12 - Castigai o Mal


Algum tempo depois, Anmy e Kin estavam sentados à mesa de madeira ornamentada no solário templo de Ghaceus, onde um almoço digno dos deuses havia sido servido, tanto para eles quanto para os sacerdotes que ali residiam.

A luz natural que atravessava o espaço aberto lançava um brilho suave sobre eles, criando um ambiente sereno, mas a tranquilidade que os acompanhou durante a refeição fora substituída por uma atmosfera de seriedade.

Assim que o casa real ficou sozinho à mesa, Anmyuu começou a relatar o caos que enfrentara com Mewthazar — excluindo as partes sobre Devimyuu, obviamente —  e a violência do colapso psíquico quando ele começou a enxergar o controle de Heimewdall sobre si, assim como a crucial a intervenção de Mewhicann e Diamewd, e tudo que precisaram fazer para manter a situação sob controle.

Kinmyuu ouviu cada palavra em silêncio, seu rosto se tornando mais sério a cada detalhe. Ele agora estava ciente do perigo que seu tio representava, mas jamais imaginou que a situação poderia escalar a esse ponto. 

— Justamente quando achei que seu preconceito repugnante com reversos seria nosso maior problema, descubro que Heimewdall é capaz de algo muito mais baixo…!  — Kin se interrompeu por um segundo, sua voz carregada de uma revolta crescente — Usar seus poderes psíquicos para escravizar a mente de alguém, distorcendo os sentimentos mais vulneráveis de Mewthazar, como se ele não fosse nada além de uma marionete para satisfazer seus caprichos doentios! 

A indignação do rei era palpável, enquanto suas mãos cerravam o punho com força sobre a mesa.

Anmyuu podia compartilhar do mesmo sentimento.

— Manipular a mente de alguém já é uma violação inominável para nós psíquicos, mas abusar dos sentimentos de Mewthazar para torná-lo um escravo de sua vontade…! O quão frígido e vil alguém pode ser para chegar a esse ponto?!

Argumentou a rainha franzindo o cenho, seu tom de voz expondo toda sua revolta.

A frustração queimava nos olhos de Kinmyuu, refletindo seu desprezo por um ato tão cruel.

— Todo o mal que ele já causou não pode passar impune. Heimewdall tem que pagar por seus crimes, e pagará caro. Apenas três dias na prisão da Doutrina Dourada não serão o suficiente!

Anmyuu assentiu lentamente, tentando manter a calma diante do olhar de Kin. Cuidadosamente, ela esticou o braço e segurou em sua mão, que ainda mantinha o punho cerrado firme, por sua indignação.

— Sim, eu sei. Mas não quero que perca o controle por isso, amor. Me pediu para cuidar do caso de Heimewdall e é o que estou fazendo. Você tem outras questões primordiais com as quais se preocupar. E eu vou garantir que a justiça seja feita, sabe que nunca falho com minha palavra.

Os olhos de Anmyuu o encaravam com uma determinação feroz, irradiando aquela chama que Kinmyuu sabia que não se apagaria até que ela atingisse seu objetivo. Contudo, dadas as atuais circunstâncias, era impossível que ele não se preocupasse com toda a pressão, estresse, e peso emocional que isso poderia causar, vindo a sobrecarregá-la.

— Eu pedi, mas isso foi antes. Não me parece correto deixar você enfrentar tudo isso sozinha enquanto lidamos com a questão do bebê… Nós ainda chegaremos a uma decisão, mas, mesmo assim, sei que inevitavelmente, você estará preocupada até lá.

Seu rei a olhava nos olhos amorosamente, porém, ao mesmo tempo aflito. O sutil lapso de culpa por tê-la levado a uma gravidez indesejada refletiu em seu rosto novamente. No entanto, Anmyuu apenas sorriu com ternura e apertou a mão dele com um pouco mais de firmeza, tentando lhe tranquilizar através do gesto.

— Eu não estou sozinha, querido. Depois do ocorrido de hoje, sua mãe e o Magistrado Mewhicann continuarão ao meu lado, e não poderia haver aliados mais poderosos do que eles para me apoiarem. Além disso, estar grávida não muda a fêmea que eu sou. Você sabe que nunca deixo nada atrapalhar meus objetivos, ou tampouco me isentar de meus deveres como sua rainha. Você me designou a essa tarefa e a cumprirei até o final. É para isso que governamos juntos. 

Kinmyuu respirou fundo, passando a mão pelos cabelos platinados num gesto pensativo. Sua preocupação o deixava relutante, porém, sempre confiou plenamente nas capacidades de Anmyuu como sua esposa, rainha, e inabalável companheira leal. Ele jamais poderia desejar que fosse diferente. O rei suspirou novamente e ergueu os olhos para ela.

