09 - Marionete Quebrada
De volta aos tempos atuais, Mewthazar segurava em suas mãos trêmulas o antigo diário de Devimyuu, onde ele descrevia em suas próprias palavras o que pensava a respeito de Mewthazar e do desfecho daquela noite.
“... Quando eu contei ao Kin que tinha perdoado o Mewthazar e aceitado ele de volta como meu Precursor, achei que ele não fosse gostar porque também ficou bastante pistola com o Mewthazar, quando esse rolo todo começou. Mas no final, quando eu expliquei tudo, meu mano ficou tranquilo e disse que entendeu, e que sabia que eu acabaria perdoando mesmo, porque eu tenho um bom coração e sempre vou ter.
O que o Kin disse me deixou feliz, é claro, mas ele é suspeito porque do mesmo jeito que o papai e a mamãe, ele adora me bajular. Sei que eu zoei com o Mewthazar dizendo que só o aceitei de volta porque eu era uma alma virtuosa, mas na real, não acho que isso seja lá grande coisa, tipo uma boa ação gigantesca… Afinal, foi tudo um mal entendido, ele não tava me discriminando. No final, só queria o melhor pra mim, e foi enganado por um babaca que não liga pra os sentimentos dele e o fez desistir. Então porquê não perdoar?
Ele não parece tão ruim assim pra falar a verdade, e talvez ele só precise de uma chance pra ser alguém melhor. Se eu sou a chance dele, não tenho motivos pra não ajudar. Acho que isso me faz uma pessoa melhor também. Independente de sangue ou origens, eu sou um membro da família real da Luz, e portanto, é assim que eu devo agir. E me orgulho de poder fazer isso.
Além do mais, eu notei uma coisa bem curiosa hoje, quando Mewthazar foi embora. Ele invocou um círculo mágico de teletransporte sem eu nem perceber, mesmo com toda a minha habilidade de detecção de magia. Se ele é um mago tão fraco quanto diz, como conseguiu isso tão rápido? Talvez a influência de estar aqui em Arcanatus tenha ajudado, mas pensei que também poderia ser outra coisa…
Magia vem dos sentimentos, e quanto mais verdadeiros e bons, mais poderosa ela pode ser. Talvez agora que Mewthazar decidiu acreditar nele mesmo e se tornar uma pessoa melhor sem ligar pra aquele lixo do Heimewdall, a magia dele tenha ficado nem que seja um pouco mais forte sem ele perceber, mesmo tendo Nei baixo. Eu imagino como deve ser uma tortura você ser um descendente de Mizantri e amar magia como eu sei que ele ama, e não conseguir usar plenamente todo o poder ancesral irado que herdou… Se for assim, esse é outro motivo pra eu me sentir feliz por ter aceitado ele de volta como Precursor. Vovô Mewrilin disse na cerimônia que Aprendizes e Precursores aprendem um com o outro e se ajudam, por isso criam um vínculo, unidos pela magia que cresce em ambos.
O Mewthazar quer mudar de verdade, e sinto que ele realmente acredita em mim, então também vou acreditar nele. E se Mizantri me destinou como Aprendiz dele, deve saber o que tá fazendo, afinal ele é um deus, né? Então eu espero mesmo que o poder do Mewthazar aumente conforme ele me ensina, assim, vamos fazer como ele disse e esfregar na cara ridícula e imbecil do Heimewdall que ele tava errado sobre nós dois!
E pra finalizar, bom… o Mewthazar é meio que, tecnicamente da família, já que o pai dele é meu ‘vôdrasto’. Talvez, só pra variar… seja legal ter um tio por parte de pai que goste de mim, independente das minhas origens. Ele me abraçou hoje, o que foi meio esquisito, admito, mas isso me faz pensar que se eu chamar ele de tio, é provável que ele tipo desmaie de emoção ou sei lá, hah!
Quem sabe, né? Acho que vou tentar qualquer dia.”
Diante do que acabara de ler, a expressão no rosto estático de Mewthazar se mostrava paralisada e incrédula. Com as sobrancelhas arqueadas refletindo o que só poderia ser descrito como choque, seus lábios tremeram com palavras não ditas presas em sua garganta. Ele abriu a boca para falar, mas a fechou novamente, incapaz de formular uma resposta imediata.
