso por ele. O motivo de seu recente desaparecimento ao ser levado temporariamente para o Meio do Caminho pela Ceifeira, foi devido ao estopim de raiva que o fez perder o controle, quando os gêmeos discutiram a respeito de Mewlith, e Mewdarthe exclamou com todas as forças que a odiava.

Ele se sentia um pouco mal, em partes, por saber que Mewleficent estava se privando da companhia da mãe com medo dele se irritar e desaparecer novamente. Porém, por outro lado, ele simplesmente não podia evitar se sentir aliviado. Não tinha certeza se realmente seria capaz de se controlar se estivessem perto de Mewlith, e principalmente se notasse que como de costume, ela tentasse manipular sua irmã de alguma forma com suas chantagens sentimentais.

A presença de sua mãe biológica, mesmo quando estava vivo, sempre lhe causou aversão e repulsa. Tais sentimentos negativos apenas foram crescendo após sua morte, e desde seu último ataque de raiva, tudo que Mewdarthe conseguia sentir quando pensava nela era o mais puro ódio.

Ele ainda lembrava de como aquele ódio crescia nele, como uma chama bruxuleante que se tornava um incêndio incontrolável, engolfando cada centímetro de sua alma espectral. O príncipe sabia que, se deixasse essa raiva crescer outra vez, nem ter Mewleficent como seu receptáculo impediria que a Ceifeira o levasse.

Sucumbir a seu ódio pela mãe era tentador, por mais que Mewdarthe ainda não conseguisse associar que sua morte foi causada por ela. Era quase impossível resistir a esse desejo de vingança do qual o príncipe desconhecia as origens, mas, a ideia de desaparecer e abandonar sua irmã era um terror ainda maior.

Portanto, Mewdarthe tentava manter o controle, temendo cada pensamento que o recordava de sua mãe, pois quando essas memórias o assolavam, ele sentia o vazio de sua morte preenchê-lo, o puxando para um abismo onde só restaria ódio.

Esse pavor de perder-se o fazia parar, forçando-se a se afastar do destino que o levaria a se deixar de ser ele mesmo para se tornar uma entidade vazia feita apenas de fúria e vingança. Contudo, cada vez que essa sombra de raiva o tocava, ele sabia que a tentação de ceder se tornava um pouco mais forte.

Sendo assim, não poderia sentir-se mais grato pelo sacrifício altruísta de sua irmã ao se manter afastada de Mewlith pelo bem dele, mesmo imaginando que isso poderia chateá-la. Não deixaria que seus esforços fossem em vão. Darthe estava determinado a compensá-la por isso a todo custo, a começar, a ajudando com o plano para que o pai pudesse ver seu espírito refletido no Sombríage e finalmente notar sua presença, na esperança que isso os tornasse unidos como família mais uma vez. Como sempre fez, confiaria na irmã. Era tudo ou nada, e eles fariam aquilo dar certo.

Reanimado com tal determinação, Mewdarthe estava prestes a concentrar toda sua energia espectral para fazer com que um dos livros da enorme estante á sua frente caísse no chão e ele pudesse usar essa mesma força para folhear suas páginas, ajudando Mewleficent a procurar o dito "feitiço ideal". No entanto, mal havia começado a exercer seu foco quando algo atraiu sua atenção; um som que o fez arrepiar-se mesmo em sua existência imaterial: a porta do Santuário estava se abrindo.

O príncipe sabia que só havia um felin que podia entrar no Santuário das Sombras quando seu pai não estava - e era ele próprio. Ele voou rapidamente até a irmã, trazendo uma expressão de pânico em seu rosto translúcido.

— Lef! LEF! O papai acordou! Ele está entrando!

— O QUE?! — A filhote exclamou, arregalando os olhos com a feição desesperada.

— Você tem que se esconder, depressa!

Olhando para todos os lados num reflexo involuntário, Mewleficent tentava pensar no que fazer. Não havia tempo para beber a poção da invisibilidade e receitar o feitiço que ativava seus efeitos antes que o pai chegasse.

O som de passos se intensificou, indicando que Devimyuu se aproximava caminhando pelo extenso corredor que levava desde a porta até o centro do grande salão. Não demoraria para logo estar ali e pegá-la no flagra. A princesa tinha que não só pensar como agir rápido.