— Sim, eu sei melhor do que ninguém que nada poderia mudar a mulher incrível que você é. — Ele então sorriu, beijando carinhosamente a mão dela num gesto de pura devoção, antes de a olhar um pouco mais sério outra vez — Mas, quero que me prometa que se sentir que precisa de mim, independente de onde eu esteja ou o que eu estiver fazendo, dará um jeito de me dizer para que eu possa estar ao seu lado o mais depressa possível. Combinado, minha deusa? 

Anmyuu assentiu com seu belo sorriso confiante e beijou a mão dele de volta, selando a promessa que não deixaria de chamá-lo se sentisse a mínima necessidade de seu amparo e companhia.

O clima sereno que refletia sua cumplicidade como casal voltou a surgir após chegarem a tal consentimento. A leve descontração apenas aumentou quando Anmyuu olhou para o prato de sobremesa que Kin mal havia começado, e perguntou se ele iria terminar de comer;  claramente mostrando que queria a deliciosa fatia de bolo branco com morangos que estava nele, após a rainha ter devorado quase que instantaneamente seu próprio pedaço.

Kinmyuu apenas sorriu e, desistindo justamente de sua sobremesa, empurrou o pequeno prato de porcelana na direção de sua esposa desejosa, a assistindo saborear tudo avidamente com satisfação. Contudo, foi aí que se lembrou que sua tia Myuusif havia dito que buscaria o restante do bolo, para caso quisessem mais, e estranhou um pouco o fato dela estar demorando mais que o habitual para voltar.

“Provavelmente ela encontrou Mewquiel no caminho, hum…”  Ele pensou, não conseguindo esconder um sutil risinho malicioso por imaginar que a tia se demorava porque parou para ficar de namorico com seu amado anjo sumo-sacerdote.

E de fato, Myuusif estava com Mewquiel, contudo, ao contrário do que seu sobrinho pensava, o clima entre eles era pesado e distante da usual ternura e romance de tom juvenil que compartilhavam. Ela ainda segurava o prato com o bolo, mas seus olhos estavam distantes, e seus lábios se comprimiam numa linha fina, segurando a tensão que crescia dentro de si. A conversa que acabara de escutar entre Anmyuu e Kin reverberava em sua mente, criando um turbilhão de sentimentos conflitantes.

Ela não podia evitar a revolta crescente.  A vilania disfarçada que Heimewdall  encarnava sempre a enojou, e ela acreditava que ele havia atingido o limite de suas atrocidades ao deixar propositalmente Odimyuus para morrer, naquela maldita noite há vinte anos. No entanto, acabara de perceber que estava enganada. O efeito cascata da morte de Odimyuus fez com que Myuusif perdesse seus pais, e se não bastasse as ações de Heimewdall terem lhe tirado um amado irmão mais velho, ela acabara de confirmar a culpa dele em ter perdido outro, que já fora tão próximo e querido quanto.  

Myuusif parou abruptamente no meio do corredor, tomada por um misto de angústia e fúria mal contida. Pensar que Heimewdall havia reduzido Mewthazar a um fantoche psíquico, abusando dos sentimentos dele de maneira tão cruel, fazia um calor de raiva surgir em seu peito.

Tudo que foi capaz de fazer foi empurrar o prato nas mãos de Mewquiel e se afastar correndo o mais rápido possível, embora a desorientação pelo emocional abalado nem a deixasse saber exatamente para onde ia. Ela só queria se afastar.

 Seu leal anjo obviamente a seguiu, até que, fazendo-se aparecer na frente dela e colocando gentilmente as mãos em seu ombro — a fim de impedi-la de continuar correndo sem rumo — a segurou através de um abraço apertado contra seu peito.

— Sif, minha luz, por favor se acalme… — Ele precisou dizer apenas isso para que ela entendesse que não precisava fugir só, pois ele estava ali para ouvi-la e ampará-la. 

Houve um curto momento de silêncio entre ambos, até que Myuusif conseguisse falar.

— Você também ouviu, não é? Anmyuu falando sobre Mewthazar... 

Sua voz saiu embargada. Ela hesitou por um segundo antes de continuar, tentando processar as palavras que se seguiram.