Anmyuu seguia apenas observando. Mewthazar segurou o diário com mais força apesar das mãos trêmulas, voltando a encarar aquelas páginas, mal acreditando nas palavras que seus olhos percorriam. O silêncio ao redor era sufocante, como se o ar tivesse se tornado denso e opressivo. As frases de Devimyuu dançavam em sua mente, despertando memórias que ele sequer sabia que ainda existiam.
“Talvez ele só precise de uma chance pra ser alguém melhor…”, “Mewthazar quer mudar de verdade…”, “ele realmente acredita em mim, então também vou acreditar nele…”
Cada uma dessas palavras era uma lâmina afiada que penetrava fundo em sua mente, perfurando violentamente a muralha de manipulação e inverdades que Heimewdall havia construído ao seu redor.
Uma onda esmagadora de lembranças o atingiu, fazendo o conflito interno que carregava chegar ao seu ápice. Ele podia ver com uma clareza perturbadora, a noite em que, após tantos anos de manipulação, ele havia escolhido abandonar a influência tóxica de Heimewdall. Ele se recordava da conversa, do calor reconfortante que o abraçou quando Devimyuu o perdoou e o aceitou de volta como Precursor, e de como se sentia expectante ao finalmente ter confiança em si mesmo, agora que havia decidido mudar. Contudo, tais memórias antes ocultas que deviam ser reconfortantes se chocavam violentamente com quem ele havia se tornado, criando um turbilhão existencial que não podia ser contido.
Mewthazar levou as mãos à cabeça, apertando o couro cabeludo como se tentasse segurar sua própria mente no lugar.
— Não… não pode ser…! Aquela noite… eu não fui… Não, espere…! Eu estava lá… isso foi real… Mas aquele… era eu? E-eu não sou assim! Ou… eu realmente não sou o que sou agora? O que está acontecendo?!
Ele dizia para si mesmo, completamente transtornado. Sua voz saía rouca e trêmula, com os lábios se movendo de maneira desordenada, como se as palavras o estivessem traindo enquanto tentava decifrar qual era a verdade. O conflito interno chegara a um ponto de tensão impossível de suportar.
Seu olhar desorientado não conseguia se focar num único ponto, percorrendo todo o enorme salão real como se buscasse um porto seguro na realidade para se apoiar. Perdido entre o passado que havia esquecido e o presente que Heimewdall havia moldado, o tormento emocional o dominava por completo. Seus músculos começaram a tremer involuntariamente, a respiração se tornou ofegante e irregular, parecendo até que próprio oxigênio o sufocava, fazendo seu peito subir e descer com dificuldade, como se o ar estivesse sendo arrancado de seus pulmões à força.
De repente, Mewthazar começou a andar em círculos, em movimentos curtos e bruscos, enquanto esfregava uma das têmporas com violência, como se estivesse tentando arrancar os pensamentos difusos que o atormentavam. Seu corpo inteiro parecia envolvido em uma luta invisível, o suor agora ensopando suas roupas. A cada passo, seu murmúrio ficava mais alto, cada vez mais desesperado, quase como um lamento.
Finalmente, ele parou abruptamente. O mago cambaleou com as pernas fracas, não conseguindo sustentar seu corpo por mais tempo, o fazendo cair de joelhos.
Cada fragmento de memória que retornava lutava contra as mentiras que Heimewdall havia implantado, e uma cacofonia de vozes invadia sua mente — a voz de Devimyuu, firme e cheia de compaixão lhe dando esperança; a de Heimewdall, sibilante, manipuladora e maldosa. Ambas se chocavam como trovões, fazendo seu crânio pulsar de dor, como se estivesse à beira de uma ruptura.
— Isso não… Eu não sou… Eu fui… Eu…!
Com sua identidade oscilando entre ser despedaçada e reconstruída de maneira forçada, Mewthazar não conseguia mais formar pensamentos coerentes. Ele ainda segurava o diário em uma das mãos, porém, começou a tremer tanto que o deixou cair no chão, conforme os dedos se contraiam como se tivessem sido queimados.
O tormento não era apenas mental — era físico também. A dor de sua mente em colapso reverberava pelo seu corpo de formacrescente. Mewthazar sentia como se estivesse sendo puxado em direções opostas, os nervos ardendo, os ossos tremendo. Ele queria gritar, mas o som ficava preso em sua garganta, com seu próprio corpo sufocando sua capacidade de reagir. Até que um gemido baixo e trêmulo escapou de seus lábios, enquanto o felin se curvou totalmente em direção ao chão, como se estivesse tentando se esconder do terror que o consumia sem piedade. Algo estava terrivelmente errado. Sua mente dominada e confusa lutava quase a ponto de se romper para entender o que poderia ser.