Com um arrepio gélido na espinha e o coração a mil, seu primeiro instinto foi correr para trás do Sombríage, na esperança de que o grande espelho a escondesse enquanto buscava por um modo de passar despercebida.

Sem mover um músculo, restringindo até mesmo sua respiração, Mewleficent encarava o irmão com os olhos arregalados, comprimindo tanto os lábios, temendo fazer algum barulho que parecia até que sua boca desapareceu do rosto.

"O que vamos fazer?!" Perguntou Mewdarthe mentalmente, se mostrando tão aflito quanto ela.

Como por uma inspiração do espírito das bruxas ancestrais, Mewleficent lembrou-se do feitiço de ocultação que sua mentora em magia de combate — Lady Mewvanore — lhe ensinou. Tal bruxa era ninguém menos que a líder das chamadas Brumas da Noite, a força tarefa silenciosa e letal das assassinas de sua Majestade. O poder delas em combate e sua taxa de letalidade, tal como sua autoridade, era maior até mesmo que a do próprio exército real. Sendo a impiedosa líder de uma equipe de fêmeas assassinas profissionais, a técnica de ocultação de Nei de Mewvanore era impecável, e felizmente, foi uma das primeiras coisas que ensinou a Mewleficent até que a princesa a executasse com perfeição, dentro dos limites que sua tenra idade permitia, logicamente.

Mewleficent respirou fundo, sentindo o pulsar do poder oculto dentro de si, como Lady Mewvanore a ensinara. Dedilhou no ar desenhando através da aura de seu poder mágico, uma pequena runa que selaria a execução do feitiço. Um leve tremor passou por seu corpo, e o ar ao seu redor pareceu ondular, como um calor invisível que distorcia a realidade. Ela sentiu o frio do feitiço a encobrir, como se a tornasse parte do próprio vazio para que o encanto funcionasse. Seu coração ainda pulsava rápido, mas ela sabia que precisava acalmar a mente. Inspirou e expirou devagar, se lembrando de cada detalhe instruído por Lady Mewvanore, controlando as partículas de Nei de sua própria presença.

O som das passadas que os alcançava parou abruptamente, e Mewleficent não precisou refletir muito para deduzir que o pai havia chegado até ali e provavelmente percebido algo. Dado seu nível de poder e habilidades, não era de se surpreender que ele detectasse algum vestígio de presença em seu Santuário, mesmo com Mewleficent usando o feitiço de ocultação.

A princesa teve certeza de sua enrascada quando Mewdarthe esticou o pescoço através do espelho para dar uma olhada, e a encarou de volta olhos arregalados e praticamente em pânico.

"P-papai tá vindo pra cá! E ele parece desconfiado!"

Mewleficent sequer pôde responder algo, mesmo que apenas mentalmente. Estava tudo perdido. Seu pai a pegaria no flagra e agora, só restaria a ela pensar em como explicaria sua presença ali. Milhões de pensamentos lhe ocorriam. O que deveria dizer? Talvez inventar uma história para explicar estar justamente no único lugar do palácio onde era terminantemente proibida de entrar? Tentar convencê-lo de que convenientemente, ele esqueceu a porta aberta e que ela veio buscar um feitiço que ajudasse a acordá-lo? Talvez com isso, seu pai se comovesse e deixasse passar com um castigo leve... Ou, em última escolha, qual seria o resultado se, numa possibilidade remota, ela simplesmente dissesse a verdade? Isso adiantaria o plano, ou o arruinaria de vez?

Em meio a esse turbilhão de dúvidas, o olhar estático de Mewdarthe indicava que seu tempo se esgotara. Devimyuu estava frente ao Sombríage, analisando-o cada vez mais de perto, com seu olhar ferino treinado apto a captar qualquer coisa suspeita que ali estivesse. Era óbvio que a próxima coisa que o rei faria era olhar atrás do espelho. Bastavam alguns segundos e Mewleficent não teria mais tempo.

A menina fechou os olhos, apertando com toda força seu pequeno corpo à medida que abraçava a si mesma, tentando controlar a respiração contida que por pouco não lhe faltava, só lhe restando esperar pelo vindouro e temível momento em que o pai a descobriria.

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