 — Eu sabia. Eu sempre soube que aquele maldito do Heimewdall tinha feito algo para manipulá-lo, mas ele conseguiu ser ainda pior do que imaginei! — a felin respirou fundo, tentando não deixar a raiva transparecer em lágrimas — Ele transformou meu meio-irmão numa marionete, usando o amor de Mewthazar como uma arma contra ele próprio! Porque nem que fosse apenas como amigo, era impossível que ele não soubesse que Mewthazar o amava, o que significava para ele. E ainda assim, usou esse amor para torná-lo seu fantoche pessoal! Heimewdall o destruiu de dentro para fora, como se sua mente e coração fossem descartáveis!

Seus olhos brilharam com a intensidade de sua fúria, mas havia dor ali também. Myuusif sentia o peso da perda — não só de Mewthazar, mas de quem ele um dia havia sido antes de ser corrompido por Heimewdall.

— Mewthazar errou em muitas coisas pela influência de Heimewdall, mas apesar disso, ele sempre teve um coração bom… 

Disse o anjo, com um olhar cabisbaixo.

— Ele finalmente tinha aberto os olhos para o veneno que Heimewdall era e estava disposto a mudar. Até que de repente, como se nunca tivesse feito essa escolha, ele voltou atrás e se afastou para ficar do lado dele. Mesmo magoada eu desconfiei na época, e agora tive a certeza que não foi por escolha própria! E sabe o pior de tudo? Não sei se Mewthazar voltará a ser o que era... ou se ainda há algo de seu verdadeiro eu para salvar… Heimewdall tinha me prometido e ele conseguiu… ele tomou os dois irmãos que eu amava de mim… Por causa dela perdi praticamente toda minha família! Ele é pior… que um demônio…! Não há palavras que bastem para descrever o quanto ele é um monstro!  

Não mais capaz de se conter,  a sacerdotisa pressionou o rosto contra o peito de seu amado anjo em sua túnica branca, deixando lágrimas de tristeza e ódio verterem em silêncio. A presença de Mewquiel lhe dava algum consolo, mas a dor e raiva ainda fervilhavam dentro dela. 

Permanecendo ao lado de Myuusif, o querubim colocou uma mão suave sobre a cabeça dela e começou a afagar delicadamente seus cabelos. Seu toque gentil a acalmava, mas ele sabia que naquele momento, poucas palavras poderiam ajudá-la a processar tamanha dor e ódio.

— Myuusif, minha amada — ele começou, escolhendo as palavras com cuidado — Não há justificativa para o que Heimewdall fez. O que nos resta agora é encontrar uma maneira de curar as feridas que ele causou. E, se houver algo do verdadeiro Mewthazar ainda intacto, nós vamos trazê-lo de volta de alguma forma. Farei tudo ao meu alcance para ajudá-la com isso, portanto pode contar comigo, como sempre poderá. Sou o Anjo da Esperança, afinal, o seu anjo.

Myuusif fechou os olhos, sentindo o reconforto das palavras de Mewquiel. Contudo, mesmo sabendo que ele estava certo, a amargura ainda se recusava a ceder.

— Ele vai pagar por tudo isso, Mewquiel — sussurrou ela, a voz quase inaudível repleta de uma fúria palpável — Eu juro por todos os deuses que ele vai pagar!

Sentido a verdadeira natureza de seu ódio ecoar através daquelas palavras, Mewquiel a afastou sutilmente, o suficiente para poder olhar em seus olhos.

— Ele já está pagando, querida. Lembre-se que ele está na Fortaleza Stygia nesse momento, e vimos pela reação de Kin III que, mesmo ainda não podendo se recordar do maior crime de Heimewdall, depois do que fez ao Mewthazar, não deixará que ele fique detido por apenas três dias. E a rainha Anmyuu está cuidando para que a justiça por seus atos se realize o quanto antes. Eu posso entender todos os sentimentos que te afligem agora, mas é justamente por esses fatores, que eu peço que tente se acalmar… — Mewquiel então acariciou seu rosto delicado, com seu toque literalmente angelical — Aquele ser vil já lhe tirou quase todos que amava e lhe trouxe tanto sofrimento… Eu não suporto vê-lo te causando mais… 

Myuusif ergueu a face para ele, e pôde ver o marejar de seus olhos luminosos ao fazer tal súplica, dada a genuína preocupação e empatia pela fêmea mortal por quem o belo querubim acabou se apaixonando. No entanto, por mais que entendesse e compadecesse dos sentimentos dele, apenas uma coisa ocupava sua mente agora: o fato de Mewquiel ter mencionado a Fortaleza Stygia.

Ela inclinou-se, ficando ligeiramente na ponta dos pés e beijou os lábios dele com um toque suave, em seguida, limpando as poucas lágrimas que restaram. Havia algo diferente em seu olhar.