Porém, sendo incapaz disso, ele se encolheu em posição fetal, com os braços envolvendo a cabeça, numa vã tentativa de cessar aquela tortura, mas a dúvida corroía suas últimas defesas. Havia um campo de guerra dentro dele, e Mewthazar se encontrava preso no centro, colapsando entre a verdade e a ilusão, entre o homem que gostaria de ter sido e o fantoche que se tornara.
Seu corpo tremia descontroladamente, à beira de entrar em uma convulsão, com cada fibra dele se retorcendo em agonia. Enquanto Mewthazar se contorcia no chão, sendo sacudido por espasmos de dor e confusão, um brilho tênue, quase imperceptível no início, começou a surgir de sua testa. Era um ponto de luz violeta, pequeno e pulsante que, em poucos segundos, começou a se expandir.
Como se algo maligno estivesse se materializando no ar, ramificações dessa luz escura se espalharam lentamente por seu rosto, descendo por seu pescoço e o envolvendo por completo. As veias de energia psíquica se estendiam como raízes, sinistras e grotescas, penetrando no mago e crescendo como uma praga invisível. Cada pulsação dessa energia parecia causar mais dor a Mewthazar, que se contorcia e gemia, enquanto apenas o espaço branco de seus globos oculares podia ser visto no vazio de seus olhos, enquanto ele gritava em desespero.
Tudo ocorreu muito rápido, quase com a mesma velocidade com que Anmyuu supôs o que estava acontecendo. A influência de Heimewdall ia além de uma manipulação mental. Como se as cordas que usava para controlar Mewthazar se tornassem visíveis, seu poder de dominação sobre ele se manifestava fisicamente, determinado a não permitir que sua marionete se libertasse.
O ar ao redor se alterou. Um leve tremor percorreu o chão do salão do trono, enquanto as paredes começaram a vibrar. Anmyuu correu desesperada em sua direção, tentando se aproximar para ajudar, mas foi empurrada para trás por uma barreira invisível de força psíquica que se erguia entre ela e Mewthazar.
Usando seus próprios poderes, Anmy tentou suprimir e dissipar a tal barreira, mas a energia psíquica a repeliu com tanta força que ela cambaleou para trás. O campo de força em torno de Mewthazar crescia, e quanto mais se expandia, mais instável se tornava. A situação piorava a cada segundo. Sendo assim, sem hesitar, Anmyuu enviou um chamado telepático urgente aos guardas.
"Guardas! Corram até a sala do trono! Algo está acontecendo com o vice-rei Mewthazar, necessito de ajuda AGORA!"
A mensagem ecoou por todo o palácio, e em alguns segundos, a guarda real psíquica chegou às pressas.
Quando os primeiros soldados adentraram no salão, a visão diante deles os fez parar, hesitantes. O caos dominava o ambiente: os móveis dourados e pesados que enfeitavam a sala estavam sendo empurrados contra as paredes, onde os retratos dos antepassados da família real da Luz sacudiam violentamente, ameaçando despencar; toda a decoração se via fora do lugar, enquanto as tapeçarias balançavam como se estivessem sob um vento furioso. As vidraças das janelas começaram a trincar, com suas fissuras se expandindo a cada pulsação de energia que emanava do corpo de Mewthazar.
A energia psíquica crescente começou um vendaval de pura força mental, trazendo uma espécie de zumbido agudo que invadiu os ouvidos dos guardas, e alguns tiveram que cobrir as orelhas para suportar a pressão crescente.
Vendo a situação, Anmyuu criou uma barreira de luz que envolveu cada um dos guardas e a si mesma numa esfera luminosa, para anular aquele som estridente. Farta de ver que ol caos só aumentava, ela se preparou para avançar novamente, até que, percebendo suas intenções, um dos guardas chamou sua atenção.
— Majestade, não! É muito perigoso! — ele gritou, olhando para a rainha — Se tentarmos usar nossos poderes psíquicos contra isso agora, podemos causar um conflito massivo de energias!
A rainha sabia que ele estava certo. A barreira de força em torno de Mewthazar estava tão carregada com a energia de Heimewdall, que qualquer tentativa de confrontá-la diretamente com poderes psíquicos poderia causar um colapso catastrófico — não só para Mewthazar, mas para todos ali. As energias opostas se chocariam como tempestades colidindo, e o resultado seria devastador.
Tensa diante da falta de opções, no momento só restou a ela apelar.
— Mewthazar! Resista! Lute contra isso!
Anmyuu gritou, enquanto sua voz era abafada pelo som de vidro explodindo. Uma das janelas finalmente não resistiu à pressão, espalhando cacos por todo os lados.
Os guardas se agruparam em volta dela, erguendo seus escudos de energia dourada para protegê-la, mas ainda não sabiam como agir sem piorar a situação. Os móveis tremiam, cristais despencavam das prateleiras, e vasos e estátuas de mármore decorativas rachavam, enquanto as luzes do enorme lustre no teto abobadado faiscavam, ameaçando apagar a qualquer momento.
Mewthazar continuava no olho do furacão. Como uma marionete quebrada, ele se contorcia em agonia, sentindo-se desmembrado entre seu verdadeiro eu e a persona que Heimewdall havia moldado. Cada vez que sua consciência tentava distinguir manipulação de realidade, a energia violeta do controle mental o apertava, como uma corrente invisível que o encarcerava.
— Guardas, precisamos suprimir esse campo de força agora! Vou tentar estabilizar a energia criando um condutor de Luz, enquanto isso, façam de tudo para dispersá-lo!
A rainha comandou, com um tom desesperado, mas determinado. Ela sabia que o tempo estava se esgotando. Tomou um passo adiante, deixando a barreira dos escudos de energia dourada que a protegia, pronta para chegar o mais perto possível e usar seus poderes de Luz para domar as forças daquele pandemônio paranormal. No entanto, novamente um dos capitães da guarda se colocou diante dela, a impedindo de avançar.
— Não faça isso, Majestade! O padrão da onda psíquica que o rodeia é muito instável! É muito arriscado tentar usar seu poder como condutor, não sabemos que efeitos isso pode causar em você! O Rei Supremo Kinmyuu jamais nos perdoaria se permitíssemos que algo lhe acontecesse!
Anmyuu o encarou, e por mais que compreendesse que o dever da guarda real era proteger, estava prestes a dizer que não podia simplesmente se esconder atrás deles sem fazer nada. A rainha se sentia responsável pelo que acontecera; foi ela quem mostrou o diário a Mewthazar, e a estratégia de tentar usar a manipulação de Heimewdall sobre ele como uma possível arma contra o próprio foi sua ideia. Mas tal revelação apenas serviu para conduzir Mewthazar àquele estado.
Ela definitivamente havia subestimado o poder de Heimewdall, vendo todo o caos e a desgraça que era capaz de trazer sem que o mesmo nem estivesse ali. Aos seus olhos, era a única responsável por provocar tudo aquilo, e não se importaria se precisasse se arriscar para dar um basta a isso. Obviamente, sabia que Kinmyuu jamais gostaria que sua esposa se colocasse em perigo, mas imaginou que ele entenderia. Afinal, não havia a escolhido como rainha apenas para ser um adorno ao trono; era justamente sua força, sua determinação e sua perspicácia que a deixavam orgulhoso de tê-la como consorte.
No entanto, por mais que quisesse se deixar levar por seus impulsos, Anmyuu parou no último segundo, refletindo na própria análise que havia feito de si mesma há alguns instantes. Levando em consideração um detalhe crucial que havia se esquecido momentaneamente, se perguntou se aquela atitude estava mesmo perspicaz. Afinal, agora não estaria arriscando só a si mesma se fosse adiante.
Com uma das mãos sobre o ventre, Anmyuu recuou, dando ouvidos ao guarda, por mais que tal decisão a contrariasse.
— Acho que não temos escolha, terei que chamar o Kinmy…
No entanto, mal tinha terminado de pronunciar o nome do marido quando as portas do salão se abriram num estrondo novamente, revelando a presença de Diamewd e Mewhicann ali.
Ambos olharam em choque para o caos instaurado, porém, logo seu olhar surpreso foi substituído por uma feição determinada e desprovida de qualquer hesitação. Seus olhos se encontraram com os da Rainha, que os viu como um possível raio de salvação para que juntos, pudessem por um fim a tudo aquilo, sem ter que tirar Kinmyuu de sua importante missão no Templo de Ghaceus.
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