— Quiel, querido, você pode continuar ajudando Kinmyuu a terminar de realizar o ritual de invocação dos outros anjos, em meu lugar? Faria isso por mim?

— Sabe que eu faria qualquer coisa por você, mas, posso perguntar por que o pedido? Se for por não estar se sentindo bem para continuar, por favor me diga. Pedirei que outro sacerdote o ajude e ficarei cuidando de você.

—  Não se preocupe, eu realmente estava abalada, mas agora não mais. Estou me sentindo exatamente como deveria, ao perceber que, junto com a dor dessa revelação, chegou o momento pelo qual tanto esperei… 

O anjo ainda a encarava com uma expressão ligeiramente confusa, tentando decifrar o que estaria por trás daquelas palavras. 

Recompondo-se por completo, Myuusif deu um passo à frente, como se seu olhar se estendesse para além de onde até mesmo o próprio querubim sumo sacerdote podia enxergar. Até que ela se virou para ele novamente.

— Você tem razão, querido. Não vou mais sofrer por tudo que aquele monstro fez a mim e a minha família. O sofrimento agora será dele, e vou olhá-lo nos olhos enquanto o vejo receber cada dose de desespero que merece. Afinal, o mal deve ser expurgado não é? Portanto, vou me certificar que a minha parte nisso seja feita. Estou indo para a Fortaleza Stygia agora mesmo. 

Antes que pudesse mover-se outra vez, Myuusif sentiu um toque gentil porém firme, segurando de forma determinada em seu pulso. Olhou nos olhos do ser celestial que a encarava como se pudesse ler cada partícula que compunha a alma dela, mas não por ser um anjo, e sim, por ter aprendido a verdadeiramente amá-la. 

— Então vou mesmo pedir a outro sacerdote que ajude o Terceiro. Porque se você está indo, então também irei. 

Myuusif ficou completamente imóvel por um momento, surpresa pela decisão de Mewquiel. Ele era o anjo sumo sacerdote responsável por guardar o templo principal de Ghaceus — seu próprio avô — e estava disposto a deixar tudo para acompanhá-la naquele confronto carregado de dor e raiva. Ela sabia o quanto Mewquiel valorizava sua posição e sua responsabilidade com os outros anjos e o templo, mas agora, ali, ele estava deixando claro que seu amor por ela era mais importante.

Quando ele a segurou, Myuusif imaginou que daria a ela inúmeros motivos válidos para não seguir com tal ideia, no entanto, ele fizera justamente o contrário. 

A sacerdotisa não sabia o que a tocava mais: o fato de que ele entendia sua dor e sede de justiça ou a simples verdade de que o anjo por quem era apaixonada desde os dezesseis anos, estaria ao seu lado, não importando o quão escura fosse a jornada à sua frente. 

— Quiel... — ela sussurrou, com um pequeno sorriso formando-se em seus lábios, acompanhando os olhos brilhando marejados — Realmente… faria isso? Você, um anjo, o primeiro anjo, abriria mão de tudo para me acompanhar nessa retaliação?

Mewquiel inclinou-se suavemente, aproximando o rosto do dela, e respondeu com a mesma convicção que sempre a acalmava:

— Não estou abrindo mão de nada. Meu avô Ghaceus ensinou ao meu pai, que ensinou para nós, que não há força mais poderosa e pura no universo do que o amor. E eu estou fazendo isso porque, independente de minha posição como um ser celeste, eu amo você. Então mesmo que eu me afaste do templo, e que lhe siga por um caminho tortuoso, sei que meu avô e meus irmãos jamais me condenariam por isso. Mas, mesmo se não fosse assim, e eu precisasse, eu realmente abriria mão de tudo. Tudo, exceto de você.

Myuusif ficou sem palavras por um momento, o coração acelerado diante do que acabara de ouvir. 

Ela respirou fundo, tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair novamente, mas dessa vez carregadas de emoção e contentamento. Com um sorriso frágil, mas sincero, Myuusif ergueu uma das mãos, tocando o rosto dele com carinho, até que seus lábios se encontraram em um beijo profundo.

Aquele beijo carregava tudo o que ela não conseguiria colocar em palavras, deixando que esse gesto significativo dissipasse qualquer incerteza que pudesse restar. 

Quando o beijo enfim se quebrou, Myuusif deixou sua testa descansar na dele, seus olhos fechados por um instante, como se quisesse guardar para sempre a sensação daquele momento. Ela sorriu suavemente, agora com uma nova força em seu coração.

Um de seus meios irmãos podia de fato se equiparar a um demônio, mas ela sempre poderia contar com a força do amor de seu anjo para enfrentá-lo. 

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